00:04Eu mergulhei na machosfera, um universo virtual onde homens falam abertamente dos seus receios
00:10com as transformações nos papéis de homens e mulheres na sociedade.
00:14Eu conversei com homens que diminuíram suas interações com mulheres
00:17por medo de serem cancelados ou acusados injustamente de assédio.
00:21Esse medo levou alguns até a instalar câmeras dentro de casa.
00:25Eu, como professor, para várias disciplinas, João, eu te confesso, eu não dou aula mais para mulher sozinho.
00:33Nesse vídeo, eu vou falar de homens que dizem se sentir oprimidos por serem homens.
00:38Muitos deles, inclusive, acreditam que existe um grande complô feminino para dominar o mundo.
00:43Eu investiguei essa história por um episódio do nosso podcast Brasil Partido.
00:47Vou deixar o link do podcast aqui na descrição.
00:50Nas últimas décadas, as mulheres conquistaram direitos e avançaram no mercado de trabalho.
00:55Isso é bem visto por boa parte da sociedade, mas para um grupo de homens, as mudanças os prejudicaram e
01:01criaram distorções.
01:02Esse mal-estar masculino gerou uma contra-ofensiva.
01:06Homens que se sentiam deslocados ou injustiçados recorreram a fóruns da internet
01:11para compartilhar dicas sobre como reagir a essas mudanças e se portar em relacionamentos com mulheres.
01:15Para batizar essa corrente, o grupo recorreu à metáfora da pílula vermelha do filme Matrix.
01:20A ideia é que, tomando essa pílula, o que eles fariam simbolicamente frequentando esses fóruns e absorvendo essas ideias,
01:27os homens conseguiriam sair do mundo das ilusões e veriam a realidade como ela é,
01:32uma realidade que eles acreditam ser hostil aos homens.
01:35Foi assim que surgiu a Red Pill, que no Brasil ficou mais conhecida como Red Pill.
01:39Eu conversei sobre a Red Pill com o Theo, o codinome virtual de um homem carioca que frequenta fóruns masculinos
01:45há bastante tempo.
01:46Ele me pediu que não revelasse o nome verdadeiro dele.
01:48Theo diz que espaços como os da Red Pill servem para que homens alertem uns aos outros
01:53sobre perigos que eles correm em relacionamentos com mulheres.
01:56Nós passamos para o outro, para o incalco, para aquele que não tem muita experiência,
02:02como é que essa situação se desenvolve e qual a consequência
02:06que essa situação em que aquele indivíduo vai se envolver,
02:12quanto ele pode se estar colocando em perigo.
02:15O Theo me diz que também é adepto de outra filosofia que ele conheceu nos grupos virtuais,
02:20o MGTOW.
02:21Essa é a sigla para a expressão em inglês
02:23Men Going Their Own Way, ou traduzindo,
02:27Homem Seguindo Seu Próprio Caminho.
02:28Tanto o MGTOW quanto a Red Pill ganharam projeção depois da vitória de Donald Trump
02:33na eleição presidencial americana em 2016.
02:36Os dois grupos são frequentemente associados a alt-right,
02:39a direita alternativa que ajudou a impulsionar a candidatura de Trump.
02:42Mas os grupos se expandiram e hoje estão presentes em vários países,
02:46inclusive no Brasil.
02:47O Southern Poverty Law Center,
02:50uma organização americana que é referência no monitoramento de movimentos extremistas,
02:54define o MGTOW e a Red Pill como grupos de supremacia masculina
02:58que querem subjugar as mulheres.
03:00Mas o Theo contesta essas definições.
03:03Essa história de que o MGTOW marginaliza a mulher, não.
03:07Não, não é bem assim.
03:08Ele não aceita se condicionar a determinadas, entre aspas,
03:14validações que a mulher quer.
03:16Ele não se submete ao shaming.
03:19Shaming é o ato de criticar ou expor alguém em público,
03:23principalmente na internet.
03:25Theo disse que evitar se expor é uma das principais diretrizes do MGTOW.
03:29De certa forma, essa posição é uma resposta a movimentos feministas como o Me Too,
03:34que estimulam mulheres a usar a internet para denunciar violências que elas sofreram
03:38e a expor seus abusadores.
03:40Já já a gente mostra o que uma cientista social feminista acha das posições do Theo.
03:45Mas voltando a ele, Theo diz que, por causa de algumas leis que foram aprovadas,
03:50ele reduziu seu contato com mulheres.
03:52Hoje, com a lei do assédio.
03:54Hoje, existem muitas mulheres fazendo uso, mau uso das leis, por vingança.
04:02Seja porque você a contrariou de alguma forma.
04:05A violência contra mulheres está em alta no Brasil.
04:08Um levantamento do portal Geo, em março, revelou que os crimes de feminicídio
04:12baterão recorde em 2022.
04:15Isso embora os números gerais de homicídio tenham diminuído no ano passado.
04:19Também em 2022, cerca de 30 milhões de mulheres sofreram algum tipo de assédio no Brasil,
04:25segundo um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
04:28Theo disse que reduziu suas interações com mulheres,
04:31mas que não rompeu completamente os contatos com elas.
04:34Ele disse que, inclusive, tem uma namorada.
04:36Até tempos atrás, eu tinha seis câmeras na minha casa.
04:41E eu falava que tem alta.
04:43Eu conversando com a pessoa, mostrando para ela,
04:45olha, eu passei por essa situação aqui, ela foi extremamente desagradável.
04:48Olha, você quer vir? Você quer me conhecer?
04:52Quando eu comecei a pesquisa para esse vídeo,
04:54eu imaginei que os adeptos de grupos como a Redpill
04:57atuassem apenas em fóruns obscuros da internet.
05:00Mas não.
05:00Hoje há várias páginas e perfis que difundem abertamente esses conteúdos
05:05em redes sociais como o Instagram e o TikTok.
05:07E aqui eu passo a falar de um outro lado da machossfera.
05:11O desconforto masculino com as transformações na sociedade
05:14criou um grande mercado virtual.
05:16Muitos homens oferecem cursos a outros homens sobre como seduzir mulheres.
05:20Outros fazem discursos mais amplos sobre a identidade masculina
05:24e sobre como os homens devem se portar no mundo.
05:27São comuns, nesse universo, discursos com um suposto viés biológico
05:31e que valorizam características masculinas associadas a um passado remoto,
05:35quando os homens caçavam, guerreavam e protegiam a prole.
05:39Eu passei várias horas navegando nesse universo
05:41em que homens ensinam a outros homens o significado de ser homem.
05:45Até que, no meio daquela testosterona toda, surgiu uma mulher.
05:49A bióloga Mariana Vabo se define como uma mentora de homens.
05:53Eu queria entender por que uma mulher tinha decidido entrar nesse universo.
05:56Então eu fui atrás dela com algumas perguntas.
05:59Tem um vídeo seu, que o título dele é
06:03Os Segredos dos Cafajestes para Nunca Levar Um Fora.
06:06E aí nele você diz que um cara dominante
06:10ele não chega numa mulher para receber o sim ou o não.
06:14Porque quem dá o sim ou o não é ele.
06:17Mas e como que fica o consentimento nessa história?
06:19Você não acha que essa fala
06:21não pode estimular uma abordagem violenta a uma mulher?
06:25Não, não estimula uma abordagem violenta.
06:27Porque sobre o que é essa fala, né?
06:29É sobre o homem ter o direito de escolha também.
06:31Porque tem uma ideia péssima
06:32que é travada na cabeça de vocês
06:34é de que se uma mulher te quer
06:35que você tem que atender essa mulher
06:37o desejo de uma mulher que te quer.
06:38Porque se você não atende, você é menos homem.
06:40Você não acha que um homem que
06:42escuta que é ele quem vai dizer sim ou não
06:45não é a mulher?
06:46Que ele não pode se sentir legitimado
06:48a chegar agarrando
06:50considerando que esse tipo de comportamento existe
06:53que existem abordagens muito violentas?
06:55Isso acontece em qualquer
06:56tipo de ambiente.
06:58A pessoa está vendo o que a gente chama
06:59de viés de confirmação.
07:00Ele está pegando uma informação
07:02que eu estou falando
07:03ou até que você esteja falando
07:04ou qualquer outra pessoa
07:05ele vai interpretar a sua forma.
07:07E infelizmente o controle total
07:09sobre o que as pessoas interpretam
07:11com o seu modelo de mundo
07:12eu não consigo ter total controle disso.
07:15Para Mariana
07:16não é preciso ser machista
07:18para ganhar dinheiro na machosfera.
07:20Mas o que uma acadêmica feminista
07:22acha desse mercado de coaches de masculinidade?
07:25Para Bruna Camillo
07:26doutora em Ciências Sociais
07:28pela PUC de Minas
07:29esse mercado promove uma
07:31monetização da misoginia.
07:33Misoginia é o desprezo por mulheres.
07:35Bruna pesquisa o masculinismo
07:37que são ideologias que defendem os direitos dos homens.
07:40É o caso de várias correntes da machosfera
07:42incluindo o MGTOW e a Redpill.
07:44Ela me disse que essas ideologias
07:46têm uma visão bastante equivocada
07:48sobre o feminismo
07:49pois defendem que as feministas
07:51buscam privilégios.
07:52Segundo Bruna, no entanto
07:53o feminismo busca apenas
07:55a igualdade entre homens e mulheres.
07:57Mas ela concorda com um tipo de queixa
07:59que alguns homens compartilham nesses espaços.
08:02A queixa de que na nossa sociedade
08:04os homens são cobrados a serem
08:05másculos, viris, racionais,
08:08provedores, assertivos,
08:10bem-sucedidos.
08:12Quem não cresceu ouvindo frases como
08:13homem não chora
08:14ou homem que é homem não nega fogo?
08:16Além disso, muitos homens,
08:18incluindo os de esquerda,
08:19se sentem confusos
08:21quanto a comportamentos
08:22que até outro dia
08:22eram vistos como positivos
08:24por boa parte das mulheres
08:25mas que hoje podem ser muito mal recebidos.
08:28Por exemplo,
08:29é ok dar flores
08:30e abrir a porta do carro
08:31no primeiro encontro?
08:32E falar parabéns
08:33no Dia Internacional da Mulher?
08:35Bruna reconhece
08:36que muitos homens estão perdidos
08:37e ela diz que eles de fato
08:39sofrem cobranças injustas
08:40e excessivas.
08:42Mas ela também diz que os masculinistas
08:43erram o alvo
08:45ao atribuir essas cobranças
08:46ao feminismo.
08:47O feminismo
08:49não é responsável
08:50por esse discurso
08:51sobre como homens
08:52devem ser,
08:53como eles devem se comportar, né?
08:55Isso é o machismo,
08:56é a misoginia,
08:57é o patriarcado.
08:59O patriarcado
09:00há séculos nos mostra
09:01que o homem tem que ser
09:03o grande provedor da família
09:05e a mulher
09:06ela é a propriedade
09:07junto com os filhos, né?
09:09Bom, enquanto feminista
09:10eu te digo que
09:11o feminismo
09:13ele luta
09:14inclusive
09:14para a gente
09:15desconstruir
09:16essa masculinidade hegemônica.
09:18Bruna diz que as redes sociais
09:20estão ajudando
09:21as correntes masculinistas
09:22a se expandir.
09:23Mas produzindo essa reportagem
09:25eu também percebi
09:26um movimento contrário
09:27em curso.
09:28Nos últimos anos
09:29surgiram várias páginas
09:30e perfis
09:31de homens que questionam
09:32os padrões de masculinidade
09:34e rejeitam os discursos
09:36de grupos como a Redpill.
09:37Uma delas é o Movimento Homem
09:39fundado pelo programador
09:40Dimas Oliveira
09:41de 38 anos.
09:42Dimas me disse
09:43que ouviu de diferentes mulheres
09:45com quem se relacionou
09:46que não era disponível
09:47emocionalmente.
09:49Então ele começou
09:49a refletir sobre isso
09:50e foi parar
09:51no retiro de homens
09:52no interior de São Paulo.
09:54Dimas passou três dias
09:55num hotel
09:55participando de conversas
09:57e exercícios
09:57sobre a busca
09:58por outro tipo
09:59de masculinidade.
10:01Eu participei do retiro
10:02e ali eu entrei em contato
10:03com dores próximas
10:05e também em dores
10:07que eu não imaginava
10:09que pelo menos
10:10nunca tinha ouvido
10:11um homem falar
10:13de homens
10:13que tinham sofrido abuso
10:14de homens
10:15que foram abusadores
10:17e ali você tem
10:19a oportunidade
10:19realmente de ser vulnerável
10:20você pode tirar
10:22aquele peso das costas
10:23que você carregou
10:24uma vida toda.
10:25A experiência no retiro
10:26foi tão transformadora
10:28que ele resolveu
10:28virar um facilitador
10:29desses encontros.
10:31Dimas espera
10:31que um dia
10:32movimentos como o dele
10:33consigam fazer frente
10:34às vertentes masculinistas.
10:35Por enquanto, porém,
10:37ele reconhece
10:37que ideologias
10:38como a dele
10:38estão longe
10:40de ter a mesma projeção
10:41que a Red Pill
10:42ou que o Migtal.
10:43Eu fico por aqui.
10:44Se você gostou do vídeo
10:45eu peço que por favor
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10:49para receber mais reportagens
10:51como essa.
10:52Muito obrigado
10:52por nos assistir.
10:53Tchau, tchau.
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