00:01Olá, eu sou Laura Escárdua e este é o Notícia em Áudio, um podcast do jornal Estado de
00:06Minas que lê, aos sábados e domingos, uma grande reportagem para você ouvir no seu
00:12tempo.
00:13O texto de hoje é da repórter Silvia Pires.
00:16A vida depois do abrigo, poucas saídas além da rua.
00:20Aos 16 anos, Jackson Santos cruzou as portas de uma casa de acolhimento em Belo Horizonte,
00:26sem saber por quanto tempo aquele seria seu teto.
00:30Aos 18, precisou sair, como manda a regra do sistema de abrigos.
00:35Foi quando se deparou com a pergunta, sair para onde?
00:39Para ele, foi possível encontrar uma república destinada a jovens nessa situação.
00:44Mas, para muitos outros, o destino pode ser a rua ou o retorno ao ambiente do qual foram
00:50afastados pela justiça diante de situações de abandono, negligência ou violência por
00:56parte de suas famílias.
00:58Apenas na capital mineira, 49 adolescentes abrigados chegarão à maioridade em 2025, segundo
01:05a prefeitura.
01:07Vão se deparar com a mesma questão que angustiou Jackson.
01:10Ele foi um dos primeiros a morar no Projeto Piloto de República para Jovens Egressos do Sistema
01:16de Acolhimento, implementado na capital mineira em 2018 e até hoje o único do tipo em Minas
01:22Gerais, funcionando como uma unidade masculina e outra feminina.
01:27A experiência, no início, pareceu promissora, um espaço de transição determinado pelo Sistema
01:34Único de Assistência Social, que atende até seis jovens, divididos por sexo, dos 18
01:40aos 21 anos, onde ele poderia se estruturar pelos três anos seguintes.
01:44Porém, percebeu que o ambiente não correspondia às suas expectativas e a adaptação à vida
01:51adulta teve que ser mais abrupta.
01:53A chegada à vida adulta é um salto no escuro, um misto de medo, ansiedade e solidão, como
02:08define Jackson.
02:09Aos 19, ele começou a pagar aluguel e assumiu todas as responsabilidades de um adulto, mas
02:15sem o amparo de uma família.
02:17O trabalho e os estudos foram seu alicerce.
02:20Eu tinha contato com a minha família, tinha convívio, mas não tinha afeto.
02:25Não queria voltar para o lugar onde sofri, onde tive várias violações de direito.
02:31Lembro o rapaz, hoje, aos 25 anos.
02:34Como ele, jovens acolhidos pelo Estado crescem com a certeza de que, cedo ou tarde, terão
02:40que partir.
02:41Afinal, a saída já está anunciada desde o dia em que chegam ao abrigo.
02:47Sem outra saída, muitos jovens que deixam o sistema de acolhimento retornam para as
02:52famílias das quais foram afastados pela justiça.
02:55Não porque seja o melhor caminho, mas porque, sem suporte, vira a única opção.
03:01Às vezes, nos últimos minutos do segundo tempo, surge uma possibilidade de restabelecer
03:07algum vínculo com a família de origem.
03:09E eles voltam, mesmo que aquele não seja um ambiente seguro, que não seja o melhor
03:14para eles, conta Fernanda Farnese, psicóloga da Casa dos Anjos, instituição no bairro
03:20Santa Mônica, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, que acolhe jovens de 12 a 18
03:25anos.
03:27Do outro lado, as famílias costumam receber esses jovens de volta sem muitos questionamentos.
03:33Adultos são vistos como força de trabalho, uma nova fonte de sustento para a casa.
03:38Algumas famílias enxergam a estadia do adolescente, da criança, na unidade de acolhimento como
03:44uma escolha individual.
03:46Há uma certa ignorância em relação ao que é uma medida de proteção, sem compreender
03:50as razões estruturais por trás disso.
03:53E aí, quando esse jovem completa 18 anos, ele já está grande, já pode trabalhar, já
03:58pode ajudar a sustentar a casa, descreve a psicóloga.
04:02Os que tentam se virar sozinhos em vez de voltar ao convívio de parentes, enfrentam
04:07barreiras.
04:08Alguns dividem aluguel com os colegas, outros acabam em situação de rua ou são tragados
04:13pela marginalidade.
04:16Infelizmente, o tráfico é uma família que abraça.
04:20Se você não encontra acolhimento em outro espaço, lá encontra.
04:24Não tem critério.
04:25Diz a psicóloga.
04:27Algum desses jovens já vem de histórias marcadas pelo crime.
04:31Outros são empurrados para ele por não enxergar alternativas.
04:35Eles entram por um viés de desespero, um ato de sobrevivência.
04:40Eu preciso me adaptar a este mundo, aponta Fernanda Farnese.
04:45O resultado?
04:46Desfechos trágicos, homicídios, prisão e a repetição de um ciclo de violência.
04:52Outro caminho possível são os abrigos para adultos e famílias, que em Belo Horizonte
04:58tem uma rede com 19 unidades.
05:00Mas esses espaços, voltados para uma diversidade de públicos, incluindo pessoas em situação
05:06de rua e outros contextos de vulnerabilidade, acabam por não oferecer a atenção especializada
05:12que esses jovens necessitam.
05:15A transição para uma vida independente exige mais do que um teto.
05:18Pede acompanhamento técnico, suporte psicossocial e oportunidades reais de inserção na sociedade.
05:25Reforça Roney Assis, coordenador nacional de juventudes da Aldeias Infantis SOS, organização
05:32sem fins lucrativos, dedicada ao cuidado e à proteção de crianças, adolescentes, jovens
05:38e suas famílias.
05:40Após o desligamento dos abrigos, os jovens que chegam à maioridade são acompanhados
05:44por até seis meses, período que pode ser estendido em alguns casos.
05:49Mas o suporte, feito por equipes dos Centros de Referência e de Assistência Social, nem
05:54sempre acontece.
05:56Com profissionais sobrecarregados e uma política pública precarizada, muitos adolescentes acabam
06:01desassistidos.
06:03Fomos criados como se fôssemos animais.
06:06Presos, com hora para comer, dormir, alguém nos controlando.
06:10Mas autonomia, ninguém ensinou.
06:13E é uma outra violação.
06:15Desabafa Jackson Santos, ex-abrigado.
06:18Entre esses jovens, há quem tenha, após o histórico de violações familiares, passado
06:23a vida inteira sob proteção do poder público, sem nunca chamar um lugar de lar.
06:29Fora dos abrigos, os traumas da institucionalização persistem e moldam a forma como se relacionam.
06:35A gente tem dificuldade de afetividade, de confiar, de pertencer.
06:40Desabafa Jackson.
06:42Uma dificuldade que se traduz também em relações instáveis.
06:46Tem gente que não consegue formar família, porque carrega esse abandono, esse sentimento
06:51de perda, de que tudo o que for acontecer não vai dar certo.
06:55Comenta o rapaz, que criou um movimento nacional, ao lado de outros jovens egressos do sistema
07:00de acolhimento, para lutar pelos direitos dessa parcela da população.
07:04Embora uma resolução do Conselho Nacional de Assistência Social determine que estados
07:10e municípios ofereçam repúblicas para jovens que deixam o acolhimento institucional,
07:14a realidade ainda está longe do ideal, já que poucas cidades cumprem a recomendação.
07:21No Brasil, há apenas 34 repúblicas, duas delas em Belo Horizonte.
07:26Desde a época em que Jackson passou por uma dessas unidades, o modelo evoluiu, e hoje
07:32é considerado uma referência pelos próprios jovens.
07:36Nosso objetivo é prepará-los para a vida adulta independente, enxergando cada um como
07:41um ser único, com sonhos próprios, afirma Marcelo Ribeiro Sequeira, coordenador técnico
07:47das unidades de acolhimento institucional República para jovens, desde abril de 2022.
07:54Com um sorriso no rosto, Anne Martins caminha pelos cômodos da República Feminina em BH,
08:00do bairro Santa Terezinha, na Pampulha, guiando a equipe de reportagem pela casa que hoje chama
08:05de lar, depois de passar três anos em uma unidade de acolhimento.
08:09No caminho, faz questão de destacar as plantas que cultiva para dar ao espaço um toque de
08:15aconchego.
08:17Lá, as decisões são tomadas coletivamente, desde as normas internas até a organização
08:22financeira, um ensaio para a autonomia de que tanto se fala como uma necessidade a ser
08:28desenvolvida com esses jovens.
08:30Aqui, a gente cria uma família, é um lance de amor e ódio, brinca ela, que se prepara
08:36para ir morar sozinha.
08:37Entre as colegas, Anne é a responsável por resolver os problemas práticos do dia-a-dia.
08:45Aqui eu aprendi a trocar gás, arrumar panela, se precisar, sou eu que faço, senão as meninas
08:51ficam esperando o coordenador aparecer, e uma semana depois ainda está lá por fazer,
08:57brinca.
08:58Agora, aos 21 anos, Anne já deveria ter deixado o programa, mas, diante de períodos
09:04de desemprego e dificuldades financeiras, conseguiu um prazo maior para se reorganizar.
09:10A iminência da mudança traz um medo que a jovem diz nunca ter sentido.
09:15Pela primeira vez, ela, que se define como uma pessoa difícil de se abrir, quer manter
09:21os vínculos que conseguiu construir.
09:22Eu nunca tive medo de ir embora, na verdade.
09:27É a primeira vez que sinto tanto medo de estar deixando as pessoas.
09:31Quem passou por acolhimento sabe o quanto é difícil olhar para um lugar e se sentir
09:35pertencente.
09:36Define a jovem.
09:37A república trouxe essa parte de se sentir em casa, que é muito difícil para a gente
09:43que passou por esses problemas familiares, que foi para uma casa institucional, conta.
09:48Não vai ter mais aquela cumplicidade, aquela irmandade, não vai ter nem a diversão e nem
09:53as brigas, completa.
09:55Atualmente, Anne trabalha com telemarketing, mas busca novas oportunidades, pois sabe que
10:00o salário atual não é suficiente para viver sozinha.
10:03Ela estuda filosofia à noite na Universidade Federal de Minas Gerais, mas seu objetivo
10:09é mudar para letras, uma área mais próxima do que realmente deseja, comunicação.
10:15Desde os 15 anos, as jovens sonham em trabalhar com publicidade e propaganda, mas como o curso
10:21na FMG é diurno, essa possibilidade ainda parece distante.
10:26Brinco que sou proletariada, então não dá para estudar de dia, comenta com humor.
10:31O plano, até então, é se formar em letras e seguir carreira como redatora até conseguir
10:37se especializar na área que tanto deseja.
10:40Nada disso ela construiu sozinha.
10:43Cada meta, cada passo foi traçado junto à equipe da República, que trabalha com um modelo
10:48baseado na autonomia e no protagonismo dos jovens.
10:52Cada um elabora seu próprio plano de vida, com objetivos e revisões periódicas.
10:56Eles podem pedir mudanças sempre que sentirem necessidade, porque os sonhos podem mudar.
11:02O importante é que tenham clareza sobre os passos para chegar onde querem.
11:06Isso também faz parte da autonomia.
11:09Eles decidirem sobre a própria vida, e a gente enxerga cada um com uma potência.
11:14Não vemos os problemas, não os definimos pelo sofrimento.
11:17A gente vê força.
11:18Por que se passaram por tudo isso, é porque tem muita força.
11:23Ressalta Marcelo Ribeiro, coordenador da República.
11:26Mais reservável e de poucas palavras, Ander Teadade, de 19 anos, encontrou na República
11:32um recomeço após uma trajetória marcada por conflitos familiares e denúncias que o
11:38levaram ao acolhimento institucional aos 16 anos.
11:42Foi ali que passou a enxergar um novo futuro, um que incluía a universidade.
11:47Com o incentivo da equipe, prestou o vestibular, foi aprovada no FMG e hoje cursa ciências
11:53atuariais, área da qual fala com entusiasmo.
11:58Nunca foi algo que eu pensasse muito, cursar uma faculdade.
12:01Não me chamava atenção, mas me mostraram que se eu estudasse, teria acesso a outras
12:06oportunidades.
12:08Quando encontrei esse curso, gostei bastante.
12:10É bem desafiador, não é nada fácil.
12:12Com.
12:13Desde que chegou à República, Ander Teadade tem traçado planos concretos para o futuro.
12:19Com o apoio da equipe, já busca formas de financiar um imóvel.
12:23Dá tempo de me formar e tentar conciliar uma coisa com a outra.
12:27Já penso na área em que quero trabalhar e estamos organizando um financiamento, diz.
12:32Do espaço onde vivi hoje, ele conta que vai carregar um aprendizado, que agora se tornou
12:38um lema.
12:38Desistir não é uma opção.
12:41Quando a gente pensa que não dá mais jeito, dá.
12:44Pode parecer tudo bem difícil, perdido, mas sempre tem uma oportunidade.
12:50Isso é o que eu acho que a República representa para mim, reflete.
12:54Poderia representar para muitos outros, se o sistema, como prevê a lei, fosse o suficiente
13:00para todos.
13:01A íntegra desta reportagem foi publicada no Jornal Estado de Minas em 11 de março
13:07de 2025.
13:09Acompanhe as notícias mais importantes para o seu dia a dia em nosso site, em m.com.br.
13:15E siga a gente no WhatsApp para atualizações urgentes.
13:18Até a próxima notícia em áudio.
13:19Tchau.
13:20Tchau.
13:21Tchau.
13:22Tchau.
13:23Tchau.
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