00:00Mariana é uma caburra encantada.
00:02Ela saiu do Oriente ao lado do pai, o sultão da Turquia,
00:06fugindo das cruzadas cristãs.
00:08Nessa travessia viveu imensas aventuras,
00:11saltar em alto mar, viver amores proibidos,
00:15até que atravessou um dos portais de encantaria existentes na natureza.
00:20Nesse caso aqui, foi no norte da África,
00:24na altura do Estreito de Gibraltar.
00:27Esse espetáculo não é um espetáculo que fala de memória,
00:31e esse nome foi uma intuição que me veio,
00:35mas eu acho que ele conta bem o que a gente está brincando de fazer aqui no palco.
00:42Eu digo que esse espetáculo necessariamente está me fazendo,
00:46e eu espero que faça a plateia pensar que a gente só pode seguir adiante
00:50quando a gente sabe de onde a gente veio.
00:52Então, o ventre é de onde todos nós viemos,
00:56e acho que de onde a gente veio nos leva
00:59pra como a gente quer se colocar no mundo,
01:01como a gente deseja se colocar no mundo.
01:04Então, tudo que nos guia, pra mim, está vindo do ventre
01:08até a nossa cabeça, que é onde a gente consegue entender.
01:10O espetáculo vai contar um pouco da história de vida da minha avó,
01:15que é uma mulher ribeirinha da cidade de Cametá,
01:18em relação, Dona Raimunda,
01:20em relação com narrativas da Caboclo Encantada Mariana.
01:24Então, quando a plateia chegar aqui,
01:26você vai começar me ouvindo contar um pouco como que era a vida da minha avó,
01:30como que era lá o lugar onde ela nasceu,
01:32e, ao longo do espetáculo,
01:34as narrativas da Encantaria e da Dona Mariana vão chegando.
01:37É um espetáculo que tem muita música,
01:40a gente tem uma percussionista em cena junto comigo.
01:42É um espetáculo muito bem-humorado,
01:44a minha avó é uma pessoa muito bem-humorada,
01:46então, é um espetáculo, acho que, muito delicado,
01:51mas muito engraçado também.
01:54Olha, eu gosto de dizer que,
01:55quando a gente começou a escrever esse espetáculo,
01:59as narrativas da Encantaria,
02:01o objetivo era falar assim,
02:02olha, a gente está falando de um lugar,
02:05porque é tudo muito misturado, né?
02:08Então, a minha avó, por exemplo,
02:09se eu perguntar para ela,
02:10ela vai te dizer que ela é católica,
02:13mas ela não toma banho de rio seis horas da tarde,
02:15e ela fala, porque pode encantar,
02:18porque tem o filho da vizinha dela,
02:19que foi tomar um banho de garapé uma hora dessa,
02:22e ele sumiu, se encantou.
02:24Então, eu acho que tem um...
02:25falar um pouco sobre esses saberes populares,
02:29que a gente chama de encantaria,
02:31mas que também tem a ver com a forma como a gente vive nesse lugar.
02:35Belém é uma cidade enorme,
02:37mas a gente está lidando com o rio,
02:38a gente está lidando com a chuva,
02:40então, como que esses saberes que são ancestrais,
02:43que são populares,
02:44eles se misturam num modo de vida.
02:46Eu acho que é um espetáculo que está falando sobre
02:48um modo de vida amazônico.
02:50Minha volta ao teatro,
02:51acho que depois de muitos anos,
02:53muito tempo trabalhando com audiovisual,
02:55com cinema, com TV,
02:57com muitas coisas,
02:59e voltar ao palco contando essa história,
03:04necessariamente tinha que ser uma estreia aqui em Belém.
03:06Na Amazônia.
03:07Na Amazônia,
03:08e falando de identidade,
03:09para mim é uma redescoberta,
03:12é uma volta para o útero.
03:13Eu comecei a ser atriz no teatro,
03:15então,
03:17me ver novamente,
03:18tinha que ser aqui em Belém,
03:19tinha que ser aqui,
03:20tinha que ser no palco.
03:25E aí
03:26E aí
03:27E aí
03:28Legenda Adriana Zanotto