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A polícia inocentou um vizinho que foi apontado como suspeito de matar uma criança, a conclusão foi de que o pai foi o autor. Mas o vizinho sofreu diversas consequências com a falsa acusação.
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NotíciasTranscrição
00:00Eu vou conversar com o Hélio, o Hélio que foi a vítima desse boato.
00:05Boa tarde, muito obrigada pela sua participação aqui com a gente.
00:08Hoje você respira aliviado, Hélio?
00:12Hoje, graças a Deus, mas tranquilo, né, depois de ter resolvido toda essa situação,
00:18uma acusação que foi feita contra mim, apesar de saber que eu não tinha nada a ver com a situação,
00:25mas a imagem que fica diante da sociedade preocupa ainda bastante.
00:29E como é que você recebeu essa notícia?
00:33Então, na verdade, eu recebi através de ligações agora, pela manhã, através da TV Vitória mesmo,
00:41porque eu estava em trabalho ainda.
00:43Então, para mim, assim, foi uma surpresa, né, porque já tinha passado um tempo
00:49e até então eu não tinha ouvido falar mais de nada, eu também, eu e minha esposa,
00:54a gente não estava procurando saber muito sobre esses detalhes,
00:57para não poder ficar remoendo toda a situação que aconteceu, né?
01:01Agora, mesmo com a conclusão desse caso, ainda assim, impossível apagar tudo o que você viveu, né?
01:08Os prejuízos, não só materiais, mas até mesmo os danos psicológicos
01:13que você e sua esposa enfrentaram na época.
01:18É, assim, na verdade, até hoje, eu só estive lá na casa uma vez,
01:26tem duas semanas que eu fui lá na casa, porque ainda para a gente é muito recente ainda tudo o
01:31que aconteceu, né?
01:32Às vezes pode parecer que passou muito tempo, mas foram coisas que foram conquistadas ao longo de anos,
01:38então, a gente ainda tem dificuldade para poder lidar com essa realidade, né, de tudo o que aconteceu.
01:44Mas, um dia após o outro, a gente vai se restabelecendo.
01:48De que forma que isso impactou a sua vida?
01:50Porque você trouxe uma informação que até hoje vocês sofrem essas consequências.
01:56Então, na verdade, assim, como a gente lida com a sociedade durante todo o dia,
02:03então, acaba atrapalhando um pouco até a seguir a vida, né?
02:08Toda vez, em qualquer lugar que para, a pessoa lembra da reportagem, do que aconteceu,
02:14quer saber mais detalhes, quer saber o que aconteceu com a família da criança,
02:18como que está a minha vida, aí, às vezes, isso se torna desgastante, né?
02:22Tanto para mim, quanto para o restante dos meus familiares, entendeu?
02:25Acaba impactando em todo o restante da vida, né?
02:29A gente está vendo aqui imagens do estado que ficou a sua residência, né?
02:34Que, por sorte, no dia, não tinha ninguém lá, pelo que você já relatou aqui para a gente no nosso
02:40estúdio.
02:41E a gente vê que tem cômodos que ficaram completamente destruídos.
02:45Você foi ressarcido, né, de alguma coisa?
02:48Porque foram os próprios populares que fizeram isso.
02:51Então, Beto, muito pelo contrário, assim, eu estive na casa na semana retrasada,
02:57inclusive porque eu tive notícia por vizinho de que a casa estava...
03:03As outras partes que não tinham sido danificadas, entraram moradores de rua lá dentro,
03:12acabaram de arrancar o que tinha, que estava arrancando fio, vendendo todo o restante.
03:16Então, assim, na verdade, aquilo lá para a gente ainda é um cenário de terror, na verdade, entendeu?
03:24A gente ainda não consegue nem ver aquilo lá mais como um lar, como um lugar que talvez a gente
03:31possa voltar por essas circunstâncias.
03:34E aí, a gente fica se perguntando, né?
03:36Vocês tiveram que mudar toda a rotina da família, a rotina da vida de vocês por conta disso.
03:43Como é que está a vida da família hoje?
03:45Até porque sua esposa já ganhou neném, fora do local que ela sonhava, que era a residência de vocês.
03:52Assim, graças a Deus a gente consegue continuar a vida, né?
03:58Porque apesar de tudo que nós perdemos lá foram bens materiais.
04:01Então, são coisas que ao longo a gente vai conquistando de novo, mesmo que seja em outro lugar.
04:06E com apoio da nossa família, entendeu?
04:09Que está ajudando a gente.
04:11Até mesmo quanto à moradia, a gente está agora mais próximo do restante dos familiares, né?
04:17Onde a gente está residindo.
04:19Então, está dando para continuar a vida e se mantendo, mesmo que longe do cenário que a gente tinha esperado,
04:26né?
04:27Para poder seguir adiante agora com uma criança pequenininha e tal, mas está dando para levar.
04:32Agora, desculpa até perguntar, viu, Helio?
04:34Você falou que precisou mudar de endereço.
04:37Até então, a casa ali era a residência mesmo da família.
04:40Tudo isso tem um custo, né?
04:42Porque a família, em cima da hora, assim, da noite para o dia, foi pega de surpresa.
04:48Tudo isso tem um custo.
04:49Em meio à gestação da sua esposa, que ganhou o neném agora recentemente, né?
04:55E todo esse custo.
04:57Como é que fica?
04:59Então, na verdade, teve até situações de pessoas que procuraram a gente para poder nos ajudar, né?
05:08E até mesmo instruir o que a gente fizesse para entrar com a ação contra o Estado.
05:12Porque, na verdade, quando a gente começou a ser acosado e vizinhos a invadir a casa,
05:23Então, a gente chamou, a gente fez contato com a polícia, pedia segurança, mas simplesmente a gente não teve retorno.
05:31Então, assim, teve gente que falou para a gente procurar entrar com ações, mas a gente acabou deixando isso, deixando
05:36isso para lá.
05:37E, graças a Deus, como o meu trabalho continua, entendeu?
05:41A gente está tentando restabelecer junto com as próprias forças mesmo, trabalhando de novo para conquistar tudo de novo.
05:47Porque ajuda, assim, mesmo de alguma forma, a gente não teve, a não ser das pessoas que estavam próximas ali,
05:56a gente mesmo, né?
05:57De parentes, de amigos, que fizeram ali arrecadações por perto e para tentar diminuir um pouco de todo o prejuízo
06:05que a gente teve, né?
06:07Tá certo.
06:08Hélio, eu agradeço, viu, sua disponibilidade de entrar ao vivo aqui com o Fale Espírito Santo, trazendo, né, esse alívio
06:15para você.
06:16E a gente vai continuar repercutindo esse assunto aqui no nosso estúdio.
06:19Obrigada pela sua participação.
06:21Só vale lembrar para o pessoal de casa que mais detalhes sobre esse caso, gente, o Ricardo, uma criancinha de
06:287 anos, que em maio desse ano perdeu a vida.
06:31Mais detalhes você acompanha ao vivo aqui, porque nós vamos acompanhar também a coletiva de imprensa da polícia, que vai
06:38trazer mais informações.
06:39E aí, o que a gente vai repercutir, então, agora aqui?
06:42O perigo de acusar uma pessoa sem prova.
06:47Olha só como a investigação da polícia é importante.
06:50Importante não, fundamental.
06:53Bora falar sobre esse assunto?
06:54Aqui no estúdio, olha só, eu recebo o especialista em segurança, o Rafael Pereira, e também a psicóloga Letícia Santana.
07:01Obrigada, boa tarde, sejam bem-vindos mais uma vez ao Fale Espírito Santo.
07:04Rafael, gostaria que você iniciasse comentando para a gente por que casos como esse que a gente viu do Hélio
07:11são tão recorrentes assim aqui no país que a gente vive.
07:15Olha, Roberta, infelizmente, não é um caso isolado como você colocou.
07:18Infelizmente, situações terríveis como essa, tanto da violência quanto a criança, quanto com a prática dessa vingança privada, né?
07:26Ela é uma constante em nossa sociedade e deriva-se muito, talvez, do quantitativo de violência, do quanto de violência
07:37que se tem em nossa sociedade.
07:38Então, essa violência, quando ela não é reprimida, quando não há efetivamente uma contraprestação punitiva, isso vai gerando na sociedade
07:47um sentimento de revolta.
07:49Esse sentimento de revolta, muitas vezes, não contido, acaba gerando esse tipo de situação terrível que não deixa de ser,
07:58impõe-se destacar aqui, crime também.
08:01É também prática de crime, né? Porque nós temos dentro do Estado de Direito, a lei é o império, é
08:10o império da lei.
08:11Nós temos os órgãos de investigação, os órgãos de segurança pública, as polícias, nós temos o Ministério Público como órgão
08:17fiscal da lei e que tem como uma de suas atribuições promover a ação penal contra quem pratica essas condutas.
08:24E temos um poder judiciário que tem a competência da jurisdição, a aplicação da lei geral e abstrata aos casos
08:30individuais e concretos, punindo quem descumpre as normas e pacificando a sociedade.
08:36Então, não cabe ao particular, não cabe à coletividade, aos privados, praticarem a punição ou aplicação de pena.
08:45Letícia, qual é o sentimento que dita essas atitudes de populares quando querem fazer justiça com as próprias mãos?
08:54Eu observo que esse comportamento, ele é multifatorial, ele é alimentado por vários fatores.
09:00Então, a gente pode pensar, por exemplo, num fator comportamental.
09:05Então, o medo da população em, de repente, sofrer esse dano que o outro sofreu, um ato de impulsividade alimentado
09:13por uma raiva diante do cometido.
09:15Uma vingança, um sentimento de vingança.
09:19Uma força que o próprio grupo traz, uma sensação de impunidade.
09:24Então, eu vejo que esses elementos comportamentais alimentam a prática do linchamento.
09:29Mas existem componentes também que são sociais, existem alguns grupos que já são estigmatizados na nossa sociedade.
09:36E, por si só, a sociedade já tem um preconceito em relação a esses grupos e se sente validada a
09:42aplicar alguns atos de violência contra ele.
09:44E, em relação aos fatores históricos, a gente veio de uma história ditatorial, uma história de justiça com as próprias
09:51mãos.
09:52Eu acho que a soma disso tudo faz com que o Brasil seja um país que se destaca negativamente nesse
09:59tipo de ato.
10:00E é por isso que a gente não pode resolver as coisas dente por dente, olho por olho, porque a
10:07gente não tem essa competência de, de fato, concluir o inquérito.
10:14E esse é o trabalho, esse é o papel da polícia e da justiça, né, Rafael?
10:18Isso. Perfeito, Roberta.
10:20Nós temos um sistema normativo complexo, nós temos um código de processo penal, nós temos um código penal,
10:26nós temos imensas leis penais extravagantes que trazem condutas criminosas, impõem aplicação de penas, e muitas penas severas.
10:34Nós temos todo um conjunto normativo, né, um conjunto de atos concatenados que vão permitir ao Estado, através das suas
10:41forças de segurança,
10:42a polícia, em especial a polícia judiciária, a polícia investigativa.
10:46Nós temos o Ministério Público que vai atuar, né, dando início às ações,
10:50e temos o Poder Judiciário que, através dos magistrados, irão analisar o conjunto probatório e, ao final, chegar a uma
10:57decisão.
10:58Então, não compete a pessoa, a sociedade, ao particular, praticar esse tipo de conduta.
11:04Até porque o próprio Código Penal brasileiro, à luz do seu artigo 345, traz um tipo penal bem específico,
11:10é chamado exercício arbitrário das próprias razões.
11:12E diz o Código, né, que é praticar justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, e olha a inteligência da
11:20lei,
11:20que, embora legítima, salvo, se autorizado por lei.
11:26Então, no mínimo, você pratica esse tipo de crime.
11:29E esse crime, ele traz ainda, dentro de sua pena, uma detenção de 15 dias a um ano, ou multa,
11:35mas uma observação muito inteligente.
11:37Ele diz que aplica-se ainda a pena cominada à violência.
11:41Então, quem pratica esse tipo de conduta, a violência com as próprias mãos, a vingança privada,
11:46além do crime do 345, se ele causa dano ao patrimônio, responde pelo dano.
11:52Se ele causa lesão corporal, responde pela lesão.
11:54Se causa morte, responde pelo homicídio, com uma pena que pode chegar a 30 anos de reclusão.
11:59E esse sentimento de vingança pode acabar causando um crime maior do que o crime original, né?
12:03Maior do que o crime original.
12:05E o importante, Roberta, é que, quando você pratica a vingança privada,
12:11essa sensação de ter cumprido algo, de ter se aplicado a pena, ela é temporária, né?
12:17Ela é temporária.
12:19Somente o Estado está autorizado a praticar a violência legítima.
12:22Então, essa falsa sensação de vingança, ela depois, com certeza,
12:27ela será substituída por um outro sentimento muito negativo, né?
12:30Que pode levar até consequências muito danosas aos indivíduos e àquela coletividade.
12:35Vamos pensar aqui, Letícia, no caso que aconteceu com o Ricardo.
12:38Gente, é muito triste, né?
12:39A gente noticiar a morte de uma criancinha de 7 anos.
12:41É claro que isso comove, é claro que isso abala toda a comunidade, né?
12:47Os vizinhos.
12:48Mas, de uma hora para outra, uma casa foi incendiada.
12:51Vamos pensar na velocidade desse boato, né?
12:55Quais são as consequências de você levar uma informação que você não foi lá na fonte,
13:00você não apurou, você não é polícia.
13:02Quais são as consequências disso, né?
13:04Olha só onde pode chegar.
13:06É a barbárie, né?
13:07Eu acho que talvez seria a palavra mais indicada.
13:10Porque quando você julga, você já parte de um pressuposto,
13:14de uma realidade que é sua, que é pessoal.
13:17Então, quando o Rafael bem coloca, assim, a importância da participação do Estado,
13:20é porque o Estado vai fazer uma análise das duas partes.
13:23Então, o julgamento, ele já é, por si só, desfuncional,
13:28porque ele está carregado da minha impressão e do meu preconceito.
13:32E aí, quando esse julgamento, ele vem alimentado e depois fomentado
13:37por uma conclusão de um ato de violência,
13:39não tem mais freio, não tem mais limites.
13:42E aí, quando a pessoa se vê envolvida com aquilo,
13:44vem o sentimento de culpa, muitas vezes, da própria consequência do ato.
13:48Então, você vê ali, o marceneiro, ele era inocente na história.
13:52Então, as pessoas que estavam diretamente ou indiretamente envolvidas com esse ato,
13:57talvez até na posição de observadoras,
13:59hoje carregam o sentimento de culpa da destruição do patrimônio de uma família.
14:03E como você bem disse, não dá para voltar atrás.
14:05Uma vez que a fofoca se espalhou, como que você volta atrás?
14:08Foi o que aconteceu, olha só, presta atenção nessa história,
14:11também com o tio da Ivone.
14:14O tio, gente, foi espancado até a morte,
14:17depois de ser acusado injustamente de um estupro.
14:20Ivone, qual é o sentimento que você tem a ver um caso parecido com o do seu tio,
14:26uma dor parecida com a que vocês enfrentaram há um tempo atrás?
14:31Nossa, é muito difícil, assim, cada dia aquele sentimento de incapacidade,
14:41que o amor da humanidade está acabando mesmo.
14:45E é muito triste, assim, até hoje é muito doloroso para mim falar sobre isso,
14:50porque foi uma perda muito dolorosa e, assim,
14:56e principalmente quando a pessoa é inocente e que as pessoas acham que está certo,
15:00que é o dono do mundo e vai fazer justiça com as próprias mãos, né?
15:04Como aconteceu com o meu tio.
15:06Na época, você sabia, você teve conhecimento de quem estava espalhando esses boatos do seu tio?
15:14Quais pessoas estavam envolvidas nisso?
15:17Olha, de início, foi a mãe das crianças que havia tido um caso com o meu tio,
15:24aí ficou chateada com o meu tio por causa do celular que meu tio tinha dado a ela,
15:29e aí ela inventou isso daí.
15:33E falou para o pai das crianças dela que meu tio tinha mexido com a filha dela,
15:38e daí ele, sem ter certeza, veio e quis pegar meu tio,
15:44mas meu tio não estava em casa,
15:47mas a gente pediu meu tio para sair do bairro, mas não adiantou,
15:50e aí ele espalhou para o bairro, para os amigos dele,
15:55que meu tio havia feito essa coisa horrorosa,
16:00ter mexido com a filha dele,
16:02e aí o que aconteceu?
16:04Um certo dia, a gente pediu para ele sair do bairro, ele não quis sair,
16:08ele disse que não ia sair por uma coisa que ele não tinha feito.
16:11Só que ele não sabia que ia resultar nisso, né?
16:15Aí os amigos dele, colegas dele de bebida e de droga, de coisas assim,
16:23viram meu tio lá no bar e falaram,
16:27e a mulher de um deles falaram,
16:30aquele ali é o estuprador da filha do André e tal,
16:33e aí citaram a população,
16:34logo, um deles,
16:37os amigos dele ligaram para o pai das crianças,
16:41dizendo que o estuprador da filha dele estava lá,
16:46que era para ele matar ele,
16:48ele foi e deu no que deu.
16:51A população, incitaram toda a população,
16:55quando eu cheguei no local,
16:57eu tirei ele, mas tinha mais de 200 pessoas,
17:00100, 100 e poucas pessoas dizendo,
17:02a população gritando que tinha que matar,
17:04tinha que matar,
17:05tudo com pau, com pedra na mão,
17:07entendeu?
17:08E eu consegui tirar ele dali,
17:10andei com ele até perto da minha rua,
17:12mas aí o pai das crianças chegou
17:14e um rapaz da população,
17:17que era amigo dele,
17:18juntou-se a ele,
17:19deu uma pancada na minha cabeça,
17:21ele, o pai das crianças,
17:22e eu estava segurando meu tio,
17:24levando meu tio para minha casa,
17:26aí nesse instante eu dei uma palada na minha cabeça
17:29para poder me entontear,
17:30e me entonteou,
17:31foi quando meu tio caiu,
17:32porque já tinha dado uma palada na cabeça do meu tio.
17:35Aí meu tio caiu,
17:36e aí os dois mataram ele no meio da população,
17:39muita gente, muita gente,
17:41e todo mundo gritando,
17:42tem que morrer,
17:43olha aí o que acontece com o estuprador,
17:45e no final meu tio nunca tinha feito nada,
17:48meu tio tinha 74 anos,
17:51meu tio era uma pessoa trabalhadora,
17:54uma pessoa de bem,
17:54a pessoa que amava a vida para morrer daquela forma,
17:58ele não merecia daquele jeito,
18:00mesmo que ele tivesse feito,
18:03eu acho que quem tinha que resolver era a justiça,
18:05e não as próprias pessoas.
18:08E aí a polícia concluiu as investigações,
18:11concluiu o inquérito,
18:12e aí veio depois a informação
18:14de que o seu tio não tinha nada a ver com essa história,
18:18que tudo não se passou de um boato,
18:20de uma mentira que foi sendo propagada.
18:23qual foi o sentimento da família,
18:26quando você falou assim,
18:27tá ok, agora não tem como voltar atrás,
18:30porque é por causa de uma revolta.
18:33O sentimento da família,
18:35em questão,
18:36a vida do meu tio,
18:38ela não volta mais,
18:39nunca mais,
18:41mas quando a gente ficou sabendo da notícia,
18:43que a gente tinha certeza que era mentira,
18:45a gente já tinha essa certeza,
18:47mas aí foi para esfregar mesmo na cara das pessoas,
18:50que falaram,
18:51que até hoje,
18:52quando eu encontro com alguém que eu reconheço,
18:54eu falo,
18:55lembra,
18:55aquele cara,
18:56você estava falando,
18:57disse isso,
18:57pois é,
18:58meu tio morreu,
18:59eu não sei,
18:59então isso aí,
19:00foi aí uma prova,
19:01mas tinha certeza,
19:03mas não mudou muita coisa não,
19:05só mudou em questão,
19:06é isso mesmo,
19:07porque a vida dele não volta mais,
19:09ele era uma pessoa que todo mundo gostava dele,
19:11de idade já,
19:12trabalhador,
19:13era aposentado,
19:14mesmo assim,
19:15fazia os biquinhos dele,
19:16entendeu?
19:17É muito doloroso,
19:18é uma dor que não tem como explicar,
19:20olha,
19:20eu não desejo isso para o meu pior inimigo,
19:22para nenhum ser humano da Terra.
19:25Ivone,
19:25eu agradeço a sua participação aqui no Fala Espírito Santo,
19:29trazendo esse triste relato,
19:30com um desfecho que infelizmente,
19:33não dá mais para voltar atrás,
19:34mas a gente deixa o nosso abraço para você,
19:37e obrigada mais uma vez pela sua participação.
19:38Obrigada.
19:40Rafael,
19:40a gente vê casos como o do Hélio,
19:43que teve a casa saqueada,
19:45incendiada,
19:46invadida,
19:47casos de lixamentos,
19:48como aconteceu com o tio da Ivone,
19:51e o que a gente precisa,
19:53embora muita gente também pense assim,
19:54ah,
19:55mas a justiça no Brasil é lenta,
19:57a justiça não funciona,
19:59o que a gente precisa para reduzir,
20:01para acabar,
20:01na verdade,
20:02com essa mentalidade de fazer justiça com as próprias mãos?
20:05Olha,
20:06Roberta,
20:07primeiramente a consciência,
20:09e a consciência não só da humanidade,
20:13que muitas vezes falta nesse tipo de episódio,
20:17como a Letícia bem colocou aqui,
20:19não tem outra palavra senão barbárie,
20:22porque isso aí é você retroceder,
20:24isso aí é você desconstruir a sociedade,
20:26e voltar a tempos antigos da vingança privada,
20:29da vingança particular,
20:31e a consciência de que existe um Estado estruturado com poderes e com órgãos e com instituições que estão aptas
20:40a fazer isso,
20:41a polícia apta e com atribuição de investigação,
20:44os profissionais preparados para a investigação,
20:47o Ministério Público apto e preparado para promover eventual acusação,
20:53e o Poder Judiciário com a competência e preparado para o julgamento,
20:58dentro de uma imparcialidade, dentro de uma avaliação isenta de provas.
21:02É claro que não é só o sistema brasileiro,
21:05mas todo o sistema mundial judiciário,
21:07ele possui problemas, deficiências,
21:10seja por falta de material humano,
21:13seja pela complexidade do caso,
21:15nenhum crime, ele é de simplória resolução,
21:18mas isso não permite ou autoriza que a população ou que o particular promova a vingança privada.
21:28É importante destacar que não se pode combater o crime praticando o crime.
21:35Praticar o crime traz consequências também,
21:37e quem pratica a vingança privada responde por crime,
21:41desde crimes mais simples até crimes mais graves,
21:44como é o caso, infelizmente, do homicídio praticado contra o aposentado.
21:50É uma frase clichê, mas é a verdade,
21:52que violência só gera, de fato, violência.
21:55Você viu a Ivone falando que as pessoas começaram a juntar,
21:59juntou 100 pessoas,
22:00de repente ela olhou e tinha umas 200 pessoas batendo no tio dela.
22:04Acaba que a violência,
22:06tem gente ali que não sabia nem o que estava fazendo se bobear,
22:09a violência só gera mesmo mais violência, Letícia.
22:12Sim, e você percebe no depoimento dela que sempre há um líder que incita todo o grupo,
22:18que alimenta esse ato de impulsividade frente a essa violência,
22:24e coloca quem está ali nessa condição de justiceiro também como agressor.
22:29Então, se aquele ato, independente se a pessoa cometeu ou não,
22:33te constrange, te deixa revoltado e tudo mais,
22:36quando você pratica a justiça,
22:39quando você entende que você pode tirar a vida daquela pessoa,
22:43você está se colocando no mesmo lugar que ela.
22:45A mesma coisa com quem fica ali observando.
22:48Então, você também está se colocando no mesmo lugar desse sujeito,
22:51que está ali inserido no universo de violência,
22:53que você condena.
22:55Então, eu acho que é uma reflexão.
22:56Então, muitas vezes são atos impensados, impulsivos,
22:59que depois geram um arrependimento profundo,
23:02um sentimento de desesperança.
23:04Então, não vale a pena.
23:05Se você está ali no meio, fomentado por alguém,
23:08e se vê levado a esse tipo de coisa,
23:10entenda que é questão de você parar, tomar consciência,
23:13como a gente colocou aqui,
23:14e sair dali e buscar autoridades
23:17para que ela sim possa fazer a justiça necessária e correta.
23:21Tá certo, gente.
23:22Obrigada pela participação de vocês aqui no Fala Espírito Santo.
23:24E lembrando para você aí de casa,
23:26que ao longo da nossa programação,
23:28a gente vai entrar ao vivo na coletiva de imprensa,
23:31que está sendo realizada pela polícia,
23:32daqui a pouquinho, viu, gente?
23:33Porque a gente vai ter mais informações
23:35de quem, de fato, cometeu, por quê, né?
23:39Quais eram as circunstâncias que aconteceu, infelizmente,
23:44com a morte, que resultou na morte do Ricardo,
23:48uma criancinha de apenas 7 anos,
23:49que motivou o assunto do nosso estúdio de hoje.