- há 57 minutos
Um papo sobre ler e envolver os alunos nesse hábito, com os professores de literatura e difusores da leitura, Samira Freitas e Ricardo Salvalaio.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó, aqui pela Rede Vitória.
00:27Hoje nós vamos conversar sempre sobre literatura, cada vez mais, com editores, com poetas, com escritores, com professores, leitores, todo
00:36mundo que se envolve com literatura.
00:39É podcast e YouTube e a gente disponibiliza isso para que vocês possam, evidentemente, e depois, se quiserem, entrar em
00:47contato com a gente, fazer comentário e assim por diante.
00:50Beleza?
00:50Beleza? Olha só, eu sou professor de literatura, como muita gente sabe. Sou professor há muito tempo e eu trago
00:57uma questão que vai ser discutida hoje com dois professores de literatura.
01:02Não vou mostrar ainda quem são, mas a minha pergunta é uma pergunta não só para eles, mas é uma
01:08pergunta para quem está me ouvindo também e para quem está me vendo.
01:10Que é a seguinte, será que o professor realmente ensina? Será que é lícito, é legítimo um professor dizer, eu
01:19ensinei isso a meu aluno?
01:21Será que nós ensinamos realmente ou nós despertamos no aluno o interesse por uma determinada disciplina, por um determinado assunto?
01:30Eu sempre achei que essa era a verdade, né? Não acho nem que é a realidade, acho que vai além
01:36da realidade.
01:37Eu acho que é uma verdade para mim. Eu não me vejo capaz de ensinar alguém.
01:43Eu ensino as minhas filhas, eu educo minhas filhas. Eu não sou um educador, até porque eu sou um professor
01:48de pré-vestibular.
01:49Mas, mesmo assim, abstraindo essa ideia de ser professor de pré-vestibular, a pergunta que fica é, é possível ensinar?
01:58E, mais especificamente, é possível ensinar literatura?
02:03Ou a gente só desperta no aluno o interesse por ler, o interesse pelos livros, o interesse por histórias, por
02:11versos, poemas, teatro e assim por diante?
02:13Bem, eu tenho aqui, diante de mim, Samira Freitas, professora de literatura, Ricardo Salvalaio, professor de literatura, ambos professores da
02:23rede pública,
02:25o que eu acho que é um grande mistério, inclusive, para mim.
02:30Não é mistério para mim a rede pública de terceiro grau, porque eu estudei na universidade.
02:35Mas, é um grande mistério a atuação de um professor de literatura na rede pública.
02:41E eu estive, na semana passada, em convite, saindo de um convite deles, aceitando o convite, eu estive batendo um
02:50papo com os alunos deles.
02:51E, justamente, por eu ter conversado com os alunos deles, eu tive a ideia de convidá-los para vir aqui,
02:58para trazer essas duas figuras, que eu considerei muito importantes dentro da docência de literatura,
03:06para eles poderem conversar com vocês.
03:07Claro, vão conversar comigo e vocês vão ouvir o que eles têm a dizer.
03:11Então, primeiramente, muito obrigado, Samira, muito obrigado, Ricardo.
03:15Vocês dois são duas figuras que trabalham com literatura.
03:18E eu já deixo essa pergunta para vocês dois.
03:20A Samira, que é uma mulher, ela tem a prerrogativa de começar respondendo.
03:25A pergunta é a seguinte, Samira, você realmente acha que você ensina literatura?
03:30Olha, é uma provocação interessante, porque eu acho que eu estabeleço em sala de aula uma troca com os meus
03:39alunos.
03:40E, nesse sentido, dentro dessa conjuntura da escola pública, que é meu grande palco, é onde eu gosto de atuar,
03:49eu me sinto muito aberta a conseguir estabelecer essa troca com eles.
03:55Então, eu acho que eu não só ensino, mas eu aprendo também junto com eles.
03:59E acho que o grande caminho, e eu tento trilhar assim, é que a gente possa, a partir da inspiração,
04:10que de repente a gente, como professor, coloca ali, planta aquela sementinha,
04:16a gente estabelece uma conexão.
04:19Mas eu não só ensino, eu aprendo também muito com eles, a gente troca.
04:23Mas essa ideia de...
04:26Porque o que você faz, o que você faz numa sala de aula, creio eu, é lidar com diferentes subjetividades.
04:33Você lida com pessoas diferentes, que têm visões de mundos diferentes, vidas familiares diferentes, etc, etc.
04:41Você é uma só, você fala uma linguagem para todos que estão ali.
04:46Alguns se interessam pelo que você está falando, outros não se interessam.
04:51Eu acho que isso acontece desde que a ideia de professor e aluno foi estabelecida.
04:56Essa é a minha questão.
04:58Aquele aluno que se interessa, dependeu de quem?
05:00Dele ou de você?
05:02O interesse depende de quem?
05:05Em literatura especificamente?
05:07Olha, eu acho que...
05:09Eu sou uma figura, assim, dando aula, né?
05:12Então, eu acho que tem aí uma participação minha de despertar até de uma maneira meio artística o interesse neles
05:22pela arte das palavras, pela leitura, pela escrita, que é desafio, né?
05:28É um desafio tremendo.
05:30Mas eu acho que...
05:34Não sei, eu acho que é uma troca.
05:36Eu sou suspeita para falar porque eu tenho bons alunos.
05:39Talvez por ser uma boa professora.
05:41Ótimo.
05:42E por ter tido bons professores.
05:44Ah, certo.
05:45E você, Ricardo?
05:47Então...
05:47A pergunta vai para você também.
05:48Vocês dois trabalham juntos, mas vocês têm...
05:50Vocês são duas pessoas diferentes, com visões diferentes, gêneros diferentes, né?
05:56Vidas diferentes, mas trabalham juntos com o mesmo objetivo.
06:01E para você?
06:02Nessa parte de literatura, Grigio, eu já trabalhei na Biblioteca Transcol por quatro anos.
06:06Lá era um processo diferente, né?
06:08A gente incentivar o cara que está ali no terminal, né?
06:11Pegar um livro.
06:12O cara nunca leu, né?
06:13Então, isso é uma idade diferente.
06:15Agora, na escola, se a gente for fazer um paralelo ali, por exemplo, o Mário Ortiz, que incentiva muito esse
06:20lado cultural, né?
06:21O centro cultural ali.
06:23Eu também dou aula no Hidel Brando, lá que é Eja, né?
06:25O polo de Eja.
06:28Eu, independentemente, se a pessoa...
06:30A gente está num país de não leitores, vamos dizer assim, né?
06:32O brasileiro, acho que, lê oito livros por ano, né?
06:34Numa média otimista.
06:37Eu faço o evento chamado Café Literário.
06:39Que todo trimestre ou bimestre, eles vão ler um livro, né?
06:43Aí, a gente vai trabalhar vários gêneros, né?
06:45Mas, o que você estava falando com a Samira?
06:47Vai ter alunos que vão despertar o interesse por si só.
06:51Mas, assim, independente disso, a gente vai sempre ler uma obra, né?
06:55Eles vão trazer obras que eles conhecem, né?
06:57Mas, aconteceu algo interessante.
06:59Nesse primeiro trimestre, eles leram mangá, teatro, poesia, um gênero livre, né?
07:06Aí, no segundo, eles já me pediram.
07:07Professor, por que você não trata obras do período literário que a gente está estudando?
07:13Foi indicação deles.
07:15E a gente está lendo obras do realismo, né?
07:17Agora, Machado de Assis, né?
07:19A Luiz Azevedo, etc.
07:22Estamos trabalhando numa peça, a Capital Federal, né?
07:25Do Arthur Azevedo.
07:26Arthur Azevedo.
07:26Mas, eu aprendo, além de eles pedirem essa sugestão, eu já trabalhei com os gêneros que eles indicaram.
07:34Como o mangá Shakespeare adaptado, Machado de Assis adaptado, para quadrinho, né?
07:39Então, indicações dele, mangás, né?
07:42Outros livros adolescentes, né?
07:44Tipo, Nicholas Spark, coisas que eu nunca leria, né?
07:46Então, é enriquecedor também, você aprende também, né?
07:50Agora, a sua provocação foi interessante, porque como atingir, né?
07:56Porque na mesma sala, como você falou, que é heterogênea, a gente vai ter um aluno que tem uma carga
08:00de leitura bacana
08:01e vai ter o cara que leu o turma da Mônica, né?
08:04Ali, está naquele nível ali.
08:06Então, a gente tenta atraí-lo, que ele leia alguma coisa, né?
08:11O que quer que seja.
08:11E como é que vocês seduzem o aluno?
08:14O aluno, o aluno que já está predisposto a ler, né?
08:22Ele recebe o elemento livro de coração aberto, certo?
08:27Mas o aluno que nós não podemos nunca nos esquecer de que nós estamos num momento em que
08:34a cinemática da internet, né?
08:38Os jogos, o TikTok, o movimento da internet, ele é muito mais ágil e ele passa uma coisa chamada entretenimento.
08:46Que também é, e também ele faz uma coisa, velocidade.
08:50Velocidade na informação.
08:51Como seduzir um aluno que está neste mundo, nesse mundo do TikTok, nesse mundo da cinemática,
08:59a cinemática da internet, do jogo, como é que você seduz esse aluno para ele se interessar?
09:05Vamos achar de assistir.
09:07É complexo, né?
09:08Inclusive, os alunos que leem muito, eles assistem TikTok sobre livros, né?
09:13É podcast, né?
09:14Que é uma coisa, é antiga, mas é nova, né?
09:17Tem um nome diferente.
09:20Mas essa questão de atrair é uma coisa complexa, né?
09:23Você, é...
09:25Porque tem aluno, o Grisó, que tem um gênero pé definido.
09:28Eu só gosto de romance, eu só gosto de autoajuda, que agora é autoconhecimento.
09:32Ah, eu só gosto de poesia.
09:35Então, quando você traz um livro, por exemplo, do realismo, né?
09:41Você leva ele para outro mundo, né?
09:43Para ele ampliar esse gosto de literário, né?
09:45Eu acho que competir com a tela é complicado até para a gente também, né?
09:49Sim, sem dúvida.
09:50Então, eu divido isso com eles, assim.
09:52Nem sempre é possível a gente trabalhar literatura só dentro de sala de aula, né?
09:55Por exemplo, a gente está estudando a peça do...
09:58Arthur Azevedo.
09:59Arthur Azevedo.
10:00E é muito interessante, porque aí eu trago essa expertise de atriz, eles se interessam muito.
10:05Para a leitura e o estudo do texto dramático.
10:08Então, uma boa oportunidade, assim, de eles conhecerem a obra, mas também trabalhar em interpretação, performance.
10:14Eles gostam muito de poderem se escutar lendo em voz alta, interpretando com os colegas, né?
10:22Mas nem sempre é possível fazer isso só em sala de aula.
10:24Então, às vezes, eu até recomendo, falo assim, olha, é preciso você ler em casa e é difícil você competir
10:34com a tela.
10:34Então, guarda um pouco e leia ali pelo menos umas duas horinhas.
10:41Já, a professora já fica satisfeita.
10:43Porque existe um desafio de vocês, e é meu também, mas meu menos, por quê?
10:48Talvez, então, eu acho que talvez seja interessante explicar isso para quem está nos ouvindo e para quem está nos
10:53vendo.
10:54O aluno de pré-vestibular, ele já sabe o que é que o espera.
10:58Ele sabe qual é o objetivo dele.
10:59É passar no vestibular, é entrar na universidade pública em tese.
11:04Então, ele sabe o seguinte, se ele não fizer a parte dele, ele vai ter fracasso.
11:10O aluno de ensino médio é diferente.
11:12Primeiro, porque ele vai ser avaliado por uma prova que o professor dele elabora.
11:21O aluno de pré-vestibular, ele vai ser avaliado por uma prova que o professor dele não elabora.
11:26Isso aí já é um grande diferencial.
11:29Mas eu quero saber a linguagem.
11:32Porque a linguagem com a qual vocês trabalham é uma linguagem veloz e é a linguagem deles.
11:37Mas vocês pegam essa linguagem que vocês usam no dia a dia, a linguagem do professor,
11:42para poder levá-los até a linguagem de Machado de Assis, de Alencar, de Arthur Azevedo, de Aloysio Azevedo.
11:50Como é que vocês fazem esse processo?
11:53Eu tenho curiosidade mesmo de entender.
11:56Como é que vocês fazem para que o aluno não estranhe aquela linguagem?
12:00Então, ano passado, por exemplo, que eu tinha primeiro ano, né, Guijó,
12:04eu comecei com um livro simples, né?
12:05A escola possuía, né?
12:07Eu sou uma lala.
12:08É uma história daquela ativista, né?
12:12Sempre começo com veríssimo, né?
12:13Uma linguagem mais acessível, para daí a gente partir para outros gêneros, né?
12:19Porque a leitura passa muito da pessoa se ver naquela obra, né?
12:24Então, eu tento fazer isso, né?
12:27Alguma coisa que fiz, que em algum momento, né, Guijó, que eles vão ler, assim, fatalmente,
12:31aí, três livros por ano, pelo menos, porque eu já fico feliz.
12:34Da pessoa, pelo menos...
12:35Claro, claro.
12:36Para quem não lia nada, ou aquilo ali pode virar um...
12:39Por exemplo, a gente se encontrou na Biblioteca Pública, né?
12:42Que tem um acervo bom, né?
12:44O aluno...
12:45A gente leva eles lá para fazer o cadastro.
12:49Tem alunos que, além do livro do Café Literário, também pegam livros para ler por fora.
12:54Eu acho super maneiro, né?
12:55Porque a gente está ali no Centro Cultural, então a gente vai à exposição,
12:59e o cara vai no palácio, né?
13:02Vai no...
13:02Não é uma cena, depois voltar, né?
13:04Eu acho muito bacana esse feedback, né?
13:07Essa...
13:08Mas eu acho que a própria vivência vai, da escola ali,
13:11por propiciar esses momentos culturais, artísticos, né?
13:14Favorece.
13:16A Samira, você trabalha com teatro, certo?
13:19A pergunta é muito direta.
13:21Por que Arthur Azevedo, que é um autor do século XIX,
13:24e não Dias Gomes, e não Nelson Rodrigues, e não Marcos Rey,
13:28e não, sabe, esses autores que são contemporâneos?
13:32Então, é boa a sua pergunta, porque
13:35ela parte do que o Ricardo falou, inclusive, sobre a demanda deles, né?
13:40Quando a gente...
13:41Eles estavam estudando realismo, porque eu tenho um trabalho separado na escola,
13:48mas em alguns momentos eu e o Ricardo, a gente trabalha junto também em alguns projetos específicos.
13:52Vocês dois na sala de aula?
13:53Isso, nós dois juntos.
13:55E aí, esse estudo, especificamente dessa peça do Arthur Azevedo,
14:03ele veio a pedido deles, como...
14:08Eles pediram para estudar uma obra da época que Ricardo estava trabalhando com eles.
14:15Eu tenho uma eletiva de atuação também com o texto deles,
14:19é um texto dramático que os alunos escreveram e tal.
14:22Ótimo, vamos conversar sobre isso.
14:23Vamos conversar sobre isso também.
14:24Mas, nesse caso específico, veio por demanda deles.
14:29Então, a gente escolheu essa peça para trabalhar com eles,
14:32para retratar esse período específico da literatura.
14:35E trabalhar a leitura dramática, né?
14:36Que é uma leitura que você faz tipo um ensaio aberto, né?
14:39Você pode estar com o texto na mão, focando no texto mesmo,
14:42a coisa literária do...
14:44Porque o Arthur Azevedo, para quem não sabe, ele é um dramaturgo mesmo, né?
14:48A gente até pensou em pegar o José de Alencar, que é um teatrologo mais...
14:51Machado, né? Machado tem peças...
14:52Machado, mas o ocasional, né?
14:54Mas o Arthur, que ele é irmão do Aloysio Azevedo,
14:56inclusive fundadores da Academia Brasileira de Direito, em 1908,
15:00ele é um dramaturgo de fato, tem peças muito boas, né?
15:03Com o que é histórico, né?
15:05Para a gente transpor para aquela época, né?
15:07Porque a gente trabalha questões do racismo, da...
15:11A parte da...
15:12Da igreja, da igreja, demandas variadas.
15:17É bacana a gente ir para lá, porque quando a gente está...
15:20Isso é legal, que eu expliquei para eles o conceito de anacronismo, por exemplo,
15:24que é olhar o passado com o olhar de hoje, né?
15:26Então a gente ir para lá mesmo, 1865, se eu não me engano.
15:31Então a gente vai lá para aquele Brasil que era independente, né?
15:35Mas ainda tinha a escravidão, ainda era monarquia, né?
15:41E estuda um pouco história também, né?
15:44Logo que o Vitrino Literário começou, eu entrevistei aqui um autor de livros de fantasia,
15:50chamado Rômulo Felipe, que inclusive é da Academia Espírito Santo de Letras.
15:53O Rômulo escreve textos para adolescentes.
16:00Textos que têm origem em Sinclair Lewis, que têm origem em Harry Potter, que têm a origem, né?
16:10Mas ele faz uma literatura bem diferenciada.
16:15O aluno de vocês, ele se interessa por quê?
16:19Antes de Samira e de Ricardo, ele chega com qual interesse literário?
16:24E outra coisa, outra pergunta.
16:28Eu vejo nos meus alunos, independentemente da condição social que eles tenham,
16:35eles têm uma ligação forte com o rap.
16:38Eu quero saber de vocês o seguinte.
16:40Então, a primeira pergunta para vocês dois.
16:43Como é que chega seu aluno?
16:46Ele chega gostando de quem, literatura?
16:48De onde que vem o saber dele?
16:50E a segunda é, como é que o rap influencia essa garotada?
16:55Então, eu que tenho uma letiva de música, né?
16:59Geralmente, o aluno que gosta de rap, ele tem essa preocupação estética com o texto.
17:04Ele vai ouvir músicas que têm essa preocupação estética, eu digo, de passar uma mensagem.
17:10De não ser só entretenimento, né?
17:12Porque o rap hoje, até o Tony Bellotto falou uma vez, o Guitaíso do Titãs, que ele é o único
17:17gênero hoje, talvez, no Brasil, que expõe as feridas, né?
17:21Coloca o dedo na ferida.
17:21Então, esse alunado, eu que tenho uma letiva de MPB, né?
17:25Que MPB, assim, a gente faz do conceito, pelo telefone lá do Donga, até Crioulo, né?
17:31E MC, assim, esse século da canção aí, como falou o Tati.
17:34Isso, inclui tudo, né?
17:35Isso.
17:35Samba, canção, bossa nova.
17:37Blues, tudo.
17:39Jazz também.
17:39Então, esse aluno, geralmente, não generalizando, ele tem uma preocupação com a mensagem.
17:46Que a canção, essa simbiose, ela tem um porquê, né?
17:52Os estudiosos da música também sabem.
17:54Agora, o alunado, assim, na parte da leitura, como você falou, ele vai ter esse interesse
18:00por coisas jovens, né?
18:03Coisa adaptada, faz muito sucesso.
18:06Coisas romanceadas, assim, de meninas, assim, gêneros, assim.
18:09Na verdade, dessa galera que escreve pra jovem mesmo, como você falou.
18:14Eu aproveito isso porque eu acho que as pessoas podem galgar degraus, né, Guilhó?
18:19Você tá lendo Veríssimo, você tá lendo isso daí, você pode começar com Júlio e Sabrina,
18:23e Pará e Machado de Assis, Dr. Stoyevs, né?
18:26Eu acho que o interessante é você apresentar algo novo, não cancelar o que ele tem, né?
18:32A bagagem que ele tem.
18:33Ótimo. E você, Samira?
18:35É, eu percebo, assim, eu, enquanto professora de escola pública, os meus alunos,
18:42eu os encontro ansiosos pra saber o que eu tenho para apresentar pra eles.
18:48porque eles já estão inseridos em gostos e hábitos e...
18:55Que a própria escola proporcionou nos anos anteriores, é isso?
18:59A escola, ela tem esse quê, o Mario Ortiz, especial de valorizar a cultura e a arte, assim, né?
19:06Até pra geografia da gente ali no centro, né?
19:09Todos aqueles espaços culturais a gente frequenta, faz projetos, né?
19:13Então, e a escola, ela apoia, por exemplo.
19:15A gente tá aqui, por exemplo, a gente tava lá na Biblioteca Pública Municipal,
19:19a gente vai ao Palácio, vai ao Homero Macena, vai ao Teatro Sônia Cabral.
19:23Eles tiveram uma visita do grupo Odomodê...
19:29Odomodê, ah, né?
19:30De Islã...
19:31Mas, é, aí você, você me falou, ele chega na expectativa do que você vai dizer pra eles.
19:37Isso.
19:38Sim, mas você só vai obter sucesso com o seu trabalho se você já souber em que terreno você tá
19:46pisando.
19:46Sim.
19:47Certo?
19:48Como é que você sabe desse terreno?
19:50Você presume?
19:51Então, eu busco estabelecer essa troca que eu disse, né?
19:56Eu acho importante, eu sou, eu me considero muito próxima dos meus alunos.
20:00Então, eu parto da bagagem deles, mas também acrescentando a minha.
20:05E aí a gente vai crescendo uma dança, assim.
20:10Por exemplo, esse trimestre, neste trimestre, eles estão estudando humanismo e aí estudaram
20:20O Alto da Barca do Inferno, que é um texto um pouco difícil, é um texto muito...
20:24É um texto dramático, mas é bem interessante.
20:26É um texto dramático, mas muito interessante.
20:27Um deboche espetacular, né?
20:29Sim, e aí trabalhamos várias figuras de linguagem, críticas...
20:33Quer dizer, só me diga uma coisa, o programa vocês cumprem?
20:36Sim.
20:37A gente cumpre o programa, né, a questão curricular e além disso, tá ótimo.
20:42Sim, é, eu consigo ter, principalmente no Maria Ortiz, que é onde a gente atua junto,
20:47eu tenho muita liberdade, assim, pedagógica, sabe?
20:51Isso é muito bom pra mim, porque eu sou uma professora artista, né?
20:55Então, sempre trazendo elementos culturais, artísticos para as minhas aulas.
20:59E aí, a partir disso, assim, a gente trabalha com esse texto do século XVI
21:04e aí faz uma comparação com o nosso Alto da Compadecida, de Ariando Suassuna.
21:11E aí muitos deles conhecem a adaptação cinematográfica, mas não conhecem a obra mesmo.
21:17E aí nessa oportunidade a gente estuda os dois elementos e compara.
21:22E é assim que eu vou ter sendo...
21:24E a partir de então, vocês pegam isso que vocês trabalham em literatura para jogar para o dia a dia?
21:31É, se você pegar, por exemplo, a Capital Federal, eles se identificaram muito,
21:35porque tem o Figueiredo lá, que é um assediador, aí tem um cara que é racista.
21:41Então, tem um cara lá alugando casa que parece que ele está em Vitória.
21:44A casa não pode ter cachorro, não pode ter criança.
21:47Parece que nós estamos falando de hoje.
21:48Então, a literatura não está distante.
21:50Parece que a gente está em Vitória.
21:51Claro, o cara fala da casa lá, os meninos morreram de rir, que é uma comédia em três atos, né?
21:55Sim.
21:56Eles tiveram a identificação assim tremenda.
21:58E vai para além dessa questão, igual o Gris já estava falando.
22:01Você está levando uma atividade que vai valer ponto, ele vai fazer por causa do ponto.
22:06Não.
22:06Eu senti que eles se identificaram com a peça mesmo.
22:09Vamos encarar, vamos fazer, né?
22:11E se identificaram no sentido de questionar também, né?
22:14É, porque esse cara que é assediador, aí eu falei, gente, mas aí a gente vai...
22:17Falei do anacronismo, né?
22:19Para a gente olhar, a gente vai se transpor para lá, para entender.
22:23Agora, essa questão da bagagem cultural que o aluno traz, eu tenho uma eletiva de MPB, né?
22:28MPB ontem e hoje, Histórias e Canções, a qual você está convidado para aparecer lá.
22:33Sim, muito honrado, direi.
22:35Já levei José Roberto Santos Neves, Amaro...
22:37Que também já esteve aqui.
22:38Isso, Amaro Lima, o Edu Reino, vai lá, uma porção de gente bacana aí, o Jorge Nascimento,
22:44da UFSS, enfim, eu já fiz uma pesquisa, a maioria deles ouve em sertanejo, funk e gospel.
22:50O que é que eu penso, né?
22:52Eu penso em acrescentar outros gêneros, outras músicas, né?
22:56Porque a história aí, ele é com H minúsculo e H maiúsculo, né, Grigio?
22:59É a história do país, do mundo e é a história das canções.
23:02Porque a gente estuda a história do Brasil através das canções, né?
23:05Dá para fazer um paralelo incrível.
23:07Mas aí você não pode negar essa bagagem.
23:09Eu acho que é acrescentar, né?
23:11O que eu estou me surpreendendo, e é uma surpresa boa, e claro que é uma surpresa
23:16que advém da ignorância, porque eu não sabia, eu desconhecia, é o fato de que a escola
23:23pública está abrindo essa possibilidade pedagógica dessa maneira.
23:30Mas o nosso tempo acabou, calma, vou falar para todo mundo, acabou agora.
23:37Porém, nós vamos ter uma segunda parte desse bate-papo com a Samira e com o Ricardo,
23:44porque a gente tem muita coisa para discutir ainda.
23:47E então, na semana que vem, fique atento, porque na semana que vem nós vamos ter a segunda
23:52parte desse bate-papo.
23:54Ok, gente?
23:55Até a próxima.
23:58Você ouveu Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
24:04Tudo sobre literatura contemporânea.
24:07Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
24:15Tchau.
24:16Tchau.