00:00Eu vou começar, Lourenço, com um número que, para mim, melhor resume
00:04a encrenca em que nós estamos.
00:07Nós somos aproximadamente 8 bilhões de seres humanos.
00:12Se vocês olharem para a pirâmide de consumo,
00:17o 1 bilhão de seres humanos que está no topo da pirâmide de consumo
00:22responde por metade das emissões globais de CO2.
00:27CO2 é equivalente.
00:28Então, 1 bilhão, metade.
00:32Os 3,5 bilhões que estão na classe média
00:36respondem por 45% das emissões globais.
00:41E os 3,5 bilhões que estão na base da pirâmide de consumo,
00:46metade dos quais, sem acesso à eletricidade,
00:51respondem por 5% das emissões globais.
00:56Obviamente, são eles que pagam desproporcionalmente
01:01o sacrifício e o sofrimento da mudança climática.
01:06Qual é o problema?
01:09Esses 3,5 bilhões que estão na base da pirâmide de consumo,
01:13com toda a legitimidade do mundo,
01:16querem melhorar de vida,
01:18querem chegar à classe média do consumo,
01:21querem ter acesso à eletricidade
01:23e querem estar na economia moderna.
01:26Os 3,5 bilhões que estão na classe média sonham em virar elite,
01:32querem viver como esse 1 bilhão que está lá em cima
01:36e que dá o tom do que é viver bem.
01:40Não estou defendendo isso, estou descrevendo.
01:43E o 1 bilhão que está no topo da pirâmide de consumo
01:47não vai abrir mão dos privilégios e da boa vida que tem,
01:51que é mantê-la indefinidamente.
01:54Essa conta não fecha.
01:57Isso não fecha.
01:59E aqui eu vou entrar com um pouco do economista, Lourenço.
02:05É ótimo a gente pensar que as pessoas mudam,
02:09que as consciências se esclarecem,
02:12que muitas empresas tomam iniciativas louváveis.
02:17É muito difícil imaginar que mudanças de consciência
02:21e ações isoladas vão dar conta do tamanho de um problema como esse.
02:27É muito difícil imaginar.
02:31Como é que nós chegamos nessa encrenca?
02:34Nós chegamos nessa encrenca porque a economia de mercado
02:38regida pelo sistema de preços,
02:40que é a economia na qual todos nós vivemos,
02:44ela tem um ponto cego, terrível.
02:48Ela não dá os sinais em relação ao ônus cumulativo
02:53no meio ambiente das nossas escolhas como consumidores e como produtores.
02:59O sistema de preços é completamente omisso e cego
03:03no tocante ao custo ambiental das nossas escolhas que resultam em crescimento.
03:10Todo mundo querendo melhorar de vida
03:11e as empresas precisando crescer para remunerar os acionistas.
03:16Vou dar um exemplo bem concreto para sair do campo da abstração.
03:20Vou usar um exemplo um tanto arbitrário,
03:23mas que depois vocês podem generalizar.
03:25Uma viagem de avião.
03:28Você pega um avião para cruzar o Atlântico e ir para a Europa.
03:33O que você paga no preço da passagem?
03:36Você paga o combustível,
03:39você paga a depreciação do equipamento, do avião,
03:42do piloto, serviço de bordo,
03:44a infraestrutura do aeroporto,
03:46a remuneração do capital da empresa,
03:48tudo isso está no preço.
03:51Você não paga o CO2 que você emite no trajeto.
03:54É como se não existisse.
03:56Esse custo não é registrado pelo sistema de preços.
04:00É um custo muito real,
04:01mas ele não se traduz em custo monetário.
04:05Só que eu pegar um avião para cruzar o Atlântico,
04:07cada um de nós emite mais CO2
04:10do que um indiano durante um ano no meio rural.
04:14E é como se não existisse.
04:17Se não for corrigida essa cegueira do sistema de preços,
04:21ou seja, os preços passarem a refletir o ônus ambiental
04:26que eles representam naquelas escolhas,
04:30nós não vamos sair dessa encrenca.
04:33Não vai ser um trabalho de convencimento,
04:36de mudança de consciências que vai me tirar dessa encrenca.
04:40É lógico que isso é sempre bem-vindo,
04:43tem o problema ético do tipo de vida que nós temos
04:46que não nos satisfaz,
04:48é uma outra dimensão,
04:50mas olhando estritamente para a questão ambiental
04:54e equilíbrio do ecossistema,
04:58eu não concebo outro caminho
05:01que não passe por uma correção do sistema de preços.
05:04Se você consome energia renovável,
05:07o preço é menor do que se você consome energia fóssil.
05:12Os preços relativos têm que mudar.
05:14As coisas que são ambientalmente muito onerosas
05:18vão ter que ficar mais caras em relação às coisas
05:21que são ambientalmente saudáveis, pouco onerosas.
05:26E aí os sinais de preço vão começar a funcionar na direção correta,
05:30porque hoje eles não funcionam.
05:33A margem de manobra das empresas não é muito grande,
05:37porque se uma empresa começa a ser extremamente exigente
05:40e atenciosa e impecável do ponto de vista ambiental,
05:44quem garante que as concorrentes também serão?
05:48Então, elas vão entregar produtos mais baratos,
05:51vão remunerar melhor os acionistas,
05:52vão conquistar mercado,
05:54e a empresa, que é impecável, está fora.
05:58Os consumidores.
05:59Está todo mundo descontente, todo mundo preocupado,
06:02mas prevalece aqui aquela história do Santo Agostinho nas confissões.
06:06Dá-me, senhor, a castidade e a virtude, mas não já.
06:11Logo agora, na minha viagem para a Europa?
06:14Espera aí.
06:17Então, Lourenço, eu queria trazer uma mensagem aqui
06:20de um economista falando.
06:22Existe algo profundamente errado
06:25num sistema econômico que não leva em conta
06:29absolutamente o impacto ambiental
06:33das nossas escolhas como consumidores e produtores.
06:40esse sistema econômico padece de um erro gravíssimo.
06:45Embora ele tenha grandes méritos de alocação de recursos e tudo mais,
06:49eu passei quase toda a minha vida defendendo o mercado,
06:52regido pelo sistema de preços.
06:54Mas é preciso reconhecer que, neste quesito,
06:58ele falha tragicamente.
07:00Então, vamos lá.
07:00Vamos lá.
07:00Obrigado.
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