00:00Eu nunca sabia o dia de amanhã, então eu não podia fazer plano na minha vida.
00:02Eu fiquei cinco anos no Emodiálise, né?
00:04E claro que me deu uma oportunidade de viver, senão eu não ia estar aqui hoje, né?
00:06Foi o que me sustentou.
00:07Só que no Emodiálise você não tem vida, você sobrevive.
00:11Porque além das limitações, eu acho que o que mais me doeu é que tirou a minha capacidade de sonhar.
00:16Porque eu nunca sabia o dia de amanhã, então eu não podia fazer plano na minha vida.
00:19Eu não podia viajar, porque no Emodiálise é três dias na semana.
00:21Então eu não tinha como eu viajar, porque a logística de você viajar é muito difícil.
00:24Então as coisas simples no Emodiálise ficavam muito difíceis.
00:26Quando a gente fala que tem que doar órgão, a gente não vê que é uma pessoa que está atrás.
00:29Tipo, ah, é uma pessoa que vai receber e vai viver.
00:31Mas o que é uma vida?
00:32É você poder ter amigo, é você poder viver na família, é uma coisa simples que é a vida.
00:35Então é isso que me fazia falta, é poder viver.
00:38Aí eu fiquei cinco anos esperando, igual a gente fica com pressa de resolver as coisas, tem um motivo.
00:43Que a gente também se não entende na hora, mas tem um motivo ali para toda essa espera e demora.
00:46Foi um motivo de eu me fortalecer, da minha filha crescer, entender o processo.
00:50Todo mundo está preparado, minha família está preparada, foi isso.
00:52Eu tenho uma vida que ela mudou para Londres, e ela vem muito pouco, assim, para o Brasil.
00:55E ela fez muito por mim, porque quando eu tive o diagnóstico, os amigos eles soubem, né?
01:00Porque não é todo mundo que está disposto a ficar do lado, é uma pessoa doente, ou que tem limitações.
01:03E ela foi a pessoa que ficou do meu lado, então ela é muito importante para mim.
01:06E aí eu falei, eu vou ter que dar um jeito de ver ela.
01:08Ela foi lá para o Filipe, que é onde a família dela mora, e eu falei, vou lá visitar ela.
01:11Porque ela tinha um dia, ela tinha um dia para ver ela, e eu fui aproveitar esse dia.
01:15Aí quando eu cheguei lá, a gente tomou café da manhã, ela dormou, a sua hospital me ligou de novo.
01:18Você está em quarto, vem internar.
01:20Eu falei, eu nunca cheguei nessa parte, como que é internar?
01:22Porque eu só chegava lá e me mandava embora, né?
01:24Aí eu cheguei no hospital, e eu pensei, ó, se eu estivesse na minha cidade, não teria que dar tempo
01:28de eu vir.
01:28Outra coisa, eu estava em Curitiba, o hospital é tão larga, tipo assim, acho que é 30 quilômetros, é pretinho.
01:32Aí eu cheguei no hospital, aí eles me internaram, e eu falei, vou em quarto ainda, né?
01:35Geralmente é um ou duas pessoas que dão certo, foi esperar.
01:38E a minha sorte, minha amiga estava junto comigo, e era o sonho dela participar desse momento comigo, né?
01:42Então eu falei, olha, esse cenário perfeito, né?
01:44Mas eu ainda estava em Curitiba, eu falei, estou em quarto lugar, né?
01:46Lá eu liguei para a minha mãe, mãe, estou em quarto, daí enfermeira, o quê?
01:49Eu falei, estou em quarto lugar.
01:49Claro que não, o seu painel, não sei se vocês sabem o que é o painel, é parte lá para
01:52ver a sua compatibilidade.
01:53Está muito bom você é a primeira.
01:54Aí eu fiquei assim, e agora o que eu faço?
01:58Porque quando é para ser, as coisas se encaminham sem a gente forçar.
02:00Que é o que demora a gente entender na vida.
02:02A gente quer ir para um caminho que não dá, a gente tem que saber ser guiada pelo caminho certo.
02:06Eu era um doador homem, de 44 anos, de Francisco Beltrão.
02:09E desde o momento, eu falo que a gente tem que aceitar os tratamentos e as coisas, né?
02:12Então, eu falei, eu aceito esse rim, ele é meu, ele estava sempre preparado para mim.
02:16Mas sempre respeitando que atrás desse rim, teve uma pessoa que viveu.
02:18Eu vou continuar o que ele tinha que fazer.
02:21Então, para mim, essa é a importância da doação, né?
02:22Você fala, doação de órgão, família vai doar?
02:24Não, são vidas que continuam, são um ponte dentro das pessoas.
02:27E eu falo que a melhor coisa que a gente pode fazer, quando a gente recebe um órgão ou uma
02:30doação,
02:31o que for, é viver feliz.
02:32Eu acho que essa é a gratidão que a gente pode dar para a pessoa e para a família.
02:35Não vou conhecer quem que é, mas não vou honrar que está dentro de mim.
02:38Eu vi na sala do lado do Centro Redúrto, um bebê chorando.
02:41Eu falei, quase uma vida nasceu.
02:42Essa é a minha vida.
02:44Então, foi muito simbólico ali para mim, nesse momento.
02:45Todos os processos do meu sangue do Centro Redúrto foi simbólico.
02:48E a gente tem que ter sensibilidade para ver todos esses símbolos que acontecem com a gente.
02:52Então, foi assim, tipo, e tudo se encaminhou muito bem, porque eu aceitei o órgão.
02:56Porque faz parte do tratamento acertado.
02:58Porque, querendo ou não, aquilo não era meu.
02:59Mas ele tem que entender que ele está no meu corpo agora e agora, que vai ser meu.
03:02Porque isso não acontece de ter rejeição, de ter muita doença.
03:04Então, ele sempre falava para mim, está tudo bem.
03:06Então, a minha impressão foi rápida.
03:08Eu não peguei nada, não fiquei doente depois.
03:10E eu acho que tudo isso é porque a gente aceita.
03:12Foi o que eu falei.
03:12Depois disso, né, que eu me recuperei, todo dia eu agradeço.
03:15Eu falo, vou viver feliz, eu vou honrar o que está dentro de mim.
03:18Então, esse foi assim, na verdade, eu aprendizado.
03:21E eu vi que tudo que eu passei foi necessário para me fortalecer,
03:24para eu poder chegar nesse momento, dessa maneira que eu estou agora.
03:27Muito feliz, agradeço, tá?
03:28Obrigada por ter vindo, dá para ter feito isso aí.
03:29A Therese vai entregar uma lembrancinha bem encantada para você.
03:33Se você quer encarar, vai sair.