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  • há 7 minutos
Como saber se está acontecendo um uso abusivo, se é caso de alcoolismo ou não.

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Transcrição
00:00A Bárbara Borges falou abertamente sobre o problema que teve no passado com o álcool.
00:05Isso foi durante uma sabatina com os jornalistas. Olha só como é que foi.
00:10Tudo bem, Bárbara? Tudo!
00:12Eu queria fazer uma perguntinha. Você declarou recentemente, não tão recentemente,
00:18que você teve um problema com o alcoolismo.
00:22Isso está superado? Na casa nós teremos festas.
00:27Como é que você vai lidar com essa situação?
00:31Fábio, sinceramente, no fundo do meu coração, nunca houve uma declaração...
00:37Fábio, desculpa.
00:38Fábio, desculpa.
00:40Nunca houve da minha parte uma declaração de que houve um alcoolismo.
00:46Eu falei sobre um abuso, um excesso que eu tive em relação à minha relação com o álcool.
00:52que, logicamente, eu estava vivendo um momento de muitas superações, enfim, transições,
01:00e que eu precisei abandonar uma coisa que naquele momento não estava me fazendo bem.
01:06E aí foi uma longa travessia, que foi maravilhosa a opção que eu tive de deixar de lado aquilo.
01:14E quando eu fiz o meu post, que gerou um amaranhado de reportagens,
01:21eu quis inspirar as pessoas a uma reflexão sobre comportamentos, hábitos em que a gente se excede
01:30e que a gente pode parar.
01:33Então, assim, estou aqui com essa questão muito bem resolvida na minha cabeça.
01:41Muito à vontade para viver isso aqui, porque eu não tenho o menor problema e todos vocês verão isso.
01:48O que foi é passado.
01:50Passado não é lugar de permanência, é de referência.
01:53Eu tive uma declaração que ficou atrás.
01:56E agora é uma nova Bárbara.
02:00Também bato palmas para a Bárbara.
02:02E vamos deixar bem claro, ela esclareceu aí, gente, que não é alcoólatra,
02:07mas que viveu um momento muito difícil por causa do uso abusivo do álcool.
02:13E tem mesmo diferença, viu, gente?
02:15Então, vamos bater um papo sobre isso?
02:16Eu converso aqui no nosso estúdio com a doutora Letícia Maméri,
02:20ela é psiquiatra e também é psicóloga Gisélia Freitas.
02:23Boa tarde, sejam bem-vindas.
02:25Doutora, eu queria que você começasse explicando para a gente essa diferença, né,
02:29de pessoas que são alcoólatras e pessoas que assumem que tem uma relação abusiva com o álcool, né?
02:36Qual é essa diferença?
02:37Então, primeiramente, boa tarde, boa tarde a todos.
02:40Eu queria primeiro esclarecer que alcoólatra e alcoolista é a mesma coisa.
02:46Hoje em dia a gente usa mais o termo alcoolista, tá?
02:49Agora, o beber excessivamente, o abuso, realmente, não necessariamente a gente está falando de um alcoolista, né,
02:57ou de um alcoólatra.
02:58Mas, muitas vezes, é difícil para a própria pessoa tanto reconhecer que seria um alcoolismo,
03:08quanto reconhecer que foi um alcoolismo.
03:11Então, o abuso, ele está muito mais para o lado do alcoolismo do que para o lado do não alcoolismo.
03:20É muito mais fácil você ter um abuso e ser alcoolista do que não ser, tá?
03:26Só que não é só o abuso que classifica.
03:29Você tem um abuso, você tem a dificuldade de parar, quando você quer parar.
03:36A gente tem um estreitamento do repertório, então, aquela pessoa vive para beber.
03:42Então, tudo dela...
03:44Segunda-feira, nós vamos beber porque está começando a semana.
03:48Nós vamos beber porque o time ganhou.
03:50Aí, sexta-feira, a gente vai beber porque está terminando a semana,
03:53ou a gente vai beber porque o time perdeu, e por aí vai.
03:55Então, é um estreitamento.
03:57Ela começa, às vezes, a deixar de ter contato com algumas pessoas, com alguns amigos, com a família.
04:03Então, aquilo ali começa a impactar.
04:05Por isso que é difícil, porque quando a pessoa está dentro dessa situação,
04:09muitas vezes ela não se vê, ela não vê de fora.
04:12E aí fica difícil, né?
04:13Fica.
04:14Diferenciar, até porque, então, uma coisa pode levar à outra.
04:18Uma coisa, com certeza, leva à outra, né?
04:21O abuso, então, se a gente não identificar logo no início, ele vai chegar, então, ao alcoolismo?
04:28Não necessariamente.
04:30Você vai ter a pessoa que nunca vai ser dependente de nada, né?
04:34E aí a gente tem a parte da neurociência, a neurobiologia, tem várias teorias a respeito disso.
04:40Então, você vai ter pessoas que vão beber litros e que nunca vão ser alcoolistas.
04:44Vão parar de uma hora para outra, se quiserem parar.
04:47E agora, você vai ter pessoas que vão beber uma quantidade muito menor
04:52e que vão ter uma predisposição muito maior.
04:54Então, tem uma questão familiar envolvida, a dependência química e o alcoolismo,
05:00ele é uma dependência química, tem uma questão familiar envolvida.
05:03Então, é importante a gente frisar isso, porque não cabe a você se autodiagnosticar.
05:09Porque dificilmente você vai se autodiagnosticar como alcoolista se você assim for.
05:15Então, você precisa procurar um médico, precisa ter uma avaliação.
05:18Tem até questionários, de forma objetiva, inventários que a pessoa preenche, que indicam isso.
05:26Porque é tão difícil a própria pessoa se reconhecer como um tal,
05:29que às vezes a gente precisa dar um questionário para a pessoa preencher, tipo um teste,
05:34para ela poder ver, não, poxa, realmente aqui no teste está dando isso.
05:38Agora, Gisele, pensando então nesse contexto familiar, como que o pai, a mãe, a família mesmo,
05:45pode ajudar, porque é tão difícil a pessoa se reconhecer, que é preciso então de uma intervenção de terceiros.
05:52Mas só que não adianta falar, porque são pessoas que parecem que não gostam de serem apontadas,
05:57quando a gente fala principalmente de vícios, dessa relação abusiva.
06:02Boa tarde.
06:02Gostam, boa tarde.
06:03Muitas vezes, esse contexto familiar também é abusivo, né?
06:07Fica difícil você colocar o dedo, você controlar.
06:09Às vezes, é um grupo de amigas que também consomem, né?
06:12De forma um pouco abusiva, e isso é socialmente muito aceito, é legal.
06:17Houve um aumento de 30%, né?
06:18Uma pesquisa mostrou no passado, de consumo de álcool entre mulheres.
06:23E está quase se igualando a dos homens.
06:24Só que o nosso organismo, né, doutora, funciona de forma diferente dos homens.
06:28O álcool etanol faz efeito mais rápido e fica mais tempo lá.
06:32Então, voltando a esse contexto familiar, é importante, sim, o apoio da família e da rede de apoio social,
06:38amigos dessa mulher.
06:39Agora, se esse contexto familiar culturalmente aceito, não, porque aqui todo mundo bebe,
06:44e acha bonito, tem orgulho, olha, bebe até 5 horas da manhã e eu não caio.
06:50Então, existe hoje, socialmente, na verdade, um reforço muito mais positivo no consumo de álcool
06:55para essa mulher do que negativo.
06:57E como a doutora falou, essa predisposição, eu não sei.
07:00Assim como o uso das drogas, né?
07:02Tem pessoas que não ficam dependentes, outros ficam.
07:04Eu posso usar de forma abusiva e isso tem consequências, claro, física, na saúde.
07:09A gente tem que pensar nas consequências da saúde da mulher também, o uso de álcool.
07:13E a falta de habilidade de lidar com aquilo depois, né?
07:16Então, não aceitar é uma dificuldade.
07:19E a família tem que ficar atenta se ela não está reforçando esse comportamento dessa mulher.
07:23Um ponto importantíssimo que vale uma reflexão dentro dos lares.
07:28Agora, é isso mesmo, doutora Letícia.
07:29O organismo da mulher aguenta menos em comparação aos homens?
07:33É, o álcool, ele...
07:35Vamos pensar assim, o remédio fica mais fácil para a gente entender que a gente sabe que os remédios têm
07:39que ser metabolizados.
07:40Mas o álcool também.
07:42Então, a gente ingere e ele vai ser metabolizado.
07:44A metabolização da mulher, ela é diferente.
07:47E o volume de massa corporal também é diferente e interfere nessas questões.
07:53Uma coisa que é importante a gente frisar é que, às vezes, a gente fica com a ideia do público,
08:00até dessa pesquisa, tipo a Bárbara.
08:04Jovem, que vai para a festa, vai ter vital aí, aí o pessoal vai, vai beber, vai encher a cara.
08:09No consultório, eu pego essa realidade muito mais frequente em mulheres de meia-idade.
08:18É chocante, né?
08:20Mulheres casadas, que têm marido, que têm família, que está tudo certo, aposentadas.
08:28Então, a gente precisa tirar da nossa cabeça esse padrão estigmatizado,
08:34porque quando a gente cria esse estigma todo, a gente acaba fechando a possibilidade dessa mulher pedir ajuda.
08:43Porque é aí que ela se culpa mais ainda.
08:46Ela não vê que existem outras nessa situação, ela acha que ela é a única e é muito frequente.
08:52E é o que eu mais observo, é nessa meia-idade.
08:55Onde ela já tem poder aquisitivo, tem mais liberdade, muitas vezes está separada, né?
09:01E usa também esse álcool como um companheiro, como um auxílio para frustrações psicológicas, questões de autoestima.
09:08Já cresceram, saíram de casa, aí vem também a solidão e a gente tem...
09:12A síndrome do ninho vazio, vou preencher com o quê?
09:15Muitas mulheres têm um álcool, uma relação para preencher algum vazio, alguma angústia, né?
09:21Que a gente acha normal, não pode ser cotidiano.
09:23Passar o tempo, né?
09:23Passar o tempo, social.
09:25Os filhos não estão aqui.
09:26Não querendo não, o álcool é uma companhia também, né?
09:28E fortalece também quando você tem uma companhia que ajuda nesse reforço.
09:33E sobre esses dados que vocês trouxeram agora pra gente, sobre a idade, olha só, o
09:37Centro de Informação sobre Saúde e Álcool, gente, uma das principais referências nas
09:41pesquisas sobre o uso e abuso do álcool, tem dados importantes sobre o uso excessivo
09:46de álcool entre as mulheres.
09:49Os números mostram que no período entre 2010 e 2020, houve uma tendência de aumento
09:55do consumo abusivo de álcool entre as brasileiras, com variação média anual de 4,25%.
10:02E um outro dado também chama muito a nossa atenção.
10:07Aumentou em 23% o número de mortes totalmente atribuíveis ao álcool entre as mulheres.
10:14Ou seja, mortes que poderiam ser evitadas se não houvesse o consumo excessivo de bebidas.
10:21Então mostra aí também uma consequência, uma triste consequência, uma das, que esse consumo
10:28excessivo do álcool pode acarretar pra vida de uma mulher, né?
10:32É complicado isso e triste, né?
10:34Muito, muito triste.
10:35E a gente não fala sobre isso.
10:37Por isso é tão importante a gente estar aqui falando sobre isso, tirando esse estigma
10:42pras pessoas procurarem ajuda.
10:44Porque se a gente não fala, as pessoas não vão procurar ajuda, né?
10:47E tem outro comprometedor também, quando a gente vai pro nível psicológico, Roberto,
10:51que o consumo de álcool faz com que o nível inconsciente aflore, né?
10:55Aí aqueles vexames, aquelas histerias, depois vem aquela depressão no dia seguinte, aquela
11:01vergonha, os memes, né?
11:02Então tem pessoas e mulheres é mais sensitivo a isso, que ficam muito mais, vamos dizer,
11:11descontroladas, né?
11:12Quando tem um consumo de álcool e às vezes são poucas, às vezes é duas long neck,
11:16a pessoa já tem a sensível àquilo e já perde um pouco a noção, sai um pouco da trilha.
11:21E a gente parando para pensar nessa violência que nós mulheres, a gente acaba se escondendo,
11:26nós ficamos mais vulneráveis.
11:27Por exemplo, desde um acidente de trânsito, vamos começar de um modo mais simples, vamos
11:31pensar na ressaca do dia seguinte, um acidente de trânsito.
11:34No aumento da glicose, uma mulher diabética, um álcool aumenta a glicose.
11:38O preconceito que já temos, já sofremos também, querendo ou não, a gente tem que pensar
11:42um pouco na nossa imagem, e isso é muito comum, festa de final de ano e empresa.
11:46Onde que veio o abuso?
11:47Nas mulheres.
11:49E olha só, agora por telefone, a gente vai conversar com uma mulher, gente, que começou
11:53a beber durante a faculdade, né?
11:55Ela era muito tímida e resolveu beber com as amigas para começar a se soltar, começou
12:00e daí para frente foi só batalha.
12:04Vamos ver então como é que ela vai participar aqui com a gente.
12:06Na verdade, nós não vamos identificá-la, viu?
12:09Por questões até mesmo de preservar a imagem dessa mulher.
12:12Boa tarde, obrigada pela sua participação aqui no Fala Espírito Santo.
12:16Queria que você contasse para a gente, né?
12:18Tudo começou de modo natural na sua vida.
12:21Boa tarde, boa tarde, boa tarde a todas e a todas as pessoas que estão participando, nos ouvindo.
12:32O que aconteceu comigo foi que eu era tímida, muito tímida.
12:37Desde criança tinha uma timidez enorme.
12:39E quando eu fui fazer cursinho na faculdade, eu descobri o chupo.
12:47E eu tomei logo dois chupos, né?
12:50Porque o que aconteceu?
12:52Eu comecei a dançar nos bailinhas da faculdade, eu comecei a interagir melhor com as pessoas,
13:00comecei a me sentir igual, né?
13:02E maravilhoso.
13:06E foram passados os anos e eu fui bebendo.
13:11Às vezes, eu bebia durante a semana, mas geralmente era durante a semana.
13:17Até que, nos últimos cinco anos, eu já não ia mais para o meu trabalho, não sei se assim.
13:28Eu já tinha tirado esse dia para beber todo.
13:32Então, eu bebia sexta, sábado e domingo.
13:36E os outros dias, à noite.
13:39Eu era uma bebedora de cerveja, umas 12 vezes, 24, às vezes duas.
13:50Dependia de como eu entrava em amnésia.
13:54O momento que eu não sabia onde eu estava, quem eu era e como eu chegava em casa.
14:00Outro dia, eu estava lá.
14:02E as pessoas me olhavam, muitas vezes, magoadas.
14:07Magoadas porque eu as tinha ofendido e falando N coisas que realmente eu não me lembrava.
14:17Mas, me sugeriram, pare de beber.
14:21Eu, para de beber, por quê?
14:23Eu paro quando eu quero.
14:26E não era verdade.
14:30Foi acontecendo isso durante algum tempo.
14:33Eu ainda trabalhava, eu pagava a minha bebida e de outras pessoas.
14:38Porque eu me sentia extremamente prioritária e precisava de companhia.
14:45E o que aconteceu?
14:48Eu amanheci na casa da minha mãe.
14:51Não me pergunte como.
14:53Eu cheguei na casa da minha mãe.
14:55Amanheci lá e já tinha o meu cunhado, que é médico.
14:59E falou para mim.
15:01Ô, Fabiola, você gostaria de parar de beber?
15:06Eu falei, você está me chamando de alcoólatra?
15:10Ele falou, não.
15:12Eu tenho uma sugestão para te dar.
15:14Vá a Alcoólicos Anônimos.
15:17Que em Alcoólicos Anônimos, você vai aprender a tomar três cervejas.
15:22E o meu sonho era isso.
15:25Eu jamais confetaria alguém.
15:26Queria chegar nos lugares de salto, como eu aceitava, e saí de salto.
15:32Não acontecia isso.
15:33E eu fui à sala de alcoólicos Anônimos.
15:36Quando eu cheguei nessa sala, as pessoas começaram a falar de si.
15:43E eu achava que era a minha mãe que tinha ido lá contar a minha história.
15:47Porque o que tinha na minha vida era a minha mãe.
15:52A minha família já não conseguia lidar comigo.
15:56O meu filho já estava sendo criado pela minha irmã.
16:00E assim ia, né?
16:02Mas eu continuava trabalhando.
16:05E meu cunhado falou isso pra mim.
16:08Minha mãe falou, vai, minha filha.
16:10Vai, minha filha.
16:11Eu falei, tá bom, eu vou.
16:12E quando eu cheguei na sala de Alcoólicos Anônimos,
16:16falaram, admitimos que éramos impotentes perante o álcool.
16:21E tínhamos perdido o domínio de nossas vidas.
16:26Então, hoje, eu sei que os Doze Passos, eles são sugeridos.
16:32É um programa de recuperação sugeridos de Alcoólicos Anônimos.
16:37E eu me identifiquei quando falaram da impotência e da admissão.
16:43Porque não era o primeiro gole que me derrubava, né?
16:48Eu pensava, mas era ele, sim, né?
16:51Porque ele me derrubava, porque depois dele vinha ele, cerveja.
16:54Eu queria aproveitar, desculpa te interromper,
16:57queria que você contasse como que ficava o seu comportamento
17:00quando você começava a beber.
17:03Como que era no início e como que depois foi se tornando
17:06para isso ter mudado, assim, completamente a sua vida?
17:11No início, era muito bom, como eu falei.
17:16No início, era muito bom, como eu te falei.
17:20Eu me igualava entre pessoas.
17:23Mas com a continuidade, o abuso,
17:27porque eu, como dependente do álcool, gostava de abusar dele
17:32e depois eu comecei a necessitar dele,
17:37era um comportamento abusivo com as pessoas
17:40e principalmente comigo.
17:43Eu abusava de mim, porque eu me excedia no comportamento.
17:48Eu sou uma profissional de saúde
17:49e me excedia no comportamento.
17:53No outro dia, eu ia saber o que tinha acontecido
17:57e era difícil.
17:58Você nem lembrava...
18:01Você nem lembrava do que tinha acontecido no outro dia?
18:04Não.
18:05A partir do momento que evoluía a minha doença,
18:09que a medicina diz que alcoolismo é doença,
18:13a partir do momento que evoluía a minha doença,
18:16eu não me lembrava.
18:18Eu tinha amnésia.
18:19Amnésia.
18:20Eu não sabia o que tinha acontecido.
18:22Olha só, continua com a gente.
18:25Já, já eu quero que você fale
18:26como que você percebeu que não se tratava apenas de um abuso de álcool
18:31e sim de um alcoolismo.
18:34Mas antes, eu quero aqui aproveitar a presença da doutora Letícia Mameri
18:38e perguntar, doutora,
18:39de que forma que o álcool altera o nosso comportamento?
18:43Você viu ela comentando?
18:44Que ela nem lembrava.
18:45Não foi só uma vez, não.
18:48Todas as vezes que ela estava bebendo,
18:49ela já não lembrava mais o que acontecia.
18:51Então, cada pessoa vai ter uma alteração de comportamento específica.
18:57Nós temos pessoas que bebem e ficam agressivas.
18:59Nós temos pessoas que bebem e ficam dóceis.
19:01Tem pessoa que bebe e quer brigar.
19:03Tem pessoa que bebe e quer dormir.
19:05Então, essa alteração de comportamento,
19:07ela vai depender muito de pessoa para pessoa,
19:10porque a metabolização é muito individual.
19:13Agora, existem alguns relatos mais comuns.
19:16E a amnésia, ela é um relato comum, principalmente com destilados.
19:21Então, tipo vodka, uísque.
19:25Agora, pode ser que a pessoa lembre das coisas,
19:30mas com certeza absoluta, o reflexo dela está diminuído,
19:34porque aí já é uma questão orgânica de todos.
19:37Então, o álcool, ele dá uma diminuição de reflexo.
19:41A pessoa começa a ter essas alterações de comportamento
19:45ou fica violento, ou fica mais dócil.
19:50Então, cada um tem um estilo.
19:54Por isso que é tão perigoso.
19:55Você nunca sabe o que vai acontecer.
19:58E aí, quando fica violento, que é a maioria dos casos que a gente vê,
20:02a família se afasta, ninguém quer mais estar perto.
20:06Os filhos vão evitando aquele contato.
20:09Os familiares, as festas de fim de ano.
20:12Então, a família começa até mesmo a ficar com medo.
20:15Ou seja, isso prejudica todo o convívio social, né?
20:18Toda uma rede de apoio social, familiar, de amizades.
20:22Existe a questão do medo e existe a questão também do estigma, né?
20:27A pessoa, se ela não se livra disso, é sempre aquela pessoa,
20:29não chama fulano, não, que ela vai abusar.
20:31Ou vai passar vergonha na festa.
20:34Ou fica o filho...
20:36Crianças que nascem dentro desse contexto têm sempre medo.
20:39Quando a mãe abre, o pai abre uma garrafa, já entra num processo ali de suor, insônia,
20:47tá cardíaco, falta de respiração, já ficam nervosos, com medo da reação do comportamento.
20:53E como a doutora falou, a gente não sabe qual que é a reação de cada um,
20:57cada um reage de uma forma.
20:58Mas a questão psicológica também influencia muito esse comportamento,
21:03não só a pré-disposição, das tendências, do que está aí escondido.
21:07E o álcool, ele acaba sendo uma chavinha que vira aquele monstrinho escondido ali,
21:12aquele medo recalcado ali e se transforma com o álcool.
21:18Tem gente que fica empoderado, empoderada, que fica corajoso, corajosa.
21:24Desinibição, né?
21:24Total desinibição.
21:26E isso também é perigoso.
21:27E foi o que essa telespectadora que está participando com a gente buscou, né?
21:30Que ela tinha uma personalidade totalmente tímida e foi através do álcool
21:34que ela começou a se soltar com a turma de faculdade.
21:36E agora deixa eu voltar a falar com ela para saber exatamente em que momento
21:41que ela percebeu, não é só um abuso, não abusei só na semana passada,
21:46não abusei só nessa semana, isso está constante.
21:49Em que momento que você percebeu isso?
21:52Na realidade, eu percebi quando eu cheguei na sala de ar.
21:58Eu não admitia, não aceitava que eu não parava quando queria.
22:03Então, quando eu cheguei na sala de ar, foi que eu vi que eu já tinha um comprometimento
22:14muito sério com a doença da alcoolia.
22:18E o que que aconteceu?
22:21Eu comecei a tomar consciência.
22:24Eu caí em mim.
22:27Me deu aquele tilt assim.
22:30Olha, eu abuso do álcool porque eu tenho uma doença chamada alcoolismo.
22:35Aqueles termos pejorativos que costumam falar para as mulheres.
22:41Não era aquilo.
22:43Eu não era aquilo.
22:44Não era aqueles termos.
22:45Eu tinha e tenho uma doença.
22:50Olha só a participação que eu acabei de receber aqui no nosso Facebook.
22:56Uma outra telespectadora fala.
22:59Eu bebi muito e por causa da bebida já fiz coisas absurdas.
23:03E pior que eu nem me lembrava de nada.
23:06Mas aconteceu uma coisa que fez eu prometer para mim mesmo que eu nunca mais iria colocar
23:10a cerveja na boca porque o mal era tão grande assim da cerveja e eu sou agressiva, eu já
23:16sou agressiva por natureza, ela reconhece.
23:19E aí ela acabou tendo uma briga também com o marido e ela falou que nunca mais iria colocar
23:23a cerveja na boca, nunca mais colocou e faz cinco anos que não bebe.
23:28Olha que bacana quando a pessoa reconhece que de fato ela precisa ou de alguma ajuda ou
23:38ela precisa parar para rever.
23:40Agora é importante a gente dizer o seguinte, nós não estamos aqui sendo hipócritas, não
23:46é para beber, cada um sabe do seu, cada um sabe do seu limite, mas é importante a gente
23:52fazer uma reflexão, principalmente a respeito de como a gente se comporta, da quantidade
23:58que a gente está ingerindo, com que frequência, será que a gente está deixando o trem sair
24:06do trilho?
24:07São reflexões que merecem a nossa atenção.
24:09Essa alta análise tem que ser constante e tem que ter a ajuda de um outro de fora que
24:13às vezes realmente enxerga melhor do que nós mesmos.
24:17Agora, igual eu falei, eu vim de uma cultura mineira que a relação com álcool é totalmente
24:21aceitável e quem não bebia era uma pessoa até estranha, churrasco, festa de final de
24:26ano, então temos que ter uma consciência também que relação é essa que o indivíduo
24:31tem com esse álcool, então o consumo de álcool hoje é muito bem aceito, mas a pessoa
24:37tem que entender os seus limites.
24:38Eu bebo com moderação, eu sei que tem dias que desanda um pouco essa moderação, mas
24:44o que você tem que ver é as consequências desse desandar, independente se está já na área
24:50de dependência ou não dependência, é o que você depende afetivamente.
24:54Roberto, existe uma relação afetiva com esse álcool que você tem que ver, ele está
24:58preenchendo o que na sua vida, que pode ser preenchida com exercícios físicos, com atividades
25:03com seus filhos, com um trabalho empreendedor, em casa, você tem que ver o que você está
25:09preenchendo com o seu álcool e o que você pode fazer para substituir essa dependência.
25:14Enquanto você foi falando, Letícia Mamério foi aqui só concordando.
25:16Exatamente, no meu caso, eu bebo muito pouco, quase nada, já bebi bastante época de faculdade
25:24e aí eu comecei a me perguntar, alguém oferecia alguma coisa, na minha família é bem aceita
25:31essa questão da bebida, eu me perguntava, o que eu vou ganhar bebendo?
25:36Será que eu vou beber, vou ganhar alguma coisa?
25:39Não, não vou ganhar, então não vou beber.
25:41Ganhar peso, né?
25:42É, então eu pensava nisso, gente, será que vale a pena engordar por isso?
25:47Não, acho que não vale a pena engordar por isso, não, acho que eu prefiro comer alguma
25:51outra coisa do que beber.
25:52E aí, assim, não é que eu não beba, mas eu bebo quando eu tenho vontade e isso é muito,
25:57muito, muito raro.
25:59Mas essa questão do preencher é muito importante, né?
26:03O quê?
26:04Por quê?
26:05Até porque, para a gente fazer um parêntese aqui, algumas coisas.
26:08O álcool é a droga que mais mata no mundo.
26:13E de N formas.
26:16Mata com doença, mata em acidente, mata em violência.
26:20Então, é a droga que mais mata.
26:23Ela tem uma questão social.
26:25E a gente, para não ser hipócrita, a gente tem até que falar que tão ruim quanto o álcool,
26:33e que as mulheres usam muito, que as mulheres de meia idade usam mais ainda,
26:37são os remédios tarja preta, como a Rivotril, o Prazolam.
26:43Por que eu estou citando isso?
26:45Primeiro, porque o uso em mulheres de meia idade é muito grande.
26:49E uma curiosidade, essas medicações, elas agem no receptor, que se chama receptor GABA,
26:56que é exatamente o mesmo receptor do álcool.
27:00Então, às vezes, você está reclamando que o seu marido é alcoolista, ou vice-versa,
27:05mas às vezes só um bebe, mas o outro toma seu remédio aí para ficar dopado.
27:11Então, é uma forma de você preencher.
27:13E você está preenchendo com o quê?
27:15Você pode não estar preenchendo com o álcool,
27:17mas a gente precisa entender com o que a gente está preenchendo,
27:20porque o que você está usando para preencher pode ser tão ruim quanto o álcool.
27:23Olha só o comentário que a gente recebeu aqui, também de um telespectador,
27:27que pediu para não ser identificado, ele diz o seguinte,
27:30alcoolismo é uma doença que afeta diretamente relacionamentos e mata, desmoralizando.
27:36O mais prudente é jamais experimentar, pode dar errado para sempre.
27:41Infelizmente, a gente sabe que essa é uma realidade.
27:43Vou voltar mais uma vez, falar rapidamente com a telespectadora que participa com a gente por telefone.
27:47Queria que você falasse hoje para a gente, hoje, como que você lida com isso,
27:52quando você vai para algum evento social, como é que você superou?
27:57A minha vida foi ressignificada.
28:02E como disse a pessoa, que mandou o recado para você, o álcool mata desmoralizando.
28:08E eu fiz uma opção de hoje, álcool não.
28:13Então, já não me incomoda, tem 33 anos, só por hoje, que eu evito o primeiro gole
28:20e eu trabalho com os outros exíquitos.
28:24Evite ficar alegre demais, evite ficar triste demais.
28:28Evite, sabe?
28:29Porque as obsessões, evite as obsessões, trabalhe.
28:33Porque o álcool na minha vida foi uma obsessão.
28:38Obrigada pela sua participação, por esse relato que traz uma vitória, né?
28:43Depois de toda essa história, principalmente do reconhecimento, que foi o primeiro passo que você deu.
28:49Obrigada, nós agradecemos, viu?
28:50Eu posso deixar o número da linha de ajuda?
28:54Aqui, ó.
28:55Está aqui embaixo do nosso vídeo, aparecendo na tela.
28:59993-3395.
29:01Acabei de falar aqui para o pessoal.
29:02Obrigada, viu?
29:03Muito obrigada.
29:04Tchau.
29:05Obrigada, Gisele Freitas, psicóloga, doutora Letícia Mameri.
29:08Muito obrigada, muito obrigada.
29:09Sejam sempre bem-vindas aqui ao programa, tá?

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