00:04Elane, cadeirante, nascida e criada em Vila Prudêncio, Cariacica, uma cidadã que nunca teve o seu direito de ir e
00:11vir respeitado.
00:12Como é que é pra você andar por essas ruas de Vila Prudêncio?
00:15Não anda, né? Não tem como. O único pedaço que eu utilizo mesmo é esse que vocês veem que é
00:21asfaltado.
00:22Só esse trechinho aqui?
00:23Só esse trechinho aqui.
00:26Pra se locomover pelas ruas do bairro só com ajuda e mesmo assim correndo risco.
00:31Já caí, já torci o pé, já fui parar no hospital por isso, né?
00:36Às vezes você não cai, mas tipo assim, por quê? Quem tá te empurrando, né?
00:40Que às vezes eu tenho que ir na outra cadeira e a pessoa acaba me segurando pelo cabelo pra mim
00:43não ir de cara no chão.
00:45Já quebrou a cadeira, né? Porque não tem como você passar.
00:49O bairro foi fundado há mais de 40 anos e até hoje só a rua principal, onde passa o ônibus,
00:55foi pavimentada.
00:56Todas as outras são assim. Uma mistura de buracos, valas, lama, mato e problemas.
01:02Uma das mais detonadas é a rua Belo Horizonte, onde a prefeitura tá construindo uma creche.
01:07Os moradores já não aguentam mais.
01:09Que situação, tá? A gente chegou de carro aqui e eu vou falar pra vocês.
01:13O negócio é feio, tá?
01:15Agora eu vou andar um pouquinho com eles pelas ruas aqui de Vila Prudência,
01:18pra vocês terem a noção de como esse povo sofre.
01:23Saímos juntos pra eu sentir o que eles sentem todos os dias.
01:27Pelo caminho, terra, cascalho, armadilhas.
01:30Como é que faz pra andar nessas ruas? Não trupica, não?
01:33A gente... Ah, ela quebrou o pé.
01:35A senhora quebrou o pé aqui?
01:36Quebrou o pé.
01:37Aqui na rua?
01:38Na rua, lá na frente da minha porta.
01:39É, ela mora.
01:40Caiu e trupicou.
01:41A vizinha tá... A filha, eu caí, porque aí quebrei o pé.
01:44Quebrou o pé?
01:45Quebrei.
01:46Por causa dessa rua, desse jeito aí.
01:47Por causa dessa rua, a gente não pode colocar nem um saltozinho, tem que ser chinelo.
01:51E tem que prestar bem atenção no chão, onde que pisa.
01:56Eles jogam tipo um abrita, um pó de bita. O que que é isso, amiguinha?
02:00É pra tentar ajudar.
02:01É pra tentar ajudar, mas aí a chuva vem e carrega tudo, aí fica pior.
02:06Aí vira buraco.
02:08Em vez de melhorar, piora.
02:09Em vez de melhorar, piora.
02:10Aí vem a chuva e a gente acaba sem condições nenhuma de andar, porque só joga, não tem,
02:17não passa uma máquina em cima, um reforço em cima, fica esse monte de pedra aí, ó.
02:20Aí vira uma armadilha.
02:21Aí vira uma armadilha, justamente.
02:26Gente, eu tô continuando andando aqui com os moradores.
02:28Amiguinha, você tava me contando que a noite aqui, então, é pior ainda, né?
02:32Pior, a gente, na verdade, quando chega o horário de sete horas, ninguém nem sai mais de casa, né?
02:37Por causa do vandalismo, dos roubos que acontece, e por causa dos buracos e da rede de esgoto que não
02:43tem, né?
02:44Nessa rua aqui mesmo da creche não tem rede de esgoto.
02:47É pelo meio da rua, né?
02:48É esgoto no meio da rua.
02:48Quando a noite vai triplicar em esgoto e buraco.
02:51Na minha rua onde eu moro, a gente juntou os moradores e a gente mesmo comprou uma encanação, né?
02:57Um cano...
02:57Vocês fizeram por conta própria.
02:59Fizemos por conta própria pra chegar até no bairro lá embaixo e jogar no esgoto lá embaixo,
03:03porque o prefeito mesmo daqui nunca fez nada pela gente.
03:08Olha que situação, gente.
03:10Os moradores estão investindo, fazendo as casinhas boas, né?
03:13A Gisele tá aqui, montou a loja dela.
03:15Gisele, boa tarde.
03:17Gisele é comerciante, montou a loja dela, que maneira.
03:20Mas os clientes não conseguem nem chegar, né, amiga?
03:23Não, muitos não vêm.
03:24Quando eu passo a localização e ver como é a rua, eles voltam.
03:27Falar não vou.
03:28Graças a Deus que existe um online, porque senão eu não vivia.
03:32Você consegue vender pela rede social, né?
03:34Pela rede social.
03:35Porque por aqui não.
03:37É assim, hoje choveu, né, tá lama.
03:41Poeira, quando faz sol, as pessoas chegam aqui, passam localização, eles não querem vir aqui.
03:46Mas eu não tiro a razão.
03:51Gente, olha só, o nosso negrafista, o William O'Brien, tá ali dentro do carro, tá?
03:55Porque tem que andar muito devagar aqui, porque senão o carro quebra mesmo, cai num buraco.
04:01Agora eu tô entendendo que o Uber não vem aqui, gente.
04:04Eu também não viria, não.
04:05Então, ó, distraiu, você trupica.
04:09Aqui, ó, olha aqui a situação, gente.
04:12Tá pensando que é brincadeira?
04:13Não é não.
04:17A pessoa tava me contando que não dá nem pra chegar de carro direito, né?
04:20Não, não é o carro.
04:21Um tempo eu não sei botar o carro na garagem, precisamos carregar pedra pra vocês verem aí, ó.
04:26Colocamos pedra aí, olha como é que tá.
04:28Agora que ele tá entrando por causa das pedras.
04:30Botou essas pedras pra conseguir entrar com o carro na garagem.
04:32Quando a chuva...
04:33Vamos chegar aqui perto, ó.
04:34Quando a chuva vem, olha.
04:36Quando a chuva vem, o que que acontece?
04:38Vira uma cachoeira?
04:39Vira uma cachoeira.
04:40Aí vai tudo pra dentro da casa do senhor.
04:42Aí vai lá pra área, a gente tá puxando com o voo.
04:46Quantos anos a senhora já mora aqui, irmã?
04:48Eu já tenho mais de 40 anos.
04:50E vivendo nessa situação?
04:51E vivendo nessa situação aí, que vocês todos estão vendo aí, ó.
04:58E a gente encerra com o apelo de quem já não aguenta mais tanta promessa e tanto descaso.
05:04Eu espero, realmente, assim, que eles olhem, né?
05:08Porque eles têm condição pra isso, né?
05:11Valorize esses bairros.
05:12Esses bairros podem crescer.
05:14Com respeito.
05:15Sim, sim.
05:16Vocês pagam impostos, né?
05:17Como todo mundo, né?
05:19A energia vem todo mês.
05:21A conta de água vem todo mês, né?
05:22O IPTU.
05:23O IPTU tá quitadinho, bonitinho, né?
05:26E cadê esse dinheiro que a gente contribui, né?
05:28Cadê os nossos impostos, né?