- há 3 semanas
Como identificar que a criança é vítima de maus tratos dentro de casa.
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00:00Quase toda semana a gente tá aqui falando, noticiando casos de crianças e adolescentes que foram agredidos, abusados sexualmente.
00:08Olha, é triste, chega a arrepiar a gente que é pai, que é mãe.
00:11O Disque 100 recebeu no ano passado quase 96 mil denúncias, uma média aí de 11 denúncias por hora.
00:19E muitas das vezes, onde está o agressor? Dentro de casa.
00:23Às vezes é o companheiro da mãe, às vezes é a mulher do pai.
00:26É claro que isso não significa, gente, que os pais não devam ter um novo relacionamento, mas é preciso ter
00:32muito cuidado quando uma terceira pessoa entra nessa relação de pais e filhos.
00:38Então, bora falar sobre esse assunto hoje?
00:41Vem cá, senta aqui comigo no estúdio, participa da nossa conversa pelo Facebook, porque hoje eu recebo aqui a psicóloga
00:47Letícia Santana.
00:49Boa tarde, Letícia. Obrigada pela sua presença.
00:51Boa tarde.
00:52E a gente também recebe aqui a dona Marlúcia. Ela é avó do Cauã, quem não lembra desse caso, né?
00:57Triste dos dois irmãos que morreram queimados. Isso chocou todo o Brasil.
01:02Dona Marlúcia, a gente está na pandemia, eu não posso te dar um abraço, mas sinta-se abraçada.
01:07E muito obrigada também pela sua presença, viu?
01:10Eu que agradeço. Uma boa tarde a todos.
01:13Uma boa tarde.
01:13Letícia, como que a gente já começa identificando se a nossa criança, que está ali no mesmo ambiente, com uma
01:20terceira pessoa, se está tendo uma afinidade entre a criança e essa terceira pessoa?
01:25Acho que olhando para ela, né, Roberta?
01:28Eu acho que tem faltado muito isso, sem entrar num juízo de valor, tem faltado muito, dentro da maioria das
01:34famílias, esse olhar sobre a criança.
01:36Porque o abuso, independente do nível do qual seja, ele dá sinais e a criança emite esses sinais.
01:43Então é muito importante que o responsável esteja atento a qualquer mudança de comportamento e de humor que essa criança
01:51venha a transmitir, porque isso é um sinal de desconforto, né?
01:55Então eu não vou nem chegar num abuso, mas talvez num desconforto daquela criança em relação àquele elemento diferente da
02:00família.
02:01A alteração de humor, então, seria o primeiro sinal, você diria, Letícia?
02:05É um sinal importante, aumento da agressividade, muitas vezes uma depressão, humor deprimido, a criança mais calada, resistente à presença
02:14daquele parceiro, no caso de, de repente, um abuso sexual, uma criança mais sexualizada.
02:20Então, são vários os sinais, mas é importante a gente ficar atento à mudança de comportamento.
02:25Então, se a criança tinha um padrão e, de repente, esse padrão muda, quer para mais ativo ou mais deprimido,
02:31é um sinal importante para as famílias.
02:33Agora, a gente não pode confundir com ciúmes, né? Porque, às vezes, a criança tem os ciúmes da madrasta ou,
02:39então, do padrasto, né?
02:41O que também pode ser normal. Como que a gente diferencia?
02:44Sim, e aí vem a questão da comunicação também, né? Quanto mais afinidade, quanto mais intimidade a gente tiver com
02:51os filhos, o canal de comunicação vai ser aberto e essa criança vai poder externar esse desconforto,
02:57ou esses ciúmes ou esse abuso da forma que ela acha que compreende. E aí cabe às famílias também ficar
03:03atento e acolher e ouvir essa criança.
03:07Dona Marlúcia, você estava tendo contatos com o Cauã perto da época em que tudo aconteceu, a gente está voltando
03:14aí em 2018, né?
03:15Você percebia algum sinal dele?
03:18Olha, infelizmente, eu não percebi. Tudo aconteceu no dia 21 de abril. Praticamente, no feriado anterior a esse, nós fomos
03:31para Linhares.
03:32Nós, inclusive, ficamos com as duas crianças no último dia. Nós ficamos de sexta-feira a domingo.
03:39Preferimos ficar num hotel para poder ficar mais, se dedicar mais a ele, porque Cauã não estava querendo vir muito
03:47para cá.
03:48E eu não sabia por quê. E como ele tinha, né, o seu irmãozinho Joaquim, a gente entendia que é
03:57porque ele queria ficar junto.
03:59E, ao mesmo tempo, o Joaquim queria vir para cá. Entendeu? A idade de Joaquim era três aninhos, né? Era
04:08muito novinho.
04:09E nesse dia, nós passamos, assim, três dias na realidade e não percebemos nada.
04:16Ele não demonstrava nem o sinal?
04:18Não.
04:19Nada?
04:19Não.
04:20E nem vocês perceberam nada também no corpo dele, nem uma manchinha roxa, nada disso foi demonstrado?
04:26Não. Para você ter ideia, no hotel que a gente ficou, onde a gente preferiu ficar, tinha uma piscina.
04:36Então, ele ficou praticamente o tempo inteiro exposto de sunguinha.
04:40Inclusive, tomou banho com o meu filho.
04:42Porque quando ele ia lá para casa, ele falava, vó, eu não posso tomar banho com você.
04:48Eu falava, tudo bem, meu amor. Vovó só vai te vigiar e você vai lavar suas partes.
04:53Aí eu ia falando, lavou isso, isso, observando.
04:56Porque também era poucos dias, né?
04:59Mas perceber, nós não percebermos.
05:02E aí, Letícia, quando a criança não apresenta nenhum sinal, a gente também não consegue identificar,
05:08existe alguma forma?
05:11Às vezes a gente pensa que está tudo bem, mas a gente vê o caso aí do Cauã, que não
05:15estava, né?
05:16Do Cauã e do Joaquim.
05:17Sim, a gente nem entra nesse viés de culpabilização, porque muitas vezes o convívio diário não é possível,
05:25tendo em vista esse afastamento geográfico, né?
05:27A família morava em Vitória, eles moravam em Linhares.
05:30Mas existem, hoje com a pandemia fica mais difícil, mas a escola também é um ambiente muito propício
05:36para que você obtenha informações.
05:37Porque a professora está ali no dia a dia com a criança, ela observa, ela sabe como ela funciona,
05:43ela sabe como qualquer mudança sutil que seja nesse comportamento, a professora consegue perceber
05:48porque está no convívio diário.
05:50Então, é tão subjetivo, cada caso é um caso, mas o que a gente observa?
05:55A criança dá sinal.
05:57Ela dá.
05:58Então, enfim, depois que passa, a gente vai fazendo as nossas leituras, né?
06:03E você, ah, então é por isso que...
06:05Mas ela dá.
06:05Então, se a gente puder deixar um alerta aqui para as famílias,
06:08é, esteja sensível aos sinais.
06:11Se não, em casa, por N razões, trabalho o dia inteiro, ou então tem esse afastamento geográfico,
06:17no caso da família, vá em busca da escola, mas observe, fique atento e busque a rede
06:24que pode te oferecer essas informações, porque sinais existem.
06:29Como a Letícia disse, dona Marlu, se a criança dá sinal, teve algo que hoje a senhora enxerga assim,
06:34hum, naquela vez, eu devia, talvez, ter prestado atenção, eu já acho que era um sinal,
06:39teve algo que hoje te faz pensar assim?
06:42Pois é, na época, eu pensei que Cauã não quisesse vir para Vitória por causa do Joaquim.
06:48E também já existia o João, né? O outro irmãozinho.
06:52E aí ele falava que queria que o Joaquim viesse para cá, né?
06:56E o Joaquim falava, eu vou com você, porque ele assimilava, eu como avó do Cauã,
07:01ele assimilava que eu era avó dele também, né?
07:03Pela outra avó.
07:05Aí falava, Cauã falava que não queria, e aí falava,
07:08vó, eu vou com você.
07:11O outro falava assim, eu falava, eu não posso te levar, só se sua mãe deixar,
07:16porque eu não tinha como falar não, naquela hora, para uma criança de três aninhos, entendeu?
07:22E aí eu passava a bola para a Juliana.
07:25Aí ela falava, não, depois você vai chorar, né?
07:28Você não pode ir, você ainda é muito pequeno.
07:31Então, assim, hoje em dia, eu me questiono.
07:35Será que Cauã não queria vir por algum motivo desse?
07:41Mas é normal, né, Letícia, ficar, né?
07:43Essa pergunta, esse se, a gente não pode também agora se culpar, né?
07:47Sim, principalmente por conta da faixa etária também, né?
07:50Quanto mais novinhos, menor é a compreensão da agressão,
07:55que muitas vezes é mascarada com amor, com palavras de afeto.
08:00Então, não vou dizer, né, a gente não sabe o que aconteceu antes daquele dia,
08:04mas muitas vezes a criança, ela passa por agressões veladas
08:08e ela não consegue externar isso como uma agressão,
08:12porque muitas vezes a compreensão é de afeto, é de cuidado,
08:16por isso que é um terreno muito, muito, muito delicado, né?
08:21Mas a estratégia é sempre o alerta, sempre o alerta.
08:26Eu acho que é isso que te traz aqui hoje, né?
08:29Exatamente, para fazer esse alerta, que a gente está aqui convidando você que é mãe,
08:34você que é pai, você que tem, de repente, uma terceira pessoa dentro da sua casa.
08:39A gente está falando com você, até mesmo você que é irmão.
08:41Vamos prestar atenção no ambiente, tá bom?
08:44A gente está aqui dando várias dicas, a gente vai continuar dando várias dicas,
08:47mas agora a gente vai falar de um outro caso que chocou essa semana, gente,
08:52de uma menina de apenas cinco anos.
08:55O pai e a madrasta da criança foram presos em Linhares aqui no norte do estado.
09:00A menina está internada em estado grave em Colatina.
09:03A suspeita da polícia é que ela tenha sido espancada.
09:07Acompanhe.
09:08O pai e a madrasta da criança de cinco anos, espancada na última terça-feira em Linhares,
09:14foram presos um dia depois que o caso foi descoberto.
09:18Com o andamento das investigações, a polícia civil concluiu que a madrasta seria responsável
09:24pelas agressões e que o pai teria se omitido.
09:27A criança está internada na UTI de um hospital de Colatina, em estado grave.
09:32Ela tem várias lesões e os médicos diagnosticaram traumatismo craniano.
09:38Comprovou-se que ela tem muitas lesões corporais.
09:42Então, por conta disso, nós conseguimos agora a prisão preventiva do casal,
09:48a mulher, a madrasta, por ação, por ter agredido a criança,
09:53e o pai, por omissão, por não ter guardado, dado segurança para a filha durante essas agressões.
09:59De acordo com o delegado, relatos de vizinhos e as perícias mostraram que as agressões ocorriam
10:06há pelo menos 15 dias.
10:07Mesmo assim, o casal nega a tortura.
10:10A mulher negou que tenha agredido a criança, o pai informou que não tinha conhecimento das agressões.
10:19Então, como não há outra pessoa na cena do crime, só pode ter sido ela a agressora.
10:26Não havia outra pessoa no local.
10:28Nós conseguimos depoimento de pessoas que moram próximas,
10:32que comprovaram que a criança sofria algum tipo de violência,
10:37pelos testemunhos que foram dados.
10:39E porque a criança estava sob a guarda somente dela,
10:43que mais ninguém tinha contato com ela,
10:45no momento em que ela acabou sofrendo as lesões,
10:49o traumatismo craniano, e foi encaminhada para a UPA.
10:52O casal foi indiciado por lesão corporal grave e tortura.
10:58Triste demais, né, gente?
11:00A Prefeitura de Linhares disse que a criança é acompanhada por uma equipe multidisciplinar
11:05da Secretaria Municipal de Assistência Social e também pelo Conselho Tutelar do Município.
11:11Nenhuma outra informação pode ser repassada para preservar a identidade da criança.
11:16Então, a gente volta aqui com esse assunto aqui para o nosso estúdio.
11:19Ou seja, só que hoje a gente relatou três casos.
11:24Começamos o programa falando de três casos factuais que aconteceram recentemente.
11:29Estamos aqui com a dona Marlúcia, que é a avó do Cauã,
11:31que é um caso que teve uma proporção nacional.
11:36O ambiente que a criança está inserido.
11:38Por exemplo, quando tem o uso de drogas, que tem um caso que a gente mostrou hoje.
11:42Isso a gente já é mais um motivo para a gente desconfiar, Letícia?
11:47Sim, ambientes onde tem usuário de drogas, onde você tem a condição de pobreza extrema,
11:53muita dificuldade, presença de agressividade dentro da cultura familiar.
11:57Tudo isso é componente para essa violência infantil.
12:01E hoje a gente observa que na pandemia, onde as famílias estão mais isoladas,
12:07toda essa rede de proteção ficou afastada.
12:10Então, a criança não vai para a escola, não frequenta os ambientes sociais que antes frequentava,
12:15o que torna a condição dela ainda mais vulnerável.
12:19E é importante essa chamada de atenção que você coloca, Roberta,
12:23dos outros elementos da família não se calarem, se posicionarem,
12:27porque muitas vezes a companheira, por N razões,
12:32ela também acaba sendo, entre aspas, solidária à agressão,
12:35ela acaba sendo conivente com a agressão e os danos são irreversíveis.
12:40Por que isso acontece?
12:42Por que a mãe, que tem esse papel distinto, protetor, que a gente nasce com isso,
12:48como que a mãe consegue dar mais ouvido ao companheiro do que ao próprio filho?
12:52É uma pergunta que a gente se faz, né, dona Marlôcia?
12:55Sim.
12:56Com certeza.
12:58Ultimamente, eu tenho ficado, assim, horrorizada, tá?
13:02Horrorizada e realmente de ver tanta notícias e envolvimento de padrastos e com a mãe.
13:08A mãe é omissa.
13:10Eu não consigo entender.
13:12Eu tenho dois filhos e eu tinha um Cauã e o meu amor, assim, é imenso por eles.
13:17Eu criei meus filhos e praticamente...
13:19O que explica isso, gente?
13:22É, de novo, né, cada caso é um caso, mas a gente observa que, via de regra,
13:28onde há história de abuso e de violência com a criança, também, muitas vezes,
13:33há uma história de codependência emocional dessa mulher em relação ao homem.
13:39Vamos lá, né, o homem, o agressor.
13:41Então, não só uma dependência financeira, muitas vezes, mas uma dependência emocional.
13:46Ela também já é vítima deste homem e entende que ela não tem forças fora daquele lugar.
13:53Então, ela é, muitas vezes, acometida por um medo de se colocar e de falar.
13:57Enfim, fora outros fatores e outros cenários.
14:00No exemplo que a gente colocou, o abuso vinha de uma madraça.
14:03Então, a gente está falando, também, de pessoas perversas.
14:07Pessoas que veem na criança um alvo do seu ódio, né, e principalmente porque a criança é vulnerável,
14:14que torna a perversão ainda maior.
14:16Então, não existe uma regra específica, mas existem pessoas cujas perversões fazem com que a criança seja esse alvo.
14:25Olha só, gente, muito bem colocado aqui pela Letícia, que a gente está falando aqui de pessoas perversas.
14:31Seja um avô, uma avó, um tio, um tio, pai, a mãe, enfim, seja quem for.
14:36Porque tem vários casos de padrastos, de madrastas que têm um relacionamento maravilhoso com seus enteados, né?
14:45Agora, vamos lá, vamos pensar assim, naquela pessoa que está assistindo a gente agora em casa,
14:50que se separou do companheiro ou da companheira, está num novo relacionamento, vida que segue, né?
14:56E aí, está com um namorado novo, qual que é o momento ideal de levar essa pessoa para dentro de
15:00casa, o namorado?
15:01Quando que ele quer indicado assim, agora ele já pode dormir na minha casa?
15:05Existe uma regra para isso, Letícia?
15:08Regra não existe, mas é importante a gente pensar que cada um tem o seu lugar nessas novas configurações familiares.
15:17Então, a gente observa hoje famílias com muitas configurações, novos casamentos,
15:23mas entendendo sempre que cada um tem o seu lugar.
15:26Então, existe o lugar da mãe, da madrasta, do pai e do padrasto e por aí vai,
15:31e ninguém vai ocupar o lugar de ninguém.
15:33Quando você respeita esse lugar, tudo flui, porque a separação em si já é conflitante para a criança.
15:40É difícil também para a criança lidar com a separação, é difícil para ela lidar com esse novo relacionamento.
15:47Então, é uma segunda dificuldade.
15:49Quando ela também precisa colocar no lugar, trocar, fica mais difícil ainda.
15:55Então, se você quer ter uma nova configuração familiar harmônica, respeite o lugar de cada um.
16:03Fora disso, é alienação parental e é crime e gera sequelas também irreversíveis na criança.
16:09E esse é um outro assunto que um dia a gente vai tocar aqui também no estúdio, tá bom?
16:13Agora, olha só, gente, é o seguinte, nós também conversamos com uma jovem, a Rafaela.
16:18Ela sofreu violência do padrasto dos 7 aos 20 anos, isso mesmo, você não ouviu errado.
16:26Vamos ver o que ela disse.
16:28Eu fui vítima de violência doméstica e fui vítima de padrasto quando criança também.
16:36Foi muito triste, né, porque ele agredia minha mãe, agredia nós como meus irmãos, ele era meu padrasto, ele era
16:45policial civil, né, e ele utilizava de força maior.
16:50Não tínhamos lei Maria da Penha, não tínhamos nada que nos protegesse.
16:55Então, é muito triste a gente ver esse tipo de casos.
17:01As crianças estão sofrendo demais durante esse período.
17:04Os pais, as mães também não estão sabendo selecionar as pessoas com quem vão conviver os filhos,
17:11que é algo que é de extrema importância, tá, gente?
17:15Eu sei o que é isso, eu sofri isso na minha pele, os maus-tratos de um padrasto.
17:22Isso não é fácil.
17:25Eu só não fui abusada, mas agredida, xingada, humilhada sempre que ele tinha oportunidade.
17:34E não parava, não tinha freio, ele nunca teve medo disso, né, nunca quis parar com isso.
17:42Hoje, eu saí, não moro mais na casa dos meus pais, eu me casei, tive um casamento também voltado por
17:50violência, totalmente violência doméstica.
17:53E hoje eu trabalho ajudando outras mulheres, ajudo crianças, idosos, porque todas as pessoas precisam de acolhimento.
18:02E existem pessoas muito maldosas.
18:05Então, nós pais, nós mães, temos que ter os olhos bem atentos e não deixar que aconteça com os nossos
18:13filhos o que aconteceu com a gente na infância.
18:16Que geralmente a gente reflete a mesma falha.
18:21Então, é muito triste.
18:22É muito triste.
18:23A criança, eu me sentia muito mal, muito péssima.
18:26Eu não podia ir pra escola se eu não me passei a casa, ele fazia minha mãe me bater.
18:30Eu não podia estudar direitinho.
18:34Então, assim, nunca foi fácil.
18:36Nunca foi fácil.
18:38Hoje, ele não convive mais com a minha mãe.
18:40Depois, ele agrediu muitas vezes a minha mãe.
18:43Minha mãe tem os problemas dela psiquiátricos, por conta disso tudo que ela passou durante muitos anos.
18:49Mas nós, crianças, eu e meus irmãos, ele dava tiro dentro de casa na época de metralhadora, sabe?
18:56Então, assim, temos que ter cuidado com as nossas crianças.
19:02Meu Deus, é muito triste ouvir um depoimento desse.
19:04Rafaela, obrigada pela sua participação, por abrir a sua vida aqui pra gente, pra alertar as pessoas, né?
19:11Agora, o que chama a atenção, vamos voltar aqui pro estúdio, que a gente tá conversando aqui com a Letícia,
19:15com a dona Marlúcia.
19:17O que chama a atenção é que o pai e a mãe, eles têm que corrigir os filhos, né?
19:21Agora, um padrasto fazer o que fazer com ela, isso é um absurdo, né?
19:27Os maus tratos, porque o pai, eu na minha época, meu pai e minha mãe sempre me corrigiram.
19:34Agora, um padrasto corrigir dessa forma, filha, pode isso, Letícia?
19:38É forte o depoimento.
19:39Uma filha não, uma etiada, né?
19:41Forte o depoimento da Rafaela, porque a mãe também era agredida.
19:46Então, a pessoa que tinha a competência de freá-lo, já sofria esse abuso, já estava numa situação vitimizada.
19:55Todos os filhos eram agredidos.
19:57E ele representava a lei, ninguém o parava.
20:01Então, ele não tinha medo da punição.
20:03E essa falta de medo da punição não deu freio, até que, depois que a Rafaela sai dessa experiência tão
20:11forte, dos 7 a 20 anos,
20:12ela entra de novo num ciclo de violência pessoal.
20:16Ela, de novo, entra numa outra relação e a história se perpetua.
20:20Isso que é forte, que é triste.
20:22E é bom que a Rafaela tenha se colocado aqui, porque ao longo da fala dela, ela disse que ela
20:29transformou essa experiência, essa dor, em força.
20:32Então, hoje ela ajuda outras pessoas, ela alerta outras pessoas, que é o que traz essa avó aqui, para trazer
20:41essa história de tanta dor.
20:43A dona Marlúcia, hoje, desempenha um papel muito importante de conscientização das pessoas.
20:48Inclusive, você trouxe alguns panfletos para a gente, do que você tem realizado com um trabalho voluntário seu, né, dona
20:56Marlúcia?
20:57É.
20:58Como eu, hoje, não posso fazer mais nada por causa do anjo aqui, né?
21:03Então, eu estou, assim, me dedicando a tentar a prevenção.
21:10Há quase três anos atrás, quando eu comecei a acompanhar, né, depois de tudo que aconteceu,
21:16eu me questionei muito, me questionei muito em questão, assim, do que fazer, fazer o quê?
21:23Sendo que tudo acontece dentro de um âmbito familiar, geralmente, são pessoas muito próximas que fazem essas coisas.
21:33E a gente nem imagina, né?
21:35Não.
21:35E são quatro paredes.
21:37Então, assim, é uma coisa muito distinta.
21:40E hoje, após três anos, eu venho, assim, amadurecendo a ideia de que fazer a prevenção, eu acho que melhora
21:51muito isso.
21:53Você vai abrangendo pessoas na rua, conversando, explicando.
21:58Você aborda as pessoas na rua, dona Marlúcia?
22:00Abordo.
22:01Nós tivemos...
22:03Não, quando a gente faz campanha, quando as pessoas conversam comigo, sim, né?
22:07Porque eu também não posso.
22:09Agora, as pessoas vêm, por exemplo, essa florzinha aqui, é a imagem do Faça Bonito.
22:15O que é o Faça Bonito?
22:17O Faça Bonito é, no dia 18 de maio, agora, nesse mês, é o dia nacional desse enfrentamento que é
22:26muito difícil.
22:27E, geralmente, com muita violência.
22:30E, como a Rafaela falou, ela não foi abusada sexualmente.
22:35Mas você pode ser abusada de outras formas, né?
22:39E, para que não aconteça casos, assim como de Cauã e Joaquim, Tainá, que, infelizmente, finalizou, assim, a Isadora finalizou
22:49de uma forma muito drástica.
22:52Eu quero estar fazendo isso como campanha, campanha em prol da criança mesmo.
22:58Muito bacana esse trabalho que você está realizando, né?
23:01De formiguinha em formiguinha, a gente vai conseguindo alertar a mãe que está em casa, o pai, enfim, a família,
23:07né?
23:07Para a gente abrir os olhos para as nossas crianças.
23:09E, olha só, daqui a pouco eu vou ler aqui alguns comentários no Facebook que estão chamando bastante atenção.
23:13Mas, antes, é o seguinte, nós pedimos a ajuda de uma advogada para também tirar nossas dúvidas, né?
23:19Vamos ver o que disse a Camila Dias. Acompanhe.
23:23Boa tarde aos colegas que estão no estúdio, boa tarde aos telespectadores.
23:27Realmente, essa situação, a gente ainda tem que lidar com relação à violência infantil e ao adolescente, né?
23:35Ela é muito difícil, mas, enquanto sociedade, nós temos a nossa responsabilidade.
23:38Todos nós somos responsáveis um pouco pela vida de crianças.
23:41Então, quando você presenciar, escutar, souber de um ato violento que esteja acontecendo,
23:48basta você ligar para o Disque 100, que é o Disque Denuncia, nesses casos de violência contra crianças e adolescentes.
23:54E, caso você também queira denunciar, né?
23:58Esteja desconfiando ou saiba de uma criança que esteja sendo abusada, violentada,
24:03você pode estar ligando para o Conselho Tutelar, que é o órgão responsável por isso, na sua cidade,
24:08no caso, cidade onde a criança reside, para eles estarem buscando informações a respeito disso,
24:15iniciando esse procedimento de identificação dessa violência
24:19e poder estar com um contexto, todos nós, atuando aí juntos nesse enfrentamento.
24:25É muito importante que a gente nos cale, que sejamos a voz, muitas vezes, dessas crianças que dão sinais,
24:32mas que, se pudermos, né? E podemos ajudar nesse sentido,
24:37o combate à violência contra crianças e adolescentes vai ser bem mais efetivo.
24:42Então, essas crianças contam com a gente, Disque 100, Conselho Tutelar, Força Policial,
24:47todos juntos, enquanto sociedade, podemos fazer a nossa parte.
24:52A gente não pode se calar. E se você é vizinho, se você escuta algo de estranho,
24:57liga, diz que 100, denuncia, faz uma denúncia, seja ela anônima ou não, a gente não pode se calar.
25:03Olha aqui, estou recebendo vários comentários no Facebook, a Antônia Mota fala que ela foi vítima de assédio
25:09quando ela era mocinha, que ela nunca falou nada para os pais e eles não acreditavam nas crianças, né?
25:14Graças a Deus, hoje, com a psicologia, os órgãos competentes, ela fala que hoje ela se sente melhor.
25:21E, infelizmente, muitos casos, tem aí como o do Joaquim do Cauã, que ninguém percebeu nada,
25:27que acontece muito mesmo isso.
25:30A Tamara fala que, por conta das agressões que sofreu na infância,
25:35foi difícil para ela se relacionar com alguém depois, né?
25:38Que ela sofreu muito com o abuso do ex-padrasto e sofreu também com a ex-madrasta.
25:44Olha só, sofreu dos dois lados, hein, gente?
25:47Inclusive, ela carrega várias marcas na vida.
25:51Ou seja, essa pessoa aqui, a Tamara, sofria dos dois lados.
25:55Imagina, ela não tinha nem... ia para um ambiente familiar, era ruim, ia para o outro, era pior ainda.
26:01Sim, e esses ambientes de vulnerabilidade e negligência marcam a identidade do indivíduo.
26:08Para tudo tem solução.
26:11Então, no caso da Tamara, uma terapia seria bastante importante para que ela pudesse ressignificar essa experiência e não perpetuá
26:20-la.
26:20Então, existem várias formas de estratégias.
26:23A estratégia da avó é a prevenção, a estratégia da Rafaela da mesma forma.
26:29Mas é importante que a gente enfrente o problema e saiba que tem solução.
26:35Muito importante programas como esse, onde a gente pode falar sobre agressão, onde a gente pode, muitas vezes, dar uma
26:42possibilidade, uma porta para quem está nos escutando.
26:45Porque, pegando ali o exemplo da Rafaela, o padrasto era a lei, era um policial.
26:50Então, parece que nada que eu faça vai fazer sentido.
26:53Mas existe, sim, uma rede, uma rede pública que dá assistência e está disponível para que essas pessoas que estejam
27:02de sofrimento possam procurar.
27:03E o comprometimento também de vizinhos, de familiares, de irmãos, tudo isso é muito importante.
27:08Olha só, a Creuza Prat, ela fala que chora toda vez que vê uma notícia dessa na televisão, porque ela
27:17tem três filhos que ama tanto que chega dói.
27:20A gente que é mãe, a gente se pergunta assim, como que uma mãe, às vezes, sabe disso?
27:25Como que ela aceita?
27:27A gente que está de fora, a gente não consegue imaginar.
27:30Não interessa se existe alguma dependência amorosa, dependência financeira, seja lá o que for.
27:35No caso, dona Marlúcia, do que aconteceu com o Cauã, com o Joaquim, a mãe, ela demonstrava alguma coisa, até
27:43mesmo alguma dependência do Jojeval?
27:48Olha, eles se envolveram com a igreja, né?
27:51Então, eu não vi eles trabalhando, eu só vi eles em prol da igreja, né?
27:57E eu não posso afirmar, tá?
28:00Agora, nós, como avó mesmo, eu vi um exemplo muito legal no Faça Bonito, que é o seguinte.
28:11Nós, como avós, que já temos nossos filhos, que já é uma forma diferente para a gente estar cuidando daquela
28:20outra criança,
28:21A criança chega para mim e fala assim, hoje em dia, os pais, geralmente, não deixam as crianças comerem açúcar,
28:29né?
28:31Aí, ele está comigo, aí ele fala assim, que quer uma docinho.
28:36Aí, a vovó vai, com aquele carinho, sem maldade, e fala, vó, então, meu amor, mas não fala com a
28:43sua mãe.
28:43O que isso quer dizer?
28:45A criança vai achar que ela vai poder ter um segredinho.
28:52E aí, o que acontece?
28:54Eu chego a me arrepiar.
28:57Chega alguém, mesmo próximo, onde ela também tem confiança,
29:03começa a fazer alguma coisa com ela diferente.
29:08E a criança não sabe dizer não.
29:10E, às vezes, até dá esse docinho também, né?
29:13Então, a criança, ela tem que aprender a dizer não.
29:19E quem tem que ensinar é quem está próximo dessa criança.
29:24Não importa quem.
29:25Pai, avô, padrasto.
29:27Se você mostrar para a criança que nessas partes, onde são cobertas, ninguém pode tocar...
29:38Isso já começa dentro de casa.
29:40Isso.
29:40E que, se alguém tocar, ela tem que ter alguém de confiança, ela vai aprender a dizer não.
29:47Muito bem colocado.
29:48É um exemplo que tem que vir já de dentro de casa.
29:52Sim.
29:53Agora, quem está em casa agora, Letícia, vivendo um relacionamento, essa mulher ou pai,
29:58fala assim, gente, não está saudável para o meu filho,
30:01como que essa pessoa também pode se desvincular desse relacionamento?
30:06Porque se ela apresenta algum sinal de perigo, a gente também tem que saber sair fora, né?
30:11Porque você pode colocar toda a família em risco.
30:13Como que seria...
30:14Dá essa dica aí para a gente, Letícia.
30:17Olha, de novo, né?
30:20Não tem receita, né?
30:21Cada caso é um caso, não tem receita.
30:23Mas, aquela máxima do passado, que briga de marido e mulher não se colocava a colher,
30:30que em quatro paredes pode tudo, em outro contexto, mas assim, o que acontece dentro da família, morre na família,
30:36isso é questionável.
30:39Então, se você, mãe, mulher, que está numa situação de vulnerabilidade,
30:44que vê os seus filhos numa situação de vulnerabilidade,
30:47você não consegue, nem pode sair dessa sozinha.
30:51Então, comece a retomar as suas conexões, quer com a sua família, quer com os seus vizinhos,
30:56quer com a rede social do seu bairro, ou a escola, o que quer que seja.
31:00Mas, comece a fazer as suas conexões pessoais, para que você possa se sentir fortalecida
31:07em sair dessa situação de violência e de vulnerabilidade, né?
31:11Tá certo.
31:12Dora Marlúcia, qual o recado que a senhora deixa para as outras avós,
31:16que estão aí do outro lado da tela, acompanhando a gente,
31:19que percebe algo de estranho também no netinho, na netinha?
31:24Olha, eu acho o seguinte, cada um, dentro do que ela faz,
31:29não importa o que seja, gente, pai, mãe, padrasto, não importa, irmão, tá?
31:36Eu, hoje, eu estou me colocando em prol de fazer a prevenção.
31:42E, baseado nisso, nós estamos fazendo várias caminhadas, abordando no sinal.
31:50Esse mês mesmo, nós fizemos dia 14 do 5, na reta da Penha, na subida do hospital infantil.
31:56Depois, nós fizemos um dia oficial, dia 18, pela Prefeitura de Vitória, mas juntamente conosco.
32:03E, nesse dia, foi ótimo. Por quê?
32:07Foram vários políticos, mas muitos mesmo.
32:12Eu cheguei lá colocando as faixas, os meus pedidos no chão.
32:17Mas por que eu fiz isso?
32:19Estica aí a camisa para a gente ver. Estica aí a camisa para a gente ver, rapidinho.
32:24Olha lá.
32:25Justiça, não é isso?
32:27Cauã, né? E o irmão Joaquim.
32:34E, além disso, por que eu faço isso?
32:38Porque eu não vou mudar a lei. A lei não vai ser mudada.
32:41Nós, como sociedade, para mudarmos uma lei, precisa ser do país inteiro, mas com milhares e milhares de assinaturas.
32:49Então, eu não consigo fazer isso.
32:51Então, os políticos estão nesse papel.
32:54Inclusive, rapidinho, nós estamos conseguindo avançar, sim.
32:59Essa cartilha é da Prefeitura de Vitória, tá?
33:03É ela que cede, tá?
33:05E nós estamos com alguns avanços.
33:09Logo no início, nós fizemos um projeto em questão de colocar mais assistentes sociais nas escolas, tá?
33:16Depois disso, a ministra Damales colocou um projeto para aumentar a lei para os crimes de pessoas que influem religiosamente,
33:25tá?
33:26E ontem, inclusive, aqui em Vitória, foi feita uma lei também que pessoas que são condenadas com esse tipo de
33:35coisa não podem entrar em serviço público.
33:40É inadmissível, né? É verdade.
33:42Olha, o nosso tempo, infelizmente, acabou.
33:45Muito obrigada.
33:45É um assunto, gente, que se deixar rende, né?
33:48E aqui no Facebook também está bombando.
33:51Muito obrigada de todo o coração pela presença de vocês, tá bom?
33:54Sinta-se abraçada mais uma vez, dona Marlucia, e você também, Letícia.
33:57Obrigada.