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  • há 12 horas
No meio da guerra contra o tráfico de drogas, há crianças e jovens que sonham com um futuro tranquilo, longe da violência. Em nossas entrevistas, discutimos iniciativas que estão ajudando famílias a enxergarem um horizonte melhor e mais promissor.

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Transcrição
00:00Começou hoje o julgamento dos acusados da morte dos irmãos Juan e Damião.
00:06Esse crime, gente, aconteceu em 2018 no Morro da Piedade e chocou os capixabas.
00:11Iriam a júri popular a partir desta quarta-feira, Alain Rosário do Nascimento, Flávio Sampaio,
00:18Rafael Batista Lemos e Jean Gaia de Oliveira.
00:22Flávio não compareceu porque o advogado dele apresentou um atestado.
00:26Esse caso gerou muita comoção na época.
00:31Os irmãos Juan e Damião não tinham envolvimento com o crime, gente.
00:36Pelo contrário, eram da escola de samba, ajudavam as crianças da comunidade.
00:42E no dia das mortes, o morro foi invadido por bandidos de uma facção rival.
00:48O Juan estava em casa quando os criminosos entraram na residência dele, encapuzados e armados.
00:53Eles queriam informações sobre o chefe do morro e o Juan não sabia de nada.
00:58Foi levado para o alto da piedade pelos criminosos, o Damião foi atrás do irmão e os dois acabaram assassinados
01:05com mais de 20 tiros.
01:08E aí, minha gente, cinco anos depois, a morte dos irmãos ainda é uma ferida aberta para a comunidade.
01:16E Juan e Damião se transformaram no símbolo da luta contra o terror que o tráfico de drogas leva para
01:24os morros de Vitória.
01:25E no meio dessa guerra estão as nossas crianças, os nossos jovens, que assim como Juan e Damião, sonham com
01:33um futuro bem longe dessa violência.
01:35Vamos falar sobre isso?
01:37A realidade que essas mães têm, essa dificuldade de criar os filhos na comunidade?
01:41Vem cá, participe com a gente no nosso estúdio.
01:44Eu recebo aqui a Pauliane Reis, do Instituto Raízes.
01:48Muito obrigada, Pauliane, pela sua presença.
01:50Seja bem-vinda, viu?
01:51E também a psicóloga Aline Reis.
01:53Obrigada mais uma vez pela sua contribuição com a gente hoje aqui, Aline.
01:58Pauliane, qual é o sentimento hoje da comunidade, cinco anos depois da morte do Juan e do Damião?
02:06Eu vou te falar como mãe moradora da comunidade.
02:10É um sentimento ainda de insegurança e muito medo, porque a gente sabe que isso não para só por aí.
02:16E a gente tem muito medo ainda, porque a piedade ainda continua vivendo essa realidade de ataques.
02:22Então a gente sabe que a morte do Damião em Juan, os ataques não pararam por aí.
02:26Tem julgamento, vem toda aquela justiça.
02:31Para a família pode ser um alívio.
02:34Para a mãe é um sentimento de paz, mas jamais de esquecimento.
02:38E para a comunidade não vai ter o esquecimento nunca, porque foi a pior noite da vida de toda a
02:44comunidade.
02:45Eu posso dizer como moradora.
02:46A comunidade ainda carrega o sentimento de revolta?
02:50Sim, de tristeza, porque eram jovens que não tinham envolvimento com o tráfico.
02:54O Damião tinha um projeto de capoeira.
02:57Ele estava no samba e tinha um projeto de capoeira.
02:59Ele tinha um sentimento de mudar a realidade daquelas crianças,
03:04porque nós fomos crescendo e o tráfico já tinha atividade ali.
03:09Só que as pessoas vão procurando outras oportunidades de ajudar os jovens a não entrar.
03:14E o Damião era um desses jovens que fazia esse tipo de trabalho.
03:18Ele tinha um amor por aquele local e ele tinha um amor por aquelas crianças.
03:22E o que ele queria é que jamais elas entrassem para o tráfico.
03:26Elas vissem que tem sim outra oportunidade de vida.
03:28E esse é o medo de toda mãe que vive em comunidade que enfrenta a guerra do tráfico de drogas?
03:37Sim, esse é o medo de toda mãe.
03:39A mãe dorme e a mãe acorda com medo dos filhos serem vítimas dessa violência?
03:44Sim, de ser confundido, de, por exemplo, estar voltando de uma escola, ficar no meio do tiroteio,
03:49como já ocorreu, de estar um tiroteio na saída de uma escola, onde meus filhos estudam.
03:54Eu estava no meio do tiroteio quando eu fui buscar.
03:57Então você se sente inseguro em qualquer lugar.
03:59Você tem medo de sair.
04:00Você tem medo, às vezes, até de deixar o menino sonhar.
04:04Porque a gente tem medo.
04:05A gente não sabe o que vai ocorrer amanhã.
04:06Então você sempre, quando ele está falando,
04:08ah, eu quero participar de uma escolinha,
04:10ah, eu quero fazer isso, você fica com aquele medo.
04:13Começa a ter um sentimento de autoproteção.
04:14Você acha que prendendo ele também, você vai proteger.
04:18E não é isso, né?
04:19A gente precisa ter um sentimento de liberdade, de poder criar, de poder orientar,
04:23porque a orientação, ela é dada.
04:25Só que você não sabe, ao sair de casa, se ele vai voltar.
04:29Então a gente fica com o psicológico muito abalado, fica com medo.
04:31Eu, por exemplo, não deixo o meu filho mais velho de 15 anos sair.
04:34Eu tenho medo dele ser confundido, dele ficar no meio de um tiroteio
04:38e eu não ter o que fazer para salvar ele.
04:41A Pauliane, gente, ela é mãe de quatro adolescentes, né?
04:45Crianças e adolescentes, né?
04:46De 10 a 15 anos.
04:47Imagina você com quatro filhos, quatro pré-adolescentes, adolescentes,
04:53morando numa região que você não tem a paz do seu filho ir para a escola,
04:58do seu filho brincar numa praça.
05:00O que é direito de toda criança.
05:02E ela trouxe um aspecto muito importante.
05:05Se dependesse de nós, pais e mães, a gente manteria, por questões de segurança,
05:10ali nos nossos filhos dentro de casa.
05:12Mas é muito importante que essa criança se socialize, que ela brinque, né?
05:17Exato.
05:18Boa tarde.
05:20O desejo, acho que o instinto de permanecê-los dentro de casa,
05:23debaixo dos nossos olhos, onde a gente possa ter uma garantia de segurança,
05:29é algo que é natural que a gente tenha.
05:32Porém, esse jovem, essa criança, precisa estar na rua.
05:35É importante que ela esteja na rua por ela, para o crescimento dela, para o desenvolvimento dela.
05:40E também pela...
05:42Para a gente poder também dominar esses espaços públicos, né?
05:46Que essas crianças estejam no parquinho, que essas crianças estejam na escola,
05:50que essas crianças estejam nas comunidades, de uma maneira geral.
05:54Essa presença faz com que justamente essa criança possa desenvolver
05:58e a própria comunidade onde ela esteja também se desenvolva.
06:01Você contou agora há pouco, Pauliane, do seu filho um dia voltando da escola,
06:06que você teve esse sentimento de medo, né?
06:08Estava ali uma troca de tiros.
06:10Os seus filhos, qual é a percepção deles?
06:13Eles sabem do que acontece na comunidade?
06:16Sabem.
06:17Crianças sabem.
06:19Sabem porque quando vai para a escola, sempre tem o comentário dos coleguinhas.
06:23Por mais que você tenta blindar, de fato, o que está se passando ali,
06:27eles têm aquela noção de que alguém veio procurar alguém que teve um ataque,
06:31que ocasionou tudo aquilo.
06:33Por exemplo, da morte dos dois irmãos, eles ficaram sabendo,
06:38mas a gente não contou tudo e também não deixou ficar lendo
06:40para aquilo não ficar na mente.
06:42Porque tem jovens ali que têm medo de tudo.
06:45Tem, por exemplo, à noite, se você for ali, qualquer morador da piedade,
06:49você põe o pior período para o morador da piedade, é o período da noite.
06:52E é o período de medo da criança também.
06:54Porque ela vai deitar qualquer barulhinho.
06:56Se você soltar um fogo ali na piedade, o que você vai escutar de silêncio,
06:59depois de choro, que as crianças entram em pânico.
07:02Elas ficam em pânico.
07:03Se você passar correndo ou gritar, mesmo que seja de felicidade,
07:07elas entram em pânico porque hoje em dia elas têm aquele sentimento
07:09que elas não podem ter aquele grito de felicidade,
07:12não pode estourar um fogo por felicidade.
07:15Para elas, tudo isso que acontece é um terror.
07:19Elas ficam aterrorizadas.
07:20Se elas estiverem brincando no caminho, por exemplo,
07:22porque tem aquele momento que a criança esquece.
07:24Então, ela vai para aquele lugar, por exemplo, no Alto da Piedade,
07:27se você for, tem um lugar onde eles fizeram um acimentado,
07:30onde eles pretendem fazer uma praça e ainda não deu em nada.
07:33Então, elas costumam brincar ali.
07:35Se soltar um fogo, sai todo mundo correndo.
07:37Eles não conseguem ter aquela sensação de paz.
07:40E as crianças começam a gritar nesse momento?
07:42Gritam de medo.
07:44Gritam de medo.
07:45Aline, como que a criança,
07:48qual o impacto que isso traz para a cabeça dos nossos pequenos
07:52crescerem no meio a tiros, a esse trauma?
07:56Tem que se trancar em casa.
07:58Corre, corre, corre para casa.
07:59O que isso vai provocando na cabeça das crianças?
08:02Olha, Roberta, eu acho que não vou conseguir aqui expor tudo,
08:05todos os impactos possíveis.
08:06Mas a gente vê uma criança privada,
08:09de uma vida saudável, de oportunidades.
08:12A gente vê uma criança crescendo
08:15dentro de um ambiente com medo, com muito medo,
08:18onde vai fazer com que ela cresça
08:21com um sentimento de ansiedade,
08:23de grandes chances do desenvolvimento de depressões e tudo mais.
08:26E a naturalização desse ambiente hostil.
08:30Essa criança, ela está crescendo,
08:32não é num ambiente seguro,
08:35é mais difícil de se ter esperança sobre o futuro.
08:38Ela fica privada de viver
08:40e ainda ameaçada com a própria vida,
08:43com a vida das pessoas com que ela conhece.
08:45Então, o medo acaba prevalecendo,
08:47substituindo a esperança, o amor, a felicidade.
08:50E aí, as mães no outro dia,
08:53quando vocês se encontram,
08:55o que uma relata com a outra, Pauliane?
08:58Olha, quando a gente se encontra,
09:00a gente procura fazer o quê?
09:01A gente tem até uma brincadeira que a gente fez um grupo,
09:04onde a gente costuma tentar,
09:07assim que passam esses momentos,
09:08montar uma atividade para poder...
09:12Eles têm aquele momento de interação,
09:15de brincar, de saber que a comunidade
09:16não é só aquele local de violência,
09:19que há pessoas que querem melhorar aquela comunidade
09:21e montar estratégias, né?
09:23Porque quem mora ali, na piedade,
09:24as mães, em principal,
09:25começam a montar estratégias
09:27para ver se isso não impacta tanto na vida da criança.
09:30Porque, quando esse tipo de coisa acontece,
09:33eles não querem nem voltar para a escola.
09:34Então, a gente tem que ter todo aquele trabalho
09:36de ter uma conversa,
09:37de falar que aquilo ali não prometeu
09:39que não vai acontecer,
09:39porque a gente não tem como prometer.
09:41Mas falar, assim,
09:42que vamos tentar correr atrás.
09:44E, realmente, eles veem as pessoas correndo atrás,
09:47pessoas vindo, fazendo atividade com eles.
09:49Então, eles vão tendo, assim, aquele tipo,
09:51é só um momento.
09:52Uma hora, isso tudo vai acabar
09:54e a gente vai poder voltar a ter uma vida normal.
09:56E são duas lutas, né?
09:58Uma, para que seu filho,
10:00para que seu sobrinho, seus netos
10:01não sejam vítimas dessa violência.
10:03E outra, para que eles também não entrem
10:05nesse meio.
10:06porque muitos olham essa guerra
10:10como algo que quer trilhar carreira nesse meio.
10:15Tem crianças, tem adolescentes
10:17que vão sendo aliciados pelo tráfico de drogas, né?
10:20Você vê muito essa realidade de perto, Pauliane?
10:22Você vê pelas brincadeiras.
10:24Às vezes, você está ali num momento
10:26e você começa a ver eles brincando.
10:28Um brincando com o outro,
10:30um correndo atrás do outro.
10:31Brincando de quê?
10:33Brincando de invasão,
10:34estão invadindo o seu território.
10:36Você tira, assim, os menorzinhos em principal.
10:40Que eles ainda não têm aquela tendência
10:42de saber que aquilo ali não é algo legal.
10:45E quando, se não, também não se tem
10:47um investimento do poder público
10:48de ali, de botar uma praça,
10:50de botar um projeto,
10:51de botar algo que melhore o olhar dele,
10:54ele só vê um caminho.
10:56E o caminho, infelizmente, vai ser o tráfico.
10:58Olha que depoimento forte
11:00dessa mãe aqui, da Pauliane,
11:02que tem quatro filhos.
11:03Ela é moradora ali na região da Piedade.
11:06Aline, crianças pequenas brincando,
11:10tendo a referência do que acontece ali
11:12da realidade delas e levando isso
11:14para o mundo lúdico.
11:15O que isso mostra?
11:17Olha, a criança,
11:18uma das principais formas de educar a criança
11:21é através do exemplo.
11:22Então, essas crianças,
11:23elas estão naturalizando a violência,
11:26elas estão naturalizando a morte,
11:28elas estão naturalizando o tráfico de drogas,
11:31um caminho onde não promove muito sucesso,
11:35digamos assim,
11:36na vida como uma sociedade.
11:37Porém, ela naturaliza isso.
11:40Então, esses jovens que sofreram esse atentado,
11:43esses jovens que mataram eles,
11:45eles não acham que fizeram provavelmente nada de mais,
11:48porque eles naturalizaram a morte.
11:49Matar mais um, matar outro,
11:52é algo que perde um valor.
11:54Então, a importância, como ela colocou,
11:57é fundamental a presença do Estado ali
11:59para dar alternativas para essas crianças,
12:02porque senão essas crianças vão crescer
12:03como exemplo e como modelo o traficante.
12:06Perfeito.
12:07Daqui a pouquinho você vai contar para a gente,
12:08inclusive, qual é a reação
12:10dessas crianças e desses adolescentes
12:13quando um amigo,
12:14quando um vizinho morre.
12:16Como que isso é impactado na cabecinha deles.
12:20Mas agora a gente vai ouvir,
12:21presta atenção,
12:21o depoimento de uma outra moradora da Piedade,
12:24que se lembra exatamente do dia do crime, gente,
12:28o dia da morte dos irmãos Juan e Damião.
12:30Por medo, ela não quis se identificar,
12:32mas mandou um áudio para a gente.
12:33Vamos ouvir.
12:35Eu acho que o dia que ficou mais marcado para mim
12:38foi no dia que eles assassinaram os dois irmãos.
12:42Eu acho que foi o dia que ficou mais marcado na minha mente.
12:45Eu nunca consigo esquecer aqueles tiros.
12:47Sabe, eu lembro que eu acordei para tomar um copo d'água
12:51e na hora eu me assustei,
12:53deixei o copo de água cair no chão
12:54com tanto de tiro que eu ouvi.
12:57Sabe, aquele dia foi um dia muito dolorido.
13:01A gente vê duas pessoas que foram criadas
13:04na nossa comunidade,
13:06dois irmãos,
13:07que nunca fizeram mal a ninguém,
13:10morreram da forma que morreu.
13:11Não só ele, mas também um outro rapaz,
13:14também, entendeu?
13:16Que, se não me engano, é o Luiz Felipe,
13:19que faleceu também na Alicino, também.
13:22Foi outra pessoa vítima também da maldade.
13:25Uma pessoa que nunca fez mal a ninguém,
13:27um trabalhador.
13:29E sefaram a vida deles como se fosse nada.
13:33E eu tenho medo.
13:34Eu tenho filhos.
13:36Eu tenho um filho, um homem.
13:38Crio ele, converso com ele
13:40para ele não entrar nessa vida,
13:43para ele não pensar dessa forma.
13:46Sabe?
13:47Porque hoje em dia,
13:48para você criar um filho,
13:49não está muito difícil.
13:51Obrigada, mãe, pela sua participação.
13:54Essa é a realidade,
13:55esse sentimento que ela disse.
13:57Também tem, como a gente já falou aqui,
13:59a preocupação dos filhos
14:01não entrarem para esse caminho.
14:02Como é que você lida com os seus?
14:04Eu procuro conversar e mostrar as alternativas.
14:07Tipo, eu falo para ele que o foco do mundo é a educação.
14:10Sem educação, você não é nada.
14:11Sem estudo, você quer ser um bom jogador de futebol,
14:14você tem que estudar.
14:15Você quer ser um bom médico,
14:17você tem que estudar.
14:18Lugar, como eu sempre falo para eles,
14:20que muitas das vezes,
14:21nesse período de violência,
14:22eles sempre falam assim,
14:23eu quero muito ir embora daqui.
14:26Eu sonho, mãe, um dia ir embora da piedade.
14:28Os seus filhos te pedem para sair dali?
14:31Sim, pedem.
14:32E olha que criança tem apego
14:34com o local onde mora,
14:36com as outras crianças, né, Lini?
14:37Sim.
14:38Existe esse apego, né?
14:39Com certeza.
14:40Na verdade, esse é o ideal, né?
14:42Criança se sentir segura onde mora
14:43e querer ficar ali
14:44e não querer sair.
14:46Para ver o quão hostil
14:47que se torna esse ambiente
14:49para essas crianças.
14:50Quantas vezes a gente já mostrou aqui
14:51imagens ali da piedade,
14:53dos moradores descendo com o colchão,
14:55querendo ir embora da região.
14:57O que isso representa
14:58quando chega a esse ponto?
14:59Olha, Roberta, é de fato
15:01a falta de esperança.
15:03A esperança é um sentimento
15:04muito importante na nossa sociedade.
15:06Diante de tragédias,
15:08de situações muito difíceis,
15:09a esperança muitas vezes
15:10nos prende,
15:11nos dão a oportunidade
15:13de pensar que tem chances
15:15de um futuro melhor.
15:16O que essas famílias
15:17e essas crianças estão mostrando
15:18é que elas perderam a esperança,
15:20pelo menos ali onde elas estão.
15:21Isso ainda é uma coisa boa
15:23no sentido que elas acreditam
15:25que existe um mundo bom lá fora.
15:27Então, acho que esse trabalho
15:29dessas mães conseguem sustentar ali
15:32minimamente a mente,
15:34a saúde mental dessas crianças,
15:35o emocional dessas crianças.
15:37Mas o desejo de sair
15:38daquela comunidade
15:39só mostra o quão ruim é ficar lá,
15:43o quanto que está abandonado,
15:45sem um apoio, sem uma ajuda
15:47e nada mais do que coerente, né?
15:50O desejo de sair
15:51de um ambiente tão ruim.
15:52E é tão preocupante, né?
15:53Criança não era para estar
15:55pensando nisso.
15:56Criança era para estar brincando,
15:57era para estar jogando bola,
15:58brincando de queimada,
15:59pensando nas bonecas
16:01e não pensando em problemas
16:03de adulto.
16:04Quem dirá
16:05de problemas da violência?
16:07E aí, como é que você lida
16:08com essa realidade
16:09quando o seu filho
16:09te pede para sair dali?
16:10O que eu falo para ele?
16:11Eu sou nascida e criada ali.
16:13Minha família é dali.
16:14Eu tenho 33 anos
16:15ali na piedade.
16:17Então, o que eu falo para ele,
16:18todo esse período
16:18que você está passando,
16:20eu também passei.
16:21Mas o que eu sempre falo
16:22para qualquer mãe,
16:23para qualquer morador
16:24ali da comunidade?
16:24Eu tenho um amor muito grande
16:26pela piedade.
16:26E eu tenho um sonho,
16:28junto com um grupo de amigos,
16:29de mudar a realidade da língua.
16:31Não importa como.
16:32Mesmo vocês fazendo um pouquinho.
16:34Mas o que eu falo para eles?
16:34O que a gente tem que focar
16:35no momento?
16:36Que todo lugar
16:37tem esse tipo de violência.
16:40Ou exposto na mídia
16:41ou não,
16:42todo lugar é.
16:42E quem faz o local
16:44é o morador.
16:45Então, se nós começarmos
16:46a trabalhar para melhorar
16:47o nosso bairro,
16:48dar condições de vida
16:49para vocês,
16:50de também sairmos na mídia
16:51com outro tipo de sentimento,
16:53daquele sentimento que aqui tem.
16:54Aquela mãe que é trabalhadora,
16:56aquele menino
16:56que está com o sonho
16:57de se formar,
16:58aquele jovem
16:59que quer vir
17:00e botar um projeto aqui
17:01para melhorar a vida
17:01de outros jovens,
17:02a gente melhora o bairro.
17:04Que não adianta nada
17:04eu juntar minhas coisas
17:05e ir para outro lugar
17:06que eu vou enfrentar
17:07a mesma coisa.
17:08Então, aqui,
17:09a gente um ainda conhece o outro,
17:11um pode segurar a mão do outro.
17:12Porque então,
17:13a gente vai viver igual cigano.
17:15Está aqui,
17:16amanhã vai estar em outro bairro,
17:17começou a ficar violento,
17:18a gente vai para outro local.
17:19Porque se você for assistir
17:20nos noticiários,
17:22a maioria dos bairros
17:23aqui da Grande Vitória
17:24estão passando pela mesma coisa.
17:26Então, a gente tem que mostrar
17:27para os nossos ali
17:28que há sim o sentimento
17:30de que eu pertenço à piedade
17:32e eu vou melhorar
17:33esse local aqui.
17:34Pode ser que eu nem veja,
17:35pode ser que eu morra
17:36sem ver ali a melhoria.
17:37Mas para quem está vindo,
17:39vai ver.
17:40E cobrar, né, Pauliano,
17:42das nossas autoridades.
17:43Você disse aqui
17:44no início da entrevista
17:45que tem uma pracinha
17:46que está ali até hoje
17:47esperando por algo
17:48e nada aconteceu.
17:49E a gente sabe,
17:50que a gente já recebeu
17:51aqui especialista em segurança,
17:52a gente estava até
17:52conversando anteriormente,
17:53que onde tem famílias reunidas,
17:56onde tem iluminação,
17:58onde tem projeto social,
17:59isso espanta,
18:00você percebe,
18:01isso espanta o tráfico de drogas.
18:03Ele muda da região?
18:05Muda,
18:05porque os jovens
18:06começam a ter outro foco,
18:07começam a sonhar.
18:09Porque muitos também
18:10que entraram ali,
18:11que foram para o tráfico,
18:12eles tinham sonhos.
18:13Em algum momento,
18:14aquele sonho ali
18:14foi interrompido,
18:15a gente não sabe explicar
18:16qual o momento,
18:17mas em algum momento
18:18alguém veio e deu
18:19uma rasteira nele.
18:20Muitas das vezes,
18:21o que pode ter acontecido?
18:22Pode ter tido um parente
18:24assassinado,
18:24pode ter tido um irmão
18:25que de uma forma ou de outra
18:26isso mexe com a cabeça.
18:28Olha só,
18:29a gente vai mostrar agora
18:30um outro relato,
18:31uma moradora da Piedade
18:32que falou sobre a morte
18:34também dos irmãos,
18:35do dia da morte dos irmãos
18:36e enviou outro áudio
18:38para a gente
18:38falando do medo
18:39que ela sente
18:40quando anoitece
18:41na comunidade.
18:42Vamos ver.
18:45A comunidade já presenciou
18:47assassinatos de dia,
18:49na luz do dia,
18:49o sol raiando
18:50e o tiro comendo solto,
18:52mamou.
18:54Minha criança já passou mal
18:56por conta de tiroteio,
18:58entendeu?
19:00A gente que chega assim
19:02meia-noite,
19:02uma hora da manhã,
19:04sabe?
19:05De um dia cansativo
19:06de serviço,
19:07a gente não sabe
19:07se a gente vai subir
19:09para casa
19:10e vai ter segurança
19:12se a gente não vai ver
19:12uma pessoa armada,
19:14se a gente vai ter
19:15uma segurança
19:16porque policiamento,
19:17a gente tem
19:18a nossa comunidade
19:18somente na base,
19:20a gente não vê
19:20policiamento de ronda,
19:22entendeu?
19:24À noite,
19:25na comunidade,
19:27fica dolorida.
19:30Eu gosto do dia
19:32porque à noite,
19:33para mim,
19:35não é fácil,
19:37sabe?
19:38às vezes eu até falo assim,
19:40Deus,
19:40não anoitece não,
19:42deixo de dia,
19:42deixo de dia para sempre
19:43porque parece que quando
19:45chega a noite,
19:46o medo chega junto com a noite.
19:48É um relato de um adulto,
19:51imagina o sentimento
19:52de uma criança
19:53e isso muda toda a rotina
19:55da família?
19:55Muda toda a rotina.
19:58Por exemplo,
19:59a gente vive em toque
19:59de recolher,
20:00porque tem um certo limite
20:02de horário
20:02que a própria comunidade
20:03impôs dela estar na rua.
20:05Passando desse limite,
20:06você não vê mais ninguém.
20:07Quando chega à noite,
20:08o que ela falou
20:09é totalmente...
20:10Eu passei meses
20:11sem dormir,
20:11como várias outras mães
20:12passaram meses sem dormir,
20:13porque o nosso filho
20:14começou a ter ataques
20:15de ansiedade
20:15e quando chega à noite
20:17fica pior,
20:17porque os ataques
20:18são à noite.
20:19Então, quando chegou à noite,
20:19é um silêncio.
20:22Caso que tenha criança,
20:23é movimentado.
20:24Então, independente
20:26se você está de dia
20:26ou de noite,
20:27a criança está ali movimentando.
20:28As crianças,
20:28elas pegaram autocontrole
20:30que quando chega
20:30a determinado horário
20:31é um silêncio total.
20:33Você não escuta uma risada,
20:34você não escuta uma gritaria,
20:36você não escuta mais nada.
20:37É só aquele silêncio
20:38e aquele medo.
20:39Então, qualquer barulhinho
20:40que tem, você escuta.
20:41Você escutou,
20:42ou ele corre
20:43para debaixo da cama
20:44ou ele se tranca no banheiro
20:45e se ele estiver chorando,
20:47ele pega e tapa a própria boca
20:49para o choro não ecoar,
20:50porque ele tem medo
20:50de ter a casa invadida.
20:52Isso é uma cena de filme,
20:55mas não.
20:56Essa é uma realidade
20:57que acontece
20:58nas comunidades aqui
21:00da Grande Vitória.
21:01A gente vai ver agora
21:03o relato da Luciane, gente,
21:05que ela tem também
21:06um projeto social
21:07e uma comunidade
21:08aqui em Vitória,
21:09o Coral Serenata de Favela.
21:11E ela compartilhou com a gente
21:12como que é trabalhar
21:13com jovens
21:14justamente para afastá-los
21:15da criminalidade.
21:17Vamos ver.
21:20Meninos de vários lugares,
21:22do Cabral,
21:23da Chapada,
21:23do Quadro.
21:24Qual é a forma
21:26que eu lido
21:27para ter
21:27esse diálogo real
21:30do que é estar
21:31dentro de uma favela?
21:34Parte da sinceridade
21:36das relações,
21:37assim,
21:38então,
21:39e parte também
21:40da segurança.
21:41Tudo que a gente faz
21:42dentro do Instituto,
21:43a gente faz
21:44a partir da segurança
21:45que esse menino vai ter.
21:46então,
21:47como é que a gente lida
21:48com a realidade
21:48do menino
21:49que está
21:50no tráfico
21:51e a realidade
21:52dos amigos do menino?
21:53Porque cresceram todos juntos
21:55a partir de um limite
21:56de um limite
21:58ou de se dar
21:59um limite de respeito.
22:00Então,
22:01as famílias,
22:01a gente se junta
22:02e se fortalece,
22:03se fortalecer
22:03para proteger esse menino.
22:05Mas,
22:05o que é além disso?
22:06Além disso,
22:07não é conosco,
22:08é poder público.
22:09Saúde,
22:10educação,
22:11arte,
22:12cuidado,
22:13saúde mental,
22:13estrutura física,
22:15saneamento,
22:16isso é o que a favela precisa.
22:18Como é lidar
22:19com a vida
22:20da juventude
22:21na favela?
22:22É assim isso.
22:24Gente,
22:25obrigada, Lu,
22:25pela sua participação,
22:27por estar ajudando
22:28também nessa cobrança.
22:29E é esse também
22:30o papel da Pauliane.
22:31Olha só que interessante.
22:33Além dessa luta diária
22:35em cuidar,
22:36em criar
22:36os quatro filhos,
22:39essa mãe aqui
22:40também faz parte
22:41do projeto Raízes.
22:43que acolhe
22:44essas mães,
22:45essas crianças,
22:46esses adolescentes
22:47para afastá-los
22:48também da criminalidade.
22:50O intuito do Instituto
22:51é esse.
22:51Por exemplo,
22:52a gente tem um grupo
22:52que se reúne uma vez por mês
22:54com 70 mulheres.
22:56Essas mulheres
22:56que estão ali na piedade,
22:58que passam por isso,
22:59que sou eu,
23:00sou outras.
23:01Então,
23:02a gente vê
23:02que aquele grupo
23:03de acolhimento,
23:04de entender o que está
23:04se passando com ela,
23:06ver o que a gente
23:06pode ajudar
23:07e de estar inserindo
23:08aquele adolescente
23:09de alguma forma
23:10em um outro caminho.
23:11porque a gente sabe
23:12que não é fácil.
23:13Ser morador de comunidade,
23:15ser mãe em comunidade
23:16periférica
23:17é muito difícil.
23:18E muitas das vezes
23:19a gente,
23:20além de ter que lidar
23:21com tudo isso,
23:22o que mais me dói
23:22é quando eu escuto
23:23o relato de algumas mães
23:24que tem que passar
23:25pelo julgamento
23:26da sociedade,
23:27que muitas das vezes
23:28não sabe o quanto
23:28é difícil estar ali,
23:30o quanto é difícil
23:30você criar o seu filho.
23:32Muitas são mães só,
23:34então ela tem que ser
23:34mãe e pai ao mesmo tempo.
23:36E quando acontece
23:37algum deslize
23:38ou alguma coisa,
23:39ninguém entende também
23:40que às vezes o jovem
23:41vive tanto isso
23:42que aquilo começa
23:42como a psicóloga falou,
23:43ser comum.
23:45Para ele,
23:45isso é comum.
23:46Vai chegar uma etapa
23:47da vida
23:47onde ele vai ver
23:48que para ele
23:49não tem escolha.
23:50No dizer dele,
23:50olha,
23:50eu já estou aqui
23:51há muito tempo,
23:52estou convivendo
23:52no meio dessa guerra.
23:53Ninguém vem aqui,
23:54ninguém faz nada.
23:55Então,
23:55só tem esse caminho.
23:57Então,
23:57é muito difícil
23:57você lidar com tudo isso,
23:58você tem que lidar
23:59com a orientação
24:00e com os julgamentos.
24:01Porque tem muitos julgamentos
24:02que muitas das vezes
24:03nós somos esquecidos
24:05e além de sermos esquecidos,
24:07a gente tem aquele sentimento
24:08de que todos nos olham
24:09nos culpando
24:10ou nos julgando
24:11por alguma coisa.
24:12Então,
24:12o sentimento
24:13daquela mãe
24:14que está lá
24:14no alto do morro
24:15é o sentimento
24:15de esquecimento.
24:17É o sentimento
24:17de que eu estou lutando,
24:19estou correndo atrás,
24:19estou dando o melhor
24:20para o meu filho,
24:21mas em algum momento
24:22pode acontecer alguma coisa
24:23onde eu vou ser julgada.
24:25E será que eu vou aguentar isso?
24:26Então,
24:27nós ali no Raiz
24:27trabalhamos muito isso.
24:29Trabalhamos também
24:30para os nossos filhos
24:30ver que através dos exemplos,
24:32como foi dito,
24:33há mudança.
24:34Então,
24:35o que a gente faz?
24:35Quando a gente está inserido
24:36em qualquer projeto
24:37ou qualquer ação
24:38que seja mínima
24:38ali na comunidade,
24:39a gente procura
24:40estar trazendo esse jovem,
24:41procura estar inserindo ele,
24:42procura estar mostrando
24:43que também pode vir dele,
24:45que ele também pode ter
24:46algum programa,
24:47alguma mudança,
24:48fazer algo ali
24:49pela comunidade.
24:50E não adianta
24:50as nossas autoridades
24:51quererem colocar
24:52um projetozinho qualquer não, né?
24:54É muito importante
24:55que seja algo
24:56que tenha essa sensação
24:58de pertencimento.
24:59Vocês, por exemplo,
25:00trabalham o samba,
25:01está fazendo parte
25:02do nosso sangue,
25:03da nossa raiz,
25:04causa essa sensação
25:05mesmo nas crianças.
25:06Elas querem entrar
25:08no projeto, né?
25:09E isso faz toda a diferença.
25:10Sim, faz toda a diferença
25:11porque é algo
25:12que eles vivem.
25:13O samba faz parte
25:14da nossa história
25:15e da origem
25:15da comunidade.
25:16Então, através
25:17de uma oficina ali
25:18de percussão,
25:18uma oficina de penteado,
25:20uma oficina de adereço,
25:21ele vai vendo
25:22que tem outros caminhos
25:23e ele começa a sonhar.
25:24E o mais bonito
25:24é quando a gente vê
25:25os nossos jovens sonhando,
25:27porque há muito tempo
25:28eles não sonhavam mais.
25:30A gente era de segunda
25:32a sexta-feira guerra.
25:33Não tinha um dia de paz.
25:35Saía para a escola,
25:36voltava guerra.
25:38Aí o que começou?
25:39Aí tem agora
25:39esse período
25:40que é essa calmaria.
25:41Então, é nesse período
25:42dessa calmaria
25:42que a gente tem que pensar
25:43estratégias de estar
25:44trabalhando ali
25:45e também agradecer
25:47às professoras
25:48porque tem o Semei,
25:49Carlito e o Anacleta.
25:50E essas professoras
25:51sabem muito bem
25:52o que é o sentimento
25:53que nós pais e mães
25:54ali da piedade tem.
25:55Porque depois de todo
25:56esse período de violência,
25:57é elas que acolhem
25:58os nossos filhos.
25:59Então, alguns traumas
26:00que a gente não sabe
26:01são relatados para elas
26:02e elas nos procuram
26:03e tentam uma forma
26:04de ajudar.
26:05Porque eles também veem
26:06que ali eles não estão
26:07indo só para estudar,
26:08eles estão sendo acolhidos.
26:10Eles estão tendo
26:10uma outra perspectiva de vida
26:12e que realmente
26:12todos estão se importando.
26:14Olha, Anny,
26:15obrigada.
26:15Se deixasse a gente
26:16ficava aqui te ouvindo
26:17de verdade,
26:19te ouvindo,
26:19porque é um choque
26:20de realidade
26:21para muitas pessoas
26:22que não conhecem
26:23essa violência
26:25de perto
26:25que a gente vê
26:26nos noticiários
26:27e que a gente
26:28só está ali
26:29de telespectador.
26:31Mas o que a Pauliane
26:33hoje trouxe de relato
26:34fez com que a gente
26:35se colocasse no lugar
26:36dessas mães.
26:37A Lira, inclusive,
26:38até ficou emocionada
26:39que eu me segurei
26:40por vários momentos
26:41e que fortaleza ainda
26:43essa mãe.
26:43Obrigada pela participação
26:44de vocês, viu?
26:45Tchau, tchau.

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