00:00Até a rua muda e já não é mais a mesma, quando é que a gente vai parar para enxergar
00:04a cidade como ela deve ser?
00:06Então Belo Horizonte virou esse palco, tanto de um sonho, que é de construir essa obra, quanto de um pesadelo,
00:12por ela ser de terror.
00:13Buda Cara Preta vem de uma relação pessoal com a música, porque durante os primeiros anos da minha filha,
00:19a gente tem que descobrir todos os jeitos possíveis de fazer uma criança dormir.
00:23E ainda assim tentar ficar acordado para trabalhar e ter todas as responsabilidades de um adulto,
00:27mas eu ia tentando lembrar todas as canções de Niná que eu sabia para poder fazer a minha filha dormir.
00:33O Boi da Cara Preta era uma das que a minha filha mais gostava, e ela adorava, ela falava para
00:38eu cantar o Bodapeta.
00:39Eu cantava e fazia ela dormir e ao mesmo tempo eu lá sonolento, num estado meio alfa,
00:43ficava pensando sobre essa canção, sobre de onde ela veio, por que essa criança tem medo de careta.
00:54Já que era uma canção extremamente bizarra e sem muita origem, eu tentei desenvolver algo que estendesse e explorasse esse
01:04universo.
01:04A gente acaba dando espaço para conteúdos na internet, que são influências de consumo rápido, e cadê a permanência?
01:12Então se até a rua muda e já não é mais a mesma, quando é que a gente vai parar
01:16para enxergar a cidade como ela deve ser?
01:19Então Belo Horizonte virou esse palco, tanto de um sonho, que é de construir essa obra, quanto de um pesadelo,
01:25por ela ser de terror.
01:26O personagem principal é uma pessoa nominária, que se chama Ariel, e ela está passando por um episódio longo de
01:31Insônia.
01:32E a gente acompanha a narrativa a partir da ótica dela, desse momento na vida dela, em que ela está
01:39entendendo,
01:40se entendendo como pessoa melhor, ela está entrando na faculdade, está conhecendo mais pessoas.
01:46A casa, o lar dela é conturbado e tem dinâmicas sociais muito confusas, e isso reflete muito na identidade,
01:55em como o Ariel se entende como pessoa.
01:57E durante esse grande episódio de Insônia, ela sofre por paralisia de sono, e eu quis cruzar esse mistério estranho,
02:08que é a paralisia do sono, com um pouco da cultura popular brasileira.
02:12Não tem autor, é uma canção bizarra, estranha, quando você para para pensar.
02:17O boi surge de uma vivência minha, né?
02:19Da minha adolescência, como belo-horizontino, tendo que caminhar por essas ruas no vai e vem do subir e descer
02:30floresta.
02:31Eu decidi que não tinha palco melhor para a narrativa do que Belo Horizonte,
02:35porque assim eu conseguiria falar de mim e, ao mesmo tempo, de todos, né?
02:42De todo mundo que eu conheci, de todas as experiências que eu tive aqui,
02:45e ainda assim passar uma visão, enxergar Belo Horizonte com uma ótica romântica e melancólica ao mesmo tempo,
02:55porque eu sinto que BH tem um grande espólio cultural na cena musical, tem na cena do cinema,
03:07mas ainda falta, assim, essa exploração cultural dentro da narrativa literária dos quadrinhos.
03:17E BH é um grande expoente dos quadrinhos, né?
03:21A gente lê muitos autores e obras internacionais,
03:24mas a gente acaba perdendo essa oportunidade de enxergar e olhar para a gente, aqui para dentro.
03:29Eu entendi que o melhor palco para sediar essa história seria BH,
03:34tanto para virar o próprio cartão postal gigante que é Belo Horizonte,
03:38mas para poder encantar e aterrorizar ao mesmo tempo,
03:40porque BH tem esse ar melancólico, né?
03:44A gente já vive e consome muito do eixo Rio-São Paulo,
03:49mas a gente acaba não enxergando a gente mesmo, assim.
03:52A gente já vive e consome muito do eixo Rio-São Paulo,
Comentários