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  • há 3 semanas
O caso de uma criança que foi agredida por colegas de escola em algo que chamaram de "brincadeira" acendeu o alerta para a necessidade de orientação

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Transcrição
00:00Mas a gente começa o programa de hoje falando de mais um caso de violência em uma escola aqui na
00:07Grande Vitória.
00:07Dessa vez aconteceu em Padre Gabriel, em Cariacica.
00:10Só que a história tem um viés um pouco diferente. Presta atenção.
00:13Um aluno de 11 anos, o que aconteceu? Ele apanhou de outros 10.
00:18Eu disse 10 estudantes. Você não ouviu errado não, gente.
00:22Ele ainda tem as marcas da violência.
00:24Esse menino, meu Deus, ele levou chutes e socos.
00:29E mais, para os estudantes que participaram da agressão, para aquela turminha ali, tudo não passava de uma brincadeira, gente.
00:37Olha isso, que coisa mais absurda.
00:40Então vamos lá. Vamos deixar bem claro.
00:43Não existe brincadeira que envolva violência.
00:47E isso quem precisa ensinar para os nossos filhos, para as nossas crianças, somos nós.
00:53Vamos bater um papo sobre isso?
00:55Chega mais pertinho, senta aí na sua casa, onde você estiver, porque aqui no nosso estúdio,
00:59eu recebo a psicóloga especialista nesse universo infantil, dos adolescentes, Tiara Faer.
01:05Obrigada pela sua participação.
01:07Estava com saudade de você, Tiara.
01:09Também estava com saudade.
01:10Boa tarde.
01:12Agora, lamentável, né, que é para a gente falar de um caso, mais um caso de violência na escola.
01:16E dessa vez a gente percebe, assim, tamanha covardia.
01:20Dez contra um, crianças mais velhas batendo nesse outro menino de apenas 11 anos.
01:28E o que está por trás disso?
01:29Ah, uma brincadeira.
01:30Não existe brincadeira que envolva violência, né, Tiara?
01:33Não existe brincadeira que envolva violência e a gente precisa entender que essa violência,
01:38ela começa de pequenininho, daquilo que no senso comum se torna até engraçado, mas que também não é.
01:47Então, essa violência que a gente assusta, que assusta a gente, 10 para uma criança que é ainda menor,
01:53sem qualquer possibilidade de refúgio, de saída, porque eram 10 contra 1, começou lá, no 1 para 1,
02:03naquilo que a gente tornou algo natural.
02:06E não é.
02:07A violência, ela não pode ser naturalizada em nenhum nível.
02:12E aí, Roberta, o que eu vim hoje para falar aqui é que nós precisamos olhar para dentro das nossas
02:19casas
02:20e ver o que nós estamos fazendo enquanto pai e mãe na criação com os nossos filhos.
02:27Será que a gente está reforçando isso, né?
02:29A dimensão dessa violência, que é quando essa criança lá, piquititinho, vem contar algo
02:35e a gente já não dá tanta bola, né, não dá tanto interesse.
02:39Não ouve essa criança naquilo que ela falou, que ficou triste, que ficou assim.
02:44A gente parte o quê? Para a resposta mais rápida, mais estrutural, que é a violência.
02:53Você trouxe já algo que me fez lembrar que, com certeza, tem muitos pais, muitas mães agora em casa pensando
02:59assim,
03:00ah, mas eu passei por isso, é normal, né, na escolinha, aquela coisa de botar o pé para o outro
03:06tropeçar,
03:07colocar a taxinha na cadeira para o outro sentar e todo mundo ri, chacoalhar.
03:11Quais são as consequências dessas humilhações que as crianças acabam passando por isso?
03:18Isso pode trazer danos para a gente?
03:21Enquanto adultos?
03:22Isso, pode.
03:23Com certeza.
03:23Com certeza.
03:25A gente chama isso de microviolências, né?
03:27Porque é o outro que se sente constrangido com aquela atitude de um outro que, na maioria das vezes,
03:35é o maioral, é o conhecido como bonzão da escola.
03:39Ganha popularidade, né?
03:41Ganha popularidade.
03:42Então, todo mundo quer fazer parte desse grupo, quer ser aceito por essa pessoa.
03:47E aí, essa que sofre essa violência, ela pode sim desenvolver aí uma ansiedade infantil
03:54que futuramente pode prejudicar as outras relações, a forma como ela vai se relacionar com um parceiro amoroso.
04:01Vamos pensar na autoestima dessa criança no outro dia na sala de aula?
04:04Como é que fica esse menino?
04:06Fica coado no canto da sala?
04:09Sim, fica coado.
04:09Eu sei porque eu já vivi as duas peles, tá?
04:12Nunca fui santa na escola, não.
04:14Já apanhei, já bati.
04:16Eram outros tempos que hoje eu jamais daria essa educação para os meus filhos.
04:20E a gente, no outro dia, assim, o quanto isso interfere a nossa autoestima.
04:25É vergonhoso.
04:25É vergonhoso para a gente.
04:26É vergonhoso.
04:26E ninguém quer sentir vergonha.
04:28Ninguém quer ser assim.
04:30Nós, seres humanos, queremos ser aceitos.
04:34Então, muitas vezes, a gente vai fazer coisas, a criança vai fazer coisas, o adolescente,
04:39que é o caso, vai fazer coisas para ser aceito nesse grupo.
04:44E aí, essas coisas é que a gente precisa voltar para dentro de casa e perguntar o que
04:51que está sendo ensinado.
04:53Tiara, olha só, eu vou convidar aqui para o nosso bate-papo a mãe dessa criança que
04:58foi agredida.
04:59E aí, é claro, por questões de segurança, a gente não vai identificá-la.
05:03Obrigada pela sua participação.
05:05Boa tarde.
05:05Eu queria que você contasse qual foi a sua reação como mãe quando você viu seu filho
05:11chegando em casa com essas marcas das agressões.
05:15Imagino eu que seu filho devia até mesmo estar chorando.
05:18Imagino o seu desespero.
05:19Como é que foi para você, mãe?
05:20Sim, boa tarde.
05:23No momento, eu fiquei muito nervosa, queria ir imediatamente na escola, mas não ia resolver.
05:31Mas eu fiquei bem revoltada.
05:36Revoltada.
05:37Esse foi o seu sentimento?
05:40Sim, porque foi contra tudo aquilo que eu ensino a ele, a ser um bom aluno, a não fazer essas
05:49brincadeiras de mau gosto com as pessoas, né?
05:52Portanto, ele é um bom aluno na escola, nunca tive problemas com ele, né?
05:57Para chegar a esses garotos, que eu nem sei quem são, né?
06:00E fazer isso.
06:02Quando ele chegou em casa, o que ele te contou, mãe?
06:04O que ele te disse?
06:06Ele me contou que um coleguinha, chamou ele para mostrar umas cartinhas, que uns colegas jogaram fora.
06:14Aí, diz ele que no momento que ele foi se abaixar para pegar, veio um monte de garoto e começou
06:21a socar as costas dele, bater, né?
06:25E para você, ele levou essa informação de que seria uma brincadeira?
06:31Ele levou essa informação para você?
06:33Sim, sim. Falaram que era uma brincadeira que eles estavam fazendo, né?
06:37Inclusive, diz ele que tinha um colega, né?
06:40Que passou por isso antes dele, né?
06:42E estava lá esperando o próximo para saber quem é que estava fazendo a brincadeira.
06:47Só que a gente está aqui mostrando imagens, né?
06:49As costas do seu filho, toda marcada, com várias marcas desses chutes, dessas agressões.
06:55E aí, quando você soube da quantidade de alunos que estavam envolvidos, como é que ficou?
07:02Qual foi o seu sentimento?
07:05Nossa, de muita revolta, né?
07:07Fiquei muito revoltada, nervosa.
07:10Ai, eu nem sei descrever, né?
07:13E você conseguiu já conversar com o seu filho, tentar dialogar com ele, explicar, né?
07:20O que que a gente, como que a gente se controla, até mesmo emocionalmente, diante disso?
07:26Ainda nem tive tempo, na verdade, né?
07:29Porque a gente está indo para um lugar, para o outro, né?
07:31Fazer ocorrência, fazer exame, ainda nem parei, na verdade, para conversar com ele.
07:36Então, quer dizer, você já foi até a delegacia, já registrou um boletim de ocorrência?
07:40Fui, fui.
07:41Registrei o boletim de ocorrência, fiz o exame, né?
07:47No DML, né?
07:48E fui na delegacia do adolescente, né?
07:51E agora é só aguardar, né?
07:54Continua com a gente, mãe, porque você trouxe um ponto muito importante que eu quero debater aqui com o Tiara.
07:59Já, já eu volto a falar com você por telefone.
08:01Tiara, a mãe, assim como confesso que eu também não sei qual seria a minha reação,
08:08a mãe não sabe, assim, como tratar, depois do que aconteceu, esse assunto com o filho.
08:13Né?
08:13E aí, meu filho, o que aconteceu não deveria ter acontecido, a culpa não é sua, a culpa é deles?
08:20Como que a gente lida com os nossos filhos que passam por essa violência?
08:24Então, é muito delicado, né?
08:26Cada filho, cada criança, ela vai demandar um tipo de conversa, um tipo até mesmo de orientação.
08:34Então, se eu tenho um filho que ele é mais calado, que ele é tido mais como sentimental,
08:40eu preciso ficar muito atento ao dia a dia dessa criança.
08:45Se ele vai para a escola normalmente, se ele começa a ter algumas crises de ansiedade para ir para essa
08:54escola,
08:55se ele começa, se as notas, né, que antes eram relativamente boas, começam a baixar.
09:01Eu preciso estar atento a esse perfil de personalidade do meu filho.
09:05Se é uma criança que tende a conter mais a raiva e a descontar, eu também preciso, porque isso pode
09:13acontecer nesses casos, né?
09:15De uma criança que sempre foi tranquila, que sempre respeitou os colegas, que sempre teve uma postura de respeito para
09:25com o outro,
09:26começar a repensar isso também.
09:28Então, se eu apanhei, eu não quero mais apanhar.
09:31Se eu não quero mais apanhar, então eu tenho que bater?
09:36O que nós vamos ensinar nesse momento?
09:38Porque, ao mesmo tempo, a gente também precisa preparar os nossos filhos para 11 anos, né?
09:44Assim, a superar as adversidades da vida.
09:49Qual é o ponto de equilíbrio nisso?
09:50É uma pergunta que eu gosto muito, Roberta.
09:53É assim, filho, filha, o que que você deixou de fazer naquela hora que você estava apanhando, que você gostaria
10:01de ter feito?
10:03Ou o que você poderia ter feito nesse momento?
10:07Você poderia ter gritado?
10:10Você poderia ter se defendido?
10:12De que forma?
10:13Porque só assim a gente vai entrar nesse repertório infantil.
10:17Do que a criança está pensando, muito mais do que orientação, falar, falar, falar, falar, a gente precisa saber do
10:24que está aqui dentro dele.
10:27E, Tiara, para a gente finalizar, qual é, assim, a gente não precisa esperar que isso aconteça com os nossos
10:32filhos.
10:33E nossos filhos, eles podem ter as duas posturas, né?
10:35Tanto a da agressão, quanto a de sofrer a violência, infelizmente.
10:39E a gente não precisa esperar isso acontecer com eles.
10:42Mas como que a gente pode quebrar esse ciclo de violência que está por trás e que tem uma brincadeira
10:48como capa?
10:49Então, a gente pode quebrar esse ciclo através da criação que nós damos para eles.
10:54A atenção de qualidade, a escuta, a todo momento olhar para nós, enquanto adultos,
11:01e menos nos perguntarmos, nós estamos sendo geradores de violência?
11:08Então, o que eu estou falando para o meu filho fazer é violência, é incitar a violência?
11:14E aí é uma pergunta íntima.
11:16Sim, então o que eu posso fazer diferente, que talvez eu nem saiba, mas eu vou procurar saber.
11:21E o tempo inteiro exercer a empatia com os nossos filhos, porque só assim eles vão saber diferenciar
11:28uma relação desrespeitosa de uma relação respeitosa, de uma relação em que eles são agredidos muitas vezes
11:35na superficialidade, em que até perceber isso é difícil.
11:40Para eles, né?
11:41Para eles mesmos.
11:42Eles têm essa dificuldade, né?
11:43Têm essa dificuldade.
11:44Por isso que a adolescência é essa grande fase nossa, do ser humano, em que a experiência
11:53entra ali, dissola, eles querem experimentar, eles querem saber como é que é, e aí entra
11:59então a orientação da família para essas crianças e adolescentes.
12:03Muito importante, eu sou mãe, você também, você está já me fazendo pensar assim, o quanto
12:08é importante desde a primeira infância a gente mostrar para os nossos filhos que é aquilo.
12:13Ah, um empurrão, colocar o pé para o outro tropeçar, a taxinha na cadeira, que isso
12:18não é brincadeira, isso não é legal de se fazer.
12:21Desculpa de cortar, uma apertada na bochecha sem consentimento da criança.
12:26O cocorote na cabeça.
12:27O cocorote, um puxão de orelha.
12:29Até me machuquei aqui agora.
12:31Mas eu falo mesmo daquelas brincadeiras que a criança não gosta.
12:36Então, naquele momento ela é violentada, ela é desrespeitada.
12:40Então, nesse momento nós estamos ensinando violência para ela.
12:44Então, se vem da vovó, se vem da titia, se vem do titio e pega a cueca da criança e
12:50sobe.
12:51Tem muitas famílias que brincam assim.
12:53Gente, tem filmes que já vi da nossa infância que ensinavam a baixar a calça da criança e
13:00aquela criança passava por uma humilhação ali.
13:02Exatamente.
13:03Nisso eu estou ensinando violência para essa criança.
13:06A ser desrespeitoso com o colega.
13:08A ser desrespeitoso com o outro.
13:09E quando parte para o outro lado, é, se o meu tio, se o meu pai, que é uma pessoa,
13:14minha mãe, que é uma pessoa de referência na minha vida, faz isso comigo, um outro também
13:19pode fazer.
13:20E está tudo bem.
13:22Então, a melhor forma para a gente quebrar esse ciclo de violência é com o exemplo.
13:26Com o exemplo.
13:27Tá certo, Tiara.
13:29Obrigada pela sua participação aqui no Fala Espírito Santo.
13:31Um abraço para essa mãe.
13:32A gente espera que, aos poucos, o filho consiga retomar toda a autoestima, que a gente sabe,
13:38quem já passou por isso, sabe como que fica abalado nesse período, nessa fase.

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