- há 3 semanas
Uma discusssão sobre as soluções para que o racismo não continue se perpetuando.
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00:00Para tudo que você tá fazendo que a gente já começa o programa de hoje com esse vídeo aí, roda!
00:30Cair fora, bandido!
00:32Ladrão!
00:33Que mundo!
00:36Cagão, bundão!
00:37Sua casa deve ser feita!
00:39Feio!
00:40Manda esse cara cair fora!
00:45Vagabundo!
00:47Tu é mais feio quando ri do que quando tá sério!
00:52Ó, virou mesmo, isso aqui virou mesmo!
00:54Tu é mais feio quando ri quando tá sério!
00:56Tu é mais feio quando ri do que quando tá sério!
01:00Ô moça!
01:01Para que você é doida, moça!
01:03Não, eu tenho que escrever no livro!
01:05Não que ele pregou!
01:07Cai fora!
01:08Por quê? Eu moro aqui?
01:10Mas cai fora daqui!
01:11Mas eu moro aqui!
01:13Eu moro aqui!
01:14Assim começa o preconceito, eu não posso subir no mesmo elevador, gente!
01:18Não posso subir de escada!
01:20Ele queria todo mundo!
01:23Gente, Ed Junior, que é humorista, ele vem sofrendo essas ofensas racistas,
01:29já há algum tempo, da vizinha, né?
01:32Segundo os advogados dele, a situação chegou aí!
01:35A esse ponto que a gente acabou de mostrar pra vocês!
01:38Ed foi aconselhado até a sair de casa!
01:41Olha só até que ponto o racismo no Brasil está chegando!
01:45E a gente vai debater esse assunto, porque aqui no nosso estúdio a gente recebe o psicólogo Juliano Coimbra,
01:52também o advogado Dr. Marcos Vinícius Sá e a Zilda, gente!
01:56A Zilda Spinetti, ela é empresária no ramo de decoração e se identifica, né, Zilda, com essas cenas que a
02:04gente acabou de ver.
02:05Boa tarde, sejam bem-vindos ao programa!
02:07Qual é o sentimento ao ver esse vídeo circulando nas redes sociais hoje?
02:12Vergonha!
02:12Fala com a gente no microfone!
02:15Vergonha, raiva, muita coisa!
02:19É um misto, porque eu acho que no Brasil não deveria mais existir isso nos dias de hoje!
02:26Você já passou por situações parecidas?
02:30Eu passei por situações piores do que essa na juventude.
02:36Até 21 anos, eu não conhecia discotecas, na época eram discotecas, restaurantes, porque não me deixavam entrar,
02:47mas nunca diziam porque é negra, tinha sempre uma desculpa, ah, você não é sócia e do meu lado entrar
02:56um branco que não era sócio.
02:59E chegou a um certo ponto que eu fui embora do Brasil.
03:03Foi morar?
03:04Fui morar na Suíça.
03:06Você que teve essa experiência fora, como é que é o racismo?
03:11Porque a gente sabe que, infelizmente, o racismo existe em qualquer parte do mundo.
03:15Mas como é que é lá fora, Zilda?
03:17O racismo existe, mas existe também a maneira de respeitar, porque lá a pessoa não gosta, mas ela não faz
03:27isso que fazem aqui.
03:29Não denigre as pessoas.
03:32Você não é obrigado a gostar de ninguém, mas respeitar.
03:37Então, existe sim que a pessoa, às vezes, não quer sentar do lado de um negro, mas não ofende, não
03:47trata mal.
03:48Eu nunca fui desrespeitada dessa maneira como nós somos aqui.
03:53Infelizmente, né?
03:54Infelizmente.
03:55O Brasil tem mais de 60% da população negra, gente.
03:57Isso é inadmissível.
03:58Juliano, eu queria que você contasse pra gente por que a sociedade tem tanta dificuldade em aceitar um negro bem
04:05sucedido na vida,
04:07que ele pode fazer o que ele bem quiser, o que ele sonha, estar na posição que ele quiser.
04:13Por que tem essa dificuldade?
04:14A real é, nós vivemos em uma sociedade onde nós somos uma miscigenação, né?
04:19O que se torna ainda muito mais difícil de compreender tudo isso, porque nós somos uma mistura, né?
04:24E nessa mistura, não tem como a gente abrir mão de que nós somos resultado de todo esse processo.
04:33O que é mais complexo pensar, nesse momento, é o quanto eu não aceito o outro por conta das diferenças.
04:42No fundo, no fundo, nós sabemos que todos nós temos diferenças e, em um dado momento, as nossas diferenças vão
04:48incomodar o outro.
04:49Mas como que eu luto o tempo todo para ser aceito, mas eu acabo rejeitando o próximo?
04:56Isso, pra mim, é muito sério, muito grave.
04:59Porque, às vezes, as minhas condições econômicas não são iguais ao do outro.
05:04Mas a minha pele também não é igual ao do outro.
05:06O meu desejo erótico não é igual ao do outro.
05:08Às vezes, o meu desejo culinário também não é igual ao do outro.
05:14Em um dado momento, eu vou ser diferente do outro, mas eu vou lutar para que eu seja aceito.
05:18Mas eu esqueço que é um dever meu respeitar o outro.
05:22E isso nós precisamos repensar enquanto sociedade mesmo.
05:25Doutor Marcos Vinícius, o senhor não, tão jovem, né?
05:29Me perdoe.
05:30Você está aqui hoje para falar para a gente dos nossos direitos, dos nossos deveres,
05:33como que as pessoas podem correr atrás, para não aturar isso calado.
05:37Mas, antes, eu quero que você fale para a gente, como um advogado negro, bem sucedido,
05:44se você já enfrentou situações parecidas com essa.
05:47Já, com certeza, várias vezes.
05:49Qualquer pessoa negra no Brasil já sofreu racismo.
05:52Racismo, ele é uma tecnologia criada em um processo de colonização onde ele atua diariamente
06:01sobre a vida de qualquer corpo negro que transita, de qualquer pessoa negra que transita no Brasil
06:06ou em qualquer outro lugar do mundo, como disse a Zilda aqui.
06:09Então, quer dizer, não existe menos racista ou mais racista em países.
06:13Existem formas de ver o racismo de forma diferente.
06:16Nos Estados Unidos, o racismo é pior?
06:18Não, ele atua de forma diferente.
06:21No Brasil, nós temos um chamado, por um bom tempo, racismo velado, um racismo sofisticado
06:28ou que, de um tempo para cá, nem mesmo ele tem sido mais velado,
06:31ele tem sido escancarado dessa forma assim.
06:33Por um bom tempo, não se falava de uma forma tão escancarada,
06:36mas, de um tempo para cá, percebemos que as pessoas se sentem mais livres
06:40de poder verbalizar esse ódio, essa raiva que elas têm
06:45em razão da cor da pele de uma outra pessoa.
06:48E que tipo de atitude o Ed pode fazer a partir de agora, pode ter?
06:54Porque, como a gente já bem disse várias e inúmeras vezes aqui no programa,
06:58o racismo é crime.
06:59É crime, é crime.
07:01Nós temos dois crimes raciais.
07:03Nós temos o crime de injúria racial e nós temos o crime de racismo.
07:06No caso presente aí, eu verifico a prática dos dois crimes.
07:11Quando ela o xinga de macaco, nós temos aí o crime de injúria racial.
07:17Mas também tem um momento onde ela impede ele de acessar o elevador.
07:21A partir do momento em que você impede uma pessoa de acessar espaços
07:25em razão de sua cor, nós temos aí o crime de racismo.
07:28Então, ela deve responder pelos dois crimes.
07:31O Ministério Público do Estado de São Paulo, é São Paulo, não é?
07:34O Ministério Público do Estado de São Paulo deve denunciá-la pela prática desses dois crimes.
07:38Tanto de injúria racial, quanto pela prática do crime de racismo.
07:42Além disso, do processo criminal, temos que entrar com ações de reparação,
07:47ações de indenização contra essas pessoas.
07:49Então, quer dizer, além do processo criminal, também tem um processo na esfera civil
07:53para que se possa requerer uma indenização pelo dano moral sofrido pela vítima.
07:58Agora, eu vou conversar aqui, vou convidar para o nosso bate-papo,
08:01ele vai participar com a gente pela internet, o Daniel Kiangala.
08:04O Daniel, gente, também já sofreu racismo.
08:07E detalhe, no prédio onde mora.
08:11Não é isso, Daniel? Boa tarde.
08:12Obrigada pela sua participação aqui com a gente.
08:18Boa tarde. Boa tarde.
08:20Boa tarde.
08:21Tudo joia.
08:23Queria que você contasse essa cena lamentável
08:26que você, infelizmente...
08:28Acredito que não deva ter sido apenas uma vez, né?
08:31Que, infelizmente, você enfrentou diversas vezes na vida.
08:37Então, Roberta, como que...
08:40Eu estava no apartamento, desci para sair e tinha uma família ali na frente, né?
08:50Uma família de três.
08:53E o senhor, ele queria...
08:56Com o apartamento, não tinha conversado, tinha agendado com o outro, nada.
09:02Mas ele...
09:05Ele olhou assim para mim e achou que foi...
09:08Vamos fazer o seguinte, Daniel.
09:10Olha só.
09:11A gente vai retomar.
09:13Vamos tentar refazer essa conexão através da ligação, porque está um pouquinho picotado.
09:17Daqui a pouquinho a gente volta a falar com você.
09:19Enquanto isso, a gente continua debatendo aqui esse assunto no nosso estúdio.
09:23Zilda, a gente conversando anteriormente nos bastidores, inclusive você falou que no seu prédio, você também já sofreu isso.
09:28Isso aconteceu há pouco tempo.
09:32Agora tem a desculpa da Covid, né?
09:36E eu cheguei da rua e chegou um casal de vizinhos e, como elevador é para seis pessoas, eu entrei
09:48junto.
09:50E, na hora que eu entrei, a senhora disse para o marido, o meu bem, vamos descer? Vamos de escada?
10:00Aí ele perguntou por quê.
10:03Ainda estamos em pandemia.
10:06Isso foi há duas semanas atrás.
10:08Se ela estivesse usando uma máscara, eu entenderia, dizer, essa pessoa tem medo, né?
10:13De ficar doente e tal.
10:15Não, ela andou, estava sem máscara ela e o marido.
10:19E eu simplesmente não vou fazer uma de ofendida, não.
10:25Eu me fiz espaço para ela passar e sair do elevador e subir.
10:29Você ainda foi gentil, devolveu com gentileza.
10:33Eu faço isso sempre porque não é a questão de aceitar o racismo.
10:42Eu aprendi a conviver com ele aqui.
10:47Porque, quando eu cheguei, eu queria voltar.
10:50Depois de até um ano, dois anos que eu estava no Brasil, eu tive vontade de desistir de tudo e
11:00voltar.
11:00Mas aí eu pensei, por que eu vou deixar meu país por pessoas desse tipo?
11:05Porque não são todos.
11:07O nosso país é um país maravilhoso.
11:11A gente é privilegiado de ter muita cultura diferente, de ser diversos.
11:19Nós não temos no Brasil pessoas de raça pura.
11:25O brasileiro tem que entender isso.
11:28Somos todos descendentes de uma mistura de raça.
11:33Italianos, alemães, africanos.
11:38Então, somos privilegiados.
11:40O nosso Brasil é maravilhoso.
11:42Temos é que aproveitar.
11:44Eu nunca mais saio do meu país por isso.
11:47Quem não gostar de mim, esteja à vontade que saia.
11:51Você tocou num ponto muito importante que isso vai gerando até um desgaste na pessoa
11:56que sofre diariamente na rotina do dia a dia, seja no prédio, seja no trabalho,
12:02na hora de ir para a escola, no ônibus.
12:04Isso vai gerando um desgaste.
12:06Inclusive, liguei para outras pessoas para participarem com a gente aqui hoje no programa.
12:10As pessoas falaram, Roberto, eu já estou cansado de falar.
12:12Já cansei de levantar sobre isso.
12:14Tem hora que eu estou me adaptando.
12:15Já me adaptei a essas pessoas.
12:17Mas olha que ponto que a gente chega.
12:20Para quem sofre ainda ter que se adaptar, o caso do EDI,
12:23ele foi aconselhado pela advogada a sair do edifício, doutor Marcos.
12:27Olha que ponto as coisas chegam.
12:29Se a pessoa vai sempre se adaptando a não aceitar, né?
12:33Ou então vou aceitar.
12:35Vou ter que conviver dessa forma.
12:37É lamentável.
12:38Lamentável nós termos que mudar as nossas realidades.
12:41A Zilda está aqui com o ensinamento, a experiência pessoal dela.
12:44Ela tem que sair do país dela porque ela não mais suportava
12:47conviver com essas práticas racistas na sua juventude.
12:51O EDI aí, nesse caso, tem que sair do seu condomínio.
12:54Então, quer dizer...
12:54E cansa.
12:55E cansa.
12:56E uma coisa que a gente fala muito é isso.
13:00Nós não queremos falar sobre racismo.
13:01A gente queria falar, né, Zilda, sobre viagens, sobre festas, sobre fotografias.
13:08Mas, infelizmente, ainda somos convocados a ter que falar sobre esse assunto
13:12porque, infelizmente, ele é real e ele é diário.
13:15E o racismo é muito sofisticado.
13:17Ele é muito sofisticado porque o racismo vai muito além de um xingamento.
13:22O racismo, por vezes, passa de forma desapercebida no dia a dia.
13:26Então, quer dizer...
13:27Quando você chega num estabelecimento comercial e você se reporta aquela pessoa negra.
13:32Ei, qual o preço disso daqui?
13:34E a pessoa vira pra você e fala, eu não trabalho aqui.
13:36Então, quer dizer...
13:37Da onde que você conclui que é a pessoa negra que trabalha ali?
13:41Que ser negro é o que está pra te servir como vendedor, como que carrega as coisas?
13:47Então, quer dizer...
13:48Isso é uma forma de racismo.
13:49A gente chama de racismo institucional.
13:51Então, quer dizer...
13:52São diversas formas diariamente perpetradas na vida de pessoas negras.
13:57Onde, como você disse, onde que as pessoas vão cansando.
14:00Então, quer dizer...
14:01Não é em vão que o índice de suicídio maior que nós temos no Brasil hoje
14:06são de jovens negros, de meninos negros.
14:09Porque não suportam.
14:10Não suportam, justamente, conviver com isso diariamente.
14:13É muito cruel a gente ver uma menina de 7 anos de idade negra
14:17pedir à mãe pra alisar o cabelo
14:19porque ela, diariamente, na escola, ela sofre com piadas,
14:25ela sofre com apelidos que envolvem a sua cor,
14:28envolvem o seu cabelo, envolvem os seus traços negróides.
14:31Então, quer dizer...
14:32A gente tem que tombar nisso.
14:34A gente tem que cada vez mais falar.
14:35As pessoas vítimas de racismo, elas têm que tomar uma atitude.
14:39É essencial que elas registrem ocorrência policial.
14:41É essencial que elas entrem com processos tanto criminais quanto cíveis.
14:45E a gente conclama à sociedade porque é preciso lembrar isso sempre.
14:50Não fomos nós que criamos o racismo.
14:52Então, o racismo, ele é uma pauta de todo mundo.
14:54Ele não é uma pauta só de nós, pessoas negras.
14:57Todas as pessoas da sociedade precisam avocar essa pauta,
15:01trazer esses discursos pra dentro dos seus lares.
15:04Mandela falava isso, ninguém nasce racista.
15:07As pessoas são educadas.
15:09Então, se nós temos crianças na escola que estão reproduzindo racismo
15:12com a coleguinha na sala de aula,
15:14é porque essas crianças estão aprendendo em seus lares a serem racistas.
15:18Então, quer dizer, é uma pauta premente que tem que ser discutida diariamente
15:21dentro da família, dentro das escolas brasileiras.
15:24Daqui a pouquinho, Juliano, quero que você conte pra gente
15:26como que nós podemos mudar essa mentalidade, né?
15:30Acabar com o racismo.
15:32Antes, a gente só vai conferir agora um vídeo, que é a advogada Fai da Belo,
15:36que é uma referência, gente, na luta contra o racismo.
15:38E ela vai contar pra gente uma experiência lamentável que ela teve.
15:43Olha só.
15:45Veja que eu, quando era criança, sofri racismo.
15:48Quando fui jovem também.
15:49Quando me tornei advogada, falei, pronto, acabou.
15:51Que tola eu, né?
15:52Estava eu lá toda bonita, de blazer, na sala de audiências.
15:56E a promotora usou me pedir café.
15:58Sim!
15:58Ela achou que aquela mulher preta de blazer era, na verdade, a moça que arrumava o fórum.
16:04Outro dia, eu fui despachar com o juiz no processo.
16:06Ele falou, olha, me desculpe.
16:08Mas eu só atendo advogados.
16:10Tive que elegantemente falar pra ele, excelência, me desculpe.
16:13Sou preta, mas sou advogada.
16:15Vocês conseguem compreender como não tem nada a ver com classe social?
16:19Mas com raça e cor, não importa se o preto é rico ou se o preto é pobre.
16:24O que importa é que ele é preto.
16:27Sempre vão tentar nos ligar a lugares subalternos, porque não aceitam a ascendência e a mobilidade social das pessoas negras.
16:36Tivemos o acesso hoje à educação, mas ainda não tivemos o acesso à igualdade de direitos, de acessar lugares que
16:45antes só eram ocupados por pessoas brancas.
16:49E as pessoas, então, não conseguem normalizar os nossos corpos nestes locais.
16:54Mas é como eu sempre digo, os racistas que lutem, porque vai ter preto com diploma, vai ter preto milionário,
17:00vai ter preto acessando lugares que antes só eram frequentados por brancos.
17:04E quem não respeitar, vai responder processo nos digores da lei.
17:08Porque discriminar alguém em decorrência de raça e cor é crime, inafiançável, imprescindível e tem pena de cadeia de até
17:155 anos.
17:17Arrasou, Faida. Obrigada pela sua participação aqui no Fala Espírito Santo, viu?
17:22Juliano, conta pra gente, então, como que a gente pode, através da educação, com os nossos filhos, contribuir para uma
17:29sociedade antirracista?
17:31Não é menos racista, não. A gente não pode aceitar esse tipo de conduta, de ação.
17:36Roberta, antes de falar como nós precisamos fazer esse processo de educação, eu queria contar a experiência própria.
17:40Não sei se a gente tem tempo, é rápido.
17:42Eu estudei na escola, escola particular, obviamente, e como eu havia falado antes, eu também venho de uma família preta.
17:49Minha mãe, ela é bem preta mesmo, tem irmãos pretos.
17:52Meu pai, um pouco mais claro, eu acabei saindo com a pele, eu me considero pardo, de fato.
17:57Mas eu recordo que na minha infância, eu também não tinha essa educação, mas eu comecei a olhar para pessoas
18:03pretas e começou a criar um ranço dentro de mim.
18:06Eu acho que isso é importante eu falar, né?
18:07Porque, assim, algumas pessoas olhavam para mim e me viam com o cabelo bem cachadinho, bem loiro, né?
18:13Mas eu também tinha uma raiz preta.
18:14Porque, na realidade, nós somos um país de miscigenação, né?
18:17Como ela traz com muita clareza.
18:20E como que eu fui me dar conta disso aos 12 anos de idade?
18:23Quando eu chego na igreja, que eu participava, e tinha um regente da igreja que ele era preto.
18:28E eu comecei a perceber que eu tinha nojo de tomar água naquele copo, né?
18:32E quando eu tive a... minha família não me educou para isso.
18:35Na realidade, a escola que eu estudava também não discursava sobre isso.
18:39Mas eu me dei conta que a maior parte daquelas pessoas que estudavam ali, por condições financeiras mais elevadas, eram
18:46consideradas brancas.
18:47Então, dentro da minha mente, de criança, no meu imaginário, a fantasia era que o certo era o branco.
18:53E quando que eu tive a consciência, aos 14 anos, que eu me dei conta, particularmente sozinho,
18:57e fui repensar esse lugar da minha família, que eu fui me reeducar sozinho, um processo de auto-educação.
19:04Mas voltando à sua pergunta, como trazer, como trabalhar todas essas questões?
19:08Com educação.
19:10Como o doutor Marcos colocou muito bem, a educação precisa ser transformadora.
19:14A educação precisa ser inclusiva.
19:17Inclusive, estamos vivendo um momento político onde nós precisamos repensar, de fato, esse lugar, né?
19:23Esse lugar de construção de políticas públicas.
19:27Não estou falando sobre lados, mas de construção de políticas públicas que venham realmente sanar as necessidades do nosso país.
19:35Porque, é o que nós havíamos falado antes, não precisa ser uma luta.
19:39Isso tem que ser uma obrigatoriedade da sociedade.
19:41É um dever nosso aprender a lidar com as diferenças, porque as diferenças estão postas.
19:46Porque todos nós temos a diferença.
19:48Então, o assunto, ele precisa ser de base dentro das nossas próprias famílias.
19:52E, para além das nossas próprias famílias, ele precisa ganhar espaços sociais.
19:56E esse lugar tem que ser um lugar de direito.
19:59E esse direito precisa ser adquirido.
20:00Não porque o indivíduo é preto, porque o indivíduo é branco, porque o indivíduo é pardo,
20:04mas porque esse indivíduo é um ser humano.
20:06E o ser humano precisa ser respeitado.
20:08E o mais interessante disso que você falou, eu acredito que seja a gente se assumir como uma pessoa racista.
20:16A gente precisa reconhecer.
20:18E você soube reconhecer isso.
20:20E muito mais.
20:20Que bom que você conseguiu transformar esse pensamento.
20:23E muito mais do que isso, alguns sobrinhos meus também passaram pela mesma escola.
20:27Lembrando, a escola não ocupou esse lugar.
20:30As pessoas que pertenciam a esse lugar trouxeram no meu imaginário infantil.
20:36Ninguém discursava sobre isso.
20:37E eu fui aprendendo, porque a maior parte dos colegas estavam ali daquela forma.
20:41E aí eu percebi que os meus sobrinhos, que também passavam pela mesma escola, também estavam vivenciando o mesmo que
20:46eu vivenciei.
20:46E o primeiro presente que eu dei para uma sobrinha minha foi uma boneca preta.
20:50E aí, eu também, quando presentei alguma criança que eu começo a ver, uma boneca também preta.
20:55Nós precisamos aprender a lidar com essas diferenças.
20:58E nós precisamos começar através dos nossos brinquedos.
21:00Porque existem várias sereias, vários personagens de filmes, todas elas brancas.
21:07E quando nós vamos validar o diferente, nós precisamos repensar isso.
21:10A Barbie, inclusive, lançou a Tina Turner agora, né?
21:13Sim, sim.
21:13Agora, eu amo quando você fala assim, Dr. Marcos Vinicius, que essa é uma pauta nossa.
21:18Nossa.
21:18A gente falar de racismo é uma pauta do preto e do branco.
21:23A gente pode dizer que a gente tem boas notícias em relação aos brancos que estão tendo mais consciência
21:29e ajudando nessa luta contra o racismo?
21:33Creio que sim.
21:34Podemos.
21:35Há uma luz no fim do túnel.
21:37Ainda estamos muito distantes.
21:39Ainda precisamos avançar muito, muito mesmo.
21:42A gente ainda vê a população negra, como você disse, nós somos 56% da população brasileira,
21:49de acordo com os dados do IBGE.
21:50Mas quando a gente vai olhar cargos de diretoria, de presidência, ainda somos subrepresentados.
21:57Estamos muito longe ainda de acessar o poder de forma igualitária.
22:01Mas temos uma esperança ainda.
22:03E a gente vem sim observado, temos observado uma maior participação de pessoas brancas nessa luta antirracista.
22:12É importante que haja justamente uma convocação de toda a sociedade para que nós, mais do que não ser racista,
22:22é sermos antirracistas.
22:24E sermos antirracistas passa por várias, perpassa por várias etapas da sociedade, na estrutura, como o colega aqui disse.
22:32Quer dizer, você na televisão, é de suma importância nós vermos pessoas negras na televisão como protagonistas da novela.
22:39Nós tirarmos do imaginário da criança negra de que o preto na novela, ou ele é o ladrão, ou ela
22:45é a que trabalha como uma cozinheira, ou a que trabalha como uma empregada doméstica.
22:49A preta, ela precisa ser, sabe, a Thais Araújo, a protagonista da novela, a mais bonita da novela.
22:55Então, quer dizer, isso perpassa por todos esses segmentos da televisão, da literatura.
23:00A gente precisa exaltar os nossos heróis negros da nossa história.
23:04Então, quer dizer, ensinar as nossas crianças negras que a nossa história, ela não começa na escravidão.
23:09A nossa história, ela começa muito antes.
23:11Ensinar a criança negra que a medicina, que a literatura, que a linguagem, que a arquitetura, tudo isso foi criado
23:19na África.
23:20Então, quer dizer, termos orgulho da nossa origem, termos orgulho da nossa história.
23:25E aí sim, nós crescermos com maior consciência, porque é um outro ponto importante.
23:30A gente precisa dar consciência de raça às pessoas negras.
23:34Nós, infelizmente, nós temos muitas pessoas negras que não se reconhecem negras,
23:39justamente temendo por todo o racismo que sofre uma pessoa negra no Brasil.
23:44Ela prefere se negar enquanto pessoa negra.
23:47Então, quer dizer, nós precisamos nos apropriar da nossa negritude, reconhecê-la,
23:52tomar um conhecimento, um letramento racial sobre isso,
23:56para que nós possamos enfrentar diariamente, conviver diariamente com essas práticas racistas.
24:00E eu me coloquei no lugar do Ed, eu falei, gente, se depois de toda aquela cena que ele filmou,
24:05na hora que fosse comigo, eu chegaria em casa, eu desabaria e choro, porque é muito forte.
24:11Tem a cena do filho da senhora lá com a faca, ameaçando ele de vida com a faca na porta
24:17do apartamento dele.
24:18Então, quer dizer, que vida é essa?
24:20E você, Zilda, depois de tantos momentos que você também já enfrentou?
24:25O que eu tenho, o que eu gostaria de dizer é o seguinte, nós...
24:30A pergunta que eu faço, primeira coisa, ao branco que acha que eu não deveria estar onde ele está,
24:40onde é que eu deveria estar?
24:42A pergunta que eu faço a ele.
24:44Eu não pedi para nascer negra.
24:48Eu não é culpa minha se eu sou negra.
24:51Então, por que eu tenho que sofrer tudo isso?
24:54Eu sou uma pessoa como você, como qualquer pessoa.
24:58Então, eu não tenho que sofrer esses problemas por consequência de ser negra.
25:05A outra coisa que eu digo é um recado aos negros.
25:10Você pode estar onde você quiser, é só você correr atrás.
25:17Mãe, não deixe seu filho brincando na rua e não levando-o para a escola pensando tanto.
25:25É negro, não vai ter futuro.
25:29Somos nós.
25:31Ele é advogado, ele é um psicólogo, eu sou uma empresária, mas eu não precisei.
25:38Eu corri atrás sozinha.
25:40Eu pensei, eu tenho que chegar a algum lugar para fugir disso.
25:45Qual é a maneira de fugir disso?
25:46Eu não posso obrigar ao branco.
25:48Ele pode não me dizer nada, mas ele vai me olhar com desprezo.
25:53Como é que eu vou fugir desse desprezo?
25:56Virando alguém.
25:57E no nosso país hoje, todos têm condições, têm a estrada para uma faculdade.
26:05Não precisa ter uma faculdade.
26:07Eu não tenho faculdade.
26:09Eu não pude fazer a faculdade porque, naquela época, eu tenho 65 anos e, quando eu tinha
26:1715, 16, a faculdade no Brasil não era como hoje, aberta a todos.
26:22Negro não entrava e todos sabem disso.
26:26Eu cheguei com a minha força de vontade.
26:30Minha filha, eu fiz estudar.
26:33Fala sete línguas, como eu.
26:36Então, seja pobre, seja rico, você tem condições de colocar seu filho para fugir dessa situação.
26:45Comece de pequeno.
26:47Porque os adultos, hoje, têm condições de sair, mas é mais difícil.
26:53Eu não quero isso para o meu filho.
26:55Vou colocar meu filho à escola.
26:57Vou levá-lo à escola, vigiar que ele estude.
27:00E não dizer, não adianta nada, porque não tem futuro.
27:03Tem.
27:03E é por isso que a gente também precisa lutar por uma educação de qualidade para
27:09essas crianças que não têm acesso, principalmente para que elas tenham condições dignas de
27:17se tornarem advogados, psicólogos, empresários e o que elas bem quiserem, através da educação.
27:25O grandioso problema, Roberta, é no processo de autolimitação.
27:30Quando eu me limito, na minha infância falavam que eu ia rastelar roça, que eu ia...
27:35Se tivesse muito sucesso, seria cada supermercado.
27:37Mas, no fundo, a gente entende que a luta é minha.
27:41Eu preciso saber onde eu quero chegar e eu preciso lutar por esse espaço.
27:43Isso aí.
27:44Obrigada pela participação de vocês aqui no Fala Espírito Santo, tá?