00:00Foi bala peritinho, meu pai é trabalhador, entendeu?
00:02O pai sempre trabalhou, desde que eu me entendo por gente, entendeu?
00:05Pra manter a casa, pra sustentar a gente, pra ajudar eu, pra ajudar os netos, todos os filhos.
00:10Meu pai sempre foi muito trabalhador, muito guerreiro.
00:12Meu pai nunca mexeu com ninguém.
00:13Todo mundo da comunidade gostava dele.
00:15Ele foi em casa almoçar, eu fiz o almoço dele.
00:18Aí ele pediu pra eu fazer um pão pra ele.
00:20Eu falei, pai, tava até frio no dia, chovendo.
00:22Falei, pai, não vou fazer o seu pão porque tá chovendo e a massa não vai crescer.
00:25Mas eu vou fazer um bolo.
00:26Bati o bolo, ele almoçou e desceu.
00:29Só que eu não vi que ele desceu pra mim, ele tava no quarto, entendeu?
00:31Aí eu ouvi muito tiro, muito tiro, muito tiro.
00:34Aí foram, pegaram o seu pai, pegaram o seu pai.
00:35Eu falei, pai, olha pra mim, pai, olha pra mim.
00:38Aí ele foi e apagou, levantou rindo.
00:40Aí ele falou, onde a gente tá?
00:43Eu falei, pai, a gente tá perto do Péu da Glória, perto do serviço da minha mãe.
00:47Vamos falar com ela?
00:48Ele falou mesmo assim comigo.
00:49Não, não vamos falar com ela não porque vai preocupar sua mãe, eu vou morrer, mas não vai ser dessa
00:53vez.
00:54Era um paesão, era uma amiga, era aquele homem que você podia contar pra tudo.
00:57Eu costumo dizer que meu pai era mais que meu pai, entendeu?
01:00Ele era meu amigo.
01:01Qualquer coisa que eu precisasse falar, se conversar, eu contava mais pra ele do que pra minha mãe, entendeu?
01:06Porque quando eu falei, ele era mais meu amigo do que meu pai.
01:09Ele era um paisáscara, meu pai demais, demais, demais.
01:13E aí
01:14E aí
01:17E aí
01:17A CIDADE NO BRASIL