GASTRONOMIA BRASILEIRA EM PORTUGAL
A chef brasileira Angélica Salvador fez história ao conquistar uma estrela Michelin fora do Brasil. No podcast Degusta, apresentado por Celina Aquino, ela contou como saiu do interior do Paraná, chegou a Portugal aos 21 anos e começou sua trajetória profissional trabalhando na Copa de um hotel.
À frente do restaurante no Porto, Angélica combina gastronomia portuguesa contemporânea com referências brasileiras. Jabuticaba, tucupi, milho, pão de queijo e memórias da infância aparecem em sua cozinha.
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#AngelicaSalvador #EstrelaMichelin #MichelinGuide #Gastronomia #GastronomiaBrasileira #GastronomiaPortuguesa #Indiferente
A chef brasileira Angélica Salvador fez história ao conquistar uma estrela Michelin fora do Brasil. No podcast Degusta, apresentado por Celina Aquino, ela contou como saiu do interior do Paraná, chegou a Portugal aos 21 anos e começou sua trajetória profissional trabalhando na Copa de um hotel.
À frente do restaurante no Porto, Angélica combina gastronomia portuguesa contemporânea com referências brasileiras. Jabuticaba, tucupi, milho, pão de queijo e memórias da infância aparecem em sua cozinha.
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NotíciasTranscrição
00:00:09Olá, eu sou Celina Aquino e esse é o Degusta, o podcast de gastronomia do estado de Minas.
00:00:15Você já tá aí pronto para mais uma conversa? Então a gente já vai começar mais um episódio,
00:00:20senta aqui com a gente. E no cardápio de hoje nós temos uma história que envolve coragem,
00:00:25superação e pioneirismo. Ela se mudou do interior do Brasil para o interior de Portugal.
00:00:34Era jogadora de handball e de repente se viu dentro de uma cozinha profissional.
00:00:40Ela não passou por nenhuma formação em gastronomia, mas aprendeu na prática com suor
00:00:45o que era necessário para crescer. E ela teve experiências grandes, importantes em hotéis
00:00:52antes de abrir o seu próprio restaurante. E hoje ela comemora uma conquista que dá muito orgulho
00:01:00para nós brasileiros e principalmente para as mulheres. Ela é a primeira chefe brasileira
00:01:06a ganhar uma estrela Michelin fora do Brasil. Estamos falando da Angélica Salvador,
00:01:13que é a chefe fundadora do restaurante Indiferente, que fica na cidade do Porto, em Portugal.
00:01:19Angélica, seja muito bem-vinda. Que bom que você está aqui com a gente nessa mesa, viu?
00:01:25Obrigada pela sua presença.
00:01:26Muito obrigada. Muito obrigada pelas palavras e por essa recepção incrível.
00:01:31Eu estava preparada.
00:01:33Pois é, eu já quero te falar que em Minas é assim. É a sua primeira vez aqui em Minas.
00:01:38A gente recebe desse jeito, com a mesa farta, com produtos selecionados, deliciosos,
00:01:45porque a gente quer te mostrar o gostinho de Minas, o que é a cara aqui do nosso estado,
00:01:51que é enorme, diverso e maravilhoso, viu?
00:01:54Acho que não vou ficar indiferente aqui hoje.
00:01:57E olha, fica muito à vontade. Sinta-se em casa.
00:02:02E a ideia é a gente ir conversando, comendo e a gente vai falando um pouco do que está aqui
00:02:06na mesa, tá bom?
00:02:07Ok. E muito obrigada pelas palavras e pelo convite.
00:02:10Que bom, a gente está muito feliz.
00:02:12Obrigada.
00:02:12Então, eu já quero saber primeiro o seguinte, por que Portugal?
00:02:16É uma história louca, né? Por que Portugal?
00:02:18Acho que o que facilitou muito foi a língua.
00:02:20Nós temos a língua materna portuguesa.
00:02:23E muito brevemente, vou ser sincera com vocês, é uma decisão que foi uma aventura.
00:02:29Em um mês e meio, vamos para Portugal, vamos.
00:02:32E um mês e meio eu estava em Portugal.
00:02:34Que curiosamente, a semana que vem faz 21 anos que eu estou fora do nosso país.
00:02:39É muito tempo.
00:02:40É verdade.
00:02:41E foi mesmo uma aventura.
00:02:4421 anos de idade eu tinha na altura.
00:02:46E por um desafio de uma amiga, foi aquela coisa de voo.
00:02:50E tenho que agradecer que sempre as coisas me correram super bem.
00:02:53Como você disse, Ben, tive o privilégio de ter pessoas no meu percurso nesses 20 anos.
00:02:58Que fizeram muita diferença e que me ajudaram muito na minha carreira profissional e pessoal.
00:03:02Por isso, acho que não podia estar melhor nesse momento.
00:03:06E você começou a sua história na cozinha como copeira.
00:03:10Que é uma função que é muito importante para a cozinha.
00:03:14E que muitos chefes, inclusive, começam porque é uma função que não tem uma necessidade de uma experiência prévia.
00:03:22É um bom começo.
00:03:23Exato.
00:03:24E eu queria aproveitar que você falasse um pouco sobre isso.
00:03:28A importância dessa função.
00:03:30Tanto para o funcionamento da cozinha, quanto para a formação de um chefe.
00:03:35Eu acho que, independentemente de função, todos temos que ter experiências.
00:03:40E como você referiu bem, na minha cozinha e não só na minha, é um dos pilares.
00:03:45Porque eu sem copeira, eu não tenho o tacho para fazer a comida, não tenho a panela, não tenho a
00:03:49louça para servir o cliente.
00:03:50E assim sucessivamente.
00:03:52Não precisa falar aqui de todos os elementos que são importantes.
00:03:54E eu cheguei em Portugal.
00:03:56O meu primeiro...
00:03:57Não tenho problemazinho de partilhar isso.
00:03:59Porque acho que é importante falarmos desses promenores que eu tinha.
00:04:02Uma passagem para pagar.
00:04:04Então, eu cheguei em Portugal.
00:04:05Tinha lá uma pessoa conhecida, que é a mãe da minha amiga.
00:04:08E o desafio surgiu que eu poderia ir para o housekeeping, para o serviço de quartos, ou para a Copa.
00:04:15E eu... Copa.
00:04:17Copa do mundo, né? Copa.
00:04:20Não sabia mesmo nem onde você estava.
00:04:21E eu perguntei.
00:04:22Eu falei, o que é a Copa?
00:04:23Ela, olha, vai para um restaurante, vai lavar louça, não sei o que.
00:04:26Eu falei, olha, eu vou experimentar.
00:04:27Foi mesmo assim.
00:04:28Ironicamente, foi assim.
00:04:29Por essa maneira brasileira, graças a Deus, de encarar as coisas nessa parte de brincadeira.
00:04:34E eu comecei na Copa.
00:04:36Comecei na Copa de um hotel.
00:04:37Num hotel de cinco estrelas, na altura...
00:04:39Já não existe o hotel, mas no Algarve, no sul de Portugal.
00:04:43E foi onde eu comecei a minha carreira na cozinha.
00:04:45Ai, que legal.
00:04:45Olha, eu acho que já está na hora da gente começar a degustar.
00:04:48Porque essa mesa, gente, está recheada de coisa boa.
00:04:51É verdade.
00:04:52Está aqui coisas lindas.
00:04:53Não é?
00:04:54Então, vamos começar pelo pão de queijo, que acabou de sair do forno.
00:04:57A Marcele, do pão de queijo Dona Regina, ela veio entregar aqui para a gente.
00:05:02Não foi fofo?
00:05:03Com um paninho, gente.
00:05:04Gente, que recepção.
00:05:06É que as pessoas não sentem o cheiro que estamos a sentir nesse momento aqui, né?
00:05:09Né?
00:05:09Um dia...
00:05:10Que pena, que pena.
00:05:11Que pena, porque também eles queriam ficar a provar.
00:05:14E ela teve um cuidado e um beijinho grande para ela, que ela foi incrível.
00:05:17Sim.
00:05:17Chegar aqui com cuidado e com a gentileza toda conosco.
00:05:20Eu tenho que agradecer isso.
00:05:21E vamos, então, começar aqui, Angélica, sirva-se.
00:05:25Muito obrigada, com licença.
00:05:27E ela, a Marcele, ela faz uma receita que é da avó dela.
00:05:32Inclusive, na hora que a gente começou a montar essa mesa, eu me dei conta de que tem muitas
00:05:36histórias de vós aqui.
00:05:38A gente vai falar de outras.
00:05:39Você tem alguma história, assim, com a sua avó, especificamente?
00:05:42Algumas.
00:05:43Uma das perguntas que fazem muito para mim é, tipo, principalmente agora no Indiferente,
00:05:47no Porco do Indiferente, por que esse prato?
00:05:50Porque você, no Brasil, fazia isso?
00:05:53Não, não fazia.
00:05:54E vai chegar um pouco na pergunta que você me fez agora.
00:05:57Eu não fazia isso, mas eu sempre...
00:05:59Eu sou a neta mais velha, na parte dos meus avós, na parte do meu pai, eu e minha irmã.
00:06:05Então, sempre houve aquela parte de estar ligada com os avós, as netas estarem com os avós.
00:06:10E eu sempre fui a que estava dentro da cozinha com a minha avó.
00:06:13E acho que você vai perceber um pouquinho essa história.
00:06:15Estamos aqui numa mesa que faz me lembrar muito a infância.
00:06:18E quando tivermos a falar aqui de alguns pratos que eu estou vendo aqui, recorda-me muito isso.
00:06:21A minha avó me ensinou a fazer o arroz soltinho.
00:06:25Então, eu lembro perfeitamente dela me explicar como é que se abria uma lata de óleo.
00:06:29Hoje em dia já não se vê as latas de óleo.
00:06:32Mas eu insistia que tinha que fazer só um furo na lata para sair o óleo.
00:06:36E ela dizia, não, filha, tem que fazer dois, porque se o ar não entrar, o óleo não vai sair
00:06:40da lata.
00:06:41E eu recordo-me disso perfeitamente como se fosse hoje, num fogão a lenha, a cozinhar um arroz com a
00:06:46minha avó.
00:06:47Eu não tenho...
00:06:49Infelizmente, já não os tenho cá, mas tenho no meu coração essa lembrança do bom e tradicional arroz,
00:06:54do bom e tradicional pão de queijo.
00:06:56E outras coisas que tem aqui na mesa que vamos falar ao decorrer disso,
00:06:59porque eu acho que é fundamental nós nunca esquecermos as nossas origens e esse gostinho de família,
00:07:04que sente-se aqui nessa mesa.
00:07:06É importantíssimo.
00:07:07E, inclusive, a sua família é do Paraná, né?
00:07:09Do interior do Paraná.
00:07:11Então, a sua história começa lá.
00:07:13E, pelo que você conta, tem muito a ver com Minas mesmo, né?
00:07:16Muito.
00:07:16Porque o nosso interior também é desse jeitinho mesmo, né?
00:07:19Fogão a lenha é um item...
00:07:21Muito bom.
00:07:22Importantíssimo.
00:07:23Ela fazia o doce de leite e deixava um pires, ao contrário, dentro de uma panela,
00:07:26no fogão a lenha, lentamente, um dia, dois dias.
00:07:29O país está incrível.
00:07:30E veio aquele cheirinho dentro da cozinha dela.
00:07:33Nós chegávamos criança, né?
00:07:35Adolescente, crianças.
00:07:36E, vó, vó, ainda não está.
00:07:38Está quente.
00:07:38Cuidado com o fogo.
00:07:39Essas coisas nunca vão sair da nossa...
00:07:41E eu estou na terra do doce de leite.
00:07:44É impossível não ter essas recordações também.
00:07:47Acho que vamos chegar lá também daqui a pouquinho.
00:07:49Vamos, vamos chegar.
00:07:49Já vamos provar esse pão de queijo que está quentinho.
00:07:51Acabou de sair do forno.
00:07:53Delicioso.
00:07:54Muito bom, né?
00:07:55Olha só.
00:07:56Coradinho.
00:07:57Coradinho e macio por dentro.
00:07:58Bom demais.
00:07:59Muito bom.
00:08:00Muito obrigado por isso.
00:08:01Que bom.
00:08:02E, Angélica, você não passou por nenhum curso de gastronomia.
00:08:06Então, você é uma chefe autodidata.
00:08:09E aí, eu quero entender duas coisas.
00:08:11Primeiro, assim, lá em Portugal, como que as pessoas veem uma trajetória dessa,
00:08:17de uma pessoa autodidata.
00:08:19E também, o que que a prática não ensina, ensina, aliás, que os livros, as aulas,
00:08:27os professores não conseguem ensinar, assim, o que que da sua trajetória, que foi com
00:08:32a prática, né, intensa, com muitas experiências, te deu para a sua carreira?
00:08:38Eu partilho muitas vezes isso.
00:08:40E volto um pouco na parte também da Copa.
00:08:42Eu acredito muito que podemos ter um bom currículo, claro, mas acho que cada vez mais,
00:08:47como você referiu agora, a prática também é uma coisa que nos leva além.
00:08:50Eu não tive o privilégio de fazer um corte de uma bronesa numa escola, como muitas pessoas
00:08:56tiveram esse privilégio.
00:08:57Mas eu tive muitas, muitas pessoas do meu lado e grandes chefes de cozinha que trabalharam
00:09:02comigo no percorrer da minha carreira profissional, que tiveram a paciência e, ao mesmo tempo,
00:09:08o dom de me ensinar.
00:09:09E também eu de observar e ver o que eu realmente queria era aquilo para mim.
00:09:13E foi que eu fui fluindo e pegar um segredozinho de um chefe de fazer isso ou de fazer aquilo.
00:09:18E não posso deixar de mencionar que o meu parceiro, o meu marido é português, tem
00:09:23curso de cozinha, é um chefe de cozinha reconhecido lá em Portugal também, e sempre me ajudou
00:09:27também.
00:09:28Eu não vou mentir, quando eu tinha dúvidas, em vez de perguntar, eu ali estou.
00:09:32Eu fui fazer uma vez um...
00:09:33Nunca vou me esquecer disso.
00:09:34Nós temos aqui o nosso famoso frango fricassé.
00:09:37E acho que é engraçado partilhar isso.
00:09:40E eu vi aquilo, vou ter que fazer um frango fricassé, mas eu sei fazer o frango fricassé
00:09:44no Brasil.
00:09:45Então, eu, Tiago, como é que é o vosso frango fricassé?
00:09:48E ele, é assim, é assim.
00:09:49Eu falei, então pronto, eu vou por essa linha porque eu não estou no Brasil, eu estou
00:09:51em Portugal.
00:09:52E acho que é um pouco também isso, nós vimos atrás da informação, não só hoje,
00:09:56mas hoje em dia.
00:09:57Hoje em dia até é mais fácil, com as internets, essas coisas, mas tipo, eu tive sempre livros,
00:10:01eu, na altura, eu até falei nos bastidores aqui agora, eu comprei um livro das tantas
00:10:07receitas de bacalhau que se pode fazer em Portugal.
00:10:09Eu tenho esse livro até hoje lá em casa, mas também para me dar um bocado de aprendizagem
00:10:12também, de não estar só ali também, a massacrar as pessoas, mas também ir atrás
00:10:16da informação.
00:10:17Hoje estive no mercado mais cedo, vi lá um cacau, vi lá outras coisas, lembrei-me,
00:10:21posso levar isso e mostrar também outra, também dar aprendizagem às pessoas que não tiveram
00:10:25o privilégio de vir aqui ou de lá conhecer um cacau.
00:10:28Eu vou buscando um bocadinho do contexto de ir.
00:10:30Eu acho que para qualquer pessoa é fundamental sim um curso.
00:10:36Eu, na minha trajetória, não tive oportunidade porque eu, como te disse, fui para lá imigrante,
00:10:41tinha um objetivo que era pagar a minha passagem primeiro, comecei na Copa, e depois ou eu
00:10:46estudava ou eu trabalhava.
00:10:48E eu, uma pessoa como qualquer outra, tenho que trabalhar porque nós temos que ter um fundo
00:10:53no final do mês com despesas e tudo mais.
00:10:56Então, eu optei e tive pessoas que me ajudaram imenso nisso.
00:11:00Busquei a informação, além do meu marido, do Tiago Bonito, tive também pessoas e chefes
00:11:05que me ajudaram imenso.
00:11:07Tenho grandes referências, como você falou, em hotéis.
00:11:09São chefes que eu levo comigo no meu percurso.
00:11:12Quando abri o meu projeto, deram meus parabéns e me parabenizaram pelo meu objetivo ser alcançado.
00:11:18E acho que isso é muito importante, nós nunca esquecermos das nossas origens,
00:11:22de o que foi o caminho até eu chegar, nesse caso, no meu caso, onde estou nesse momento.
00:11:28E muita gente diz que hotel é uma escola maravilhosa para gastronomia.
00:11:34Você concorda com isso?
00:11:35Sim e não.
00:11:37Eu aprendi bastante.
00:11:39Há sempre promenores diferentes.
00:11:41Por exemplo, um exemplo básico, isso é a minha opinião, atenção.
00:11:45No hotel, nós somos mais pessoas.
00:11:48Num restaurante, tu tens um contato mais direto, que também é bom e mal,
00:11:51mas o contato contém mais direto.
00:11:53Por exemplo, eu falei com você que eu aprendi muito com os chefes que eu passei,
00:11:56mas, ao ver a altura, se você não conseguia estar com esse chefe,
00:11:58eu podia ter aprendido ainda muito mais.
00:12:00Quando estás num restaurante, a equipe é menor.
00:12:03É diferente nesse contexto que eu acho que é positivo no sentido e dos dois lados.
00:12:08No meu ponto de vista, e não só porque tenho um restaurante,
00:12:11também trabalhei em restaurantes antes de chegar no meu,
00:12:13é diferente o tato que você tem, até mesmo com o cliente.
00:12:16Por exemplo, se você está num hotel, você está numa cozinha,
00:12:19você tem outros restaurantes, você tem uma cadeia diferente dentro.
00:12:22Dentro do restaurante, eu falo pelo meu, nós temos um tato e um cuidado com o cliente,
00:12:26um tato mais direto, que eu acho também importante isso.
00:12:29E eu, particularmente, acho que o restaurante é mais legal.
00:12:33E já quero te apresentar um outro produto aqui dessa mesa.
00:12:36Vamos beber uma coisa interessantíssima.
00:12:40Você conhece refrigerante jabuticaba?
00:12:42Não conheço refrigerante, mas eu conheço a jabuticaba.
00:12:46Então, eu quero que você experimente o jabuticabão,
00:12:51que é esse aí com a tampinha roxa.
00:12:53Nossa, que legal.
00:12:54Que é da marca Guaramão.
00:12:56É uma marca de refrigerantes nova aqui em BH.
00:13:01E eles começaram com o Guaramão, que é o que está ali atrás.
00:13:04Ah, tem outras diferenças nesse caso.
00:13:08Que é Guaraná e Limão.
00:13:10E aí, eles aproveitam a época da jabuticaba para fazer o jabuticabão.
00:13:17Então, assim, é um produto que é muito, inclusive, muito nosso.
00:13:20Nossa, é verdade.
00:13:21Eu não consigo levar esse, então, pra mim, né?
00:13:22Porque só quando tem a jabuticaba.
00:13:24Pois é, mas ele tem estoque, viu?
00:13:26Inclusive, Eduardo, obrigada.
00:13:27Obrigada, obrigada por ter enviado pra gente, porque...
00:13:30Provar isso, porque é uma coisa que me chamou muito a curiosidade,
00:13:34porque está chegando agora em Portugal.
00:13:36Deixa eu ver.
00:13:37Obrigada.
00:13:38A polpa da jabuticaba.
00:13:39Ah, então chega jabuticaba em Portugal?
00:13:41É uma coisa que eu vi agora recentemente.
00:13:43Acho que pra aí uns cinco meses, talvez.
00:13:45Pode ser até mais.
00:13:46Eu não estou aqui a falar, porque também pode dar mais tempo.
00:13:48E eu só que tive esse conhecimento agora.
00:13:50Mas, como você disse bem, a jabuticaba tradicional, no Paraná, muita.
00:13:55E melhor que isso deve ser,
00:13:57é a fruta na árvore, né?
00:14:00Sim.
00:14:00Aquela tradição de arrebentar na boca.
00:14:02É tão incrível.
00:14:03É delicioso.
00:14:03E muita gente pergunta em Portugal.
00:14:05Até tem um colaborador meu que me pediu.
00:14:07Vou ter que levar pra ele um bocadinho.
00:14:08Porque conhecem a história.
00:14:10Jabuticaba, jabuticaba, jabuticaba.
00:14:12E não tem o tato de saber o sabor que nós conhecemos bem.
00:14:16Graças a Deus.
00:14:17Sim.
00:14:17Vou provar.
00:14:18E olha que...
00:14:19Olha no cheiro, já.
00:14:20Já mesmo, jabuticaba.
00:14:22Impressionante.
00:14:23Lembra de licores e cenas, não é?
00:14:25Porque...
00:14:25Sim, super.
00:14:27Que legal.
00:14:29O que você achou?
00:14:31Super aprovado.
00:14:32Não é muito doce.
00:14:34É uma preocupação deles.
00:14:36Não tem muito gás.
00:14:37Porque também os refrigerantes e tudo,
00:14:38acho que é uma coisa que cada vez mais também temos o cuidado.
00:14:41Muito saboroso.
00:14:42Ele tá de parabéns.
00:14:43Ai, que bom.
00:14:45Ai, Eduardo.
00:14:45Arrasou.
00:14:47E você fez educação física, não é isso?
00:14:51E chegou a ser jogadora de handball.
00:14:53É verdade.
00:14:54Eu queria entender como que o esporte, você aproveita o que você aprendeu no esporte,
00:15:00numa cozinha profissional, que tem pressão, que tem corrida contra o tempo, que tem tantas
00:15:05coisas, né?
00:15:06É.
00:15:07E atualmente, você consegue ter tempo pra praticar algum esporte?
00:15:11É, gostava de ter mais.
00:15:13Eu já disse a minha colaboradora que veio comigo, a Patrícia, que eu vou ter que fazer
00:15:16muito cardio quando voltar, mas também agora eu vou aproveitar.
00:15:18Pra você perceber, exatamente, eu tava no Brasil, eu joguei handball durante seis
00:15:24anos da minha vida aqui na escola e tudo mais, participei de campeonatos e tudo, foi
00:15:27uma altura muito legal, porque era pra jogar vôlei ou basquete, porque sou alta, início
00:15:33e aquilo, e acabei no handball, e ainda bem, que eu adoro.
00:15:37Entretanto, acabou a parte de não jogas tanto na escola, isso tudo.
00:15:42Eu tinha acabado de prestar vestibular pra ser personal trailer, educação física no
00:15:47sangue, sempre gostei, sempre foi uma coisa que eu gostei muito, e prestei o vestibular,
00:15:53não sabia os resultados ainda, porque era pra ser uma cidade vizinha, ainda assim aquela
00:15:56burocracia de estar morando numa cidade e ter que ir pra outra, os custos, isso tudo,
00:16:00como qualquer outra pessoa analisa a vida.
00:16:03E a maluqueira, entre aspas, da aventura surgiu nesse impasse, com a minha melhor amiga que
00:16:09nós trabalhávamos, eu trabalhava num clube de vídeo, tá vendo, numa colocadora.
00:16:13Gente, que está totalmente em extinção, aliás, nem sei se existe mais.
00:16:17Acho que não, porque no outro dia eu recebi um TBT dessas cenas de passado e tal, e eu
00:16:23falei, meu Deus, eu trabalhava num clube de vídeo, alugar vídeos, as pessoas, as pessoas
00:16:26tinham aquele X hora do dia a seguir pra entregar aquela pressão, e eu a pensar, é que ele
00:16:30vai entregar o DVD, que eu já tenho lista de espera pra alugar aquele DVD, já sofria
00:16:34a pressão, né?
00:16:36E, entretanto, nisso tudo surgiu a aventura, porque, como eu te disse, eu fui com uma amiga,
00:16:42e eu resolvi tudo em um mês e meio, falando na parte de atualmente, sempre gostei, ainda
00:16:48continuo aí ao ginásio, à academia, não com a frequência que eu gostava, porque há
00:16:52outras prioridades, em particular, eu escolhi ser uma chefe, tenho meu espaço, meu restaurante,
00:16:58não me arrependo nada disso, pelo contrário, eu acho que as coisas aconteceram no meu tempo,
00:17:02tudo como eu, e já me perguntaram, e você faria tudo de novo, mudava alguma coisa?
00:17:06Acho que não mudaria o meu discurso e faria exatamente igual, porque eu aproveitei aqui,
00:17:11aproveitei lá, e as coisas têm acontecido, graças a Deus, com altos e baixos, como toda
00:17:15gente tem, acho que não há mundos perfeitos, mas, como a história é muito legal, e é muito
00:17:20legal voltar no meu país a contar isso e abrir as portas pra outras pessoas, que eu acho
00:17:25que tudo é possível, nós também temos que acreditar em nós, você referiu na parte
00:17:28de nós, mulheres também, acho que é importante, não há pra mim a parte de,
00:17:32masculino e feminino, acho que é espaço pra todos, e nós não podemos nos esconder
00:17:36do nosso objetivo e do que nós queremos, eu sou cozinheira, sou chefe, sou dona de
00:17:41casa, tenho um marido, tenho um gato, vivo a minha vida normal, e acima de tudo, como
00:17:46eu disse, eu coloco a minha academia de lado, o meu ginásio de lado, porque tem outras
00:17:51prioridades que foi o que eu escolhi pra mim, corro muitas vezes na cozinha, estresse
00:17:55temos na cozinha, temos muitas adrenalinas e problemas pra resolver, o meu dilema é traga
00:18:00minha solução, não traga problemas que nós já temos, por isso, rapaz, vou digerindo
00:18:05conforme consigo e conforme posso, um pouquinho de cada vez.
00:18:09Ótimo, agora, olha, eu já quero te apresentar um outro sabor mineiríssimo, que estamos
00:18:15falando de giló.
00:18:17Gente, infância também, né?
00:18:19Né?
00:18:20E esse giló, ele é muito interessante, porque ele é empanado, então assim, é um jeito
00:18:25diferente de preparar, de servir, e fica interessantíssimo, crocante, e eu quero que você prove, e ele
00:18:34vem com um molhinho de limão capeta.
00:18:36Muito, limão capeta.
00:18:38Limão capeta, que é o nosso limão.
00:18:39Muito interessante, porque eu sempre comi o giló com arroz.
00:18:44Olha!
00:18:45Fazer o arroz, meter o giló na pimenta, como fazem também com o piqui, certo?
00:18:50E, assim, nunca comi.
00:18:52No caso, lá em Portugal, a gente fala panado, aqui é empanado, ou a gente chama outra forma
00:18:55aqui, acho eu, o nome é...
00:18:58Frito.
00:18:58Frito, só, né?
00:18:59Exatamente, a gente lá fala muito do panado, por causa de ter passado na varinha de rosca.
00:19:03Isso.
00:19:03Eu tô lembrando dos ingredientes.
00:19:05Vendo bem pra aqui pra envergonhar ninguém.
00:19:07E fiquei curiosa, porque não conhecia ele assim, dessa maneira frito, só no arroz.
00:19:12Ah, então, experimente, olha.
00:19:13Por favor, com licença.
00:19:15E aí, olha, põe o molhinho aqui, e ir aproveitando e agradecer a Ju do Arte, o restaurante
00:19:21chama Cozinha Santo Antônio, e é ela que faz essa delícia, que é super interessante,
00:19:27e é um sabor muito mineiro, que vale a pena.
00:19:31Nossa, que legal.
00:19:32Olha que...
00:19:32Não é interessante?
00:19:34Ele tá, é crocante e tudo.
00:19:43Suspense, e aí?
00:19:45Adoro isso com o molho.
00:19:48O citrino aqui encaixa muito bem.
00:19:51O senhor teve uma ideia incrível.
00:19:54É a Juliana do Arte.
00:19:55A Juliana, desculpa, a Juliana tá mesmo aprovado.
00:19:58Sim.
00:19:59Melhor que isso, é ir no restaurante dela provar isso lá, com outras coisas.
00:20:02Acho justo.
00:20:04Muito bom, e obrigada, Juliana.
00:20:06E agora falando do seu restaurante.
00:20:09É em 2018 que você abre o Indiferente.
00:20:12Primeiro, esse nome, porque quando a gente fala de uma vez, dá a palavra indiferente,
00:20:18que aqui pra gente pode dar uma conotação, né?
00:20:20Duas versões, né?
00:20:21Sim, explica esse nome pra gente.
00:20:23É a mesma versão que você começou o contexto disso.
00:20:25In, em inglês.
00:20:26Ou seja, eu sou uma mulher brasileira com o meu projeto no Porto.
00:20:31Eu quis juntar isso pra juntar o inglês, porque o nome é separado, indiferente.
00:20:37Eu não quero que ninguém fique indiferente.
00:20:39É um logotipo que a gente usa muito, como eu brinquei com vocês aqui agora.
00:20:43Mas quero provar, não quero provar, não.
00:20:47Tenho tentado fazer isso, que o nome foi pensado nesse sentido de ser uma brasileira imigrante
00:20:52com o meu projeto lá.
00:20:53Juntando a palavra no inglês com o diferente, foi um bocadinho nesse contexto que nós criamos.
00:20:59Surgiram muitos nomes na altura, que eu já nem me recordo tanto.
00:21:02Mas acho que encaixou perfeitamente, porque eu fiz a história com as pessoas todas que
00:21:07passaram lá.
00:21:08O projeto, como você disse bem, vai fazer agora oito anos, esse ano.
00:21:12Começou devagarinho, um degrau de cada vez.
00:21:15Fizemos muitas mudanças e muitas alterações pra chegar também à frente, depois que vamos
00:21:20falar daqui a pouquinho.
00:21:21Eu comecei com almoços e jantares, eu comecei com uma cozinha básica portuguesa.
00:21:25Depois eu fui juntando a gastronomia portuguesa contemporânea com o toque brasileiro.
00:21:29Sempre tentei.
00:21:30Eu fazia menus do dia, que a gente chama aqui os pratos feitos, o prato do dia.
00:21:34Fazia o quindim, fazia coisas assim, sempre ligadas às nossas origens.
00:21:38E foi crescendo devagarinho.
00:21:41Então, como que hoje você define a cozinha do indiferente?
00:21:45É uma gastronomia, gastronomia, pera desculpa, é um fine dining, uma gastronomia portuguesa
00:21:50contemporânea com toque brasileiro.
00:21:52Eu tenho sempre que posso e consigo, como eu tô a namorar essa jabuticaba, produtos
00:21:57brasileiros um pouco fora do normal, porque hoje em dia já conseguimos ter lá produtos
00:22:02brasileiros, o que é muito bom.
00:22:03Por exemplo, eu falei hoje com uma pessoa da pamonha, era impossível encontrar pamonha
00:22:06no Portugal.
00:22:07Hoje em dia já conseguimos conseguir.
00:22:09Que legal!
00:22:10Temos uma...
00:22:11Tá a crescer muito, isso é muito bom.
00:22:13Tanto pra nós lá, que somos imigrantes e queremos matar a saudade, olha como estamos
00:22:17aqui nessa mesa recheada de produtos, como pra quem tá aqui e tá a conseguir também
00:22:21fazer com que isso chegue lá.
00:22:23Acho que é muito importante isso.
00:22:24E voltando ao contexto que você me perguntou, o indiferente é pouco isso, é um pouco da
00:22:28memória de coisas daqui, é o desafio de apresentar também coisas que as pessoas não conhecem.
00:22:34Eu já tive Copa Sul, nesse momento temos Tucupi na nossa carta.
00:22:39Incrível!
00:22:40E como é que é a reação das pessoas?
00:22:42Tem um sabor muito diferente, né?
00:22:44Olha, eu fico muito feliz que toda a gente aprova.
00:22:46Porque eu, graças a Deus, não posso me queixar, tem um público que entra no indiferente e
00:22:52estão abertos à experiência, que é o que nós queremos propor cada vez mais aos nossos
00:22:57convidados.
00:22:58Eu tenho dois menus de degustação, tenho um menu alacarte na mesma, eu quero que você
00:23:03chegue lá e tenha três opções de coisas pra tentar o máximo possível chegar dentro
00:23:07do que você quer comer e ter a experiência naquela noite.
00:23:11Nós temos um menu dedicado somente ao mar, ou seja, só peixe e marisco.
00:23:16Depois tem um que é, tipo, a contar a história do indiferente, que é o menu indiferente.
00:23:20Depois tem a carta que tem outros pratos que você pode escolher o que você quiser.
00:23:24Sempre algum prato com um toque também aqui das minhas raízes.
00:23:28Ai, que bom.
00:23:29E essas raízes incluem lá, remotamente, na sua infância, no tempo que você viveu
00:23:36no Paraná e também você tem uma passagem por Rondônia, né?
00:23:39Exato.
00:23:40Isso também, de alguma forma, está presente na sua cozinha hoje?
00:23:44Sim, eu tento sempre.
00:23:45Eu tento sempre buscar, por exemplo, agora atualmente temos um prato que é uma sobremesa,
00:23:49nós chamamos de pipoca, que aquilo, olha, vai a parte da criatividade da criação,
00:23:55que eu até pedi a altura de ajudar o meu marido, disse, eu quero ter um sorvete de milho no
00:23:59meu menu.
00:24:01Como é que eu vou fazer isso?
00:24:01Depois lembramos, vamos fazer um picolé, vamos fazer o quê?
00:24:04Vamos fazer o quê?
00:24:04O que criamos?
00:24:05Criamos as recordações das nossas festas juninas, típicas brasileiras.
00:24:09Ah, que incrível.
00:24:10Então nós temos uma pipoca recheada com caramelo salgado e miso,
00:24:14temos um sorvete de gelado, que eles dizem, gelado de milho verde,
00:24:18já temos um algodão doce e uma pipoca doce que vai no prato
00:24:22para recordar as nossas festas juninas aqui do Brasil.
00:24:27É um pouco essa parte que eu não quero nunca deixar, a essência, por exemplo.
00:24:30Fiz agora essas, se calhar para o próximo, quando estou a falar com você aqui da jabuticaba,
00:24:34quero tentar pôr de uma forma a pamonha,
00:24:37não sei se vai ser numa saudação, se vai ser numa entrada ou se vai ser numa sobremesa.
00:24:41As ideias vão surgindo e às vezes a gente não pode também pôr tudo de uma vez,
00:24:44porque também não queremos criar uma extensão muito grande nisso,
00:24:48porque depois também temos que ter coisas para poder criar mais para frente.
00:24:52Já tive uma versão de pão de queijo na nossa saudação.
00:24:54Olha, como que era?
00:24:55Era o pão de queijo, depois era com a goiaba, Romeu e Julieta, estou mentindo.
00:25:00Nós já fizemos o pão de queijo, que era uma espuma de pão de queijo,
00:25:02servida num pane puro e crocante.
00:25:05E o que mais me enche o coração?
00:25:08É ir lá pessoas, não só brasileiras, mas principalmente brasileiras,
00:25:12dizer assim, chefe, eu lembrei-me de um pão de queijo.
00:25:16Tive a feijoada desconstruída, fazíamos uma tartlete,
00:25:20com purê de feijão preto, com barriga fumada,
00:25:22com gel de laranja, uma couve mineira crocante,
00:25:26e as pessoas colocavam uma coisinha assim na boca, adoro.
00:25:29Chefe, eu lembrei da feijoada da minha mãe.
00:25:31Meu Deus.
00:25:33Isso não é dinheiro que pague.
00:25:34Você buscar recordações das pessoas que se sentam lá
00:25:38e criam também no nosso...
00:25:40Eu com a minha equipa ficamos contentes,
00:25:43porque as pessoas que saíram dali vão se lembrar da gente,
00:25:45vão falar da gente, e acontece muitas vezes isso.
00:25:47Eu acho que melhor do que a publicidade é o próprio cliente
00:25:50que se senta lá e partilha a experiência que teve conosco.
00:25:53Com certeza.
00:25:54Muito bom.
00:25:54E nós temos uma clientela repetida muito grande no Indiferente,
00:25:58isso pra mim me alegra demais, muito mesmo.
00:26:00E a Ju do Arte mandou também
00:26:03essas empadinhas que estão aí do seu lado,
00:26:06que são empadinhas de queijo,
00:26:08e tem vó aí nessa história também,
00:26:10porque essa receita da vó dela, vó maroca.
00:26:13Marocas.
00:26:14Então eu vou tirar uma e vou passar uma pra você.
00:26:15Por favor.
00:26:17Com licença.
00:26:17E olha só que delícia essa massa.
00:26:21Gente, é muito legal isso.
00:26:22Pronto, faz lembrar o pastel de nata, né?
00:26:24Lá do...
00:26:25Exatamente, parece muito.
00:26:26Faz lembrar os pastéis de nata.
00:26:28Verdade, o formato, o coradinho aqui em cima, né?
00:26:32Nossa, que legal.
00:26:33Parece muito.
00:26:34E é delícia.
00:26:35É cozinheiro, né?
00:26:36Cheira tudo.
00:26:36Tem que gerar.
00:26:38Tá muito, muito, muito gostoso o cheiro.
00:26:40Nossa, é um queijo do cerrado.
00:26:42Olha aqui, que delícia.
00:26:44É isso mesmo, o queijo do cerrado.
00:26:46É uma massa quebrada.
00:26:48Sim.
00:26:48Que bom.
00:26:49Que aqui a gente chama de massa podre, né?
00:26:51É isso, massa podre, massa quebrada.
00:26:53Sim.
00:26:53Ai, adoro.
00:26:54Eu também amo.
00:26:54Senti agora porque mastiguei.
00:26:56Não, e tá mesmo a desfazer, a típica é mesmo assim,
00:26:58tem que se desfazer como se fosse uma farofa, né?
00:27:00Sim.
00:27:01Muito bom, muito bom.
00:27:02E ela assou lá e mandou pra gente, assim, fresquíssima.
00:27:06Incrível.
00:27:06Maravilhosa, né?
00:27:07E nota-se que tá mesmo fresco.
00:27:09Obrigada por esse miminho.
00:27:11E você falou de pastel de nata, eu achei muito interessante de ver a sua versão do pastel de nata,
00:27:19porque ao mesmo tempo que você fala que você leva o Brasil pra lá,
00:27:23também você reinterpreta pratos tradicionais, né?
00:27:27Exato.
00:27:27A culinária portuguesa.
00:27:29Então, me conta um pouco de como é que foi essa ideia do pastel de nata.
00:27:33Isso surgiu, e também não tem problema em dizer isso, porque lá está o meu marido,
00:27:37um ótimo criador também nisso, nós falamos muitas vezes sobre isso.
00:27:41Uma vez fizemos um evento e queríamos fazer uma sobremesa fora da caixa.
00:27:44E falava-se muito na altura dos fundans, fundans, fundans, fundans de abóbora,
00:27:47fundan de chocolate, os petits gâteaux, cada pessoa falando do mesmo prato dos nomes
00:27:54com pequenos pormenores diferentes.
00:27:57E então, foi um evento de café, e o Tiago falou, olha, vou fazer um pastel de nata.
00:28:02E olha, se fazemos assim, se fazemos assado.
00:28:04E ficou isso.
00:28:05Só que aquele pastel de nata já levou, graças a Deus, muita mudança.
00:28:10Cada vez que a gente...
00:28:11Já é um clássico do indiferente.
00:28:13Desde que abri as portas do indiferente, o pastel de nata faz parte.
00:28:15Era uma maneira mais simples, e a gente foi aperfeiçoando.
00:28:18Faz parte do percurso do indiferente também.
00:28:20Como eu te disse, nós começamos de uma forma,
00:28:22e depois fomos adaptando e crescendo devagarinho.
00:28:27E depois, quando abrimos o indiferente, em 2018,
00:28:30o Tiago e eu, como nós tínhamos a conversar,
00:28:33tipo, as primeiras sobremesas que vamos pôr na carta,
00:28:35essa dinâmica toda de criar um menu e isso tudo,
00:28:38ele, acho, deveria ter aqui o pastel de nata.
00:28:39Acho que ia ser uma coisa legal para o projeto,
00:28:42você falar do pastel de nata, e colocamos e está lá até hoje.
00:28:46Muito legal.
00:28:47E é legal que nós fizemos ele de uma maneira de petit gâteau, de fundans,
00:28:50que tem os acompanhamentos a lembrar a ideia do pastel de nata
00:28:54servido nas ruas tradicionais lá de Portugal.
00:28:56Vamos buscar sempre o acompanhamento da canela,
00:28:59não como ele é servido no típico.
00:29:02Então, fazemos ele quentinho na mesma,
00:29:04mas depois tem o gelado para quebrar ali o...
00:29:06Passei indiferente, né?
00:29:08Passei diferente dos outros, fizemos nesse contexto.
00:29:11E faz muito sucesso.
00:29:12Tem clientes que dizem, não tire, chefe,
00:29:14eu vim aqui para o pastel de nata.
00:29:15Mas pronto, acho que é legal também criarmos a nossa história.
00:29:18Sim, delícia.
00:29:20E qual prato que você acha que hoje te representa mais,
00:29:23representa mais a sua cozinha?
00:29:26Não sei.
00:29:27Eu acho que todos têm um pouquinho do que eu penso e quero fazer.
00:29:32É como eu te dizer...
00:29:33Por exemplo, um exemplo para trás.
00:29:35Tive a muqueca.
00:29:37Eu gosto sempre de ter isto num conceito de que não esquecer a minha origem.
00:29:42Não tem um prato assim, ah, este é a minha cara,
00:29:44porque eu quero também manter no indiferente o que eu aprendi em Portugal,
00:29:49que é a gastronomia portuguesa.
00:29:51Por exemplo, nesse momento eu tenho o Tucupi,
00:29:52mas também tenho o Bacalhau.
00:29:54Eu acho que não há um que interprete, que diga assim,
00:29:56ah, esta é a cara da Angélica, esta é a da Angélica,
00:29:59mas o que a chefe Angélica quer é isso,
00:30:01é preservar e manter as coisas tanto típicas de lá,
00:30:05que é o país que me acolheu,
00:30:06mas também, juntando o meu, acho que faz um casamento perfeito.
00:30:10Eu tenho, por exemplo, o que eu te disse do Tucupi,
00:30:13na altura que a gente colocou, vamos fazer isso como?
00:30:16E criamos uma maneira com o peixe de lá, que é o robalo,
00:30:19e acho que é um casamento perfeito.
00:30:22As pessoas, Tucupi, eu quero provar, é aquela parte disso,
00:30:25as pessoas têm curiosidade disso,
00:30:26e acho que é legal você mostrar isto,
00:30:29mas não esquecer também do bonde lá,
00:30:31que temos uma mesa farta aqui,
00:30:34e lá também temos coisas tão boas,
00:30:35e coisas tão...
00:30:36que eu também quero que esteja presente na minha cozinha,
00:30:38no meu restaurante.
00:30:39Ótimo.
00:30:39Olha, vamos fazer uma pausa rapidinho aqui.
00:30:42Eu quero mostrar as matérias que a gente publicou
00:30:45nas últimas semanas aí, no nosso caderno impresso.
00:30:49Ok.
00:30:49Essa matéria aqui, a gente fala dos azeites mineiros,
00:30:52depois você tem que conhecer bem, viu?
00:30:54Ok.
00:30:54Porque a gente conta aqui que a safra de 2026
00:30:57foi super proveitosa,
00:31:00e inclusive tem rendido prêmios internacionais
00:31:03para as nossas marcas.
00:31:04Que bom!
00:31:05Então, assim, estamos num ótimo momento aí
00:31:07dos azeites mineiros.
00:31:09E nessa outra matéria aqui,
00:31:12a gente faz uma entrevista super legal
00:31:13com a chefe Manu Bufara,
00:31:15que é paranaense também.
00:31:17Olha a coincidência, hein?
00:31:18Falei nela hoje.
00:31:19É.
00:31:20Não foi planejado trazer essa edição.
00:31:23E olha isso.
00:31:24E a Manu Bufara, ela assina um dos menus
00:31:27de uma companhia aérea lá dos Estados Unidos,
00:31:30da United Airlines,
00:31:31e ela fala um pouquinho de como é que é o desafio
00:31:34de criar um menu para avião,
00:31:36que não é fácil, né?
00:31:37Outra estrutura, outra logística, outra história, né?
00:31:41Então, ela conta para a gente um pouco mais sobre isso.
00:31:44Ela é uma admiração para mim também.
00:31:46Que legal.
00:31:46É que você está falando aqui de concorrentes,
00:31:48de, desculpa, de pessoas também daqui do Brasil.
00:31:52E o que eu falo com isso?
00:31:54Eu tive o privilégio de conversar com ela
00:31:57já duas ou três vezes.
00:31:58Ela é de Curitiba,
00:32:00e até deixei o convite para eu ir de frente
00:32:01a cozinhar comigo,
00:32:02que acho que ia ser uma coisa mesmo fora da caixa.
00:32:04Muito.
00:32:05Nossa, muito legal mesmo.
00:32:06Eu acho que ela é uma pessoa simples, querida,
00:32:09e falei nela hoje porque tive esse privilégio
00:32:12de falar com ela pessoalmente.
00:32:13E então, olha, calhou bem a nossa conversa.
00:32:16Sim.
00:32:17Pessoas da mesma cidade que eu, não é?
00:32:18Eu não é no mesmo estado nesse caso.
00:32:20Ela é de Curitiba, eu sou de Engenheiro Beltrão.
00:32:22E na altura até falamos por causa disso,
00:32:23de sermos no mesmo local.
00:32:25Eu acho que, se eu não me engano,
00:32:25ela até está agora com um projeto também em Portugal,
00:32:27lá perto da gente.
00:32:28Está uma coisa também a começar,
00:32:29ou já começou, não tenho certeza,
00:32:31não quero estar a falar sem saber,
00:32:32mas admiro imenso.
00:32:34Ah, que bom.
00:32:34Assim como o Alex Atalo.
00:32:36Sim, também é um grande ícone, né?
00:32:38E outros mais, não vou estar aqui a referir, mas...
00:32:40São muitos.
00:32:41São muitas pessoas também da nossa culinária,
00:32:43que é o que eu ia dizer,
00:32:44da culinária brasileira,
00:32:45pô, que engasguei-me aqui.
00:32:47Eu acho que é muito, muito importante
00:32:48e fico feliz que, assim como eu,
00:32:50também está a levar para fora
00:32:52o que tão de positivo nós temos aqui no Brasil.
00:32:55Sim.
00:32:56E dá para perceber sua mistura
00:32:58no sotaque, né?
00:32:59Totalmente.
00:32:59Porque você tem ainda o paranaense,
00:33:02mas ao mesmo tempo você tem o português de Portugal, né?
00:33:05Então é uma mistura boa, né?
00:33:07Sabe que já são 20 anos,
00:33:09e é convê com português, né?
00:33:10A minha mulher é português, por isso.
00:33:12Não tem jeito, pega mesmo, né?
00:33:14Não, não, não.
00:33:14Já não sai.
00:33:15Mas o brasileiro está no sangue.
00:33:18E agora eu quero partir aqui
00:33:20para essa tábua de queijos,
00:33:22porque aqui a gente tem assunto
00:33:23para essa tábua, né?
00:33:25Está cheirando muito bem, né?
00:33:26Voltamos aqui ao cheirinho maravilhoso
00:33:28que está aqui.
00:33:29Então eu vou puxar essa tábua.
00:33:30Deixa eu te ajudar.
00:33:32Aí, olha, é o queijo belo,
00:33:34o João que mandou para a gente,
00:33:36ele é um produtor maravilhoso,
00:33:38ele trouxe quatro variedades,
00:33:40eu estou com a minha colinha aqui
00:33:41para ajudar a gente, tá?
00:33:42Porque são quatro queijos,
00:33:44eles são da região do Cerrado,
00:33:47e a gente tem dez regiões aqui em Minas
00:33:49que fazem o queijo Minas Artesanal,
00:33:51que tem esse selo,
00:33:53que aí é um queijo feito com o pingo,
00:33:56o leite cru, o pingo que é o fermento,
00:33:58coalho e sal.
00:34:00Então, aqui você está comendo
00:34:02um legítimo queijo Minas Artesanal
00:34:05da região do Cerrado.
00:34:07Nossa, que legal.
00:34:08Que privilégio, obrigado, João.
00:34:10E aqui, a gente tem,
00:34:13a gente vê que o mesmo produtor,
00:34:15com o mesmo terroir,
00:34:16ele consegue fazer queijos muito diferentes.
00:34:19Diznamizar muita variedade.
00:34:21Então aqui a gente tem,
00:34:22esse com a casca mais escura,
00:34:24é o Manuel, feito com carvão.
00:34:27Ok.
00:34:28E aí, o queijo belo,
00:34:30que é esse menorzinho,
00:34:31ele é inspirado nos queijos franceses
00:34:33de casca lavada.
00:34:36Esse aqui é o Lísia,
00:34:37ele é de casca lavada também,
00:34:41também cremoso por dentro,
00:34:43e o Zenith,
00:34:44que é o de lá,
00:34:46também é casca lavada
00:34:47e maturado duas vezes.
00:34:49Então, temos aqui uma diversidade boa, né?
00:34:52Muito pra provar.
00:34:53Então, olha,
00:34:54vamos pegar um pedacinho de cada
00:34:56pra gente provar.
00:34:56Experimentarmos, não é?
00:34:57E eu quero que você tenha
00:34:58essa super experiência com os nossos queijos,
00:35:01que, não sei se você sabe,
00:35:03mas os nossos queijos
00:35:04são patrimônio da humanidade.
00:35:06Ok.
00:35:07Então, aqui a gente tem
00:35:08um produto que tem muita história
00:35:11e tem muito da nossa identidade.
00:35:13Eu acho que é mesmo a cara de Minas, né?
00:35:15É impossível não falar
00:35:16e não falar do queijinho de Minas.
00:35:18Sim.
00:35:19É muito, como você disse,
00:35:20é mesmo a vossa identidade,
00:35:21é mesmo a vossa cara.
00:35:23Demais.
00:35:23Então, vamos lá.
00:35:26Pegar um de cada aí.
00:35:28Esse aqui.
00:35:28A gente vai pegar o de carvão primeiro.
00:35:29Vamos, vamos no de carvão.
00:35:33Delícia.
00:35:35Delicado, né?
00:35:35Muito delicado, suave, muito bom.
00:35:38Muito bom.
00:35:39Eu só gostava que as pessoas sentissem o cheiro.
00:35:41Não só chega...
00:35:42Mas tá, o fado de cozinheiro.
00:35:44É muito bom, muito bom mesmo.
00:35:46Muito bom.
00:35:47Esse aqui que eu já peguei um pedaço
00:35:48é o Lise.
00:35:49Você tá comendo qual agora?
00:35:50Eu acho que a gente vai comer...
00:35:51O Zenith.
00:35:53Zenith.
00:35:53Então, eu vou pegar...
00:35:54O do Zenith.
00:35:55Ah, ele já é bem mais cremoso, né?
00:35:56Muito mais cremoso.
00:35:59Muito bom.
00:36:01E esse saborzinho,
00:36:02que ele vem mais assim pro forte,
00:36:04mas um forte equilibrado.
00:36:05Tá muito bom.
00:36:07Muito bom.
00:36:08Agora, você tem o Lise, não é?
00:36:09Dá-me um pedacinho do Lise.
00:36:11Esse, vou pegar aqui.
00:36:12Esse também.
00:36:13A gente prova em sintonia.
00:36:14Isso.
00:36:15Olha, já mais durinho este.
00:36:17Hum.
00:36:21Delícia.
00:36:22E ele já tem um sabor um pouco mais...
00:36:25E é mais...
00:36:26Exatamente.
00:36:27Mais tenso.
00:36:28Mas também...
00:36:29Muito gostoso.
00:36:31E agora, o último aqui é o Belo.
00:36:33O último eu já peguei, já peguei.
00:36:33O Belo tá aqui.
00:36:34Já pegou.
00:36:36Ele que não me pergunte agora qual é o melhor.
00:36:38Eu não tenho resposta, porque são todos bons.
00:36:41Aquelas perguntas difíceis.
00:36:42Não é?
00:36:43Não tem que escolher um.
00:36:43Qual que você gostou mais?
00:36:45Difícil.
00:36:46Não, não tem um.
00:36:46São todos.
00:36:47E pra cada um também vai ser pra uma ocasião.
00:36:49Claro.
00:36:49Pra uma harmonização.
00:36:51A combinação.
00:36:51Exatamente isso.
00:36:52Quer dizer, imagina...
00:36:53Você vai pra um café, se vai pra um vinho, se vai pra um...
00:36:56Como você disse, depende do que vai acompanhar.
00:36:58O momento.
00:36:59Se é um...
00:37:00Estamos a fazer aqui agora.
00:37:01Se você tá num jantar.
00:37:02Se você tá só num petiscozinho entre amigos.
00:37:05Ele tem aqui tudo pra casar.
00:37:07Em todas essas situações que nós fizemos agora.
00:37:09Mas a gente não perde em nada pros queijos de Portugal, não é?
00:37:13Fala a verdade.
00:37:14É, ela tem uma variedade bem grande.
00:37:17Mas estamos bem servidos aqui de queijo, né?
00:37:19Sim, sim, sim.
00:37:20Eu acho que é como eu falei há pouco sobre...
00:37:21Acho que há espaço pra tudo, né?
00:37:23É uma diversidade tão grande.
00:37:24Eles também tem lá uma grande, grande variedade de queijo.
00:37:28Eu não vou deixar de levar um queijo Minas, né?
00:37:30Porque...
00:37:31Por favor, né?
00:37:32Ah, já tá tratado.
00:37:34Você vai ter que comprar uma mala extra, talvez, aí pra caber tudo.
00:37:37Já veio mesmo por isso.
00:37:39Porque eu até vim com bagagem, mas vim com uma já a mais.
00:37:41Que é pra aproveitar.
00:37:42Porque a probabilidade de isso acontecer novamente, a gente não sabe.
00:37:46Mas acho que é aproveitar ao máximo.
00:37:47E, afim, é o cabo que estamos a fazer aqui agora, né?
00:37:50Estamos a partilhar as coisas com as pessoas.
00:37:52E acho que é importante levar um pedacinho de Minas.
00:37:55Não só no coração, mas também pra degustar lá pras pessoas mais próximas.
00:37:58Ai, que bom.
00:37:59E agora vamos falar de Estrela Michelin.
00:38:02Você, então, é a primeira brasileira a ganhar uma estrela fora do Brasil.
00:38:06E a quarta mulher em Portugal também a ter esse reconhecimento.
00:38:11Como que você se sente marcando mesmo a gastronomia dos dois países?
00:38:18Tanto o Brasil quanto o Portugal?
00:38:20Olha, isso é uma mistura positiva de sentimentos.
00:38:24Não vou esconder isso de mim, é porque eu não escondo.
00:38:26Eu sou muito transparente nisso.
00:38:29Na realidade, eu, como te disse, o percurso de frente foi crescimento, foi coisas de mudança.
00:38:36São desafios que a gente não sabe se vai ser ou não positivos.
00:38:40Mas, quando abrimos o projeto, tivemos logo o reconhecimento do guia pelo Bibi Gourmand,
00:38:44que é um prêmio que eles dão nos restaurantes para estarmos no livro, para sermos recomendados,
00:38:49que é preço, qualidade e serviço.
00:38:51E ficamos durante muito tempo nisso, durante, salvo erro, seis anos, exatamente.
00:38:57Ficamos seis anos com esse prêmio sempre a renovar, sempre a manter,
00:39:01que acho que também faz parte de mantermos as coisas e querer.
00:39:03E fomos evoluindo sempre.
00:39:05Isso tudo para chegar ao contexto do que você me perguntou.
00:39:07E, depois do Bibi Gourmand, passamos, no ano anterior, a estrela recomendado,
00:39:12que já sobe um pouquinho mais a categoria em nível de serviço, preços mais altos,
00:39:17e essas coisas todas, também para as pessoas perceberem um pouquinho,
00:39:19porque, às vezes, as pessoas não têm noção disso,
00:39:21e eu também não sou a melhor pessoa para falar nisso,
00:39:22mas o pouco que eu percebo, no sentido de que as pessoas perguntam
00:39:26como é que se faz para ganhar uma estrela.
00:39:28Eu não sei como é que se faz para ganhar uma estrela, entre aspas,
00:39:31mas sei que a nossa dedicação, a nossa evolução,
00:39:34fez tudo parte desse percurso comigo no indiferente.
00:39:37Estamos a falar do que eu estou dizendo, estou dizendo e contando a minha história.
00:39:41Então, talvez de quatro anos para cá, essa evolução, sim, pós-pandemia, talvez,
00:39:47fizemos mudanças que também, ah, você queria, claro que eu queria,
00:39:51mas também não morria por causa daquilo, porque também acaba-se ter uma obsessão muito grande.
00:39:57Eu, particularmente, também tive ali uma fase na minha carreira profissional
00:39:59que ficava naquela, estou bem, estou mal, porque nós somos seres humanos,
00:40:03atrás da Angélica e da Chefe, também tem uma pessoa que fica pensando,
00:40:06será, será, será?
00:40:08Então, eu e minha equipa fomos evoluindo.
00:40:11No entanto que eu tinha um restaurante aberto, almoço e jantar,
00:40:14passei a fazer só jantares, porque eu tinha menus executivos,
00:40:18os pratos do dia que a gente fala aqui, lá estão os desafios.
00:40:22Se eu tirar, o que é que isso vai me compensar?
00:40:24Então, eu criei estratégias no sentido de que eu vou fechar os almoços,
00:40:28mas eu vou abrir os jantares, mas eu tenho que dar experiência
00:40:31a essas pessoas que vêm cá jantar.
00:40:33E a parte da evolução, que eu acho que é muito importante também
00:40:36partilhar isso com as pessoas que estão nos ouvindo e nos vendo nesse momento,
00:40:39porque é importante isso.
00:40:42Os desafios são feitos, dá um frio na barriga, dá um medo,
00:40:45é meu, o projeto, essas coisas todas acontecem.
00:40:49E eu sempre o fiz com pessoas do meu lado que acreditaram comigo.
00:40:52Eu não trabalho sozinha, eu estou aqui hoje com uma pessoa a acompanhar-me da minha equipa,
00:40:56mas o meu restaurante está aberto lá em Portugal.
00:40:58Tem pessoas que são completamente competentes para manter as coisas.
00:41:01São pilares, cada uma das suas funções.
00:41:04Não só hoje, mas para trás, para isso tudo acontecer.
00:41:06E então, fiquei muito triste porque eu fui para Madeira,
00:41:09que é na ilha de Portugal, para receber o prêmio.
00:41:12A minha equipa estava lá a comemorar e eu não podia,
00:41:15mas lá está, trouxe o prêmio para nós.
00:41:17Mas voltando um pouquinho atrás,
00:41:19foi evoluções que nós fomos fazendo
00:41:22e ouvíamos sempre dos nossos clientes a dizer
00:41:24vocês têm mérito de ter uma estrela,
00:41:26vocês...
00:41:26E a gente sempre naquela expectativa,
00:41:28porque é como eu te disse,
00:41:30essa parte minha que eu criei o meu bichinho é tipo,
00:41:31se os clientes falam, por que nós não conquistamos?
00:41:33O que está a falhar?
00:41:34O ser humano, né?
00:41:35A falar aqui.
00:41:37Mas comecei a focar mais nisso.
00:41:39Olha, se tiver que acontecer, vai acontecer.
00:41:41Se não tiver que acontecer, vamos continuar a estar aqui na mesma.
00:41:44E aconteceu.
00:41:45Graças a Deus, esse ano,
00:41:47conquistei a minha primeira estrela no mexilão com a minha equipa.
00:41:50Voltei e falei para eles exatamente o que acabei de dizer agora.
00:41:53Vamos continuar a fazer exatamente igual,
00:41:55porque esse que nós fizemos foi o que nos trouxe
00:41:57aonde nós estamos agora.
00:41:59Vamos melhorar o que a gente conseguir,
00:42:01mas também com a calma e sem dar tiros no pé.
00:42:04Por quê?
00:42:05Já quer a segunda estrela?
00:42:06Não, eu não quero a segunda estrela.
00:42:07As pessoas perguntam,
00:42:08então, e agora?
00:42:08É a segunda estrela?
00:42:09É normal as pessoas perguntarem,
00:42:10não só a mim,
00:42:11os meus colegas também perguntam.
00:42:13Mas eu acho que é muito importante,
00:42:16eu vou dizer o que eu disse aqui já duas ou três vezes,
00:42:18nós nunca esquecermos também de onde a gente veio.
00:42:20Com calma,
00:42:21e quando tiver que acontecer, acontece.
00:42:23Foi uma noite incrível.
00:42:25Eu estava a comemorar a estrela Michelin do meu companheiro.
00:42:28Pois é,
00:42:29é super interessante isso,
00:42:30porque vocês dois receberam a estrela na mesma noite.
00:42:35Exatamente.
00:42:35E isso é inédito também,
00:42:37um casal de chefes que ganhou uma estrela Michelin.
00:42:40Isso é muito significativo também,
00:42:43e eu quero aproveitar até e puxar um pouco
00:42:46essa sua relação com ele,
00:42:48entender,
00:42:49assim,
00:42:49que você contou que ele está com você desde o início.
00:42:52A importância dele nessa sua trajetória,
00:42:55e ele é aquela pessoa, então,
00:42:57que você recorre sempre que precisa.
00:43:00Sim, sim.
00:43:00O projeto é nosso,
00:43:02porque é meu e dele,
00:43:03somos casados,
00:43:04somos juntos,
00:43:05o Tiago trabalha por conta do outro,
00:43:08mas o indiferente é meu e do Tiago,
00:43:10por isso eu sou a chefe de cozinha,
00:43:12a proprietária na frente,
00:43:13ele me ajuda,
00:43:14mas quem está lá sempre,
00:43:16nos dias todos, sou eu.
00:43:18E nesse projeto que o Tiago começou agora,
00:43:20há dois anos,
00:43:22também com os objetivos,
00:43:23porque ele já tinha estado num outro espaço
00:43:25com a estrela Michelin,
00:43:26para ele, entre aspas,
00:43:27eu sempre brinquei com ele sobre isso nos bastidores,
00:43:29tu já sabes o que é uma estrela,
00:43:30ainda não sei,
00:43:31como é que é,
00:43:32isso que é,
00:43:33tipo,
00:43:33coisas assim,
00:43:34normais e positivas,
00:43:36e ele,
00:43:37ah,
00:43:37tomara que um dia consiga,
00:43:38e também sempre acreditou também,
00:43:39assim como a equipa,
00:43:40nunca tive pessoas que não,
00:43:41ó chefe,
00:43:42o fulano falou isso,
00:43:43ó chefe,
00:43:43os clientes falaram isso,
00:43:44é muito bom quando você tem isso,
00:43:45que ao mesmo tempo,
00:43:47que é como eu te disse,
00:43:47é bom ou é mal,
00:43:48porque tu crias uma expectativa,
00:43:50sabe,
00:43:50estás a melhorar coisas também,
00:43:52para crer mais no teu,
00:43:53como qualquer outra profissão,
00:43:55e voltando ao contexto do Tiago,
00:43:58fomos para a gala,
00:43:59nós os dois,
00:44:00naquela noite na Madeira,
00:44:02e como eu te disse,
00:44:03foi isso,
00:44:03depois o que aconteceu,
00:44:04ele teve um prêmio antes,
00:44:05porque ele trabalha num hotel,
00:44:07teve um prêmio antes,
00:44:09num,
00:44:10dos restaurantes,
00:44:11e ele voltou para a cadeira do meu lado,
00:44:13e diz-me assim,
00:44:13nunca vou me esquecer,
00:44:15pronto,
00:44:15já fui uma vez ao palco,
00:44:16já não volto,
00:44:18e eu calma,
00:44:18que a noite ainda não acabou,
00:44:19porque eu sou a positiva sempre,
00:44:22em vez de continuar a ser sempre,
00:44:24e começou a premiação,
00:44:26e tudo mais,
00:44:26eu conto isso com muito orgulho,
00:44:27e depois disseram o nome dele,
00:44:29por quê?
00:44:29Porque eles dão a premiação,
00:44:30pelo nome dos restaurantes,
00:44:32então é por ordem alfabética,
00:44:33o restaurante dele é antes do nosso,
00:44:35ou seja,
00:44:36foi o dele,
00:44:38foi o de um colega nosso,
00:44:39lá do Porto,
00:44:39depois vem o meu,
00:44:40então ele estava no palco,
00:44:41que eu estava um escândalo,
00:44:43foi mesmo uma noite surreal,
00:44:45você não esperava?
00:44:46Não,
00:44:47eu vou te explicar,
00:44:47toda gente pergunta isso para nós,
00:44:49nós não sabíamos,
00:44:50e ninguém sabe,
00:44:52nunca sabemos,
00:44:52porque falam que é isso,
00:44:54falam que é aquilo,
00:44:55e você nunca,
00:44:55isso é como um futebol,
00:44:57você está jogando,
00:44:58e só no final que você sabe o resultado,
00:45:00entre aspas,
00:45:01uma comparação,
00:45:03mas é uma realidade,
00:45:03a gente não sabe mesmo,
00:45:05nós temos sinais,
00:45:06nós sabemos que recebemos,
00:45:07supostamente visitas,
00:45:08nós temos essa cena,
00:45:10não é um filme do Ratatouille,
00:45:11mas é quase,
00:45:12tem aquelas expectativas de suspense,
00:45:14e tal,
00:45:15mas eu não sabia,
00:45:17estava na madeira com ele,
00:45:18almoçar,
00:45:19nunca vou me esquecer,
00:45:19chegou uma jornalista para nós,
00:45:21e perguntou assim,
00:45:22então,
00:45:22vocês vão ganhar a estrela hoje?
00:45:24E você responde,
00:45:25não sei,
00:45:26espero que sim,
00:45:27não é,
00:45:27mas não sabe,
00:45:28e o Tiago responde a ela,
00:45:30os envelopes já estão fechados,
00:45:31agora também não há nada a fazer,
00:45:33é hoje à noite o prêmio,
00:45:35e é verdade,
00:45:36não sabíamos,
00:45:37sabíamos que tínhamos convite,
00:45:38que tínhamos que estar lá,
00:45:39e que tínhamos que ser convidados,
00:45:41e então,
00:45:41chamou o nome dele,
00:45:42e eu estou lá a vibrar,
00:45:43toda feliz,
00:45:44emocionada,
00:45:45chamou o outro colega,
00:45:47passado quatro minutos,
00:45:48chamou indiferente,
00:45:49esquece,
00:45:49aquilo foi,
00:45:50foi lindo,
00:45:52imagino,
00:45:53essa explosão de sentimentos,
00:45:55e ele emocionado pelo dele,
00:45:57emocionado pelo nosso,
00:45:59e eu disse,
00:46:00na noite,
00:46:02eu até agradeci,
00:46:02porque como eu te disse,
00:46:03a minha equipe estava a trabalhar toda naquela noite,
00:46:06agradecia a eles,
00:46:06ainda bem que o microfone
00:46:07veio parar na minha mão,
00:46:08eu fiquei mesmo muito feliz,
00:46:09porque acho que era importante partilhar isso,
00:46:11os projetos são feitos de pessoas,
00:46:13a gente não faz nada sozinho,
00:46:14e entretanto,
00:46:16ele e eu a falarmos,
00:46:18fizemos,
00:46:18graças a Deus,
00:46:18marcou um imenso,
00:46:19por causa de ser o primeiro casal juntos,
00:46:22e naquela noite,
00:46:23eu disse,
00:46:23e volto a dizer,
00:46:24foi uma noite de felicidades a dobrar,
00:46:26tanto pelo lado dele,
00:46:27pelo meu lado,
00:46:28pelo lado pessoal,
00:46:29pela nossa carreira,
00:46:30emociona um bocado,
00:46:31acho que não,
00:46:32eu não sei agora falar,
00:46:32porque é,
00:46:34pá,
00:46:35é o que eu disse,
00:46:35amor,
00:46:36ninguém nos tira,
00:46:36graças a Deus conseguimos,
00:46:38conquistamos,
00:46:38e vamos aproveitar o que puder,
00:46:39olha,
00:46:40o que aconteceu naquela noite,
00:46:41trouxe-me aqui hoje,
00:46:42por exemplo,
00:46:42sim,
00:46:43olha que legal,
00:46:44é,
00:46:45mais um motivo de felicidade,
00:46:47qual era a probabilidade,
00:46:48se calhar,
00:46:48de eu vir a Minas Gerais,
00:46:49estar aqui com uma mesa recheada com pessoas,
00:46:52e,
00:46:52momento de partilha,
00:46:54e fico muito grata,
00:46:55pela vida ter me proporcionado isso,
00:46:57com as pessoas que estão comigo,
00:46:58que bom,
00:46:59então vamos continuar,
00:47:00seguindo os passos aqui nessa mesa,
00:47:02agora a gente vai para a parte doce então,
00:47:04oba,
00:47:04né,
00:47:05você gosta de doce,
00:47:06muito,
00:47:06ah,
00:47:06então vamos lá,
00:47:07então,
00:47:08olha,
00:47:08nós temos ali,
00:47:09aquele canudinho ali,
00:47:12recordação de aniversário,
00:47:14né,
00:47:14é irresistível,
00:47:16não é,
00:47:17você falou da minha avó,
00:47:18nós fazíamos o doce,
00:47:19fazíamos o salgado com a maionese,
00:47:22ah,
00:47:23interessante,
00:47:24a nossa maionese típica brasileira de servir,
00:47:26lá em Portugal temos as,
00:47:28ah,
00:47:29eu esqueci agora o nome,
00:47:30vou já lembrar,
00:47:31nós fazemos uma igual,
00:47:31quase,
00:47:32que é com a maçadona de legumes,
00:47:34fazemos lá,
00:47:35e a nossa maionese aqui,
00:47:36que nós servimos no domingo,
00:47:38a minha avó recheava o canudinho no aniversário,
00:47:40para as crianças,
00:47:40para fazer isso,
00:47:42delícia,
00:47:42ou seja,
00:47:43temos aqui uma recordação,
00:47:44mas lá está,
00:47:45outra infância da Angélica,
00:47:47ai,
00:47:48que delícia,
00:47:48então,
00:47:48olha,
00:47:49viva aí essa infância,
00:47:50vamos no canudinho,
00:47:50eu vou partilhar então com você,
00:47:52e,
00:47:52é uma casquinha,
00:47:54super crocante,
00:47:55gente,
00:47:55isso aqui é delicioso,
00:47:56né,
00:47:57eu vou te ser sincera,
00:47:58isso não dá para comer só um pedacinho,
00:48:00a gente comia um logo desse,
00:48:01pois é,
00:48:02é difícil comer só um pedaço,
00:48:04né,
00:48:04e é incrível isso,
00:48:05é uma massa,
00:48:06que foi frita,
00:48:07foi feita,
00:48:07né,
00:48:08mais cedo,
00:48:08e ela continua crocante,
00:48:10sim,
00:48:10é incrível,
00:48:11mesmo recheada,
00:48:12mesmo recheada,
00:48:13que é o doce úmido e tudo mais,
00:48:15mantém aqui a crocância,
00:48:15vai estar,
00:48:16eu vou até pôr aqui o prato,
00:48:17que isso não vai acontecer como a pouco,
00:48:18vai se desmanchar tudo,
00:48:20assim que é gostoso,
00:48:22e aproveitando,
00:48:23agradecendo ao Augusto,
00:48:24que mandou para a gente os doces,
00:48:26ele é da Rapa do Tacho,
00:48:27que é uma loja que fica no Mercado Novo,
00:48:29que é o mercado que a gente tem aqui em BH,
00:48:32que ele é diferente do Mercado Central,
00:48:35que você já conheceu,
00:48:36mas ele,
00:48:38há pouco tempo,
00:48:39ele foi reocupado por muitos negócios de gastronomia,
00:48:43então assim,
00:48:43é um polo bem interessante que a gente tem,
00:48:45e eu sugiro que você vá conhecer essa loja,
00:48:47porque lá,
00:48:49eles têm o fogo no chão,
00:48:52o tacho,
00:48:53e eles fazem o doce lá,
00:48:54então você pode ver a produção do doce.
00:48:57Vou tentar ir lá,
00:48:58porque já tinham me recomendado antes disso.
00:49:00Que eu acho que assim,
00:49:01é uma cena muito linda de ver,
00:49:04sabe,
00:49:04eu acho que também diz muito sobre a gente,
00:49:07sobre Minas.
00:49:07Ok, ok.
00:49:08Então eu acho que vale a pena...
00:49:09Eu estive no Central,
00:49:10como você disse,
00:49:11e há pouco me falaram desse,
00:49:12olha,
00:49:13esse eu não tinha ouvido falar,
00:49:14mas me contaram minimamente a história,
00:49:15assim como você está a partilhar comigo agora,
00:49:17e acho que faz muito bem a nós,
00:49:19vermos essa parte de as pessoas não esquecerem a identidade.
00:49:22Sim.
00:49:22Fazendo o tacho,
00:49:23como antigamente,
00:49:24é como eu te disse,
00:49:24a minha avó com o pires virado ao contrário,
00:49:26para não sujar o fogão dela a lenha.
00:49:29Tão bonitinho.
00:49:30É.
00:49:30É verdade.
00:49:31Muito bom,
00:49:32eu provei,
00:49:33e é uma delícia.
00:49:34Deixa eu provar aqui também,
00:49:35e se você quiser comer um pedacinho aí,
00:49:37já do pés moleque.
00:49:39Deve ser rapadura, não?
00:49:39Eu acredito que sim, viu?
00:49:41Vou cheirar, tá?
00:49:42Pela cor velha.
00:49:44Certezinha.
00:49:44É rapadura, é?
00:49:46É outra tradição, né?
00:49:48Rapadura é doce,
00:49:49mas não é mole.
00:49:50Mas não é mole.
00:49:51Ó, né?
00:49:52Não me esqueça das giras,
00:49:54ver brasileira fora,
00:49:55mas ainda está aqui tudo.
00:49:57Nossa,
00:49:57mas é muito crocante.
00:49:58Eu estou aqui no canudinho ainda,
00:49:59mas impressionante.
00:50:01Eu vou você também experimentar comigo a seguir.
00:50:04Peraí,
00:50:04aconteceu aqui um acidente.
00:50:06Aí, obrigada.
00:50:08E eu acho que a gente já pode até servir um cafezinho também.
00:50:10O que você acha?
00:50:11Para a gente já acompanhar.
00:50:12pede cafezinho, não é?
00:50:13Não é?
00:50:13Vamos.
00:50:14E o cafezinho foi o pessoal do Coisa de Vó.
00:50:18É uma cafeteria que fica na Pampulha.
00:50:19Ok.
00:50:20Que mandou para a gente.
00:50:21Vou visitar hoje.
00:50:22Ah, então.
00:50:23Você vai amar.
00:50:24Um lugar lindo.
00:50:25E,
00:50:26deixa eu explicar aqui o café.
00:50:29Ele é produzido na fazenda Sagarana,
00:50:31que é da região da Chapada de Minas.
00:50:33Então,
00:50:34ele mandou já aqui quentinho para a gente.
00:50:37O que é que eu sirva?
00:50:38Serve para mim, por favor.
00:50:41E o pessoal do Coisa de Vó,
00:50:44agradecer em nome,
00:50:45nominalmente ao Gustavo lá,
00:50:47que foi quem mandou para a gente.
00:50:49Ok.
00:50:50Ele mandou também mais umas coisinhas doces,
00:50:53que são esse rolinho de canela com doce de leite.
00:50:56Então,
00:50:57assim,
00:50:58é uma referência do Cinnamon Roll,
00:51:00mas tem o nosso toque mineiro com doce de leite.
00:51:04Isso.
00:51:04Adoro.
00:51:05E esse aqui,
00:51:06um clássico nosso,
00:51:07que é a broa com calda de goiabada.
00:51:10Nossa,
00:51:10mulher.
00:51:11E essa broa tem uma história com vó também.
00:51:14Olha só que interessante.
00:51:15Então,
00:51:15muitas vós aqui.
00:51:17Isso é tão bonito, né?
00:51:18Não é?
00:51:19Que é a vó Selma,
00:51:20que é a vó que deu o nome do Coisa de Vó.
00:51:23Olha que legal.
00:51:24Que legal.
00:51:24A história é muito importante,
00:51:26nós sabemos a história.
00:51:27Como você perguntou da minha,
00:51:28tá agora partilhar isso aqui também com pessoas
00:51:30que têm essas histórias para contar.
00:51:32Eu acho que é muito bonito isso.
00:51:33E acho que,
00:51:34como os projetos são feitos de pessoas,
00:51:35também tem sempre história por trás.
00:51:36Sim.
00:51:37Imaginar a vó que criou isso tudo,
00:51:39passar esse legado para frente.
00:51:41Acho que é muito importante mantermos isso.
00:51:44Então,
00:51:44a gente vai comendo aí ao longo do...
00:51:47Exatamente.
00:51:47Vou provar o pé de moleque.
00:51:49Prova aí o pé de moleque de rapadura,
00:51:51que também é uma coisa
00:51:53que nos define muito, né?
00:51:56Essa adoçaria nossa é incrível.
00:51:59Isso lembra-me outra coisa.
00:52:01O quê?
00:52:01O meu pai,
00:52:03no Paraná,
00:52:04somos criadores...
00:52:05O Paraná também tem um conceito muito grande
00:52:06da carne de açúcar.
00:52:08E durante a nossa infância,
00:52:09de um ano de idade,
00:52:12talvez até os seis,
00:52:13mas coisa menos coisa,
00:52:14eu lembro vagamente.
00:52:16Já tenho 41.
00:52:18E entretanto,
00:52:19o meu pai trabalhava sempre
00:52:20na cana de açúcar.
00:52:21Meu pai cuidava de uma casa
00:52:23e apanhava antigamente à mão
00:52:25a cana de açúcar.
00:52:27E eu lembro agora,
00:52:28porque nós fazíamos depois,
00:52:30a rapadura.
00:52:31Havia um senhor,
00:52:32não lembro o nome,
00:52:34que fazia o tradicional rapadura
00:52:36naquele tacho,
00:52:37preto, antigo,
00:52:38isso que ali é como você referiu
00:52:39do doce de leite.
00:52:41Rapadura caseira,
00:52:42que é uma coisa surreal,
00:52:44que está ali também há muito tempo.
00:52:46E agora você me falou aqui,
00:52:47eu provei,
00:52:48lembrei-me da parte
00:52:48de nós estarmos em casa,
00:52:50nós queríamos era comer a rapadura,
00:52:51a gente lá queria saber
00:52:52como é que eles faziam aquilo,
00:52:53a gente era criança.
00:52:54Sim.
00:52:54A gente queria doce na mesa.
00:52:56Muito bom.
00:52:56Comimos muitas vezes a rapadura
00:52:57com queijo também,
00:52:59em casa.
00:53:00Não sei se aqui vocês
00:53:00também fazem isso.
00:53:02Aqui menos,
00:53:03a gente faz mais com goiabada.
00:53:05Do Paraná,
00:53:06eu lembro que a gente comeia
00:53:06com queijo,
00:53:07a minha vai fazer o queijinho e tal,
00:53:08e a gente comeia muito queijo
00:53:09com rapadura.
00:53:10Mas no interior,
00:53:11antigamente,
00:53:12isso também aqui em Minas
00:53:12era muito forte,
00:53:13fazia-se uma misturinha mesmo.
00:53:15Muito legal.
00:53:15Que era uma coisa
00:53:16que dava sustância,
00:53:17para as pessoas
00:53:18irem trabalhar.
00:53:19Isso mesmo que eu ia dizer agora,
00:53:20naqueles tempos,
00:53:21essas comidas davam uma parte
00:53:22de aguentar muito tempo
00:53:24e era uma refeição.
00:53:26Sim.
00:53:27Muito bom.
00:53:28E, seja sincera,
00:53:30você abriu o restaurante
00:53:31pensando já na Estrela Michelin?
00:53:33Não.
00:53:34Não?
00:53:35Não.
00:53:35Não mesmo.
00:53:36Eu abri o restaurante,
00:53:39aquilo até,
00:53:39eu não falei essa parte,
00:53:40mas aquilo foi,
00:53:41trabalhava por conta de outros.
00:53:43Sempre tive o objetivo
00:53:44de, com o Tiago,
00:53:46ter o nosso projeto,
00:53:47mas é aquela coisa
00:53:48de um sonho.
00:53:49E vou também contar
00:53:51essa parte que é engraçada.
00:53:52Então, eu fui trabalhar
00:53:53para um restaurante
00:53:54que está lá até hoje.
00:53:56duas ruas
00:53:57para baixo do meu.
00:53:59E estava a trabalhar lá
00:54:00e, entretanto,
00:54:01surgiu o espaço
00:54:02que hoje em dia
00:54:03é o indiferente.
00:54:04E, então,
00:54:04eu e o Tiago
00:54:05fomos lá ver o restaurante
00:54:06e eu disse ao Tiago,
00:54:07nossa, que engraçado,
00:54:08não tinha nada a ver
00:54:08com o conceito,
00:54:09era um conceito completamente,
00:54:10nós reformamos o espaço
00:54:11e o estudo.
00:54:12E eu, assim,
00:54:13para o Tiago,
00:54:15é muito legal,
00:54:16podia ser aqui.
00:54:16Ele, olha,
00:54:17foi,
00:54:17fui mesmo na fé,
00:54:18como a gente disse,
00:54:19foi na fé.
00:54:20Vamos ver,
00:54:20vamos ver as situações,
00:54:22analisamos,
00:54:22claro que estava dentro
00:54:23do que nós pretendíamos,
00:54:24orçamentos e estudo.
00:54:26E, entretanto,
00:54:26o que aconteceu?
00:54:27A minha preocupação,
00:54:29quando as coisas começaram a andar,
00:54:30é,
00:54:30eu vou me demitir
00:54:31e vou abrir um restaurante
00:54:32em duas ruas para cima
00:54:33de onde eu estava a trabalhar?
00:54:35e o Tiago,
00:54:36passa a frente,
00:54:37mas,
00:54:38porque eu não sou depois,
00:54:39tipo,
00:54:40e foi irônico,
00:54:41mas,
00:54:41lá está,
00:54:42faz parte da vida,
00:54:43é o crescimento
00:54:43de todas as pessoas
00:54:45e a pessoa,
00:54:45na altura,
00:54:46eu disse assim,
00:54:46a ele,
00:54:47olha,
00:54:47chefe,
00:54:47eu vou embora,
00:54:48vou abrir um projeto meu,
00:54:50diz,
00:54:51mas é verdade,
00:54:51você vai para o outro lado,
00:54:52não, chefe,
00:54:52eu não posso dizer agora,
00:54:53mas eu vou abrir um projeto meu
00:54:54e duas quadras para cima,
00:54:58cinco ou seis meses depois,
00:54:59eu abri o Indiferente,
00:55:02sem objetivos de estrela
00:55:03e como você perguntou,
00:55:05eu não tenho,
00:55:05é como eu disse,
00:55:06a gente abriu o projeto
00:55:08um sonho realizado,
00:55:09criamos ali uma coisa que
00:55:11deu-nos muito gosto,
00:55:12deu-nos muito desafios,
00:55:15os altos e baixos,
00:55:16aquela,
00:55:17aprendemos todos os dias
00:55:18e depois foi passando as fases
00:55:20e depois vem evoluindo,
00:55:22como eu te disse,
00:55:22nossa,
00:55:22depois no primeiro ano,
00:55:24mas tem essa parte
00:55:25que é impossível não se pensar
00:55:27porque o mundo inteiro
00:55:28passou por isso,
00:55:28eu abri o Indiferente em 2018,
00:55:30em 2019 foi o meu melhor ano
00:55:32de lançamento,
00:55:34depois veio a pandemia,
00:55:35eu fiz uma reabertura do Indiferente,
00:55:37que é uma realidade,
00:55:38que veio coisas não muito boas,
00:55:40mas também veio a aprendizagem,
00:55:41veio coisas também positivas,
00:55:43a gente,
00:55:43os caras naquela pausa pensou
00:55:45se ali há algumas mudanças
00:55:45que surgiram depois,
00:55:47veio a parte depois da pandemia
00:55:48que nós fechamos um túnel
00:55:49e melhoramos,
00:55:51e foi evoluindo nesse sentido,
00:55:52claro que depois,
00:55:53começas a ter objetivos,
00:55:54começas a ter pessoas a falarem
00:55:58que vocês têm capacidade,
00:56:00você consegue,
00:56:01começas a pensar e também analisar
00:56:02qual é o caminho que tem que fazer
00:56:04para também um dia,
00:56:05e fui seguindo minimamente
00:56:07esse caminho,
00:56:08como eu te disse,
00:56:09também trabalhei com grandes chefes
00:56:10que me ensinaram
00:56:11e mostraram também
00:56:11os certos objetivos
00:56:12e colegas que hoje em dia
00:56:13estão na mesma área
00:56:14e também sempre foram referências
00:56:17para mim,
00:56:17não só o Tiago,
00:56:19como outras pessoas também
00:56:19que estão lá,
00:56:20que também tem estrela,
00:56:21isso tudo,
00:56:22e só começam a observar
00:56:23e ver pontos que são importantes
00:56:25para também,
00:56:25e foi criando aquela dinâmica
00:56:28de também quero,
00:56:29vou tentar,
00:56:30por que não,
00:56:31e porque sim,
00:56:32cá estamos.
00:56:34E a estrela mudou sua vida
00:56:37e de que forma?
00:56:39É sim,
00:56:40eu acho que não,
00:56:40acho que está tudo igual,
00:56:41entre aspas,
00:56:42não está tudo igual
00:56:43porque agora,
00:56:44graças a Deus,
00:56:44tem feito como agora é uma viagem,
00:56:46tem aparecido muito,
00:56:47eu acho que as coisas positivas disso
00:56:49é o que tem vindo a acontecer
00:56:51porque ainda é muito cedo,
00:56:53foi em março,
00:56:54para mim ainda estou vivendo isso,
00:56:56o que mudou?
00:56:57A minha agenda,
00:56:58completamente,
00:56:59as ausências que eu tenho,
00:57:00tive que estar,
00:57:01mas faz parte,
00:57:03estar hoje aqui,
00:57:06vou estar em outubro na Áustria,
00:57:07vou cozinhar com um conterrâneo nosso
00:57:09que me convidou para ir lá
00:57:10para cozinhar,
00:57:11que eu também estou muito ansiosa,
00:57:12ele fez questão de que eu fosse lá,
00:57:14vou fazer eventos
00:57:15que são coisas
00:57:18muito
00:57:20de crescimento em Portugal,
00:57:21fiz eventos
00:57:22e estou fazendo ainda na mesma,
00:57:23fiz agora um antes de viajar
00:57:24para cá,
00:57:25no Algarve,
00:57:26que foi convidada
00:57:26para ir fazer um evento
00:57:27em um hotel particular,
00:57:29acho que abrimos as portas
00:57:30e isto é o que mudou.
00:57:32E o que eu sempre falo
00:57:33com a minha equipa
00:57:35é, como eu digo,
00:57:36eu tenho essas ausências,
00:57:37muitas vezes eles ficam lá,
00:57:38eu me ausento,
00:57:40eu vou levar o que é nosso
00:57:42aí para fora,
00:57:43porque está sendo positivo
00:57:44nessa parte da colheita que vem,
00:57:46porque é muito bom.
00:57:47Hoje, por exemplo,
00:57:48falei,
00:57:48ah, o indiferente,
00:57:49quando eu for ao porto,
00:57:50eu quero ir ao indiferente.
00:57:51Isto é incrível.
00:57:53Então,
00:57:53a estrela trouxe-me isso,
00:57:55a minha agenda cheia,
00:57:56mas vamos fazendo.
00:57:58Dorme-se menos uma horinha,
00:57:59ou duas,
00:57:59e mais casando as coisas.
00:58:02Mas isso sim,
00:58:03foi positivo,
00:58:04e fico mesmo muito feliz.
00:58:05E o restante é,
00:58:06olha,
00:58:06vou dizer de novo,
00:58:07é nunca esquecermos,
00:58:08pé no chão,
00:58:09sempre devagarinho com as coisas.
00:58:10É, importantíssimo.
00:58:11Muito, muito.
00:58:12Acho que não é só comigo,
00:58:14e acho que é muito importante
00:58:15a gente ter sempre o pé no chão nessa,
00:58:17não esquecermos de tudo,
00:58:18o para trás.
00:58:19Sim.
00:58:20Que nos trouxe até aqui.
00:58:21E eu entendo você dizer
00:58:23que não tem diferença
00:58:24entre homens e mulheres,
00:58:25mas a gente sabe
00:58:26que ainda o mercado da gastronomia,
00:58:28ele é desigual nas oportunidades,
00:58:31inclusive na ascensão,
00:58:32né,
00:58:32dos profissionais.
00:58:33Temos ainda menos mulheres
00:58:35em cargos de chefia, né?
00:58:37É verdade.
00:58:37Então, eu queria que você me falasse,
00:58:39assim,
00:58:39o que você pode dizer
00:58:41para mulheres,
00:58:42cozinheiras,
00:58:43chefes,
00:58:43que têm esse desejo,
00:58:46essa ambição
00:58:47de ter uma estrela Michelin,
00:58:48o que você pode dizer para elas?
00:58:50Eu acho que,
00:58:50acima de tudo,
00:58:52é exatamente isso,
00:58:53não desistir,
00:58:54acreditar que somos capazes.
00:58:56Falar mesmo,
00:58:57agora se você estivesse a falar
00:58:58mesmo só para mulheres,
00:58:59eu acho,
00:59:01e continuo a acreditar,
00:59:02eu acredito que sim,
00:59:03que é possível,
00:59:05há muitos desafios pela frente,
00:59:07como eu contei aqui a minha história
00:59:08e estou contando
00:59:08a decorrência aqui
00:59:09do nosso convívio aqui juntas,
00:59:12eu acho que nós não podemos desistir
00:59:14por ser mulher,
00:59:16porque,
00:59:17é como eu te disse há pouco,
00:59:18eu sou a chefe angélica,
00:59:20sou a chefe angélica do Indifrente
00:59:22com 10 pessoas
00:59:23que são os meus colaboradores,
00:59:25mas eu sou angélica,
00:59:26eu vou ao ginásio,
00:59:28eu tenho uma casa,
00:59:30não tenho filhos,
00:59:31mas tenho amigos,
00:59:32tenho convívio,
00:59:32tenho uma agenda que quero...
00:59:34e às vezes colocam aquela parte,
00:59:36ah, mas a mulher está na cozinha,
00:59:38sim, eu posso estar na cozinha
00:59:39do meu restaurante.
00:59:41Pronto,
00:59:41acho que não podia dizer
00:59:42de uma forma mais direta.
00:59:44E eu tenho colegas e amigas
00:59:47que são da área,
00:59:47por exemplo,
00:59:48lá em Lisboa,
00:59:50em outros sítios,
00:59:50em Portugal,
00:59:52que têm uma vida com filhos e tudo
00:59:54e são grandes chefes,
00:59:55grandes pessoas de referência
00:59:56e que eu me inspiro nelas.
00:59:59Tem uma que eu admiro imenso,
01:00:00que é uma pessoa incrível lá em Portugal,
01:00:02que ela faz uma referência muito grande,
01:00:03que é a Noelia.
01:00:04A mulher é uma máquina,
01:00:05tem filhos,
01:00:06tem netos,
01:00:06tem um restaurante
01:00:07e está com um exemplo de muitas.
01:00:09Atenção,
01:00:10temos muitas pessoas aqui,
01:00:11como aqui no Brasil,
01:00:12nós falamos agora aqui de pessoas,
01:00:13ela tem uma vida particular,
01:00:15tem uma coisa por trás.
01:00:17Acho que sempre,
01:00:19sempre é possível,
01:00:19sempre.
01:00:20Não precisa ser
01:00:22só um restaurante de Michelin,
01:00:24pode ter só o seu próprio negócio,
01:00:25o seu próprio restaurante
01:00:27e esquecendo um pouquinho
01:00:29essa parte,
01:00:29que uma mulher tem que estar
01:00:30na cozinha
01:00:31ou a mulher no lugar...
01:00:32Paiola é aquela frase
01:00:33que diz muito em Portugal,
01:00:34o lugar da mulher
01:00:35é onde ela quiser.
01:00:36Acho que não podia acabar
01:00:37de uma forma mais assim,
01:00:38porque conseguimos.
01:00:40No meu caso,
01:00:41não tenho problema
01:00:41em mim dizer isso,
01:00:42eu tenho um grande homem
01:00:42por trás que me ajuda muito,
01:00:44também ajudo ele,
01:00:45mas ao contrário também,
01:00:46acho que não temos
01:00:47que não nos fechar
01:00:50ao pensar que não,
01:00:51uma mulher não pode,
01:00:53não,
01:00:53eu não gosto dessa teoria.
01:00:54Eu sou um exemplo disso,
01:00:55eu acreditei,
01:00:56acredito
01:00:57e estou aqui na luta.
01:00:58Ainda bem,
01:00:59é isso mesmo.
01:01:00É verdade.
01:01:01E a gente está muito feliz
01:01:03de te receber
01:01:03na sua primeira vez
01:01:04aqui em Minas,
01:01:05é muito legal isso,
01:01:07poder te apresentar
01:01:08um pouco do nosso estado,
01:01:10você veio a convite
01:01:11do Fartura
01:01:12para o Festival de Gastronomia
01:01:13lá de Tiradentes,
01:01:14e cozinhou com o Felipe Ramé
01:01:17num dos festins.
01:01:19Exato.
01:01:19E aí eu quero colocar
01:01:20o Felipe Ramé
01:01:21nessa conversa,
01:01:22porque a gente lá em Tiradentes
01:01:24perguntou para ele
01:01:25como é que foi
01:01:26cozinhar com você.
01:01:28Então, olha,
01:01:29vamos ouvir.
01:01:30Ramé,
01:01:30conta para a gente
01:01:31como foi cozinhar
01:01:33com a Angélica
01:01:33em Tiradentes.
01:01:35Para mim foi um grande,
01:01:36uma grande alegria,
01:01:37um grande privilégio
01:01:38cozinhar com a Angélica
01:01:39Salvador,
01:01:40uma mulher brasileira
01:01:41que,
01:01:42sem dúvida nenhuma,
01:01:43com muitíssimo trabalho,
01:01:45conquistou uma estrela
01:01:46Michelin na Europa.
01:01:47A Angélica é muito técnica,
01:01:49muito criteriosa com tudo,
01:01:51a gente aprendeu muito,
01:01:52mas o que mais me encantou
01:01:54foi a postura dela.
01:01:56Enquanto ser humano,
01:01:57uma pessoa gentil,
01:01:59leve, agradável,
01:02:00simples, divertida,
01:02:02como ser humano,
01:02:03eu, se eu fosse um crítico
01:02:04de gastronomia,
01:02:05daria três estrelas Michelin.
01:02:07Então, ótimo Ramé,
01:02:08obrigada, viu,
01:02:09pelo seu vídeo.
01:02:10E que legal ver
01:02:11Minas e Portugal
01:02:12juntos aí
01:02:14nos jantares
01:02:15do Fartura,
01:02:17tem muita semelhança,
01:02:19não tem, Angélica,
01:02:20entre o nosso Estado
01:02:21e Portugal,
01:02:22não tem?
01:02:22Foi, foi,
01:02:24foi incrível,
01:02:25foi incrível
01:02:25porque o conhecimento
01:02:26que a gente adquiriu
01:02:27um do outro
01:02:28e partilhar ideias
01:02:29e foi uma experiência
01:02:31que eu estava já ansiosa
01:02:33e vou levar comigo
01:02:34porque é como você disse agora,
01:02:36porque tem muita coisa em comum,
01:02:39você falou há pouco comigo
01:02:40dos azeites,
01:02:41do queijo,
01:02:42Portugal tem essa riqueza,
01:02:43vinhos,
01:02:43também aqui tem que experimentar
01:02:45aí uns vinhozinhos
01:02:45que a gente vai falar
01:02:46com eles no Fartura,
01:02:47também vou levar uns
01:02:48para provar
01:02:49e para partilhar lá
01:02:50e acho que acima de tudo
01:02:52esses eventos,
01:02:54essa partilha que nós temos
01:02:55traz-nos isso,
01:02:56eu trouxe o que eu faço
01:02:57lá aqui,
01:02:58levo o que eu aprendi
01:02:59com ele para lá
01:03:00e é muito legal
01:03:01essa partilha
01:03:02e que continue
01:03:03para não deixar
01:03:04essa corrente
01:03:04para crescer cada vez mais
01:03:06que foi uma experiência
01:03:08totalmente cinco estrelas.
01:03:09Que bom!
01:03:10E agora vamos partir
01:03:11essa broa
01:03:12que está tão bonita.
01:03:13Por favor,
01:03:13eu vou cortar aqui.
01:03:14Você corta para mim,
01:03:14por favor,
01:03:15um pedacinho
01:03:16com essa calda de goiabara.
01:03:18Esse é milho,
01:03:18certo?
01:03:19Sim.
01:03:19Porque lá em Portugal
01:03:20também tem a broa,
01:03:21mas não é o doce,
01:03:23assim,
01:03:23é tipo um pão.
01:03:24Ah,
01:03:25nossa,
01:03:27gente,
01:03:28eu acho que deve ter
01:03:29coco aqui também,
01:03:30viu?
01:03:30Pelo que eu estou percebendo,
01:03:32tem coco também.
01:03:32Tem uns canhapinhos.
01:03:34É o típico baba baby,
01:03:36né?
01:03:36Mas está mesmo lindo isso.
01:03:39Então,
01:03:40mais uma vez reforçando
01:03:41que esse aqui é
01:03:42do Coisa de Vó,
01:03:43da cafeteria.
01:03:44Da mesma pessoa, né?
01:03:45Assim como o folhado
01:03:46de doce de leite.
01:03:47Isso,
01:03:47que a gente também
01:03:47vai experimentar.
01:03:48Ele chama o que?
01:03:49É rolinho de canela
01:03:51com doce de leite.
01:03:52Ok.
01:03:53Que é a ideia
01:03:53do cinnamon roll,
01:03:55só que com essa pegada mineira
01:03:58aí do doce de leite.
01:03:59Nossa,
01:03:59que maravilha.
01:04:02Não tem coco.
01:04:05Molhadinho, né?
01:04:07Muito bom.
01:04:08Tá surreal de bom.
01:04:12Vamos já partir
01:04:13um pedacinho aí.
01:04:14Vamos lá.
01:04:15Eu vou fazer aqui.
01:04:18A gente agora faz
01:04:19uma pausazinha
01:04:20só para provar os...
01:04:21É,
01:04:21porque, né?
01:04:23A gente quer comer tudo,
01:04:25não deixar de provar nada.
01:04:27Obrigada mesmo
01:04:27aos nossos parceiros aí
01:04:30que mandaram
01:04:31essas delícias.
01:04:32Vou tirar aqui
01:04:32para você tirar
01:04:33esse pedacinho.
01:04:34Que lindo.
01:04:34Olha que lindo.
01:04:38tudo produção deles,
01:04:40viu, Angélica?
01:04:40Não sei que legal,
01:04:40mas essa folha
01:04:41está mesmo...
01:04:41Está mesmo incrível.
01:04:44Eles produzem tudo lá.
01:04:46Eu já fui até aqui
01:04:47com a mão.
01:04:47Eu também estou.
01:04:49Estou em casa, tá?
01:04:50Não é?
01:04:52Já deu para se sentir
01:04:53em casa, né, Angélica?
01:04:54Estou mesmo.
01:04:54E obrigado por isso.
01:04:56Que bom.
01:04:56É assim que a gente gosta.
01:04:57Muito, muito bom mesmo.
01:05:02E nesse seu tempo aqui
01:05:04em Minas,
01:05:05que a gente sabe
01:05:05que é curto,
01:05:06claro que eu imagino
01:05:06que você queria ficar
01:05:07três meses aqui,
01:05:09uma temporada,
01:05:10mas o que mais
01:05:12que você quis investigar,
01:05:13entender,
01:05:14pesquisar?
01:05:15Tinha alguma coisa
01:05:15que você já tinha ouvido falar,
01:05:17por exemplo,
01:05:18que você estava curiosa
01:05:19para conhecer aqui,
01:05:20para ter contato,
01:05:21para experimentar?
01:05:23É assim,
01:05:24alguma coisa específica,
01:05:25não, já aprendi
01:05:26algumas coisas
01:05:27que eu não conhecia aqui.
01:05:29Como eu te disse,
01:05:30há pouco eu vou,
01:05:31por exemplo,
01:05:31eu vi fígado congeló.
01:05:34Fiquei super curiosa.
01:05:35Ainda não provei,
01:05:36ainda vou provar antes de ir embora.
01:05:37Tem que provar.
01:05:38Por quê?
01:05:38Porque eu não sou uma pessoa
01:05:39muito ligada ao fígado.
01:05:41Até comentei isso
01:05:41com a pessoa que estava com a gente
01:05:42no dia que a gente
01:05:43falou sobre isso,
01:05:44porque eu comi tanto fígado
01:05:45quando era miúda,
01:05:46que acho que uma pessoa
01:05:47depois vai ganhando
01:05:47aquela parte assim.
01:05:49Mas fiquei curiosa
01:05:50porque eu sempre gostei do giló.
01:05:51o que isso me traz?
01:05:53Ideias.
01:05:54Mas depois, por exemplo,
01:05:55eu tenho que pensar
01:05:55no giló para encontrar
01:05:56lá em Portugal
01:05:57e não vou encontrar facilmente.
01:05:58Então, a japa de cabra
01:05:58é que ele já é mais fácil.
01:06:00E acho que é um pouquinho isso.
01:06:01Eu não vim ao encontro
01:06:02de uma coisa específica.
01:06:04Não vou mentir
01:06:05que queria e provei
01:06:06muitos pães de queijo.
01:06:07Maravilhoso.
01:06:08Ainda bem.
01:06:09Vou levar todos
01:06:09na minha memória.
01:06:12Assim como outras coisas
01:06:13da gastronomia,
01:06:14que eu acho que faz parte
01:06:15da minha vida,
01:06:15do meu percurso.
01:06:17A gente já sai de viagem,
01:06:19quer fazer comida e tudo mais.
01:06:20Mas no meu caso,
01:06:21então,
01:06:21eu já venho de viagem
01:06:22com a parte da gastronomia
01:06:23que é ligada à minha profissão.
01:06:24Então,
01:06:25é muito legal provar,
01:06:26é muito legal levar
01:06:28essa parte também para lá.
01:06:30É como você disse,
01:06:31vai levar muita coisa,
01:06:32mas eu também gostava
01:06:33de levar duas ou três malas,
01:06:34porque há coisas até
01:06:34que a gente quer levar,
01:06:36mas tipo,
01:06:37eu quero contar a história
01:06:39que eu tive aqui
01:06:39numa mesa com você
01:06:40e comi esse bolo.
01:06:41Era muito mais legal
01:06:42contar essa história
01:06:42que eles provando o bolo lá.
01:06:44e não posso levar tudo,
01:06:45mas olha,
01:06:46levo o que eu consegui
01:06:47e acima de tudo
01:06:48as minhas memórias
01:06:49e levar coisas para lá
01:06:51que vão me fazer parte
01:06:51da minha vida.
01:06:53E obrigada
01:06:53por fazer parte também disso,
01:06:55porque estamos aqui
01:06:56agora a partilhar,
01:06:57é criar memórias.
01:06:58Que bom.
01:06:59Eu vou fazer lá
01:06:59um prato qualquer
01:07:00a pensar aqui em Minas Gerais,
01:07:01você vai ver,
01:07:02depois a gente fala
01:07:02mais para frente.
01:07:03Sim.
01:07:04E que honra, né,
01:07:05fazer parte desse momento
01:07:06com você
01:07:07e poder te mostrar
01:07:08um pouco
01:07:09do que a gente tem
01:07:09de especial aqui,
01:07:11que é muita coisa.
01:07:12Aqui a gente tem um recorte
01:07:13que é uma infinidade,
01:07:15não dá para conhecer
01:07:16tudo de uma vez.
01:07:17O que é mais legal
01:07:18é isso.
01:07:19Este aconchego,
01:07:21uai, gente,
01:07:22vem prevar,
01:07:23isto é muito bom,
01:07:24é muito bom.
01:07:25Deixa-nos em casa.
01:07:27Eu sou brasileira,
01:07:28trouxe uma pessoa
01:07:29que é portuguesa,
01:07:30as pessoas recolhem
01:07:30como se fôssemos de casa.
01:07:32Isto é como eu te disse,
01:07:34são memórias
01:07:34que nós vamos levar
01:07:34para sempre
01:07:35da nossa experiência
01:07:35aqui nesses dias com vocês.
01:07:36por isso,
01:07:37obrigada por isso.
01:07:38Que bom.
01:07:39E o Augusto do Rapa de Tacho,
01:07:41além do Canudinho
01:07:42e do Pé de Moleque,
01:07:44ele mandou a gente,
01:07:45olha só,
01:07:45essa seleção
01:07:46de mais doces aqui.
01:07:47Meu Deus.
01:07:49E a gente vai comer mais ainda
01:07:51depois que o programa acabar.
01:07:53Mas...
01:07:54Ah, pois é.
01:07:55Porque é muita coisa.
01:07:56Eu quero,
01:07:57tem um aqui específico
01:07:58que eu quero que você experimente.
01:08:00Ok.
01:08:00Que tem a ver com Portugal,
01:08:02inclusive,
01:08:03que é a ambrosia.
01:08:05Ok.
01:08:05É um doce
01:08:06que eu não era fã não,
01:08:08sabe?
01:08:08Minha avó fazia,
01:08:09não gostava,
01:08:10achava meio esquisito,
01:08:11aquele ovo ali e tal.
01:08:13Só que aí,
01:08:14ao longo do tempo,
01:08:15trabalhando com gastronomia também,
01:08:17a gente vai se abrindo
01:08:18e eu descobri a ambrosia deles,
01:08:20que é incrível.
01:08:22o detalhe,
01:08:23o lugar de uma rapa do tacho,
01:08:24ela é feita com a raspa do tacho.
01:08:27Então,
01:08:28ela tem um sabor caramelizado,
01:08:30que é muito diferente
01:08:31de todas as outras
01:08:32que eu já tinha provado.
01:08:34Então,
01:08:34eu acho que essa
01:08:35vale muito a pena
01:08:37você experimentar.
01:08:39Depois,
01:08:39você vai poder degustar os outros,
01:08:40mas é porque o tempo aqui
01:08:41é mais curto.
01:08:42Ok.
01:08:42Então,
01:08:43é essa aí
01:08:43que tá do seu ladinho,
01:08:45olha.
01:08:45Vou já pegar nela,
01:08:45então.
01:08:46Já pode abrir,
01:08:47tem uma colherinha aí
01:08:48do seu lado.
01:08:49Que incrível.
01:08:49Eu acho que você vai entender
01:08:51o que eu tô falando,
01:08:52que é essa...
01:08:53Eu vou tirar pra mim
01:08:54e passo pra você,
01:08:55tá vendo?
01:08:55Que legal,
01:08:56tem uns pedacinhos.
01:08:57Tem.
01:08:59E você vai sentir
01:09:01esse caramelizado,
01:09:02que não é comum
01:09:03da gente sentir
01:09:04numa ambrosia,
01:09:05né?
01:09:05Então,
01:09:05eu acho que
01:09:07esse é o grande
01:09:08diferente.
01:09:11e o legal
01:09:12que ele contou
01:09:13que foi também
01:09:14meio por acaso,
01:09:15sabe?
01:09:16Ele não...
01:09:17Foi...
01:09:17Que legal.
01:09:18O erro na cozinha
01:09:19que dá certo.
01:09:20Olha só.
01:09:21Muito bom.
01:09:23Nossa,
01:09:23é incrível.
01:09:24Faz-me lembrar
01:09:25o doce de leite
01:09:28quando comíamos
01:09:29a raspa do tacho.
01:09:30Mas esse é mais gostoso.
01:09:32Muito mais gostoso.
01:09:34Muito bom, né?
01:09:35É incrível.
01:09:35É incrível.
01:09:37Eu acho realmente
01:09:38essa ideia.
01:09:39Foi muito genial.
01:09:40Por acaso,
01:09:40tá mesmo uma coisa
01:09:41num contexto mesmo,
01:09:44assim,
01:09:44fora do doce de leite,
01:09:46os doces que nós temos,
01:09:47né?
01:09:48Uma variedade tão grande.
01:09:49Tá muito bom mesmo.
01:09:50Ele tá de parabéns
01:09:51na criatividade da ambrosia.
01:09:52Que bom.
01:09:54E você costuma
01:09:55viajar muito?
01:09:57Você busca referências
01:09:58em outros lugares?
01:09:59Como é que é
01:10:00a sua pesquisa?
01:10:01Não tenho...
01:10:02Não viajo muito
01:10:03porque eu tentava
01:10:04trabalhando,
01:10:05tento conciliar...
01:10:06Pra ter uma estrela Michelin,
01:10:07precisa estar no restaurante?
01:10:08Restaurante, né?
01:10:09O que eu faço muito
01:10:11é pesquisa e leio.
01:10:12Quando consigo,
01:10:13eu leio os livros da gastronomia.
01:10:14Lá em casa,
01:10:14a gente tem uma coisa boa
01:10:15que a gente compra um
01:10:16e dá pros dois ver.
01:10:17Por isso é bom.
01:10:18Tem uma parte de ver,
01:10:20partilhar, às vezes,
01:10:21coisas de livros
01:10:22que a gente acha
01:10:22que são referências pra nós.
01:10:24Por exemplo,
01:10:24eu falei pra você
01:10:24de uma pessoa que
01:10:26eu tenho os livros
01:10:27do Alex Atala.
01:10:29Não só,
01:10:29como outros chefes também
01:10:30que eu tenho livros e tudo.
01:10:31Comprei agora,
01:10:32recentemente,
01:10:32de uma outra brasileira também
01:10:33que fez um,
01:10:34a Coelho,
01:10:35a Bel Coelho.
01:10:35Bel Coelho.
01:10:36A Floresta, não é?
01:10:37É lindo esse livro.
01:10:38Comprei esse livro.
01:10:39Eu vim pro Brasil de férias
01:10:40e encomendei pra entregar
01:10:41na casa da minha irmã
01:10:42e levei comigo.
01:10:43E vou buscando...
01:10:45Eu acho que...
01:10:46Eu não gosto de usar a palavra
01:10:48copiar, não é isso,
01:10:49mas, tipo,
01:10:50é muito bonito
01:10:51essa parte
01:10:52das pessoas partilharem isso
01:10:53pra nós também
01:10:54irmos buscar
01:10:55a nossa criatividade
01:10:56através dessas partilhas
01:10:57que existem.
01:10:58Acho que,
01:10:58como falamos há pouco,
01:11:00por exemplo,
01:11:01eu vou dar um exemplo.
01:11:02Eu não escondo receitas.
01:11:04Na minha cozinha
01:11:04tá lá o livro
01:11:05e vou toda a Malta,
01:11:06eu falo,
01:11:06por favor, Malta,
01:11:07tá aqui.
01:11:08É importante nós
01:11:09sabermos a nossa identidade
01:11:11e, se queres um dia
01:11:12pegar nisso
01:11:13e fazeres a tua,
01:11:14tas à vontade
01:11:15por isso,
01:11:15por isso que eu fiz.
01:11:16E eu não me esqueço
01:11:17dos que me ajudaram
01:11:18nesse sentido.
01:11:19Eu quero que os meus
01:11:19pensem exatamente
01:11:20a mesma coisa
01:11:20e cresçam nessa maneira
01:11:22que eu cresci
01:11:23com as pessoas
01:11:24que eu trabalhei.
01:11:25E eu faço muito isso.
01:11:26Às vezes,
01:11:26a gente pega fotos
01:11:28e partilhamos uns
01:11:28com os outros
01:11:29e falamos.
01:11:30Quando criamos um menu,
01:11:31eu não tiro logo foto
01:11:32porque eu mudo
01:11:33550 vezes alguma coisa.
01:11:36mas faz parte,
01:11:37é todo um processo.
01:11:38Estou imaginando aqui
01:11:39esse bolo
01:11:41com a goiaba
01:11:42e quando eu coloco
01:11:42no prato
01:11:43com os outros elementos
01:11:43não fica como eu gostei
01:11:44e acho que isso faz parte
01:11:46da nossa criatividade,
01:11:47da nossa evolução.
01:11:48Então, eu busco sempre
01:11:49nas leituras,
01:11:51nas imagens,
01:11:52nas pesquisas,
01:11:53de ver um produto
01:11:54e pensar como é
01:11:55que isso ficaria bem
01:11:56e vai indo um pouco assim.
01:11:57Olha como eu te dizer
01:11:58da minha sobremesa,
01:11:59como é que eu vou fazer
01:12:00uma festa junina
01:12:01num restaurante gastronômico,
01:12:03não posso pôr aqui
01:12:04um bagote de pipoca,
01:12:05porque não,
01:12:05também posso pôr
01:12:06um bagote de pipoca falso.
01:12:08Vai se buscando
01:12:09um bocadinho
01:12:09da criatividade
01:12:10e partilhando ideias.
01:12:12Então, podemos esperar
01:12:13que vai ter Minas
01:12:14de alguma forma
01:12:15no seu menu
01:12:16algum dia, né?
01:12:17Vou pensar nisso,
01:12:18porque eu acho
01:12:19que é importante,
01:12:20é como você me perguntou,
01:12:21você viaja muito?
01:12:22Não, mas às vezes
01:12:23que eu viajo,
01:12:25a gente tenta
01:12:25lembrar sempre,
01:12:26é como eu disse,
01:12:27eu fui ao mercado,
01:12:28eu vi o cacau,
01:12:30eu estou pensando
01:12:30como é que eu vou voltar agora
01:12:32e quando eu criar
01:12:32o meu menu novo,
01:12:33eu quero apresentar
01:12:34o cacau
01:12:35para os meus clientes
01:12:36verem o cacau,
01:12:37a fruta na mão
01:12:38para o cliente ver.
01:12:39Porque algumas pessoas
01:12:40têm o privilégio de ver
01:12:41e outras não têm noção
01:12:42do que é.
01:12:43Encontrar uma história
01:12:44através disso,
01:12:45eu já vou com uma ideia
01:12:46daqui.
01:12:48É bom isso.
01:12:48Você tem que voltar
01:12:49para o Brasil,
01:12:50para ir lá na região
01:12:51dos cacauêros,
01:12:52para o Pará,
01:12:52para a Bahia,
01:12:54para poder ver isso
01:12:55bem de perto.
01:12:55Imagina ele no pé,
01:12:56como eu já vi,
01:12:57o fruto é esta parte.
01:12:59Se calhar,
01:12:59eu não conseguiria
01:13:00fazer isso já,
01:13:01mas eu consigo contar
01:13:02isso ao cliente
01:13:03e isso faz parte
01:13:04da experiência.
01:13:05Acho que é muito bonito,
01:13:06como nós estamos
01:13:06a falar aqui das avós,
01:13:08as pessoas que partilharam
01:13:09essa mesa incrível conosco,
01:13:10partilhar a experiência
01:13:12para trás conosco.
01:13:13Eu vou levar
01:13:14qualquer coisa
01:13:15da nossa conversa aqui
01:13:15em alguma coisa,
01:13:16vou falar ali fora,
01:13:17eu estive em um lugar hoje,
01:13:19partilharam-me essas coisas,
01:13:20isso é muito importante,
01:13:22é criar.
01:13:24que bom.
01:13:24E você falou que o objetivo
01:13:27de vocês não é a segunda estrela
01:13:29agora, claro,
01:13:30está recente ainda a primeira,
01:13:31né?
01:13:32Então, é muito verde.
01:13:32Vamos curtir,
01:13:33vamos viver isso, né?
01:13:35Mas, qual que é o próximo objetivo?
01:13:37O que agora vem de desafio
01:13:39para vocês no restaurante?
01:13:41O próximo desafio agora
01:13:41é mudar o menu,
01:13:42que é uma coisa que já está,
01:13:43tem que ser para breve
01:13:44e tudo mais.
01:13:45E, como eu disse,
01:13:46quando ganhamos,
01:13:47eu tenho coisas que eu tenho
01:13:48consciência que quero melhorar
01:13:50lá dentro,
01:13:50porque você vai ao meu restaurante,
01:13:52imagina que você foi ao meu restaurante
01:13:53há um ano atrás.
01:13:54Tem um exemplo
01:13:55que eu penso na minha cabeça
01:13:56e quero pôr em prática
01:13:57e estou tentando
01:13:58e vai acontecer.
01:13:59Você esteve no meu restaurante,
01:14:00você teve uma experiência.
01:14:01Eu quero que você volte lá
01:14:02e veja que eu tenho uma estrela
01:14:05e que eu evoluei
01:14:05em mais alguma coisa.
01:14:07Um tato com você no serviço,
01:14:08um tato com você.
01:14:10Essa é a minha primeira mudança
01:14:11que eu quero fazer.
01:14:12Mudar o menu,
01:14:13que eu acho que é uma coisa importante
01:14:14porque eu tenho uma coisa boa
01:14:16que é o cliente que volta.
01:14:18O cliente que volta no seu espaço
01:14:19quer comer o queijinho,
01:14:21mas também quer ver
01:14:22uma outra coisa
01:14:22que você teve ali de diferente.
01:14:24E acho que isso faz parte também
01:14:25do projeto,
01:14:27da história.
01:14:28E até mesmo
01:14:29para nós ganharmos a ambição
01:14:30de estarmos a fazer outras coisas.
01:14:32A minha equipa,
01:14:32toda a gente junta.
01:14:34E é esse o objetivo.
01:14:36Os próximos vão surgindo
01:14:37conforme as coisas vão evoluindo.
01:14:40Sim.
01:14:41Quem sabe não tem
01:14:42um outro restaurante, talvez.
01:14:43Olha,
01:14:46esperamos ansiosamente
01:14:47essa notícia.
01:14:47Tá, vamos ver, vamos ver.
01:14:49Você tem imigrante
01:14:51na sua equipe?
01:14:52Tenho
01:14:54um francês,
01:14:55um colombiano,
01:14:56uma brasileira.
01:14:57Ah,
01:14:58uma mistura boa, então, né?
01:14:59Tem muita mistura
01:15:00e que são pessoas que,
01:15:01ainda hoje comentei sobre ela,
01:15:02ela está lá há dois anos,
01:15:03trabalha comigo há quase dois anos.
01:15:05O colombiano está em Portugal
01:15:06há um X tempo.
01:15:07O francês
01:15:09nasceu,
01:15:10se não me engano,
01:15:10nasceu na França,
01:15:11mas mora em Portugal.
01:15:12Os pais,
01:15:12acho que a mãe e o pai
01:15:13eram portugueses.
01:15:14E é uma mistura disso tudo.
01:15:16E é muito bonito isso.
01:15:17É muito bonito porque,
01:15:19primeiro,
01:15:20eu brasileira,
01:15:22proprietária,
01:15:23a dar trabalho
01:15:24a essas pessoas.
01:15:26Eu acho que é isso,
01:15:27muito importante.
01:15:27Eu estou sempre a pegar
01:15:28no pé dela,
01:15:28que ela tem que cuidar do vice,
01:15:30que ela tem que se preocupar,
01:15:30que ela tem que tomar
01:15:31conta das coisas,
01:15:32porque eu não tive
01:15:33o privilégio que,
01:15:34hoje em dia,
01:15:35já tem de...
01:15:36Há 20 anos atrás,
01:15:36não era tão fácil como hoje.
01:15:38Infelizmente,
01:15:39a imigração dessas coisas
01:15:40é muito complicada.
01:15:41Quem fala dela
01:15:42fala de outras pessoas também,
01:15:43porque acho que nós temos...
01:15:44Como você disse,
01:15:45é pouco para mim.
01:15:46Nós nos imigramos,
01:15:48nós somos trabalhadores,
01:15:49mas também temos que ter
01:15:50o nosso tato
01:15:51e não esquecermos nunca de nós,
01:15:52porque eu tenho esse privilégio
01:15:55e falo muitas vezes para eles.
01:15:59Eu estou aqui,
01:16:00somos 10 no total,
01:16:02e como é que foi crescendo isso tudo?
01:16:04Nós éramos quatro,
01:16:05agora somos 10.
01:16:06Nossa!
01:16:06É a evolução que eu partilho sempre
01:16:09e é importante.
01:16:10Dar trabalho,
01:16:11não só uma conterrânea minha,
01:16:13mas com outras pessoas,
01:16:14é muito bonito,
01:16:15é muito...
01:16:17Porque eu lá atrás
01:16:17tive esse privilégio,
01:16:18mas algumas partes...
01:16:20Até você me pergunta
01:16:20essa parte de
01:16:22ser imigrante,
01:16:23ser brasileira,
01:16:24ser mulher.
01:16:25Eu nunca tive problemas com isso,
01:16:26graças a Deus.
01:16:28Mas há muitas pessoas
01:16:29que já tiveram problemas com isso.
01:16:30Tipo,
01:16:30ser uma mulher,
01:16:31imigrante a trabalhar,
01:16:32alugar uma casa era horrível,
01:16:34há anos atrás.
01:16:34Esses promenários todos
01:16:35de uma imigrante,
01:16:36que também faz muita parte
01:16:38da minha história.
01:16:39Então,
01:16:40eu estar com o meu projeto
01:16:41e abrir portas
01:16:42para essas pessoas,
01:16:43para mim,
01:16:43é gratificante.
01:16:45Que lindo!
01:16:46E é muito bonito
01:16:47ver você falar
01:16:48da sua equipe sempre,
01:16:49né?
01:16:50Ah, sim!
01:16:51Pesquisei,
01:16:52entrevista suas,
01:16:53você sempre cita a sua equipe.
01:16:54Sim, sim, sim.
01:16:55Eu acho que isso é muito importante,
01:16:56foi o que você falou, né?
01:16:57É verdade.
01:16:58Ninguém faz nada sozinho,
01:16:59ninguém conquista isso sozinho, né?
01:17:01Eu friso muito isso,
01:17:03eu tenho nesse momento,
01:17:03como eu te disse,
01:17:04a essa equipa.
01:17:05Antes de chegar a essa equipa,
01:17:05já passaram muitas pessoas por lá,
01:17:08não estão todos comigo,
01:17:09temos uma equipa fixa
01:17:10nesse momento,
01:17:11mas é como eu te disse,
01:17:12eu não consigo fazer sozinha.
01:17:14Eu já estive uma vez lá
01:17:15a fazer sozinha,
01:17:16mas eu não tinha nada a ver
01:17:16com o que é agora,
01:17:17era uma circunstância
01:17:18completamente diferente,
01:17:20eu fiquei completamente
01:17:22no lodo,
01:17:23que é uma espécie
01:17:23que a gente usa lá
01:17:24de tazas a patinar,
01:17:25porque não há hipótese,
01:17:27não vai se conseguir.
01:17:27Tazas a fazer bem
01:17:28de um lado,
01:17:29há um lado que não vai ficar bem,
01:17:30e nós queremos as coisas
01:17:31bem em todos os lados,
01:17:32por isso é muito importante
01:17:33ter uma equipe por trás.
01:17:35Que bom.
01:17:35Angélica,
01:17:36eu te agradeço muito
01:17:37pela sua presença.
01:17:39Muito obrigada.
01:17:39de ter tirado um tempinho
01:17:40para vir aqui,
01:17:42compartilhar essa mesa
01:17:43com a gente,
01:17:44e fico feliz,
01:17:45que você esteja feliz em Minas,
01:17:47isso é o mais importante.
01:17:48Completamente,
01:17:48completamente,
01:17:49e acho que você
01:17:50com sotaquezinho,
01:17:51porque a gente fala
01:17:51com as pessoas,
01:17:52e eu tenho uma facilidade
01:17:52muito grande de pegar os,
01:17:54estou mesmo muito contente,
01:17:55é uma cidade incrível,
01:17:57as pessoas são incríveis,
01:17:59e vou levar mesmo
01:18:00no coração
01:18:00esse momento de partilha,
01:18:02e obrigado mais uma vez
01:18:02pelo convite,
01:18:04até vou partilhar isso
01:18:05com a Joana
01:18:05em cima do joelho e tudo mais,
01:18:07estamos aqui agora
01:18:07a fazer as coisas,
01:18:08e eu acho que quando não é planejado
01:18:09ainda corre melhor,
01:18:10por isso obrigada,
01:18:11e obrigado a todos
01:18:12que nos envolvidos nisso.
01:18:13Então para a gente encerrar,
01:18:15eu vou propor um brinde aqui,
01:18:17mas olha,
01:18:17com uma bebida diferente,
01:18:19tá?
01:18:19É um sabor também
01:18:20muito nosso,
01:18:22que eu tenho certeza
01:18:23que você vai gostar,
01:18:24é o licor de Pequi.
01:18:26Uau, nunca provei.
01:18:27Esse licor,
01:18:27olha só,
01:18:28ele vem lá de Curvelo,
01:18:30e ele tem mais de 100 anos,
01:18:33é o licor de Pequi
01:18:34Cristal Brasil,
01:18:36e aí a gente vai fazer
01:18:38então um brinde com ele,
01:18:39olha só,
01:18:40Pequi você gosta,
01:18:42conhece?
01:18:42Eu comi Pequi uma vez,
01:18:44não fiquei assim tão fã,
01:18:46porque acho que como eu provei,
01:18:47eu sou muito assim também,
01:18:48às vezes a gente tem que provar
01:18:49duas ou três vezes,
01:18:49mas se a gente gosta ou não.
01:18:51E a primeira maneira
01:18:52que eu provei eu não gostei,
01:18:53depois provei no arroz,
01:18:54lá está eu e o arroz,
01:18:55temos uma história,
01:18:56e amei.
01:18:58Ah, então.
01:18:59Acho que já em Portugal,
01:19:02em conserva.
01:19:03Já chega em Portugal,
01:19:04em conserva.
01:19:05Gente,
01:19:05eu estou impressionada
01:19:06como que tem produtos aqui
01:19:07nossos que chegam.
01:19:09a jaca também já lá em conserva,
01:19:10e é um dos lugares
01:19:12que ela já tem fresca,
01:19:13o que é muito bom.
01:19:14Sim.
01:19:15Ou se gosta ou se odeia,
01:19:16como diz o outro,
01:19:17mas já há pessoas,
01:19:18é muito legal para nós,
01:19:20estamos fora,
01:19:21temos esse privilégio
01:19:23de termos essas coisas lá.
01:19:25Olha o aroma disso.
01:19:26Pequi puro, né?
01:19:27Pequi puro.
01:19:28Vou provar.
01:19:29Prova aí.
01:19:34Bom.
01:19:35Interessante, né?
01:19:36Muito interessante.
01:19:38Então,
01:19:39vamos aqui
01:19:40ao brinde final,
01:19:41e terminamos com esse docinho aí,
01:19:43que é de abacaxi com coco
01:19:45lá da Rapa do Tacho, tá?
01:19:46Então,
01:19:46eu vou passar um para você,
01:19:47e nós brindamos.
01:19:48E a gente termina com o docinho,
01:19:50sempre com o brinde,
01:19:51que eu acho que isso fecha
01:19:52muito bem a nossa conversa,
01:19:54Acho que sim,
01:19:54acho que sim.
01:19:56Muito obrigada.
01:19:57Obrigada, Angélica,
01:19:58e obrigada a você também,
01:20:00que nos acompanhou até aqui.
01:20:02Enquanto isso,
01:20:03enquanto a gente não tem
01:20:04o próximo episódio,
01:20:06você pode acompanhar
01:20:07o nosso conteúdo
01:20:07lá no site,
01:20:08em.com.br
01:20:10barra degusta,
01:20:11estamos também no Instagram,
01:20:13degusta.em,
01:20:14e as segundas e as quintas
01:20:16saem as matérias
01:20:18no jornal impresso.
01:20:19Então,
01:20:19até o próximo episódio,
01:20:21eu espero você.
01:20:22Tchau.
01:20:27Transcrição e Legendas por Quintena Coelho
01:20:30Legendas por Quintena Coelho
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