- há 1 ano
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NotíciasTranscrição
00:00Eu queria que a gente começasse já hoje, então, é um assunto tenso, é um assunto triste,
00:06obviamente a gente não gostaria de estar aqui tratando sobre o que está acontecendo no litoral norte,
00:12é muito triste, todo ano a gente sabe dos riscos que tem nas encostas aqui no Brasil,
00:18principalmente no período do verão, quando as chuvas são mais intensas,
00:22e a gente tem aqui hoje, então, já foram identificadas algumas vítimas, né,
00:27da tragédia no litoral norte de São Paulo, e a gente tem aqui já alguns nomes,
00:34que a gente já gostaria, então, aqui, as fortes chuvas que atingiram a região,
00:39deixaram pelo menos 48 mortos, 47 deles na cidade de São Sebastião e um em Ubatuba.
00:46Então, nós temos aqui já, abaixo, a lista das vítimas da tragédia até agora,
00:52nós temos, está aí na lista, está aí na tela para a gente acompanhar os nomes dessas vidas que foram perdidas
01:03neste final de semana, e nós temos o governo de São Paulo dizendo que essa lista pode ser muito maior,
01:09nós temos ainda muitos desaparecidos, e essa lista está sendo toda hora atualizada,
01:16a gente pegou a informação com a secretaria em São Paulo, dizendo que após as chuvas, né,
01:24que ocorreram no litoral norte paulista, o número de desaparecidos registrados até o momento
01:30pode ser maior do que 25 pessoas, né, diz o secretário, não é uma projeção pessimista,
01:36mas realista do que pode, de que pode haver um número maior de vítimas,
01:40segundo relatos dos bombeiros e segundo a percepção de quem esteve no local.
01:46O secretário disse isso hoje em entrevista.
01:50Ontem, né, terça-feira, ao longo do dia, o posto de comando de São Sebastião
01:55tinha registrado 36 desaparecimentos.
01:59Hoje, porém, como já teve a identificação de 11 corpos, esse número mudou.
02:05E a gente vê o secretário falando, então, que de acordo com o relato dos moradores, residentes,
02:11que estariam com toda a família ali no local, principalmente na Barra do Saí,
02:16pode ser que tenham tido suas casas afetadas e estejam soterradas, mais pessoas ainda soterradas.
02:22Pode, então, haver a possibilidade de ninguém ter dado falta ainda de algumas pessoas,
02:28e essas pessoas terem sido, então, vítimas de soterramento.
02:31Eles estão fazendo uma projeção porque estiveram lá no local conversando com moradores, né?
02:37Wilson, é uma situação muito triste, num momento, então, que a gente estava aí, o Brasil,
02:42vivendo uma festa, né, o carnaval.
02:45Mas, assim, é um problema recorrente no Brasil.
02:48Nós tivemos o caso em Petrópolis, né?
02:50O sudeste, normalmente, do país, ele é muito atingido durante o verão
02:55por essas chuvas muito intensas, mas a gente tem agora essa chuva
02:59que, historicamente, é a maior que o Brasil já enfrentou.
03:04E, infelizmente, a gente vê, então, esse cenário de morte, de tristeza, se repetindo.
03:12É, Vanessa, sem dúvida, né?
03:14Eu, inclusive, acho que eu falei isso na segunda-feira aqui no Papo.
03:18É, obra de saneamento, obra pra você conter barreiras.
03:26Esse tipo de serviço é um tipo de serviço caro e é um tipo de serviço que não aparece.
03:31É um tipo de trabalho que a classe política não tem o menor interesse de fazer
03:36porque é um trabalho preventivo.
03:38Apesar de ser um trabalho que ele é menos custoso do que a reparação,
03:42mas é um trabalho, Vanessa, pra você que tá no chat,
03:47é um trabalho que você simplesmente não consegue ver,
03:52você não consegue, não tem um fita, sabe?
03:55Você não tem solenidade de corte de fita de, por exemplo, de uma encosta, sabe?
04:00Ou de uma barreira de contenção, sabe?
04:03Então, você não consegue apresentar isso.
04:06Quase, isso é uma imagem, né?
04:07Exato, exato.
04:10Você não tem aquela imagem simbólica, sabe?
04:12Você não tem, né?
04:14Eu deixo até um desafio aqui.
04:16Vou até deixar um desafio aqui no chat.
04:18Vocês já viram alguém inaugurar obra de dredagem profunda?
04:24Sabe?
04:25Porque isso é um problema de encosta, Vanessa, mas olha...
04:29Eu até contei um episódio aqui, acho que foi ontem.
04:33Ontem ou foi na segunda-feira.
04:34Lembrando meus bons tempos de repórter de cidade.
04:37Eu lembro que eu fiz muita matéria sobre enchente.
04:40E toda capital tem enchente.
04:43E toda vez que nós íamos cobrar algum secretário de obras,
04:47eles falavam, não, você precisa de um trabalho de drenagem profunda.
04:52Tá, e aí? Cadê a tal da drenagem profunda?
04:55Né?
04:56Então, assim, é um problema que, infelizmente, no Brasil é recorrente.
05:03Vai continuar sendo recorrente porque a gente não tem a cultura de prevenção.
05:05Enquanto a gente não mudar...
05:07A gente sabe a solução depois que acontece o problema, né?
05:11E aí, então, é sempre assim, para o futuro, né?
05:16Não, a gente sabe o que tem que ser feito, mas nunca é feito.
05:19A gente vê isso acontecendo todo ano.
05:22A região sudeste é castigada todo ano.
05:25Ali, aquela região, Minas, São Paulo, Rio de Janeiro,
05:30a gente vê acontecendo esse tipo de coisa e a impressão que nos passa como cidadãos
05:37é assim, por que que isso continua acontecendo?
05:41Aonde está o erro?
05:42A gente tem a questão da prevenção que você está dizendo, que não traz voto, né?
05:47Não rende fita ali, né?
05:49O pessoal fazendo a inauguração da obra.
05:51Mas eu pergunto até quando isso vai acontecer?
05:54Entra governo, sai governo, todo mundo parece que sabe o que tem que ser feito,
05:59mas por que até agora não foi feito?
06:02Porque nós vemos, a cada ano, acontecendo esse tipo de desastre,
06:06pessoas morrendo, famílias sendo destruídas,
06:10e uma solução não aparece.
06:13É, Vanessa, posso comentar só...
06:15Esse problema do Brasil não conseguisse fazer nada para prever, né?
06:23Eu não vejo só na questão de não construir obras, como o Wilson falou,
06:28mas também, principalmente, na incapacidade do poder público
06:34de impedir essas ocupações irregulares de terra,
06:40que nesse litoral norte acontece tanto por condomínios de luxo
06:46quanto pelos bairros mais pobres,
06:50gente que muitas vezes trabalha nesses condomínios, né?
06:55Isso no Brasil é uma coisa que acontece,
06:58essas ocupações de terra não acontecem só em áreas de Mata Atlântica,
07:04acontecem em todas as cidades do Brasil,
07:06e o poder público não faz nada,
07:09até porque existe uma certa simpatia
07:11da população, dos promotores,
07:18dos advogados, dos juízes,
07:21com as pessoas que vão invadindo esses terrenos, né?
07:26Eu conversei hoje com o Victor Carvalho Pinto,
07:30que é um professor do INSP,
07:31e ele toca muito nesse ponto.
07:34O primeiro momento para você impedir uma ocupação
07:38é logo no começo, né?
07:41Quando as primeiras famílias vão lá e invadem o terreno que não pode.
07:45Mas assim que alguém ameaça fazer alguma coisa,
07:48entra lá um promotor com um pedido, uma liminar,
07:53e aí você impede que essas pessoas já sejam removidas,
07:57e aí tem uma hora que a situação já está instalada.
08:01É, a gente vê essa questão,
08:04eu estava, eu estava, acho que a gente leu
08:06as mesmas informações, Duda,
08:09dessa questão, então, da especulação imobiliária ali,
08:12então, esses condomínios de luxo
08:14sendo construídos nas áreas teoricamente mais seguras,
08:18e então, aqueles moradores que não têm mais condição
08:21de arcar com uma casa naquele terreno,
08:23porque, por conta da especulação,
08:25o preço sobe absurdamente,
08:27e aquelas pessoas de renda mais baixa
08:30não têm mais condição de pagar por uma moradia ali.
08:33Então, eles são obrigados a buscar lugares mais baratos para morar.
08:38E esses lugares mais baratos, então, ficam na encosta.
08:41A gente vê isso acontecendo.
08:43Mas aí, a gente vê também a pergunta,
08:47aonde colocar essas pessoas?
08:49Qual a solução para isso?
08:51Como tirar essas pessoas, impedir essas pessoas
08:53de construírem suas moradias na encosta,
08:57num local que, teoricamente,
09:00deveria ser protegido ambientalmente,
09:02para que a gente não tenha que passar por isso,
09:04e também para que não haja degradação ambiental,
09:07com o crescimento, com a invasão ali de moradias?
09:10Mas como equacionar isso?
09:12Aonde colocar essas pessoas para morar?
09:16Respondendo a sua pergunta, Vanessa,
09:18a resposta está no plano diretor,
09:22que toda cidade com mais de 20 mil habitantes no Brasil deve ter.
09:28Toda cidade tem que se planejar
09:30e fazer uma análise de por onde deve crescer
09:37e que investimentos são necessários para fazer isso.
09:40A questão é que ninguém respeita os planos diretores.
09:44As pessoas continuam construindo onde bem entendem
09:48e nada é feito.
09:50Exatamente.
09:51A gente acaba, então, voltando para isso.
09:53É uma questão de respeitar o plano diretor,
09:57seguir uma lei,
09:58e aí acaba que isso não acontece,
10:00não tem fiscalização.
10:02É aquilo que você disse,
10:04constrói-se a primeira casa,
10:06ninguém faz nada,
10:07sempre tem um promotor,
10:08alguém ali que não fica contemporizando,
10:11e a coisa vai crescendo, crescendo,
10:14e infelizmente a gente tem uma tragédia dessa
10:18com 48 pessoas mortas.
10:20Você estava falando isso,
10:22tem uma notícia que nós demos hoje aqui,
10:25que a justiça autoriza a remoção
10:27à força de moradores de áreas de risco em São Sebastião.
10:33O pedido foi apresentado pela Procuradoria Geral do Estado de São Paulo
10:37e pelo município,
10:38o juiz concedeu a eliminar.
10:40Aqui, a justiça de Caraguatatuba
10:43atendeu a um pedido do governo de São Paulo
10:45e do município de São Sebastião
10:47para retirar famílias que moram em áreas de risco,
10:51mesmo contra a vontade destas,
10:53e removê-las para abrigos.
10:55A decisão é do juiz Paulo Guilherme
10:58e vale para áreas de risco de 16 praias e vilas.
11:02São elas, tá?
11:04Boiçucanga, Juqueí, Camburi,
11:07Barra do Saí,
11:07onde tiveram o maior número de mortos,
11:11Maresias, Paúba,
11:14Toque Toque Pequeno,
11:15Barra do Una,
11:17Barequeçaba,
11:18Varadouro,
11:19Itatinga,
11:20Olaria,
11:21Topolândia,
11:23Morro do Abrigo,
11:24Enseada e Jaraguá.
11:25O juiz, ele alegou que a medida deve ser usada
11:28como último instrumento do governo
11:31para remoção em caso de recusa dos moradores.
11:35E o juiz escreveu o seguinte,
11:36no presente caso em que há um desastre em andamento,
11:41com notícia de mais de 40 mortos e 40 desaparecidos,
11:45obviamente esse número está desatualizado aqui, né?
11:48Além do alerta de chuvas,
11:50o direito à moradia deve ser flexibilizado
11:54diante dos direitos à vida,
11:56à saúde e às seguranças,
11:59à segurança dos moradores,
12:01disse esse juiz.
12:01Ele continuou aqui,
12:04Convém alertar que o direito à moradia
12:06não pode superar os direitos à vida,
12:09à saúde e à segurança.
12:13Até às 8h25 de hoje,
12:15dessa quarta-feira,
12:16o governo estadual,
12:17o governo de São Paulo,
12:18confirmava em todo o estado
12:201.730 desalojados
12:23e 766 desabrigados.
12:26O número na área afetada
12:27ainda não é conhecido
12:30nem para onde eles foram encaminhados.
12:33O governador de São Paulo,
12:34Tarcísio de Freitas,
12:36disse que a medida
12:36assegura um último recurso
12:38às equipes de busca e salvamento.
12:41Obrigar é muito complicado,
12:43então vamos vir com assistência social,
12:45tentando convencer a pessoa a sair.
12:48Em último caso,
12:49a gente vai fazer a remoção compulsória,
12:52disse o governador, né?
12:53A região atingida
12:55por uma quantidade recorde de água
12:57deve sofrer com chuvas
12:58e clima instável
13:00até o final de semana.
13:02É muito triste a gente ler, então,
13:06que moradores,
13:08mesmo diante de todo o perigo
13:10que estão ocorrendo,
13:11eles se recusam a sair
13:13de suas residências.
13:15Mas hoje, a gente lendo,
13:16a gente vê também
13:17que existe um grande medo
13:18porque estão acontecendo
13:19muitos saques na região.
13:21Então, moradores
13:22que já haviam saído
13:23de suas casas
13:24com medo de serem saqueados,
13:26com medo de terem
13:27todos os seus bens roubados,
13:29porque ainda tem isso, né?
13:30Diante de uma tragédia,
13:32ainda aparecem uns urubus
13:33que querem se aproveitar
13:36dessa situação
13:37para obter vantagem,
13:38então, saqueando a casa
13:40daqueles que tiveram que sair
13:42por sua segurança.
13:44E essas pessoas, então,
13:45sendo obrigadas, ali,
13:47impelidas a voltar
13:48para a sua residência.
13:49Mas, Wilson,
13:52você acha que é uma medida válida,
13:56assim, essa remoção compulsória
13:59desses moradores?
14:02Então, Vanessa,
14:04esse é um problema
14:05muito delicado
14:07em qualquer tipo de situação
14:10como essa, sabe?
14:12A remoção compulsória
14:13é uma medida muito extrema, né?
14:15não só pela relação
14:18de pertencimento
14:18que a pessoa tem
14:19em relação
14:20àquele imóvel,
14:22mas, às vezes,
14:23as pessoas não querem
14:24sair do seu próprio imóvel
14:25para ficar
14:26passando necessidade
14:27no abrigo.
14:28É uma situação
14:29muito, muito delicada,
14:31mas é bom lembrar o seguinte, né, gente?
14:32Assim,
14:33a preveservação
14:33da vida humana,
14:35ela se sobressalta
14:37em relação
14:38ao resguardo
14:40de qualquer,
14:42enfim,
14:43bem material, sabe?
14:44Então, a remoção compulsória
14:46para ela ser polêmica,
14:47ela tem essa necessidade,
14:48ela tem essa finalidade, né?
14:50E ela é necessária, né?
14:51Principalmente nessas regiões,
14:52olha aí,
14:53você vê pelas imagens
14:54que o risco
14:56de você, enfim,
14:58morrer soterrado,
14:59ele é um risco alto, né?
15:01E tem um detalhe, Vanessa,
15:03só para fechar,
15:05que eu estava fazendo
15:06outros,
15:08botando aqui na cabeça
15:10no lugar,
15:12quando a gente fala um pouco
15:13sobre a prevenção,
15:15é engraçado,
15:16porque se você for ver
15:17nesse tipo de tragédia natural,
15:20o filme é sempre o mesmo,
15:23sabe?
15:23O filme é sempre o mesmo,
15:25estamos assistindo
15:26o mesmo filme todo ano,
15:27você tem,
15:28no início do ano,
15:29uma chuva forte,
15:30você tem o deslizamento
15:31de terra,
15:32aí, pronto,
15:33aí vai o governador,
15:34vai o presidente
15:35para fazer uma visita, né?
15:36Quando vai,
15:37quando vai, né?
15:38O único ponto fora da cor
15:39foi do Bolsonaro, né?
15:40Que não foi para
15:42fazer esse tipo de visita,
15:44ou foi só depois
15:45de muito pressionado,
15:46aí depois vem o governador,
15:48aí tem liberação,
15:49aí tem decretação
15:50de estado de calamidade,
15:51liberação de recursos
15:53da União,
15:54aí depois vai ter
15:55uma frente parlamentar
15:56que vai visitar a obra
15:57em loco,
15:59aí vai ter aquela comoção
16:00na Câmara dos Deputados,
16:01ou também no Senado,
16:03e aí depois,
16:04o que vai acontecer?
16:05Esquece-se.
16:07A mídia vai estar em cima,
16:08vai falar desse assunto
16:10durante umas duas semanas,
16:11vai ficar todo mundo em cima,
16:12falando,
16:13fazendo aquelas clássicas matérias
16:15sobre,
16:16ah, o governo não investiu
16:17tanto em prevenção,
16:19ou deixou de investir aquilo,
16:20ou só investiu 2%
16:23do orçamento
16:23em ações contra enchentes.
16:28Hoje são 22 de fevereiro,
16:30eu aposto com vocês
16:31que no dia 1º de março,
16:33ou até no máximo
16:34no dia 10 de março,
16:36esse assunto já vai estar passado,
16:37vai estar passado,
16:38a gente vai falar de outra coisa,
16:39e esse assunto vai ser esquecido,
16:40infelizmente.
16:42É um roteiro, né,
16:43que acontece anualmente,
16:46a gente sabe exatamente
16:47o que você falou, Wilson,
16:48você falou passo a passo
16:49do que acontece todo ano,
16:52e aí a gente vai de novo
16:54na questão da prevenção,
16:56a gente também,
16:57vamos falar das pessoas
17:00que invadem,
17:01obviamente a gente sabe
17:02que por questões,
17:03a grande maioria,
17:04é por questão de necessidade
17:06de ter um local
17:08para morar,
17:09mas é mais que urgente
17:11que a gente tenha
17:12uma política ambiental séria
17:16que impeça a construção
17:18de residências
17:20nessas áreas
17:21que são consideradas
17:22de altíssimo risco,
17:24e uma política de habitação
17:25que consiga abraçar
17:28essas pessoas
17:29que não conseguem moradias
17:31ali dentro do seu orçamento
17:33para que elas vivam
17:34com dignidade.
17:36É muito triste
17:37a gente ver famílias
17:38sendo devastadas com isso,
17:41sendo que a gente tem
17:42o poder público
17:44que sabe exatamente
17:45esse roteiro
17:46que você deu aqui, Wilson,
17:48e a gente,
17:48todo ano,
17:49a gente está noticiando
17:50esse tipo de coisa.
17:52Vanessa,
17:53aí você falou
17:53da questão compulsória,
17:55acho que é interessante
17:56lembrar que tudo
17:58que é compulsório,
17:59tirar as pessoas
18:00das casas,
18:03é muito difícil.
18:05Aqui em São Paulo,
18:06por causa da Cracolândia,
18:08se falava muito
18:09da internação compulsória,
18:11você pegar a pessoa,
18:13levar para o hospital
18:14e obrigar ela
18:15a ficar lá dentro,
18:16e isso é super problemático,
18:17as pessoas não querem,
18:21e advogados vão defender elas,
18:23e é muito difícil.
18:24e o cálculo do risco
18:28que a pessoa corre
18:29é um cálculo
18:30muito individual,
18:32cada um,
18:33essas pessoas
18:34que querem permanecer
18:35nas próprias casas,
18:38elas estão olhando ali
18:39em volta
18:40e estão vendo
18:41que possibilidade
18:42que tem
18:43da casa desabar
18:45ou não,
18:46da casa ficar em pé.
18:48E aí,
18:49por que essa pessoa
18:50vai agora
18:51dar ouvidos
18:52para um agente
18:53do governo
18:55ou da prefeitura
18:56que ela nunca viu antes,
18:58e pegar
19:00e flexibilizar
19:02esse direito
19:04de moradia?
19:04Por que ninguém quer
19:05sair da própria casa?
19:07Sair da própria casa
19:08e, como vocês falaram,
19:10correr o risco
19:11de ter
19:12os seus bens
19:13saqueados
19:14por outra pessoa
19:15ou de voltar lá
19:16se não tem o direito
19:17de terra,
19:18do terreno,
19:19ou tem outra pessoa
19:19morando na sua casa?
19:22Então,
19:23dá um super medo
19:24nesse momento,
19:25está todo mundo
19:26com muito medo
19:27e,
19:28entendo,
19:29a gente tem que se colocar
19:29no lugar das pessoas também.
19:31Elas estão morando
19:32nesses lugares de risco
19:33há muitos e muitos anos.
19:35Por que agora
19:36alguém vai lá
19:37e obriga elas
19:38a sair de casa?
19:39É difícil de aceitar.
19:41É,
19:42no momento,
19:42parece assim,
19:43que foi uma solução
19:44imediata
19:45para mitigar risco
19:47de outras mortes,
19:50porque ainda existe
19:51risco de mais chuvas.
19:53A gente conversou
19:54com o Instituto Nacional
19:55de Meteorologia,
19:56então está previsto
19:57ainda mais chuva
19:58para a região.
19:59Eu entendo
20:00que é uma medida
20:01urgente,
20:04urgentíssima,
20:05para poder tirar
20:06aquelas pessoas,
20:06para que ninguém
20:07mais corra o risco,
20:08mas isso
20:09causa um outro trauma.
20:11Essas pessoas
20:12já estão passando
20:15por esse tipo
20:16de situação
20:16enfrentando
20:18desalojamento,
20:20estão perdendo
20:21seus móveis,
20:21perdendo suas vidas
20:22ali,
20:23suas memórias,
20:24seus registros
20:25e ainda ter que
20:26enfrentar mais
20:27uma situação traumática
20:28de serem retiradas
20:29à força
20:30de suas casas
20:31para poder ficar
20:33em risco,
20:34para poder ficar
20:34em segurança,
20:35sim,
20:35para poder ficar
20:36em segurança,
20:36mas ainda assim
20:37é traumático
20:38você chegar
20:39para alguém
20:40e obrigar
20:40aquela pessoa
20:41a sair de dentro
20:42da sua própria casa,
20:44porque ali
20:44não oferece
20:45mais segurança.
20:46A gente tem
20:47um VT aqui
20:48que mostra
20:49que a Defesa Civil
20:52anunciou
20:53quatro dias antes
20:54o risco
20:56dessas chuvas
20:57intensas
20:58no litoral
20:58de São Paulo,
20:59queria pedir
21:00para o Joelto
21:00poder liberar
21:01para a gente
21:02esse VT,
21:03por favor.
21:05Quando o Imer
21:06começou a identificar
21:07que haveria
21:08essa previsão
21:09assustadora
21:10de chuvas
21:11no litoral
21:11norte de São Paulo?
21:13Bom,
21:14que diariamente
21:14a gente faz
21:15o nosso briefing
21:16que é uma reunião
21:17no qual a gente
21:18coloca as condições
21:19de tempo
21:20para todo o Brasil
21:20e faz um monitoramento
21:22aí sempre
21:23de 24 horas,
21:2448 horas.
21:25Por quê?
21:26Porque os modelos
21:26eles têm uma simulação,
21:28eles fazem uma simulação
21:29ao longo do dia
21:30duas vezes,
21:30vão atualizando
21:31e quanto mais próximo
21:33houver
21:33essa informação,
21:35melhor,
21:36porque a acurácia
21:36do modelo
21:37também conta,
21:38ou seja,
21:38é até 120 horas
21:40a gente tem
21:40uma acurácia
21:41muito boa,
21:42mais de 95%
21:43do dia cedo
21:43e a partir aí
21:45do terceiro e quarto dia
21:45a gente já perde um pouco.
21:47Então,
21:47como essas chuvas
21:48aconteceram aí
21:49de sexta,
21:50sábado,
21:50a gente já está
21:51monitorando
21:51desde segunda-feira
21:52e já estávamos
21:53colocando alertas,
21:56avisos em nossa página,
21:58só que a nossa página
21:59ou os avisos
22:00ele fica em torno
22:01de 24 horas,
22:02mas na quinta
22:03já foi colocado
22:04aviso de chuva intensa,
22:05tempestade,
22:06que são avisos diferenciados,
22:10porque tempestade
22:11leva em consideração
22:12o granizo,
22:13então nós já estávamos
22:14colocando,
22:14então,
22:15aproximadamente aí
22:16uns quatro,
22:16cinco dias antes
22:17do evento,
22:18a gente estávamos aqui
22:19monitorando,
22:21reportando isso
22:22à defesa civil,
22:23porque os nossos avisos
22:24que ficam na página,
22:25eles são encaminhados,
22:26a defesa civil
22:27recebe diretamente
22:28e,
22:29posteriormente,
22:30houve reuniões também
22:31que se chegaram
22:32ao consenso,
22:33é uma reunião feita
22:34justamente com o Senad,
22:36com o IMED,
22:37SEMANDEM
22:38e as defesas civis
22:39estaduais,
22:40até mesmo aqui na sede,
22:42em Brasília,
22:43que fica a sede,
22:44tivemos esse acordo,
22:46chegando à conclusão
22:47que ia ter essas chuvas,
22:48ficar,
22:49estávamos monitorando
22:51mais ou menos
22:52aí uns quatro,
22:53cinco dias,
22:53que isso.
23:02Então,
23:03essas chuvas
23:04já eram esperadas,
23:05foram emitidas
23:07alertas,
23:08o governo de São Paulo
23:10ignorou esse alerta
23:12por dois dias,
23:13moradores também
23:15ignoraram
23:16esses alertas.
23:19É que esses moradores,
23:22Vanessa,
23:22Oi?
23:24É que os moradores
23:25ignoraram os alertas?
23:27Os moradores ignoraram.
23:29É que se eles ficaram em casa,
23:32a casa foi embora,
23:33acho que esses alertas,
23:36eles funcionam muito
23:38em outros países,
23:39sei lá,
23:40nos Estados Unidos,
23:41as pessoas ficam em casa
23:42e estão protegidas,
23:43mas como no Brasil
23:44está todo mundo
23:45morando em área de risco,
23:47no meio do carnaval ainda,
23:50está todo mundo,
23:51além das pessoas
23:51que moram sempre lá,
23:52ainda tem as pessoas
23:53que estão em casa
23:54de veranê,
23:54um alerta desse,
23:58o ideal seria
23:58que as pessoas
23:59não viajassem
24:01no carnaval
24:01vendo que está chovendo,
24:03porque é uma coisa
24:03também difícil de acontecer,
24:05e as pessoas
24:06que moram lá,
24:07aí realmente
24:08o alerta
24:08não serve para nada.
24:12É muito curioso isso,
24:13a gente pensa assim
24:14que muitas mortes
24:16poderiam ter sido evitadas,
24:18o brasileiro
24:19tem essa coisa
24:19de achar
24:20que o desastre
24:21nunca vai acontecer,
24:22de achar
24:22que o país
24:23é um país abençoado,
24:25aqui a gente
24:25não tem desastres,
24:26temos,
24:27levem em consideração
24:28os alertas,
24:29eu tenho certeza,
24:29por exemplo,
24:30hoje eu recebi
24:31um alerta
24:32da Defesa Civil
24:32aqui de Brasília
24:33dizendo aqui
24:34do perigo,
24:35vão ter fortes chuvas aqui,
24:36eu duvido
24:37que alguém aqui em Brasília
24:39esteja preocupado
24:40com o que vai acontecer,
24:41então não tem isso,
24:43as pessoas
24:44precisam ser educadas
24:45para entenderem
24:47que existem
24:48pessoas por trás
24:49estudando aquilo,
24:50pesquisando,
24:51que são tão
24:51especialistas
24:53naquilo,
24:53acompanham
24:54e eles têm
24:55dados confiáveis
24:56para poder emitir
24:57os alertas
24:58para todo mundo,
24:59então a gente
24:59pedir para governos,
25:00governos,
25:01não ignorem alertas,
25:03moradores,
25:04por favor,
25:05nunca mais ignorem alertas,
25:07a gente tem aqui,
25:08a gente estava falando
25:09da questão
25:11da ocupação
25:13urbana,
25:13desordenada,
25:14a gente deu aqui
25:15uma matéria
25:16hoje sobre isso,
25:18falando da questão
25:18do desmatamento
25:20e o aumento
25:21e o aumento
25:21da área
25:21impermeável
25:22do solo
25:23ali na região,
25:23que são alguns
25:24dos efeitos
25:24causados
25:25pelo movimento,
25:27a tragédia
25:28provocada
25:28pelas chuvas
25:29no litoral norte
25:30de São Paulo
25:31coincide com o crescimento
25:32da ocupação
25:33urbana
25:34desordenada
25:35sobre a região,
25:37aqui a valorização
25:39de locais
25:40como a Barra do Saí,
25:41Baleia e Juqueí,
25:42o adensamento
25:43construtivo,
25:45eles têm avançado
25:46em direção
25:46às encostas
25:47ali na região,
25:49em São Sebastião,
25:50por exemplo,
25:51cidade mais atingida
25:52pelas chuvas,
25:53a área urbanizada
25:54mais do que
25:55quadruplicou,
25:57então assim,
25:57é a tal da questão
25:58da área
25:59impermeabilizada,
26:00né,
26:01e isso
26:02vem a acontecer
26:02desde 1985,
26:05ultrapassando
26:05os 1.800 hectares
26:08em 2021,
26:09de acordo
26:09com os dados
26:10da plataforma
26:11MapBiomas,
26:13as imagens
26:14do satélite
26:15mostram
26:15que houve
26:16abertura
26:16de novas vias,
26:18o adensamento
26:18construtivo
26:19e a expansão
26:20para a Serra do Mar.
26:22Em Ilha Bela
26:23foi registrado
26:24um aumento
26:24de 6.400%
26:26no mesmo período,
26:28de 6,
26:28pulou de 6
26:29para 390 hectares.
26:32Já em Ubatuba,
26:33o avanço
26:33foi de 419,6%,
26:36Caraguatatuba
26:37teve uma alta
26:38de 348,7%.
26:41Então,
26:42nesse cenário,
26:43houve uma valorização
26:43dos terrenos
26:45mais próximos
26:46da orla.
26:47Além disso,
26:47a urbanização
26:48afetou áreas
26:49de necessária
26:50preservação.
26:51Com o desmatamento
26:52e a impermeabilização
26:53do solo,
26:54o ritmo
26:55de escoamento
26:56da água
26:56é mais intenso.
26:58Como mostramos aqui
27:00o número
27:00de mortes
27:01causadas
27:01pelas chuvas
27:02que atingiram
27:03o litoral norte,
27:04o número é 48
27:06pessoas mortas.
27:08A gente tem
27:08um VT
27:09sobre isso.
27:10Duda,
27:11eu queria
27:11que o Joelto
27:14soltasse
27:14para a gente
27:15que é com a Mariana
27:16Bontempo,
27:18que ela é arquiteta
27:18e urbanista
27:19e ela vai falar
27:20sobre os efeitos
27:21dessa impermeabilização
27:23do solo.
27:24O que acontece
27:25é que o litoral brasileiro
27:27tem o processo histórico
27:28com o maior percentual
27:29da população brasileira
27:30historicamente,
27:31Nordeste e Sudeste
27:32são onde habita
27:34a maior parte
27:34da população.
27:35e nessas duas áreas
27:38e também
27:38um pouco do sul
27:39você tem uma faixa
27:40litorânea
27:40que ela é muito estreita
27:41acompanhada
27:42de uma serra.
27:44Então você tem
27:45uma área
27:45que vai ser
27:46mais ou menos propícia
27:47à ocupação humana
27:48muito estreita.
27:50Então a ocupação
27:50vai subindo
27:51essas serras
27:52e é de Mata Atlântica.
27:55A Mata Atlântica
27:56assim como a Amazônia
27:57é um tipo
27:58de biodiversidade
27:58que ela é muito sensível.
28:01Ao contrário
28:01do Cerrado
28:02que é onde eu estou
28:03as raízes
28:04são menos profundas.
28:06Com o advento do carro
28:07e acesso ao carro
28:08não há limites
28:09mais para o urbano.
28:11Então a cada vez mais
28:12as fronteiras urbanas
28:13vão indo
28:14para as áreas
28:15que antes eram
28:16de vegetação nativa
28:18e a galera
28:18todo mundo
28:19quer ter sua casinha
28:20no seu condomínio
28:22que isso já é bastante
28:24a destruição da natureza
28:26por parte de alta renda
28:27para construir condomínio
28:29que as pessoas
28:30vão esprahando
28:31esprahando a mancha urbana
28:32com acesso ao carro
28:33cada um quer ter
28:34a sua casinha
28:35no meio do matinho
28:36e isso você vai
28:38e essa vegetação
28:39de jardim
28:40não é vegetação nativa
28:42não é uma vegetação
28:43que ela é própria
28:44para aquele clima
28:47para aquele local
28:48onde há uma relação
28:49dessas espécies
28:50com o solo.
28:50Então você vai
28:51ampliando a fronteira urbana
28:53chegando nesse
28:54ruro urbano
28:55que é uma coisa
28:56meio rural
28:57meio urbana
28:58e vai ampliando
28:59essa área
29:00de desmatamento
29:01e vai expondo
29:02cada vez mais
29:03áreas de solo
29:04e vai piorando
29:05cada vez mais.
29:14E aí, Duda,
29:15seus comentários aí.
29:17Então,
29:18isso que a Mariana
29:20colocou,
29:21quem conhece
29:22essa região
29:23sabe bem isso,
29:24porque ali,
29:25por exemplo,
29:25você não tem prédio.
29:26você vai ter prédios,
29:29por exemplo,
29:30em outros lugares,
29:31por exemplo,
29:31Riviera de São Lourenço
29:32em que você tem,
29:34quando a gente fala
29:34esse adensamento,
29:35então são prédios
29:36muito grandes,
29:37aquilo lá foi
29:37um projeto
29:40super antigo,
29:41a Riviera,
29:42mas essas outras praias
29:44onde a tragédia
29:45pegou mais,
29:47você tem condomínios
29:49e bairros
29:50de casas
29:51mais luxuosas
29:53que ficam perto
29:53da praia
29:54e que vão desmatando
29:57realmente
29:58um pouco
29:59das encostas
30:00e aí,
30:03entre a estrada
30:05e a montanha,
30:07as casas mais chiques
30:09ficam entre a estrada
30:10e a praia,
30:11entre a estrada
30:12e a montanha,
30:12geralmente você tem
30:13outros bairros
30:14que são criados
30:15da população
30:16que trabalha
30:17nessas casas
30:19de veraneio,
30:20ou que é pedreiro,
30:22ou cozinheiro,
30:23faxineiro,
30:25então o resultado
30:28disso daí
30:29é que toda essa região
30:31ela acaba se espraiando
30:33muito,
30:34uma coisa que a Mariana fala,
30:35ao contrário
30:36de outras regiões
30:37como a Ivera de São Lourenço
30:39ou como a Camboriú,
30:41praia que você tem
30:43esses prédios
30:44e aí você mais ou menos
30:46consegue controlar
30:48que as pessoas
30:49estão mais localizadas ali
30:50e não tem
30:51esse espraiamento
30:52tão grande
30:53como a gente tem
30:53no litoral norte,
30:55que são as praias
30:56mais bonitas
30:57que o Paulista tem.
30:58que o Paulista tem