Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 3 semanas
Psicóloga e advogado explicam todas as consequências para a família e para o homem preso suspeito de manter a mulher e os filhos presos em casa em condições precárias.

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Olha só esse depoimento.
00:02A gente sofreu agressões, ele batia, xingava, deixava sem comer, sem água.
00:09Esse é um dos casos mais chocantes de violência doméstica dos últimos tempos.
00:15Essa mulher foi mantida em cárcere privado junto com os filhos por 17 anos.
00:20Essa história mais parece um roteiro de filme de terror.
00:23Ela todo esse tempo presa em casa pelo marido, sem comida, sem água e ainda era diariamente agredida.
00:30Assim como os filhos de 22 anos e 19, que viviam amarrados.
00:37Desnutridos não conseguiram se desenvolver e mais se parecem crianças.
00:42Essa mulher contou aos policiais que gritava, pedia socorro aos vizinhos e ninguém ouvia nada.
00:47O homem colocava a música alta e as janelas foram vedadas.
00:50Luiz Antônio teve a prisão convertida em preventiva e vai responder pelos crimes de sequestro ou cárcere privado, agressão, maus
00:59tratos e tortura.
01:00Imagine os horrores que essa mãe e esses filhos viveram.
01:04Essa mulher foi proibida de estudar, trabalhar, ter contato com a família ou amigos.
01:10Passou fome, viveu os abusos físicos e psicológicos.
01:14E o agressor ainda diz que fez tudo isso para o bem deles.
01:18Bora repercutir esse caso?
01:20Aqui no estúdio eu recebo a psicóloga Letícia Santana, boa tarde Letícia.
01:26E também o advogado criminalista Rivelino Amaral.
01:31Que situação triste, que assunto denso, né gente?
01:34Assim, em pleno século XXI, a gente se deparar com uma notícia dessa.
01:41Dois filhos e uma mulher mantidos em cárcere privado por 17 anos.
01:47Um crime hediondo, né?
01:49É, na verdade a gente tem uma somatória de crimes, né?
01:52Quer dizer, a gente tem maus tratos, a gente tem lesão corporal, a gente tem o crime de cárcere privado,
01:58né?
01:59As penas podem chegar até 90 anos nesses casos, uma conta rápida que fiz.
02:05E na verdade, assim, salta os olhos, né?
02:08A gente só vê isso em filme, parece que não é verdade, né?
02:11E assim, imagina o reflexo negativo para a vida dessas pessoas para sempre, né?
02:17Quer dizer, o objetivo das penas do Código Penal é punir, prevenir e ressocializar.
02:23No nosso país não existe prisão perpétua, as pessoas só ficam presas, não obstante o crime que tenha cometido no
02:31nosso país
02:31e quantas vezes tenha cometido, porque esses fatos aí decorrem de 17 anos, né?
02:39As pessoas só ficam presas no nosso país por, no máximo, 40 anos.
02:44Então, não tem prisão perpétua e não tem pena de morte no nosso país.
02:48Então, essa pessoa que cometeu esses crimes aí tão chocantes, né?
02:53Essa é a palavra, ela só pode ficar presa por máximo de 40 anos.
02:59Não fica mais de 40 anos presa.
03:01E existe algum tipo de atenuante?
03:03Quer dizer, a gente fica chocado.
03:05Um crime dessa magnitude, tamanha violência, no máximo 40 anos,
03:09agora a gente ouve assim, ah, mas se tiver bom comportamento, a pena ainda pode ser atenuada?
03:13Existem agravantes, né, Ana?
03:15Quer dizer, o fato de ser uma família, a violência doméstica, né?
03:20O fato de serem descendentes também agrava a pena.
03:25O próprio tempo decorrido, né?
03:28O reflexo que causou na vida dessas pessoas, quer dizer, o não desenvolvimento, inclusive, físico e talvez, e por certo,
03:37mental dessas pessoas.
03:38Então, assim, existem inúmeras agravantes, mas não obstante as agravantes, o tempo que decorreu, os crimes todos que foram cometidos
03:48durante tanto tempo,
03:49essa pessoa só fica presa por 40 anos.
03:52E assim, veja, agora pesa sobre ela uma chamada prisão cautelar, que é uma prisão preventiva.
03:58Enquanto durar o processo, se o juiz entender que essa pessoa precisa ficar presa, ela vai ficar presa.
04:04Quando o processo termina, que a pessoa eventualmente é condenada, ela começa a cumprir a pena, é uma prisão diferente,
04:10uma prisão pena.
04:11Então, assim, o juiz analisa agora a possibilidade dessa pessoa responder ao processo em liberdade ou não.
04:17Embora a Constituição Federal diga que as pessoas têm o direito de responder aos processos em liberdade,
04:22certamente um crime dessa natureza não vai ser possível à soltura dessa pessoa.
04:27Letícia, tantas privações, 17 anos, quando a gente faz as contas, um filho de 22, outro de 19, ou seja,
04:37tudo isso começou quando eles ainda eram bebês muito pequenos, crianças, enfim, não tiveram convívio com outras crianças,
04:46afastados da escola, de uma série de coisas.
04:49Isso reflete, assim, muitas sequelas para o futuro, né?
04:55Eles não se desenvolveram enquanto ser humano, né?
04:58Isso, acho que você colocou um ponto muito importante, assim, eles não se desenvolveram enquanto seres humanos, né?
05:05E as sequelas, elas são incalculáveis.
05:08Penso eu que essa família agora, entregue à sociedade, ela precisa ser cuidada por essa sociedade.
05:15Então, precisa haver aí uma avaliação multidisciplinar, porque essa família, ela possivelmente tem sequelas em todas as áreas, né?
05:24Tanto na área do desenvolvimento cognitivo, a área da questão do desenvolvimento emocional, da socialização, desenvolvimento físico.
05:32São tantas as sequelas, Ana, que eu penso que agora cabe aí à família, aos órgãos públicos, acolher essa família
05:40e supri-la em todas as necessidades, porque penso que algumas sequelas possivelmente são irreparáveis,
05:46mas muitas elas podem, sim, ser reparáveis.
05:50E aí, o que fazer, né? Diante de um caso como esse?
05:54São três pessoas, cada um ali com uma característica diferente, porque, de qualquer maneira, são pessoas...
06:02Cada um ali é um indivíduo, né?
06:04Essas pessoas vão precisar passar por tratamentos, assim, isolados, é único, é ali individual para cada um, Letícia?
06:11Para tentar trazer essas pessoas para o social?
06:14Sim, elas vão ter que aprender a ser seres humanos sociáveis.
06:18Então, cada uma dentro da sua subjetividade vai precisar, sim, de ter um acompanhamento.
06:23Porque eu fico aqui pensando, né?
06:25Então, independente da linha da psicologia que você abrace, todas são unânimes em dizer que os primeiros anos de vida
06:33de uma criança
06:33é onde todo o fator cognitivo, todas as etapas de evolução são formadas.
06:39E essas duas crianças, elas foram privadas disso.
06:41Hoje são dois adolescentes.
06:43Segundo a reportagem, tem estatura de crianças de 10 anos.
06:46E eu fico imaginando os atrasos cognitivos, né?
06:49Talvez não tenham aprendido a escrever, né?
06:52Enfim, são tantas coisas, né, Ana?
06:53Eram privadas de comida, da luz, do sol.
06:56Pois é.
06:57E aí, assim, se realmente houver um acompanhamento sério, precisa sim haver essa avaliação multidisciplinar
07:04para saber onde cada um estagnou no seu processo de desenvolvimento e um investimento individual.
07:11E também uma ressocialização, né?
07:14Eu fico me perguntando, assim, onde é que estava a família, onde é que estavam os vizinhos?
07:17Então, são tantos os questionamentos, né, que a gente fica diante de um caso desse?
07:23Exatamente, Fivelino.
07:24Então...
07:25O poder público, né?
07:25Então, na verdade, assim, o Estado, ele não é unipresente.
07:29Ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
07:32Então, cabe às polícias, militar, civil, à Polícia Federal, enfim, fazer esse policiamento
07:37ostensivo de estar na rua para nos proteger.
07:40E a polícia, de fato, nos protege.
07:43Tem maus policiais, como também tem maus médicos, maus advogados, enfim.
07:47Mas, via de regra, os policiais são do lado bom e nos defendem efetivamente.
07:52Bom, o que é importante nesse caso, se você observar?
07:56Olha, os vizinhos são determinantes.
07:59Por isso que as pessoas precisam, sim, em briga de marido e mulher, as pessoas metem a colher, sim.
08:05Por quê?
08:05Porque as mulheres, via de regra, elas são agredidas.
08:08Olha que caso horroroso que a gente está vendo.
08:10Então, o Estado, ele não consegue alcançar a todos, a todo momento.
08:15E, infelizmente, essas coisas acontecem.
08:17Por isso que a sociedade também tem um papel muito grande para diminuir a incidência de
08:23crime dessa natureza.
08:24Quer dizer, as pessoas precisam ficar atentas aos seus vizinhos, aos movimentos, ao não
08:29movimento, quer dizer, à música repetitiva, não ter acesso a absolutamente ninguém.
08:35Então, as pessoas precisam se posicionar, sim, para evitar que coisas como essa aconteçam.
08:41E o Estado, ele proporciona isso.
08:44O Disque Denúncia 181 ou a própria Polícia Militar 190.
08:48Quando você não souber o que fazer, para quem ligar, se é corpo de bombeiro, se é marinha,
08:53liga para o 190.
08:53Sem dúvida, né?
08:55Eles vão te orientar imediatamente.
08:56O atendimento é excelente, super rápido.
08:58Eles estão de prontidão e estão super preparados para isso.
09:01Então, a função da sociedade é muito importante para crimes dessa natureza.
09:05As pessoas precisam se movimentar, ficarem atentos e chamarem o Estado para que o Estado
09:10possa agir.
09:11Mesmo que não ocorra nada, que a pessoa tenha dúvida se eventualmente está acontecendo
09:16alguma coisa, o Estado vai lá só para verificar.
09:19Então, o Estado tem essa prerrogativa e vai possibilitar a diminuição de crime dessa
09:24natureza.
09:25Você comentou agora há pouco sobre a polícia, né?
09:27O policial que entrou na casa viu uma cena muito triste.
09:31Olha só como mãe e filho estavam.
09:35E filhos, né?
09:36Olha só.
09:37A menina estava no chão, amarrada às mãos e os pés, rolando praticamente no chão, né?
09:44Que acredito eu que era o que ela passou esse tempo todo de cárcere.
09:49E o menino amarrado na cama, também muito nervoso, muito agitado.
09:55E a mãe no quarto.
09:57Acredito eu que estava presa, não sei.
10:00Não, presa não, a gente estava proibida de sair do quarto, né?
10:05É, a gente está tendo uma série de participações aqui.
10:08As pessoas realmente estão extremamente indignadas em ouvir uma notícia como essa, em saber
10:14que acontece um crime dessa magnitude, né?
10:17Inclusive, olha só, a Marina, ela fala assim, a justiça tinha que ser mais severa.
10:23Ele cometeu, no caso, né?
10:25Vários crimes.
10:26Ele destruiu a vida de três seres humanos.
10:29Acabou com o psicológico da mãe e de duas crianças.
10:32É, então, e infelizmente, infelizmente, para casos dessa natureza, o Estado tem essa
10:38limitação imposta pela própria lei, né?
10:40O Código Penal, desde 1940, fala isso.
10:43Era 30 anos, houve uma alteração recente para 40 anos.
10:49Agora, a gente se pergunta também, será que em casos dessa natureza a gente não precisava
10:54ter uma punição diferente, né?
10:56Quer dizer, o Estado tem o poder, por força da lei, de punir as pessoas e, nesse caso,
11:02no máximo por 40 anos.
11:04E as pessoas, por que o Estado pune as pessoas?
11:06As pessoas que não seguem as regras precisam ser punidas e precisam reaprender a viver em
11:13sociedade.
11:14Ocorre, todavia, que com o sistema penitenciário que a gente tem hoje, as pessoas não são
11:20melhoradas.
11:21Quer dizer, as pessoas são presas e elas saem pioradas, né?
11:25Nós somos o terceiro país no mundo em população carcerária.
11:28O Espírito Santo tem 37 presídios, salvo engano, superlotados.
11:34A capacidade, salvo engano, é para 9 mil.
11:35Tem 13 mil pessoas presas.
11:37Então, a gente tem uma fábrica de intensificar crime, porque as pessoas são presas e, ao invés
11:44delas saírem melhoradas, elas saem pioradas.
11:46Então, a gente precisa, de alguma forma, voltar os olhos para isso.
11:49Quer dizer, só punir também, Ana, não resolve.
11:53A gente precisa pensar o que fazer, né?
11:55Tem que trabalhar o sistema comum.
11:57É, esse caso, esse crime propriamente dito, é um caso que foge à normalidade, que nos
12:02causa arrepio, né?
12:04Que é uma coisa assim, inimaginável.
12:06Isso é inimaginável, né?
12:07Quer dizer, mas o Estado precisa voltar os olhos para essas pessoas que são presas,
12:11porque a gente está piorando essas pessoas.
12:15Exatamente.
12:16E as pessoas se preocupam tanto com as consequências, né, desses três seres humanos
12:22que viveram privados e diante de tamanha violência, que existe um comentário aqui da Sol Dias.
12:29Ela fala sobre a questão do crescimento, agora os médicos, né?
12:32Quem vai cuidar desses dois?
12:35Um já é adulto, 22 anos, o outro com 19, ajudar a desenvolver eles fisicamente, a questão
12:41de escola, educação.
12:42Agora, ela fala assim, talvez eles nunca se casem, porque o trauma vai ficar para sempre.
12:49Esse homem é um monstro, enfim, tem que ir à júri popular, as pessoas se revoltam
12:54muito com isso.
12:55Isso é complicado também, né?
12:57Esse trabalho psicológico, provavelmente, vai ter que ser muito intenso, porque eles
13:01viam o próprio pai maltratando eles e a própria mãe, né?
13:05Como pensar em relacionamentos futuros, né?
13:08Sim, é claro que é prematuro a gente trazer algum nível de informação em relação ao
13:14futuro deles, porque o ser humano, ele tem uma habilidade incrível de adaptação.
13:20Então, se a gente parar para pensar, eles ficaram duas décadas, praticamente 17 anos,
13:24numa condição sub-humana e sobreviveram.
13:27Isso fala desse poder humano de se adaptar a condições terríveis.
13:32Então, não cabe, talvez, aqui, nesse primeiro momento, a gente traçar um futuro para essas
13:38crianças, para essa mulher, enfim.
13:40Mas, é sabido que existem, sim, sequelas.
13:44Então, existem sequelas psicológicas.
13:46Essas crianças, esses rapazes agora, eles vão ter que aprender a se tornar humanos, como
13:51você bem colocou no início.
13:53E, de acordo com as experiências que eles vão viver daqui para frente, é possível que
13:58essas experiências os permitam atraçar uma nova história.
14:01Agora, o que não pode acontecer é uma continuidade da negligência e do abandono, pelo que a
14:07gente viu que aconteceu.
14:08Então, que eles realmente possam ser acolhidos, de todas as formas, porque eles estão completamente,
14:16como é que eu vou dizer, carentes de tudo.
14:21Tudo.
14:21Então, tudo o que for oferecido já vai ser em demasia, pensando na situação de carência
14:27global que esses três estão enfrentando.
14:31Quer dizer, um trabalho extremamente amplo e que, com certeza, vai levar muito tempo.
14:35E uma coisa que também chama bastante atenção é essa questão da dignidade.
14:40Imagina, mãe e os dois filhos que agora estão vivendo e descobrindo o que é viver com
14:47um mínimo de dignidade.
14:49Olha só.
14:52Meus filhos estão dormindo em uma cama que eles não tinham.
14:55Estão aqui, estão conseguindo dormir.
14:58Está tudo bem, graças a Deus.
15:01É assustador, né?
15:03Quando a gente vê o físico dela e ela comentando, agora os meus filhos vão poder dormir numa
15:08cama.
15:09Quer dizer, eles não tinham acesso nem a dormir com dignidade.
15:14Eles foram privados de toda e qualquer dignidade, né, Letícia?
15:17Sim, é muito bom esse exemplo, assim, é exatamente isso.
15:20Eles vão começar a construir uma nova história.
15:23Então, eles não precisam de nenhuma interferência em relação a julgamentos ou prognósticos.
15:29Eu acho que o que eles precisam agora é acolhimento e cuidado.
15:33Então, quem está ali, quem está ao redor, né, podendo oferecer essa assistência, é
15:39exatamente isso que eles precisam, de acolhimento e de cuidado para que eles possam realmente
15:43começar a escrever essa história.
15:45Agora, Rivelino, para a gente poder entender melhor, né, a gente ouve falar em cárcere
15:49privado, foi um crime de cárcere privado.
15:51Agora, o que que configura, né, um crime de cárcere privado?
15:56Ele tem um tempo?
15:58Explica para a gente.
15:59Na verdade, sequestro e cárcere privado são o mesmo tipo penal, né?
16:03Depende do lugar onde a pessoa está impedida de exercer o seu direito constitucional de
16:09ir e vir.
16:09É, sequestro é num lugar aberto, como, por exemplo, um sítio, uma fazenda que a pessoa
16:15não pode sair.
16:16Cárcere privado é um lugar fechado, como eles estavam.
16:19Então, na verdade, eles estavam em cárcere privado.
16:21São o mesmo crime, né, só tem um número, um nome diferente por conta da forma com que
16:28é limitado esse direito de ir e vir.
16:30A pena desse tipo penal chega até oito anos.
16:33Então, assim, e só para dar um parâmetro também.
16:36Ah, por que que essa pessoa não vai a júri popular?
16:39Só vai a júri popular quem mata ou quem tenta matar alguém.
16:44Aí vai ser julgado por sete pessoas da sociedade.
16:47Esses crimes aí que essa pessoa cometeu vão ser julgados por um juiz.
16:51Então, ó, essa pessoa foi presa, ele vai ser submetido a uma audiência de custódia
16:55para que seja feita a análise da necessidade de mantê-lo preso ou não.
17:00Então, vai ter uma ação penal, as vítimas vão ser ouvidas, né, as provas todas que
17:05foram colhidas ali vão ser suficientes para que o juiz, no final do processo, preste a
17:11jurisdição, quer dizer, sentencie o processo.
17:13Então, no final, depois de ouvir todo mundo, o juiz dá uma sentença, condenando ou absolvendo,
17:18cabem recursos.
17:19E a lei fala que, em casos excepcionais, essa pessoa pode permanecer presa durante todo
17:26o processo.
17:27Ou seja, ele vai ter que ficar ali, dentro do sistema, né, penitenciário, aguardando
17:34realmente o desfecho dessa história, seja condenado ou não a pena máxima, que aí
17:39agora é o curso das investigações que vai ditar, né?
17:42Isso.
17:42E aí o juiz marca uma audiência, ouve as pessoas, ouve a ele também, ouve as vítimas,
17:48ouve os vizinhos, colhe todas as provas e, no final, o juiz vai sentenciar o processo,
17:54condenando ou absolvendo.
17:56E olha só, gente, pela internet, eu vou conversar agora com a Camila.
18:00Por muitos anos, ela viveu um relacionamento onde também era impedida de conviver com outras
18:06pessoas.
18:07Ela só podia sair de casa com um ex.
18:10Boa tarde, bem-vinda, Camila.
18:12Conta essa história pra gente.
18:16Boa tarde.
18:18Meu nome é Camila.
18:20De 17 para 18, eu cumpri um ano.
18:26Agora é impedida de sair sem meu companheiro.
18:30Só poderia sair se ele saísse junto comigo.
18:33Na casa da minha família eu era impedida, na casa das minhas amigas também eu era impedida.
18:37Então, só percebi isso quando ele começou a me agredir, né, que eu tava vivendo um relacionamento abusivo.
18:46Quando ele tava me proibindo eu achava que era normal.
18:50Que era um cuidado que ele tinha comigo.
18:52Quanto tempo vocês ficaram juntos, Camila?
19:00Foi, acho que foi quase um ano, mas parecia que era muito mais.
19:06E como que você conseguiu se desvencilhar disso?
19:10Você disse que no começo você achava que era uma questão de proteção, mas depois vieram as agressões e isso
19:18começou a te preocupar.
19:20Você pediu ajuda?
19:22Como que essa história se desenrolou?
19:26Então, ele já me tentou, né, uma vez que a faca em mim e graças a Deus eu saí imlesa,
19:35não sofri nada.
19:37Ele me agredia e teve uma vez que quando eu dei um basta mesmo, foi quando eu consegui visitar uma
19:46pessoa muito...
19:48Que é a avó do meu filho e eu fui na casa dela ver o meu filho, que o meu
19:53filho também não vivia comigo, vivia mais com ela.
19:56Porque esse agressor, ele tinha ciúme comigo e com o meu filho.
20:01Então, ele também queria agredir meu filho muitas vezes.
20:04E eu não permitia, então eu deixava o meu filho na casa da avó dele.
20:08E nessa vez eu fui, né, saí de casa e fui visitar eles.
20:14Quando eu cheguei, eu olhei da janela.
20:18E quando eu olhei da janela, minhas coisas estavam tudo reviradas.
20:22Ah, como?
20:23Revirada, sopra, estava tudo bagunçado.
20:26Então, eu me preocupei, eu falei assim, comigo mesmo.
20:32Se eu peguei dentro de casa hoje, hoje eu fui aonde que eu não voltei pra casa e dormi fora.
20:41E aí, eu larguei tudo e entrei a vida.
20:45Pois é, Letícia.
20:46A gente ouvindo aí o relato da Camila, né, contar com a ajuda dos amigos, da família, num momento como
20:53esse,
20:53pra se livrar de uma situação de violência, é muito importante.
20:57A pessoa se sentir segura, né, pra isso.
20:59Porque você vê, ela relata que no começo, ela achava que aquilo era natural.
21:03Sim, e é tão importante quando a gente ouve casos como esse,
21:08porque também traz uma reflexão pra quem hoje vive um relacionamento abusivo.
21:12Porque quando a gente pega o extremo de uma situação de cárcere, de abandono, de feminicídio, esse tipo de coisa,
21:18a gente pensa, aquilo é relacionamento abusivo.
21:21É também.
21:21Mas é o fim de uma progressão de relacionamentos abusivos que podem começar, como o da Camila, por exemplo,
21:29travestido de cuidado.
21:31Então, não seria bom que você saísse com fulano, não seria bom que você saísse com essa roupa.
21:35E aí a pessoa vai sendo minada no seu direito de liberdade, vai sendo minada na sua identidade,
21:41começa a acreditar que realmente aquilo ali é um cuidado, é uma proteção,
21:46que ela não tem a condição de dar conta de si mesma, que ela precisa daquele outro.
21:51E aí, quando ela percebe, ela já está totalmente envolvida naquela situação de violência,
21:55vamos chamar isso de violência, de um abuso psicológico e moral, e ela já não consegue sair.
22:01E aí, nesse momento, o papel da sociedade, das pessoas que estão ao redor, é fundamental.
22:07Então, muitas vezes, o outro enxerga melhor a situação.
22:09Então, se você está assistindo aqui agora com a gente, você está vivendo algo parecido,
22:13tenha uma escuta mais ativa em relação às pessoas que estão ao redor,
22:17porque o outro, às vezes, enxerga algo que a gente não está enxergando.
22:21E tenha compaixão até de si próprio em pedir ajuda,
22:25porque você não precisa continuar nessa situação.
22:28E tantos e tantos casos que a gente ouve aqui, que começaram de uma forma sutil
22:33e terminaram de formas tão dramáticas.
22:35Você sabe que o estudo que apontou para a modificação da lei e para a criação do feminicídio
22:42e desses mecanismos todos de proteção à mulher, a lei Maria da Penha, as medidas protetivas,
22:49falam justamente isso, Letícia, que, na verdade, essas agressões, elas começam com agressões verbais,
22:55elas dão um passo a mais e chegam às lesões corporais, crime de ameaça,
23:01e, infelizmente, chegam ao homicídio.
23:03Então, na verdade, via de regra, o agressor, ele não parte do nada e mata a mulher.
23:09Ele vem dando sinais para ela, né?
23:12Os sinais de limitação, de ir aos lugares, sinais de agressão verbal e, depois, uma ameaça,
23:21eventualmente, uma lesão corporal e aí que ele chega no feminicídio.
23:25Então, na verdade, ele vai dando sinais e a pessoa, certamente, precisa se atentar a isso, né?
23:31E quando a gente fala em sinais, eu acho que a gente volta naquela tecla de que os sinais,
23:36não só a própria pessoa perceber, mas o entorno, estar atento também para uma série de sinais, né?
23:43Inclusive, a Marina, ela fala assim, como será que esses vizinhos não viram isso?
23:49Não foram dias, foram anos, né?
23:52Muito tempo, isso é muito triste, sem ninguém ter visto essa situação.
23:56Quer dizer, era uma rotina de um homem que entrava sozinho ali, quer dizer, não tinha mais ninguém que entrava,
24:03saia,
24:03ou visitas, às vezes, feito a gente tem, né, de censo ou de...
24:07A música, o tempo todo, né?
24:08A música, alta demais.
24:09Não tem janela.
24:11As janelas fechadas, vedadas.
24:12Então, é aquilo que eu disse, assim, na verdade, o Estado, ele não consegue estar em todos os lugares.
24:17Ele fica criando mecanismos para as pessoas se valerem desses mecanismos,
24:21mas elas precisam chamar o Estado para ele atuar,
24:25porque ele não consegue, às vezes, estar em todos os lugares ou enxergar alguma coisa.
24:29Por isso que o papel da sociedade é tão importante.
24:31O papel da sociedade, para crimes dessa natureza, especialmente, é fundamental,
24:36porque eles que estão vivendo o dia a dia, né?
24:39A polícia militar, que faz o policiamento ostensivo,
24:42ela fica tentando nos proteger, mas ela não consegue chegar tão próximo a gente, né?
24:48E ela precisa ser impulsionada.
24:50E como impulsiona?
24:51Através de alguém que está perto, que está vendo um familiar, um vizinho, um colega da escola, enfim, né?
24:57Quer dizer, então, a sociedade tem um papel fundamental para crime dessa natureza.
25:01Qual o conselho, Rivelino, então, para a gente poder reforçar, para quem está em casa, né?
25:06Às vezes, tem medo de denunciar ou de estender a mão,
25:10que você deixa para essas pessoas que estão ouvindo a gente agora
25:13e desconfiam de que alguém ali do lado está sofrendo esse tipo de violência.
25:17Então, e vale registrar também, assim, que a gente não está tendo mais casos de violência dessa forma, não.
25:24Na verdade, as pessoas estão se insurgindo.
25:26Por que as pessoas estão se insurgindo?
25:28Porque elas estão tendo segurança no Estado.
25:30Porque se você não tiver segurança no Estado, você não vai se insurgir.
25:34Você vai ficar com medo do seu agressor, né?
25:36Então, qual a orientação?
25:38Buscar o Estado, quer dizer, buscar a polícia, 190, ir na delegacia mais próxima, falar com alguma pessoa próxima.
25:45O Estado tenta criar os mecanismos, como o X na mão, né?
25:49Quer dizer, ele fica dando oportunidade para as pessoas.
25:52Então, a orientação é não permita que isso aconteça, nem inicie, porque o fim pode ser muito trágico.
25:58Tá certo.
25:59Recado dado, então, que a gente fique atento a esses sinais e faça o papel da gente de cidadão também.
26:05Letícia, muito obrigada pela sua participação hoje aqui com a gente.
26:09Rivelino também.
26:10Eu que agradeço.
26:10Fiquem atentas a todos esses sinais.
26:12Boa tarde.
26:13Boa tarde.

Recomendado