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Como a mulher lida com a síndrome da irmã mais velha?
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00:00E quem nunca ouviu essas frases?
00:03Ah, você é mais velha, tem que dar o exemplo para o seu irmão, tem que olhar o seu irmão,
00:09tem que ajudar em casa.
00:11Quanta responsabilidade, né?
00:12A gente vai bater um papo sobre esse assunto.
00:15Aqui no nosso estúdio eu recebo a psicóloga Elza Leite, a irmã mais velha, Elza?
00:20Eu sou a mais nova.
00:21A mais nova.
00:22Mas eu virei mãe da minha mãe.
00:23Ah, entendi.
00:24Eu me enquadro nisso aí.
00:26E a gente também recebe aqui a Lu Morelato, que é chefe de cozinha, você aí de casa
00:31já viu a Lu várias vezes aqui no nosso Espaço Gourmet, mas hoje ela está aqui do outro
00:36lado do programa, porque ela é a irmã mais velha de uma família de quatro irmãs, não
00:42é isso, Lu?
00:43Correto.
00:43E é você que toma frente dos assuntos da sua família, como é que isso funciona?
00:50Então, boa tarde a todos.
00:51Um prazer estar aqui de novo vendo todo mundo, saudades de vocês.
00:56Roberta, para começar, é um assunto hiper, estava até falando nos bastidores com a psicóloga,
01:02é um assunto muito delicado que me deixa em extrema situação desconfortável.
01:08Mas chega um momento que você precisa lidar com isso.
01:11Tem que falar, né?
01:12Tem que falar.
01:12Então, assim, eu sou a irmã mais velha de quatro, eram oito, morreram quatro, ficamos
01:17nós quatro.
01:19E eu venho esses anos todos e eu vou aproveitar e vou deixar bem claro aqui, tá?
01:26Que eu venho carregando nas costas esses anos todos.
01:30Ninguém nunca, das minhas outras irmãs, fizeram nada.
01:34Inclusive, uma que tem situação super bacana, poderia ajudar mais minha mãe, psicoquê,
01:41psicoquê, ela é toda formada.
01:43Mas ela me bloqueou no dia que eu pedi ajuda para ela que me ajudasse a olhar minha mãe.
01:49Pelo menos olhar a minha mãe.
01:52Ela me bloqueou.
01:54E esse acúmulo, essa responsabilidade é desde criança?
01:58Desculpa o desabafo, tá, Roberta?
02:00Fica à vontade, aqui o espaço é para isso.
02:02É desde criança, sim, Roberta.
02:04Desde criança?
02:04Eu saí de casa.
02:05Eu sou da Bahia, do extremo sul, divisa com Minas.
02:08Eu saí de casa com 10 anos de idade.
02:11Então, assim, eu tive uma infância muito problemática.
02:15Meu pai sempre bebeu muito, batia, quebrava tudo.
02:19E minha mãe teve que fugir do meu pai, entendeu?
02:26Então, isso acabou acarretando que eu tive que ser...
02:30Minha mãe falava que eu era o dono da casa, o marido da casa, o pai da casa.
02:35Eu não tinha só que lidar com a situação da minha mãe, mas também que na época é deficiente visual,
02:43que não enxerga, só tem uma visão, e as outras irmãs.
02:47Então, a gente foi para São Mateus, dormimos na praça, debaixo do jornal.
02:52Eu saí batendo de porta em porta, pedindo emprego.
02:57Moral da história, saí de casa com 10 anos e desde lá para cá, mesmo casando, mesmo constituindo a minha
03:03família,
03:04tendo os meus filhos, tendo a minha liberdade financeira, eu nunca, graças a Jesus, nunca dependi da minha família para
03:13nada.
03:13Ninguém nunca pagou nada, um curso, um dinheiro, emprestado, nada.
03:18Eu sempre fui autossuficiente.
03:19Eu quis estranhar, eu tive tudo para poder seguir uma vida de criminalidade, de droga, de safadeza, mas eu não
03:27quis.
03:29Muito bem feita.
03:30Então, eu estou desabafando, estou aproveitando e desabafando.
03:32E olha só, Elza, às vezes, começa desde criança naquela responsabilidade que a gente vai embutindo para a filha mais
03:41velha,
03:42eu sei porque eu tenho dois e vejo isso, né?
03:45Natural, a gente fala assim, ajuda a cuidar do seu irmão, olha aqui, olha ali,
03:48e olha as consequências que isso pode trazer para a vida de uma pessoa.
03:53Boa tarde.
03:54Boa tarde.
03:54A infância dessas crianças são roubadas, porque é imputado sobre elas uma responsabilidade que não pertence a elas, né?
04:03Os pais transferem para essas crianças um papel que elas não dão conta,
04:09inclusive os pais cobram dessas crianças que elas exerçam esses papéis com muito afinco, né?
04:16Elas precisam, inclusive, ser perfeitas.
04:18E aí, na vida adulta, a gente vai vendo pessoas que são autossuficientes, que têm dificuldade de pedir ajuda,
04:25pessoas que têm dificuldade de fazer vinculação, às vezes, casa precipitadamente para fugir de casa,
04:31para se livrar dessas responsabilidades.
04:34Os filhos na adolescente começam a se intrometer, sabe, Roberta, na educação dos irmãos,
04:40porque eles se acham os pais daqueles filhos ali, né?
04:43Daqueles irmãos.
04:44E aí, eles começam a se intrometer, porque os papéis são extremamente confusos dentro dessa casa.
04:50Essa criança, ela pode ter depressão, ansiedade, algumas compulsões, inclusive compulsão alimentar,
04:56envolvimento com drogas.
04:58Então, são inúmeros problemas emocionais.
05:01E um que eu acho mais grave é, no futuro, o pai, por exemplo, que...
05:07O filho vê o pai e a mãe que não conseguem exercer o papel parental dele com responsabilidade, com capacidade,
05:15ele não consegue respeitar aquele pai e a mãe como pai e mãe.
05:19Ele vê como irmão também, como primo, como qualquer outra coisa.
05:23E ele não consegue dar o respeito que o pai precisa.
05:26E aí, o que acontece?
05:29Ele, no futuro, vira uma relação totalmente...
05:32A gente vai vendo, vocês acabaram de falar, né?
05:35De filho que bate em pai e mãe, que desrespeita pai e mãe.
05:38E aí, a gente vai estudar o histórico dessas famílias.
05:41Alguma coisa ali ficou meio confusa na hora de colocar limite.
05:44Por quê?
05:45Porque os papéis ficaram totalmente emaranhados, que a gente chama em terapia familiar.
05:51Então, você cresce achando que aquele pai não tem competência para ser pai e mãe,
05:56aquela mãe não tem competência para ser sua mãe, e você não consegue respeitá-la como tal.
06:01E aí, no futuro, isso só pode dar errado, não vai dar certo.
06:05E aí, a mãe quer cobrar do filho esse respeito.
06:08E aí, como é que vai fazer?
06:10É tarde, né?
06:12Olha, aqui no nosso Facebook, esse assunto está dando o que falar.
06:17Tem um monte de mulheres aqui, de mãos dadas, com a Lu Morelato, e se identificando com o seu desabafo.
06:25Eu desabafei.
06:26Muito mais que um relato.
06:27Muito obrigada, primeiramente.
06:28Ó, tem aqui.
06:30A Mônica Lima fala, será que isso foi isso que causou as minhas várias crises depressivas?
06:37A Mari Nilza fala, eu sou a caçula de cinco irmãos.
06:41E aí, ela que assumiu esse papel, né?
06:44Então, nem sempre, às vezes, é a irmã mais velha, mas a irmã mais velha é que acaba, geralmente, né,
06:49Elza?
06:49Sim.
06:49Assumindo, né?
06:50Mas não quer dizer que seja regra.
06:52É porque, assim, vai chegando novos filhos.
06:55E aí, as funções só aumentam.
06:59E a mãe vai depois...
07:00É inconsciente, né?
07:01E também tem uma questão patriarcal.
07:04Por quê?
07:05É como se a mulher tivesse por obrigação de fazer todas as funções que cabem dentro do lar.
07:12O menino, geralmente, trabalha 40% menos vezes do que a mulher.
07:17Então, é imputado sobre a mulher todas as responsabilidades das atividades domésticas.
07:22Então, ó, você vai ficar com seus irmãos, você vai limpar a casa, você vai cozinhar.
07:27A menina faz tudo.
07:29Então, realmente, na maioria das vezes, são as meninas mais velhas que tomam conta de tudo.
07:34Por quê?
07:35É como se elas substituíssem as mães.
07:38Quando a mãe trabalha fora, isso é ainda mais grave, viu, Roberta?
07:42A menina, às vezes, não consegue nem estudar, porque ela tem que tomar conta dos irmãos,
07:48ela tem que acompanhar a dever de casa dos irmãos, ela leva a criança no médico.
07:54É uma coisa, assim, que ela toma o papel da mãe dentro da família.
08:00Nossa, e a gente também...
08:01A mãe faz o filho e a irmã cria.
08:04E a gente sabe que essa é uma realidade, principalmente, quando você falou agora, né?
08:08Quanto mais filho, pior.
08:10Quanto mais, pior.
08:12Porque aí tem que assumir o controle da criançada.
08:15Aí, olha só, essa criança, primeiro que ela perde a infância.
08:19Aí, o desenvolvimento dela infantil é atropelado.
08:22A gente fala assim, nossa, ela é tão madura, essa criança é tão madura.
08:26A gente ter uma criança madura fora da faixa etária dela não é vantagem, não.
08:30Uma hora, isso vai custar caro.
08:33Lá na adolescência, ela vai querer compensar tudo que ela não viveu na infância.
08:39Aí, quando a gente quiser que ele seja maduro, ele vai querer aprontar e vai ficar com o comportamento,
08:45inclusive, muito infantilizado.
08:46Você se identifica com isso?
08:48Como é que foi a sua infância, a sua adolescência, nesse aspecto?
08:51Eu me identifico e também pontuar uma coisa que é muito interessante, é que a gente só
09:00fala no contexto familiar, mas quando você traz isso para o seu casamento, você sofre
09:07duas vezes mais.
09:08Você sofre com o problema que você já tinha, que você está ali dando e com o problema.
09:13E quando vem os filhos, piora cada vez mais.
09:16Porque você fica dia e noite pedindo a Deus que lhe dê orientação.
09:20Estou falando como mãe, como filha, como avó.
09:24Pedindo a Deus que lhe dê sabedoria para conduzir, no mínimo, o seu filho para ser um ser humano
09:30feliz.
09:31É o que basta.
09:32Me sinto, sim, dentro dessa situação, porque a gente carrega, leva, assim, para o casamento,
09:39para a vida, para o trabalho, tudo a responsabilidade.
09:42Como é que está minha irmã?
09:43Como é que está minha mãe?
09:44Eu até hoje cuido da minha mãe.
09:46Minha mãe é deficiente de uma visão.
09:48Ela tem um problema crônico.
09:50E é você que assume a saída de frente.
09:52Eu assumo tudo, desde o curativo, a fisioterapia, porque eu sou ex-enfermeira, então, todas as
10:00vezes que ela vai para o médico, o médico fala, dona Joana, vamos ter que amputar, já
10:04quatro, cinco vezes.
10:06E aí, a minha fé, ou a fé dela em mim, que é uma coisa mútua, é essa obrigação
10:13de curar a minha mãe.
10:15E hoje, eu tenho, assim, fibromialgia.
10:17E eu sempre fui muito forte de trabalhar muito, porque eu acredito que eu tenho desenvolvido
10:23isso por conta dos problemas psicológicos, a cobrança, e até hoje a responsabilidade
10:29de ver todo mundo.
10:29Está todo mundo com o marido, com os filhos.
10:31Mas eu me preocupo, eu não consigo me abster, eu não consigo ficar, tipo, cruzar os braços.
10:37Você se cobra o tempo inteiro?
10:39Porque essa responsabilidade já virou natural para ela.
10:43É assim, ó, nesse caso aqui, a gente começou um pouquinho nos bastidores, é como se não
10:47inconsciente dela, ela acreditasse que a vida da mãe e dos irmãos dependesse de toda a
10:55movimentação dela.
10:56Ela retroalimenta o sistema familiar através desse movimento.
11:01Então, é um sistema de refém.
11:03Eu sou refém dessa família através desse movimento de necessidade deles.
11:07Eu preciso que eles precisem de mim.
11:09Ó, pra gente finalizar, o comentário da Rita Fernandes, ela falou que o caso da Lu é o mesmo
11:15que ela está passando, que a mãe está com ela há quatro meses e que ela tem uma irmã
11:21que tem uma boa situação financeira e que também não quer ajudar em casa.
11:24A Patrícia Nascimento, beijo Patrícia, ela fala que, nossa, minha história contada pela
11:30Lu Morelato.
11:31E aí a gente deixa esse recado pessoal de casa, né?
11:34A importância da gente rever a forma que a gente está embutindo essa responsabilidade
11:38desde criança.
11:40Obrigada pela participação de vocês.
11:41Manda um beijo para o meu sogro e para o Beto que está te assistindo, são muitos
11:44seus fãs.
11:45Beijo, sogrão da Lu, beijo.
11:47Beijo para vocês.
11:48Beto, manda beijo aí para o pai do Suá inteiro.
11:50Beijo, galera.
11:51Tchau.