00:00Oi gente, minha filha, é força de amor mesmo, que se você cutucar, a força vale, é a vontade de
00:09resolver e poder descansar, poder parar pra chorar, né?
00:13Porque eu sempre disse com meus filhos que eu pedi no marido em 96, que eu falei pra chorar, a
00:18gente tem a vida inteira, vamos resolver a burocracia, né?
00:21Infelizmente a vida é cheia de burocracia.
00:23Como é que era a filha da senhora, meu amor?
00:26Nossa, eu descrevi pras pessoas que estavam lá presentes o ano que eu enterrei, ela era uma pessoa que, as
00:33amigas que me desmindam, né?
00:34Se elas puderem ter acesso a vocês, era uma pessoa completamente diferente de mim, eu não sou boa, entendeu?
00:43Ela era uma pessoa boa, calma, ela era linda, maravilhosa, era uma excelente mãe, ela tava na fase mais feliz
00:53da vida dela,
00:53Ela tinha casado há sete anos atrás no civil aqui em Cafrueta.
00:58O sonho dela era casar no religioso, ela casou dia 10 de fevereiro desse ano, vestiu o vestido que ela
01:05queria, o vestido de noivo, teve o bolo, o álbum, tudo que as pessoas não chegavam.
01:11Os meninos foram cavaleiros de honra, então ela tava na fase mais feliz, o homem, ele é um excelente marido
01:17pra ela.
01:18Isso é o que, às vezes, dá força, as lembranças boas, sabe?
01:21Ela trabalhava?
01:22Ela era professora na escola Antônia Júnior, lá na Conceição de Moquinha, e o filho estudava na mesma escola que
01:27eu.
01:28Eu perdi a filha e a mulher.
01:30Como é que era o netinho da senhora?
01:32Ele era um bom de pessoa.
01:34Ele era uma criança alegre, até diferente.
01:37A gente percebia que ele ia ter passado.
01:41A senhora sentia que ele era evoluído, especial?
01:44É, eu não dizia pra minha filha, porque uma mãe não vai dizer isso pra uma filha, né?
01:51Mas eu já, talvez por isso eu esteja aguentando, enquanto eu olhava e dizia pro meu outro menino,
01:57eu falei, ele vai ter uma taxagem rápida.
02:01Ele é muito, muito diferente.
02:06Mas a minha filha não esperava, não.
02:10Mas, desculpa, gente.
02:13Coisa, não, não consegui, porque ele ficou lá desde sexta-feira à noite, já foi pra geladeira.
02:19Eu olho e não consegui ver meu neto, sabe?
02:23Então, ele tem uma roupinha que, apesar de eu ter dado muito banho nele,
02:27ter cuidado dele, que era aquela avó, era a minha filha, né?
02:30Eu não reconhecia a roupa de casa.
02:32Eu tenho, assim, uma impressão que eu conheço a blusa.
02:36Então, o perito falou que ele tem quase certeza que é.
02:40Mas, na dúvida, ele falou que demora um pouco mais,
02:42mas que ele vai fazer, né, exame de DNA pra confirmar.
02:47Então, eu prefiro, né, porque eu não vou levar uma criança de outra família
02:51e levar uma criança errada.
02:53Nem eu quero levar uma criança errada.
02:54Eles deram um prazo pra minha senhora?
02:56Eles deram um prazo de...
02:57Na urgência que estão todos os casos, eles falaram pra mim que...
03:0410, 15 dias, 30 dias no máximo.
03:07Eu gostaria de encerrar o meu caso aqui.
03:13E a sua filha teve essa dificuldade pra reconhecer?
03:16Foi a senhora que reconheceu?
03:18Não, a minha filha foi a prima dela e o marido que reconheceram o mimoso.
03:23Os corpos estavam indo pra lá, agora os corpos estão indo pra cá.
03:26A gente tem que se locomover e ir correr atrás, né?
03:29E a sua filha foi ceptada de caixão fechado ou deu pra ver?
03:34Foi fechado, mas deixaram o espelhozinho, o ouvido aberto pra gente abrir e vir, né?
03:40Eles moravam só os dois? Como é que era?
03:42Não, eram quatro pessoas na família, né?
03:45O meu genro, de 15 anos, a minha filha, a minha filha de 43,
03:49o menino de 6 e o menino de 2.
03:53Faleceram a minha filha e o menino de 6 anos, que está aqui e vai aguardar um pouco.
03:58A senhora morava perto deles?
04:00Eu morava em Mimoso, no centro de Mimoso.
04:05Fui atingida também pela água, também perdemos Mimoso, 99% das pessoas, eu acho, devem ter perdido alguma coisa.
04:14E ela morava na reserva, na fazenda reserva.
04:17Lá foram as barreiras que destruíam tudo. A água de lá desceu para Mimoso.
04:21A senhora conseguiu ir lá no local?
04:23Não, nós estamos sem comunicação por lá. A gente vem para o MUQI, pela DR, mas hoje o MUQI também
04:29está interditado.
04:30Como é que está o menininho de 2 anos no jeito da sua vida?
04:33O menino já está na Santa Santa, né?
04:35Porque eu tenho que ter duas cirurgias, mas já está bem, está conversando, está mandando imagem de vídeo para a
04:42gente, mensagem de vídeo.
04:44E o pequenininho só está chamando pela mãe.
04:46Aí a gente mostra a gravação da mãe.
04:49Ele está com a avó, com a outra avó?
04:50Não, ele está comigo, ficou em casa com o meu filho, para eu poder reconhecer o outro.