00:00É crime racial e não liberdade de expressão.
00:03Eu estava na praia, na Ilha do Boi, com mais três amigas.
00:08E tinha uma mulher sentada atrás da gente, que aparentava se incomodar com a nossa presença.
00:15Começou a mandar áudio, um áudio para alguém, falando que a praia estava mal frequentada,
00:20que só tinha preto, pobre e favelado.
00:23Não sei o que me deu, que eu nunca tinha feito isso.
00:27Falei, se você está tão incomodada, é só você se retirar da praia, moça.
00:32Aí ela falou, o que você falou, sua negrinha?
00:35Aí eu falei, negrinha?
00:38Aí ela falou, sim, sua negrinha, chega aqui perto de mim.
00:41Ela meio que estava querendo que eu chegasse mais perto dela, talvez já perdeu minha razão,
00:46não sei se era para me bater.
00:47Aí ela falou coisas como que eu fui para a praia com dinheiro do tráfico, que eu era pobre.
00:54As histórias ocorrem de diferentes formas, são contadas por diferentes vozes.
01:01Em comum entre quem traz esses relatos está a cor da pele,
01:05quem de fato sabe o que é vivenciar e combater todos os dias tanto racismo e opressão.
01:12No próximo sábado é o Dia Nacional da Consciência Negra,
01:16momento de reflexão, principalmente para quem está na luta por direitos iguais há tanto tempo.
01:22A Cris Laine mora há quase 30 anos no bairro da Penha, em Vitória.
01:27Cresceu nos becos da periferia.
01:29Antes, né, de eu não ter essa consciência racial que eu tenho hoje, essa consciência política racial,
01:35eu achava que tudo que acontecia, todas as exclusões do meu currículo,
01:39era por conta do território que eu morava, né?
01:42Só que uma vez eu percebi que eu estava sendo seguida dentro de uma loja no centro de Vitória
01:46e eles não sabiam o meu endereço ainda.
01:49E aí eu estava sendo seguida pela cor da minha pele, não pelo meu endereço.
01:53Foi aí que eu vi que o elemento central que norteia as opressões é a questão racial.
01:58E aqui ajuda a fortalecer a consciência negra através do projeto Conexão Perifa.
02:04A gente tem um prazer muito grande, né, e a gente sempre fala como ganho isso,
02:09que hoje a maioria das pessoas negras da nossa comunidade se reconhece enquanto negro,
02:13solta as suas raízes enquanto negro e trabalha a questão do racismo, né,
02:17já consegue entender que aquilo que ela está passando naquele determinado momento é uma questão racial.
02:23De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública,
02:26em 2019 foram registrados 105 casos de racismo no Espírito Santo.
02:32Em 2020 foram 80 casos.
02:34O Gilberto é uma das lideranças do movimento negro nacional.
02:38Ele destaca avanços importantes nos últimos anos,
02:42como o fato de a justiça ter equiparado injúria racial a crime de racismo,
02:47considerando-a imprescritível, ou seja, que não perde o efeito.
02:51Mas ainda é pouco.
02:53Segundo ele, o poder público precisa ultrapassar as divisões territoriais.
02:58Nós vivemos numa cidade que era dividida.
03:01Vitória, por exemplo, se você pegar Vitória, a partir da Leitão da Silva,
03:06vindo do centro da cidade, do lado direito você vai ter a Orla,
03:10os bairros da classe média, os bairros nobres,
03:16que tem toda a assistência do Estado, escola, centro de saúde,
03:20ruas faltadas, esgotamento sanitário e tal.
03:22Se você pegar o lado esquerdo da Leitão da Silva,
03:25estão os morros, as quebradas, as favelas e uma ausência muito grande do Estado.
03:31Aliás, o Estado só se faz presente quando a polícia sobe o morro
03:36ou entra na favela para fazer batida, enfim.
03:40A Melissa, do início da nossa reportagem,
03:43pode não ter denunciado a mulher que a ofendeu.
03:46Mas, certamente, ela deu a melhor resposta.
03:49Uma semana depois, como eu sou modelo,
03:52eu fiz um trabalho para uma grande marca de joias do Estado
03:57e saí no Altidó, na Terceira Ponte,
03:59no Altidó, no Camburi, em Laranjeira,
04:01saí em comercial de TV.
04:03Então, se aquele dia ela não sabia quem eu era,
04:06eu tenho certeza que depois ela descobriu.
04:08O racismo está no modo de pensar,
04:10no modo de falar, no modo de agir.
04:13Foi feita uma enquete, alguns anos atrás,
04:15uma pesquisa, uma pesquisa bem qualificada
04:19sobre o racismo, há uns 20 anos atrás,
04:22onde se perguntava assim,
04:23se a pessoa achava que existia racismo no Brasil.
04:28A pessoa falava assim, 100% dizia,
04:31não, no Brasil tem racismo.
04:33Aí a pergunta pergunta assim,
04:35e você é racista?
04:36Eu falo, não, eu não sou racista.
04:38Então, eu não sou racista.
04:39Quem é racista é a pessoa que mora lá no outro lado da rua,
04:42lá no outro bairro, lá na outra cidade.
04:44Então, é um paradoxo.
04:46É um país de racista, mas você não conhece os racistas,
04:49não se vê o racista.
04:50Então, acredite na Melissa, na Crisleine e no Gilberto.
04:55Aqui, o lugar de fala é todo deles.
04:58A desconfiança da pessoa negra sempre existe,
05:02a desconfiança que ele não é capaz de desenvolver
05:05trabalhos complexos,
05:07a desconfiança que ele pode ser um marginal,
05:11desconfiança que ele é uma pessoa que não sabe conviver em sociedade.
05:16Tudo isso são estereótipos,
05:18são preconceitos de discriminação
05:20que é feita com uma pessoa negra no dia a dia.
05:24E a naturalização do racismo dá a entender
05:27que o racismo no Brasil é uma coisa,
05:29ele é pacífico, não é pacífico.
05:31Todas essas mortes que acontecem,
05:33essas mortes violentas de pessoas negras,
05:35é como se fosse uma guerra civil
05:38que é travada entre a população negra e o Estado.
05:42Parem de falar que racismo não existe.
05:45Cada dia que passam nos jornais, na televisão, na internet,
05:48você vê.
05:49Para mim, sinceramente, eu sinto que parece que piora cada dia,
05:53no mundo todo.
05:55Enquanto a gente não admitir que o Brasil,
05:57que foi o último país a abolir a escravidão,
06:01é um país racista,
06:02a gente não vai conseguir caminhar com as pautas antirracistas.