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O Brasil registrou dívida bruta de R$ 9,3 trilhões em maio, equivalente a 76,1% do PIB. Em entrevista ao Radar, o professor Rogério Mauad, da Fipecafi, analisou os impactos dos juros altos e a urgência de um ajuste fiscal.

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Transcrição
00:016 horas 38 minutos, a dívida bruta do governo geral no Brasil avançou a 76,1% do PIB em maio,
00:11um aumento de 0,2 ponto percentual em relação a abril.
00:15A dívida somou 9,3 trilhões de reais, isso incluindo os governos federal, estaduais e municipais e o INSS.
00:24O Banco Central divulgou os números hoje.
00:27Hoje, para analisar os resultados, eu converso agora com o Rogério Mauade, professor de Finanças e Mercados Financeiros na Fipecaf.
00:36Rogério, boa noite, obrigado pela sua participação aqui com a gente.
00:39Antes de mais nada, Rogério, esse é um dado importante para a gente avaliar a saúde da economia das contas públicas no Brasil.
00:46O que é que esse dado nos diz, então, sobre essa saúde?
00:50Boa noite, Fábio. Eu que agradeço a participação aqui, o convite de vocês.
00:54Bom, como você falou, o Banco Central divulgou hoje os números e eles também saíram ali no relatório Focus,
01:01que é uma pesquisa que o Banco Central faz com o mercado financeiro,
01:05sobre as expectativas futuras a respeito das variáveis macroeconômicas.
01:10Tão importante quanto saber o total da dívida bruta, acima de 76% do PIB,
01:16e isso mostra o total do endividamento do país, é perceber a trajetória que é de alta.
01:25Então, o mercado acredita que a dívida vai continuar crescendo nos próximos anos.
01:31A gente tem aqui, tanto a dívida bruta quanto a dívida líquida,
01:35que é a dívida bruta menos os ativos do governo,
01:40elas estão em trajetória de alta, e isto preocupa o mercado porque o risco fiscal está crescendo no país.
01:48Outros resultados importantes que a gente teve divulgados hoje pelo Banco Central
01:52são o déficit primário, que é receita menos despesa.
01:58Nós estamos com um déficit primário de menos 0,59% do PIB,
02:03e isso também em trajetória de alta.
02:06Nas expectativas do mercado, o déficit primário também vai subir.
02:11Isso impacta porque, na hora de refinanciar a dívida,
02:15o governo terá que pagar taxas de juros mais altas para conseguir o refinanciamento da sua dívida.
02:22Pois é, e exatamente os juros da dívida foram o fator que mais puxou esse endividamento para cima,
02:30para esse crescimento de abril para maio.
02:33Quer dizer, a gente tem um efeito colateral inevitável da nossa necessidade de controlar a inflação também.
02:39Exato. Nós temos taxa Selic de 15%.
02:42Há cerca de uns 10 dias atrás, o Banco Central elevou a meta da taxa Selic para 15% ao ano.
02:51O mercado acredita que 15% ao ano será o teto, seria a taxa terminal,
02:56a partir do qual espera-se uma queda, há uma expectativa de queda na taxa Selic para o ano que vem.
03:04As expectativas são de, no encerramento de 2026, nós temos aqui no país uma taxa básica de juros,
03:10uma meta de taxa básica de 12,5% ao ano.
03:14Como você bem disse, a taxa Selic alta, ela impacta o tamanho da dívida,
03:20porque cerca de 48%, 49% do total dos títulos públicos são pós-fixados, indexados à taxa Selic.
03:29Isto é, quanto mais alta for a taxa para combater a inflação,
03:33mais o governo vai ter que pagar de juros da sua própria dívida.
03:37Então, a taxa Selic, que é o remédio mais eficaz para diminuir as expectativas de inflação,
03:43como você mesmo mencionou, tem esse efeito colateral de aumentar o total da dívida.
03:49Aumentar o total da dívida.
03:51Isso a gente vê com o resultado nominal, que também foi divulgado hoje pelo Banco Central.
03:57O resultado nominal, ou seja, as receitas e despesas do governo,
04:03mais o que o governo paga de juros da dívida, este resultado nominal também está crescendo,
04:08cerca de 8,83% do PIB.
04:12Isto é, o governo paga por ano mais de 8% do PIB só de juros da sua dívida.
04:21E aí, Rogério, a gente vê a importância de um ajuste fiscal.
04:24Quer dizer, o ajuste fiscal não só busca controlar as contas,
04:29mas ele vai exigir uma menor taxa de juros também,
04:32que, portanto, vai corrigir em menor magnitude essa dívida depois.
04:36Ou seja, ganha-se duas vezes quando se cuida da saúde das contas públicas brasileiras.
04:42Esse é o ponto central, é isso que está faltando.
04:45Exato. O mercado prevê ali para 2027 talvez um ajuste fiscal nas contas,
04:50porque isso será necessário para, como você mesmo falou, diminuir o risco
04:55e a possibilidade também do Banco Central diminuir a meta para a taxa Selic.
04:59Tão logo o efeito sobre a inflação comece, a taxa Selic comece a fazer o efeito sobre a inflação,
05:07o Banco Central vai encontrar ali um espaço para redução da meta da taxa.
05:11O mercado acredita em 12,5% para o encerramento de 2026.
05:18A partir do momento que o país conviva, que tem a taxa básica mais baixa,
05:23a dívida pública cresce a uma velocidade menor, ela ainda continuará crescendo,
05:29porque, como eu falei, cerca de 48%, 49% dos títulos públicos são indexados a taxa Selic,
05:36são as LFTs, Letras Financeiras do Tesouro.
05:40A partir do momento que tenhamos taxas mais baixas,
05:43o total de juros pagos seriam menores e a dívida cresceria a uma velocidade um pouquinho menor.
05:53O Rogério, fala-se muito na necessidade de um ajuste fiscal por parte do governo federal,
05:59que é uma necessidade muito clara e evidente.
06:01Agora, esse dado, ele coloca junto ali na conta os municípios e os estados também,
06:07as administrações municipais e estaduais.
06:09O que é que teria que ser feito nesse âmbito dos governos locais também
06:13para tentar reduzir esse endividamento nacional?
06:17Sim, responsabilidade fiscal.
06:19Tanto os governos estaduais quanto os governos municipais
06:22têm que procurar adequar seus orçamentos às suas receitas.
06:27Justamente, a responsabilidade fiscal para que o resultado primário,
06:33ao invés de ser um déficit que está agora,
06:37ele se transforme num superávit.
06:40Há último ano que, se não me engano, nós tivemos superávit primário no país,
06:45eu acho que foi na década de 2010.
06:47De lá para cá, todos os governos que se sucederam tiveram déficits fiscais,
06:52ou seja, gastaram déficits primários, gastaram mais do que arrecadaram.
06:58Então, tanto o governo federal, que tem que dar o exemplo,
07:00quanto os governos estaduais e municipais,
07:03têm que adequar as suas receitas, as suas despesas, às suas receitas.
07:07Isto é, procurar gastar menos do que se arrecada.
07:13E no âmbito federal, já está muito claro que não dá para fazer um ajuste de contas ali
07:18sem mexer em pontos que são muito sensíveis, muito delicados,
07:22mas que são insustentáveis.
07:24Exato. O governo federal está tentando resolver o problema do déficit fiscal,
07:30aumentando as receitas.
07:31A gente viu os episódios das últimas semanas que o governo tentou fazer passar a medida
07:36de aumento das alíquotas de IOF,
07:39e recentemente o Congresso barrou esta tentativa do governo de aumentar a tributação.
07:46Nunca se arrecadou tanto no país como agora.
07:50A carga tributária está bem alta.
07:53Eu acho que o espaço para aumentar tributos no país,
07:56para aumentar o lado da receita, ele está muito restrito.
08:00Então, para que um ajuste fiscal seja realmente efetivado no país,
08:04a partir dos próximos semestres, que vai ser necessário,
08:10o governo teria sim que olhar pelo lado do corte de gastos.
08:13Porque aumentar a receita já está no limite.
08:16Nunca a arrecadação tributária foi tão alta no país quanto agora.
08:22Rogério Mauade, professor de Finanças e Mercados Financeiros na Fipecaf.
08:26Obrigado, Rogério, pela entrevista.
08:28Boa semana para você.
08:29Eu que agradeço a participação.
08:31Boa noite e boa semana.
08:32Obrigado. Valeu.
08:33Obrigado.
08:34Obrigado.
08:35Obrigado.
08:36Obrigado.

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