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  • há 3 semanas
Fake news: homem morre, após apanhar por suspeita de ter roubado moto

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Transcrição
00:00Fake news é um assunto muito sério, olha aí como que uma mentira pode destruir a vida de uma pessoa
00:07inocente.
00:07E a gente vai falar sobre esse assunto agora, vem cá, participa com a gente, porque aqui no nosso estúdio
00:12eu recebo Renata Bravo, que é advogada.
00:14Muito obrigada pela sua participação, doutora, seja bem-vinda, boa tarde.
00:18E também recebo o Tiago. Tiago, gente, Tiago de Lima, ele é psicólogo e vai começar explicando pra gente
00:23por que casos assim são recorrentes na nossa sociedade, por que a gente vê tanta manifestação de ódio
00:31e quando a gente vai procurar saber depois, é tarde demais?
00:38Bom, primeiramente é porque essas questões do ódio, a gente vem de um contexto já bastante violento.
00:46Em todo o Brasil, se você parar pra olhar, essas manifestações de violência, elas não acontecem isoladamente.
00:52Tem todos um contexto. Especificamente, no Guarujá, Guarujá tem sido uma cidade com um índice de violência muito alto,
01:01índice de furto muito grande. E quando alguém, já tendo esse histórico de violência no Guarujá,
01:08que é uma cidade turística, quando alguém fala assim, ah, pega ladrão, que foi o gatilho pra toda essa agressão,
01:15as pessoas já estão tão habituadas a esse contexto de violência, já estão tão saturadas,
01:21que é mais uma ocorrência cotidiana. E as questões assim da impunidade, de não confiar assim nos meios jurídicos
01:30pra aplicar uma punição legal, as pessoas elas sentem o direito de ser reativas, de que o mundo ele não
01:36espera,
01:37tá tudo acontecendo ao mesmo tempo. Então a pessoa não fica naquela questão assim,
01:41isso é verdade ou isso é mentira? Quem falou? A partir que você dispara assim, pega ladrão.
01:48É um gatilho social pra todo mundo que já tá inserido naquele meio, num ambiente violento.
01:54Ninguém vai parar pra perguntar, pra questionar.
01:58É isso mesmo, Renata, é esse sentimento que o Tiago contou agora pra gente de impunidade que as pessoas têm
02:05e que acabam levando, fazendo com que as pessoas ajam num impulso,
02:11só que muitas das vezes o que a sociedade acaba querendo como resposta se torna mais grave,
02:19se torna um crime ainda maior do que, vamos supor, que tivesse sido uma moto roubada.
02:24Olha só, tiraram a vida de um homem.
02:26É, é, o impulso ele acaba acontecendo. A gente sabe, a sociedade, como você falou, tá nisso.
02:33Mas a gente tem que ponderar, ainda que a gente tenha um sentimento de impunidade,
02:38que acontece, né, muitos crimes contra o patrimônio cotidiano, a gente tá submetido a isso,
02:45mas a gente vive numa sociedade de normas.
02:48E quando a gente infringe uma das normas, a gente tem uma sanção.
02:52Nesse caso, o gatilho do pega-ladrão poderia ter sido pra segurar o homem até a polícia chegar
03:00e averiguar se existia ou não o crime de roubo ou de furto.
03:05Mas é ter, ultrapassar disso.
03:09Eu não me importo com a vida e é uma naturalização de violências.
03:13Eu acho que o ponto tá nisso.
03:16Até que ponto pegar pedaços de madeira, capacete, aquelas pessoas que estavam ali assumiram o risco de tirar a vida.
03:24A gente sabe que se bater com um pedaço de madeira e ficar linchando, que é essa palavra, né, o
03:29linchamento,
03:30essa pessoa pode vir a óbito.
03:32Então, eu acho que é isso, essa naturalização e muitas pessoas não fazerem essa conta.
03:39Olha, é uma vida que tá ali.
03:40Ainda que essa pessoa tivesse cometido um crime, como você falou, existe o Estado.
03:46O Estado vai julgar, vai ser criminalizado, vai ser penalizado ou não.
03:50E o papel daqueles cidadãos ali era chamar a polícia, já que a gente acha que tá.
03:56Nunca tirar a vida de uma pessoa.
03:58E aí a gente se pergunta, né, você usou a palavra, usou a expressão de que eles assumiram, eles assumem
04:05isso.
04:06Qual é a interpretação da justiça? De que forma que essas pessoas agora vão responder?
04:11É pelo crime de homicídio, né?
04:14Ainda vai ter uma discussão se vai ser doloso, ou seja, com intenção ou de um dólar eventual que eles
04:21assumiram o risco.
04:23Isso vai ser disputa de defesa e acusação, o Ministério Público muito provavelmente vai ter uma tese, a defesa outra.
04:32E tá tudo bem, não tem problema nenhum, né? Todo mundo tem direito à defesa.
04:37Só que no caso, a vítima não teve esse direito.
04:41Não teve o direito de se defender e de falar, olha, a moto é de um amigo meu.
04:46Eu sou uma pessoa que, assim, não tenho nada com a justiça.
04:52E nem se ele se defender, se ele ninguém ia parar pra acreditar, pra ouvir, ia parar pra nada.
04:56É.
04:56Né?
04:57Ali ele, era o, assim, o julgamento da rua.
05:00E quando a gente vê essa pessoa, né, esse homem que tava filmando, me parece, pelo tom, que ele não
05:07tava filmando consternado.
05:09Não era filmando pra poder depois entregar essa filmagem pra polícia.
05:13Parecia que ele tava filmando, gostando de ver aquilo e se integrando naquela violência, ainda que não praticando, mas se
05:22omitindo, pelo menos.
05:24Achando que tava fazendo o papel da justiça, né?
05:27Exatamente.
05:27Que é esse o erro, quando a gente se torna o juiz.
05:30E aqui no nosso estado, nós também temos vários casos, tá, gente, de fake news.
05:36Casos que trouxeram muito sofrimento pras famílias de pessoas que foram injustamente acusadas de um crime.
05:45Um desses casos aconteceu em Nova Esperança, Cariacica.
05:48Uma criança de 7 anos morreu depois de ser atingida por um tiro.
05:52E no início de toda essa história, a família apontou que um vizinho seria o responsável pelo crime.
06:00E aí, revoltada a população, a vizinhança, colocou fogo e destruiu a casa desse homem.
06:06Quatro meses depois, a polícia concluiu que o quê?
06:11A criança, na verdade, foi morta com a arma do próprio pai.
06:16E o irmão mais velho teria disparado a arma acidentalmente.
06:22Imagina, né?
06:22É uma dor enorme, claro, pra essa família que perdeu uma criança.
06:26E também uma outra dor pra um vizinho que não tinha nada a ver com isso e que teve a
06:32casa completamente destruída.
06:34Eles até mudaram de endereço.
06:36Outro caso também foi em maio de 2021.
06:38Outro caso grave de fake news que terminou com a morte de um idoso de 71 anos em Central Carapina,
06:45na Serra.
06:45Lembra desse caso?
06:46Esse idoso foi acusado injustamente por uma ex-namorada de estuprar as duas filhas dela.
06:53O boato se espalhou pelo bairro.
06:57Aí os populares cercaram esse idoso e bateram nele até a morte.
07:02A conclusão do inquérito da Polícia Civil apontou que Antônio Batista da Fonseca foi vítima de uma mentira.
07:11Na época, três pessoas foram presas pelo crime, mas, segundo a família do seu Antônio, todas já estão em liberdade.
07:21E isso é revoltante, né?
07:23Parar pra pensar na dor dessa família que perdeu um ente querido por um motivo banal, por uma mentira.
07:31E ainda assim, andar na rua e esbarrar com essas pessoas, saber quem estava envolvido e ainda encontrar, né, Renata?
07:39É, Roberta, eu acho que o grande ponto, tá, da gente, claro, são mentiras, mas existe aquela mentirinha que a
07:49gente vai contar, uma coisa, aquela outra.
07:51E essas mentiras que estão sendo, estão num caldo de cultura que estão levando a violências.
07:57Nesses casos, homicídios e outros casos de reputação, de pessoas que têm, né, o psicológico completamente atingido.
08:07Então, é a gente parar e pensar de parar de apontar o dedo pro outro ou entrar numa onda de,
08:14ah, se fulano me mandou uma coisa é porque é verdade.
08:18Não, não é. As fake news, elas têm uma razão de ser, porque geralmente ela passa de uma pessoa que
08:23você tem muita confiança.
08:25Então, tá no grupo da família, tá no grupo de amigos e a gente não vai checar.
08:30Acho que o ponto tá aí, mas é a gente ter essa noção de como que a gente tá acabando
08:35destruindo vidas e reputações.
08:36Você tocou nesse ponto, é muito interessante a gente voltar alguns anos, Tiago.
08:42Antigamente, antes do celular, antes dos grupinhos de WhatsApp, né, o boato era ali, era na rua, era no bar,
08:48naquela cidade, no interior, por exemplo, tinha muito isso, né, e ficava naquela região e era de boca em boca,
08:56de vizinho pra vizinho.
08:57Hoje em dia, com isso aqui, com o celular, com o grupo, isso ultrapassou as fronteiras, né, isso aqui não
09:03tem limite.
09:04Isso acabou potencializando as redes sociais hoje, os grupos de WhatsApp, isso potencializa essas fake news?
09:13Potencializa bastante.
09:15Vamos lá, fake news, a gente denominou dessa forma, é um termo recente, mas a desinformação, ela já existe desde
09:27que a gente aprende a se comunicar como espécie.
09:31E, através da fake news e do contexto que a gente tá vivendo no mundo, sempre tudo muita pressa, sempre
09:37tudo nada para pra te esperar.
09:40Quando a gente vê uma informação, que é a característica da fake news, é algo que vai te chocar, é
09:46algo que vai apelar pras emoções, é algo que vai apelar pra moral.
09:50Muitas vezes a gente vê isso, tá andando de ônibus, indo pro trabalho, tá fazendo, cuidando dos filhos, tá fazendo
09:58almoço, a gente não tem um tempo, assim, às vezes, de parar pra olhar aquilo ali e averiguar se dá
10:05a chance de procurar uma contra-informação daquilo, pesquisar em outros canais se aquilo é realidade.
10:13Por quê? É tudo muita pressa. E o que é o mais agravante? É uma coisa que vai apelar pras
10:18suas emoções, é uma coisa que vai apelar pela sua moral, é alguma coisa que vai disparar algo que você
10:24já acredita.
10:25Que é essa a característica da perpetuação da fake news, da reprodução dela.
10:31Porque ela apela pros seus vieses, pros seus vieses do que você já acredita.
10:36Então, por exemplo, se você já acha que um bandido bom, todo bandido, é um bandido morto, quando você vê
10:45alguém falando, pega ladrão, você não vai se dar a conta de que aquilo ali é um outro ser humano.
10:51De que aquilo ali é uma pessoa que está cometendo um crime contra o patrimônio, você não vai enxergar aquilo
10:57ali como um outro ser vivo, como uma pessoa que tem uma necessidade de um julgamento justo.
11:04Renata, agora com a APL das fake news, com toda essa movimentação que a gente vê, qual a importância? Você
11:10acha que isso pode vir a contribuir? De que forma, por exemplo, responsabilizar as páginas e também quem continuar distribuindo
11:19esses conteúdos mentirosos?
11:21É, pra mim é fundamental, né? A gente tá aqui, vocês têm responsabilidade. Quando a gente fala da imprensa, a
11:28imprensa tem essa responsabilidade. Então, eu acho que isso é muito importante porque as pessoas individualmente, elas estão criando muita
11:35coragem.
11:36Então, essas plataformas, alguns blogs que não têm essa responsabilidade social com a verdade, igual esse debate aqui, elas precisam
11:46ser responsabilizadas porque elas repassam essa informação em massa.
11:50Então, assim, eu acho que é fundamental. E aí, eu queria só fazer um ponto importante. Já é errado e
11:59já tem punição prevista pra quem utiliza de mentiras contra as outras pessoas.
12:04Seja aqui na vida real ou no mundo virtual.
12:07Exatamente. Então, se eu ofendo a sua honra, se eu imputo a você um crime que eu sei que não
12:13é, se eu falo, Roberta, furtou meu celular e eu sei que não foi você, existe um crime.
12:18Existem os crimes contra a honra, calúnia, injúria e difamação. Existem os crimes quando a mentira ultrapassa.
12:26Então, o homicídio, crimes contra a liberdade religiosa. Então, a gente já tem esse arcabouço individual, mas é importante que
12:36as estruturas, as instituições tenham essa responsabilidade social com a verdade.
12:41Tá certo, gente. Muito obrigada pela participação de vocês. Que a gente pense, repense, antes de, seja um boato que
12:49a gente ouviu na rua, seja algo que a gente viu aqui no WhatsApp, no grupo, antes de compartilhar qualquer
12:54que seja a informação.

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