- há 12 horas
Um papo com o professor, cientista social, estudioso da cultura e pesquisador de romances regionais capixabas, João Gualberto Vasconcellos.
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NotíciasTranscrição
00:00Aê pessoal da Pan News, um grande abraço pra vocês, fiquem ligados no Vitrine Literária com Francisco Grijó, valeu? Grande
00:06abraço!
00:08Começa agora, Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:14Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:26Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:32Nas plataformas da Rede Vitória, podcast, YouTube, você vai se atualizar sobre o que se faz em termos de literatura,
00:42poesia, prosa, teatro e, claro, nós vamos fazer as conexões da literatura com outras artes e com outras correntes de
00:51pensamento.
00:52Por falar em corrente de pensamento, o meu convidado dessa semana, ele é formado em administração, mas se dedicou a
01:01ciências sociais.
01:02É uma figura muito representativa porque todo mundo aqui que está me ouvindo, ou pelo menos que está me vendo,
01:09já deve ter ouvido falar na Futura.
01:12A Futura, que é uma empresa de pesquisa, uma empresa de desenvolvimento, uma empresa que, de forma muito honesta, sempre
01:21trouxe aos capixabas as informações.
01:25Esse meu convidado, ele é um escritor, ele é membro da Academia Espírito Santense de Letras, é um grande pesquisador
01:35da cultura do Espírito Santo,
01:37que depois nós vamos discutir se existe cultura do Espírito Santo ou cultura capixaba, mais ou menos como se existe
01:43literatura Espírito Santense ou literatura capixaba.
01:46E ele está fazendo um trabalho muitíssimo interessante com alguns autores da literatura feita no Espírito Santo.
01:54Mas eu vou apresentar a vocês João Galberto, João Galberto Vasconcelos, meu querido amigo, uma figura por quem eu tenho
02:00muito respeito.
02:02E interessante que foi difícil trazer você aqui, né?
02:05Por conta de agenda, você é uma pessoa muito ocupada.
02:09João, muito obrigado por você estar aqui, valeu mesmo, agradeço muito e já trago a você um questionamento.
02:16Você tem um livro muitíssimo interessante, que você relançou há mais ou menos uns 4 ou 5 anos.
02:22Isso, 17.
02:23É, chamado A Invenção do Coronel.
02:27Isso.
02:27A ideia do Coronel, do Coronel, do Coronel, essa figura, o latifundiário poderoso que ditava normas, que era uma espécie
02:37de lei,
02:38ela é uma figura do final do século XIX virada para o século XX.
02:41Isso.
02:42Certo?
02:43E a literatura, principalmente a literatura baiana com Jorge Amado, ela trouxe a figura desse Coronel.
02:48Ela solidificou, não só na literatura, mas solidificou também nas telenovelas e no cinema, a figura do Coronel.
02:55Mas existiu esse Coronel aqui no Espírito Santo.
02:57Isso.
02:58Eu queria saber de você o que é essa figura do Coronel e se você considera essa figura uma figura
03:04literária.
03:05Tá.
03:05Eu vou fazer uma pequena...
03:07Fica à vontade.
03:09Apresentação.
03:10À vontade, à vontade.
03:11Eu fiz um doutorado na França e cheguei com a intenção de fazer uma tese sobre a tecnocracia brasileira.
03:18Me chamava muita atenção.
03:20Eu queria muito estudar o doutor Arthur Caligueira Santos, que foi um grande governador.
03:24O famoso Tuzó.
03:25O famoso Tuzó.
03:26Um grande governador, um desenvolvimentista, um pouco com essa história.
03:30E quando eu comecei a fazer lá na França, tem dois momentos.
03:34Tem um momento que a gente faz uma espécie de apresentação do nosso trabalho, que é o primeiro ano,
03:39quando termina, chama de diploma de estudos aprofundados, que eu fiz em História e Civilização.
03:44Então eu falei, vou estudar aqui o tecnocrata.
03:46Quando eu comecei a pensar o que é, o que é que diferencia o tecnocrata francês, americano, alemão, do tecnocrata
03:52brasileiro?
03:53Aí eu comecei a perceber que é a influência dos coronéis, que é a origem de tudo.
03:59Então eu falei assim, gente, quem institui a política brasileira republicana é o coronel.
04:05Não havia antes da república política nos tempos que nós entendemos hoje.
04:11No final do império começou a existir, com o Pedro II, os partidos que haviam, aquele parlamento e tal,
04:17mas se institui mesmo depois da república com a figura do coronel.
04:21Então eu acho que o coronel institui a política brasileira.
04:24E eu estudei Espírito Santo.
04:26Aí, aqui, o maior dos coronéis foi Jerônimo Monteiro.
04:29Não há dúvida disso.
04:30A família Monteiro, a partir da fazenda Monte Líbaro, em Cacheta Menim,
04:35quando o Jerônimo era presidente do Estado, que era assim que se chamava na época, de 1908 a 1912,
04:40o irmão era o bispo de Vitória, o Dom Fernando, bispo do Espírito Santo,
04:44e o outro irmão era o presidente da Assembleia.
04:46Então, assim, a família, e ele criou o Partido Republicano Espírito Santo,
04:50foi o partido único do Estado entre o governo dele e o golpe de 30 de Vargas.
04:55Então, depois dele ser presidente, o irmão foi presidente do Estado em 1916,
04:59e o cunhal foi presidente do Estado em 1924, que é o Florentino.
05:02Três grandes personagens, o governo de Jerônimo e o governo de Florentino,
05:07foram governos de muito progresso.
05:08O café tinha muito bom preço, e o que me parece, então, é que o coronel,
05:15eu o trato como ele é um resto do passado.
05:19Então, ele tem muitos os traços da violência política brasileira,
05:22mas ele também é o progresso.
05:24Então, o coronel é o personagem que o capitalismo brasileiro pôde produzir
05:29no final do século XIX e no século XX.
05:31Mas você coloca isso como uma coisa, essa coisa do desenvolvimentismo,
05:35do progresso do coronel,
05:38isso deve ter um lado, um lado tenebroso,
05:42um lado de violência, um lado de desmando.
05:46Você diria que essa figura do coronel, você acha uma figura literária?
05:51Você acha que é uma figura que segura um livro, por exemplo, uma prosa?
05:54Eu vou dizer...
05:56E por que você não se aventurou nisso ainda?
05:58Tem esse dado, né?
05:59Eu vou dizer como é que eu cheguei à conclusão que sim.
06:04Com o Jorge Amado.
06:05O Jorge Amado tem os livros do chamado Círculo do Café,
06:09e Gabriela Capucanella é o maior, o mais famoso.
06:13O Jorge Amado é o único autor brasileiro
06:15que é conhecido no mundo todo, praticamente.
06:17É o prêmio no tempo que ele já foi comunista, né?
06:20Então, no tempo da União Soviética,
06:22que é o prêmio de Moscou e tudo.
06:24Morou em Paris, morou no leste europeu.
06:27E Gabriela e Dona Flor são livros,
06:31você chegar em qualquer banca...
06:33Teresa Batista, Tieta do Agreste.
06:36Você chegar em qualquer banca de uma grande livraria no mundo,
06:39você vai encontrar o Jorge Amado.
06:41Então, eu procurei por essa repercussão social.
06:44A literatura que tem importância na análise sociológica
06:48não é obrigatoriamente a boa literatura.
06:52Pode ser uma literatura popular,
06:54você vai entender por que é assim que institui o imaginário.
06:58Mas, no caso, o Jorge Amado é uma boa literatura.
07:01Então, o personagem de Mudim Falcão, de Gabriela,
07:06se parece muito com todos os coronéis.
07:09E depois, eu cheguei também a Érico Veríssimo
07:13com o Rodrigo Cambará.
07:15Ah, sim, com o Tempo e o Vento.
07:17Tempo e o Vento.
07:18São todos da mesma época.
07:20Mas você vê...
07:22As semelhanças culturais não existem, né?
07:25A cultura do norte, no caso, era chamada de norte.
07:28A cultura do cacau, a cultura da...
07:31Mas a cultura do sul já não tem mais uma ligação com a Argentina,
07:35com o Paraguai?
07:36Mas todo lugar, na cultura brasileira, no imaginário político brasileiro,
07:40onde teve um desenvolvimento baseado na monocultura,
07:45seja a borracha, seja o cacau, seja o café,
07:49tem esses personagens que são...
07:51Se a gente chegar na sociologia, isso começa essa análise com o Raimundo Faoro.
07:55Ele chama dos potentados rurais.
07:58Os potentados rurais são aqueles...
08:00Porque no Brasil Colônia, você tinha grande propriedade,
08:04na distribuição das Seas Marias,
08:06você tinha um poder local muito forte.
08:09A gente, às vezes, não presta atenção como as câmaras de vereadores
08:13foram importantes no Brasil Colônia e no Brasil do Império.
08:16Porque, como tudo era muito longe, Igrejó,
08:18aqui, por exemplo, em Vitória,
08:21a Câmara de Vereadores podia declarar guerra aos indígenas.
08:25Às vezes, o poder nacional,
08:26ao invés de conversar com o governador-geral,
08:30vinha ou com o vice-rei,
08:31vinha aqui conversar,
08:33de forma com o caso, com o poder local.
08:36Então, assim, as câmaras de vereadores tinham muita importância.
08:40Para ser vereador, tinha que ser fidalgo, né?
08:43Filho de algo, alguém de importante.
08:45Porque o regime do Brasil é um regime
08:48que, durante todo esse período aí,
08:52o projeto brasileiro era um projeto do atraso, né?
08:58Na verdade, nós reproduzíamos aqui
09:00a sociedade do velho e antigo regime,
09:03do antigo regime lá europeu,
09:05misturado com a escravidão.
09:07Então, o arcaísmo era o projeto das elites para o Brasil.
09:10Nós não somos um país que teve tanta dificuldade
09:13de vencer esse período agrário à toa.
09:16O projeto era que ficássemos assim.
09:19Era um projeto para que os direitos das elites
09:23não fossem esbarrados.
09:25Tanto que a Revolução Penambucana de 17,
09:28a Inconfidência Mineira,
09:30todos esses processos não tocavam nem no latifúndio
09:33nem na escravidão,
09:34que eram os pilares desse velho sistema.
09:37O coronel vem daí.
09:39O coronel republicano nasce deste imaginário.
09:44Ele não podia ser um gentleman, né?
09:46Ele não podia ser um dante.
09:48Ele era um homem do campo,
09:51ele era um homem da rude, digamos assim.
09:55João, por que você não aproveitou esse cabedal,
09:57essas informações todas,
09:58para se aventurar na ficção,
10:01um romance histórico no Espírito Santo?
10:03O que houve?
10:04Por que você não foi?
10:07Não, o Espírito Santo,
10:11ele entra,
10:12o Espírito Santo é um Estado muito importante.
10:15Nós, desse tamanho aqui,
10:17um Estado pequeno no Estado,
10:19nós fomos o terceiro maior produtor de café,
10:21quando o café era grande elemento da economia nacional.
10:24Nós tivemos aqui dois dirigentes,
10:26o Jerônimo Florentino,
10:27que é do tamanho das elites daquela época,
10:29mineiras, paulistas,
10:31as elites lá que estavam no Império,
10:34no começo da República.
10:36Tanto é que a intervenção urbanística de João Monteiro é extraordinária, né?
10:41Fez o Parque Moscoso,
10:42fez aquela reforma no Palácio Anchieta,
10:44que hoje seria um horror,
10:46como é que você pega um colégio construído no século XVI
10:51e transforma ele num neoclássico,
10:54numa coisa de imagem eclética, né?
10:58Derrubou a igreja que havia ali em frente,
11:00uma igreja de 1625,
11:01a Igreja Misericórdia,
11:02para fazer o Congresso Legislativo,
11:04o atual Palácio da Cultura de Sônia Cabral.
11:07Então, fez o Parque Moscoso,
11:09fez conjuntos adicionais para a classe média,
11:13funcionários,
11:14ali onde funcionam vários restaurantes,
11:17na Gama Rosa,
11:18ali aquelas casinhas eram casas
11:20que o Jerônimo construiu em 10,
11:22para morar funcionário público.
11:23Então, assim,
11:25comprou a pira-máquina de escrever no Palácio Anchieta,
11:28ele criou o arquivo público.
11:30Então, um homem muito moderno ao tempo dele.
11:32Tivemos elites modernas,
11:33é por isso que nós podemos...
11:34Quando você vai na literatura,
11:36que você vê Mundinho Falcão em ação,
11:39fica fácil de compreender.
11:40O Mundinho Falcão,
11:42ele comprou aquelas primeiras...
11:45aqueles ônibus,
11:47não sei como é que me chamava no romance mais...
11:49Paquete, né?
11:49É,
11:50que ligava a Ilhéusa Itabuna.
11:53Isso.
11:53Ele,
11:54a história de Gabriela,
11:55porque ele montou o primeiro restaurante de lá.
11:58Porque ele,
11:59na verdade,
11:59ele não é baiano,
12:01ele nasceu no Rio de Janeiro.
12:02É.
12:03Ele tem um caso de amor,
12:04uma cunhada,
12:05provavelmente,
12:06e vai para lá.
12:08Ele era um homem que não era daquele lugar,
12:10ele não pertencia àquela cultura, né?
12:13Mas...
12:13Ele vem com uma cultura do Rio de Janeiro.
12:16Do Rio de Janeiro.
12:17Que era a cidade mais importante do Brasil.
12:18Republicana.
12:18É, Republicana.
12:19Republicana.
12:20Aí,
12:20ele,
12:21por isso que eu digo,
12:22ele,
12:22ele,
12:23ele,
12:23ele,
12:24ele pretende o progresso.
12:26Tanto que ele,
12:27qual o grande elemento de atraso que tinha naquele momento ali,
12:30o Cacau tinha que se exportar para o Salvador.
12:32E ele vem,
12:33então,
12:33fazer a denagem da barra.
12:35Que é para poder os navios chegarem,
12:36ele faz o porto de Ilhéus.
12:38Então,
12:38ele cria a associação comercial de Ilhéus.
12:42Então,
12:42assim,
12:43ele é esse portador do progresso.
12:45E ele,
12:46e ele é um homem que se casa por amor.
12:49E você vê paralelo de Mundinho Falcão com,
12:52por exemplo,
12:52Gerônimo Monteiro?
12:53Vejo,
12:54vejo,
12:54com o Rodrigo Cambará,
12:56Mundinho Falcão,
12:58Gerônimo Monteiro.
12:59Porque,
12:59assim,
12:59é claro que nós não temos,
13:01eu não tenho,
13:02não busquei fontes para isso,
13:03pode ser até que a gente consiga,
13:05elementos da vida pessoal.
13:08Quando você lê,
13:09agora vamos,
13:10vamos pulir para o capixaba aqui.
13:12Renato Pacheco,
13:13o Reino Conquistado.
13:14Você lembra que,
13:15que o Reino Conquistado,
13:17ele começa,
13:19no começo do 19,
13:20quando uma inglesa,
13:22que é,
13:22na verdade,
13:22capixaba,
13:23mas criada em Londres,
13:24chega aqui uma mulher muito diferente,
13:27ela é rechaçada pela mediocridade local,
13:30e é sempre uma permanência no romance capixaba.
13:33Essa coisa,
13:34meio da fofoca,
13:36né,
13:37meio assim,
13:37Renato,
13:38despoca,
13:39bem na oferta e o altar,
13:41né,
13:42mas, de toda forma,
13:44ali naquele momento,
13:45quando Renato faz isso,
13:47ele coloca uma mulher,
13:48essa mulher poderosa,
13:50então,
13:50ela tem dois filhos,
13:52um vira o bispo de Vitória,
13:53mesmo do Espírito Santo,
13:55ela opera,
13:56isso daí,
13:57comprando esse tipo,
13:58ela opera,
14:00porque a passagem dele,
14:01de um jovem padre,
14:02para um bispo,
14:02foi muito repentina,
14:04foi construída,
14:05da mesma forma,
14:07que o outro,
14:08que virou presidente do Estado,
14:09teve um tipo de comendador,
14:10papal,
14:11que também foi,
14:13assim,
14:14comprado,
14:14digamos,
14:15né,
14:16e o Jerônimo,
14:18isso se assemelha muito à história do Monteiro,
14:21é claro que,
14:22eu não creio que o,
14:24o doutor Renato,
14:24estivesse querendo dizer que era assim,
14:27que aquela família era assim,
14:29que aquilo aconteceu,
14:30por isso que é ficção,
14:31né,
14:32e é por isso que é bom de analisar,
14:33porque a ficção,
14:35ela faz uma espécie de condensação,
14:37dos eventos,
14:38você que é autor,
14:39sabe disso,
14:41o autor,
14:42às vezes,
14:42um personagem,
14:44são dois ou três,
14:45que ele conheceu,
14:46ele junta num só,
14:48e fica muito representativo,
14:49exatamente,
14:50é,
14:51é isso que eu volto,
14:53aquela provocação,
14:54porque você,
14:56que você sabe usar as palavras,
14:58é inegável,
14:59quem já leu os seus textos,
15:01e quem já ouviu você falar,
15:02é inegável,
15:03mas,
15:05é,
15:05a minha pergunta é essa,
15:07você com essa bagagem toda histórica,
15:09você não se aventurou ainda,
15:12a um romance histórico,
15:14que tenha como base a figura do coronel,
15:17a minha pergunta para você é,
15:18por que não?
15:19escrito,
15:19é,
15:20por que você não fez isso?
15:21É,
15:22por que você não se aventurou,
15:22num romance mesmo?
15:24É,
15:25essa,
15:26eu estou me dedicando,
15:27então,
15:27agora,
15:28a estudar Espírito Santo,
15:29né,
15:30eu estou fazendo um olhar,
15:32pelo,
15:32na literatura,
15:33mas eu não sou da análise literária,
15:36então,
15:36eu sou,
15:37quero fazer uma espécie de sociologia do cotidiano,
15:40né,
15:40Mas usando literatura,
15:41então você está conectando.
15:42Isso,
15:42está conectando.
15:43Então,
15:44eu começo aqui com o doutor Renato,
15:45com a Fete do Altar,
15:46que eu acho que é um livro,
15:47é um livro admirável,
15:50fala que ele institui um certo romance,
15:52que é o que chama de 64.
15:54É.
15:54Ele faz uma inflexão nessa análise e tudo,
15:59e ele pega uma eleição de 1958,
16:02em Conceição da Barra.
16:04Isso,
16:05é calcado em fatos verdadeiros.
16:07Tanto que Getúlio Neves,
16:10lá do presidente do Instituto Social Geográfico,
16:12me mostrou a sentença,
16:14a partir da qual o doutor Renato escreveu esse livro.
16:17E o doutor Renato era um sociólogo e jurista.
16:20É.
16:20Então,
16:20quando ele escreveu essa sentença,
16:22ele faz uma espécie de,
16:24e ele diz no texto lá da sentença,
16:28que ele faz uma espécie de sociologia de Conceição da Barra.
16:31Ele não quer analisar só aquele personagem,
16:34ele quer analisar como é que aquela sociedade
16:37produziu aqueles personagens.
16:39É muito bacana isso.
16:40É, sensacional.
16:41E o livro chama O Fete do Altar,
16:43a partir de uma passagem bíblica,
16:45acho que de Mateus,
16:47que ele faz,
16:49o padre fala,
16:50o padre Felipe,
16:51acho,
16:52fala na missa,
16:53que aquele lugar ali no Espírito Santo,
16:56é uma oferta de Deus.
16:59É uma oferta da natureza.
17:01Mas,
17:02o altar que os capixabos construíram,
17:04é muito menor do que a oferta.
17:06Então,
17:06a tese de Renato é que os capixabos
17:08são menores do que tudo que Deus lhes deu.
17:12O que você acha?
17:12Eu acho que ele,
17:14eu vou responder,
17:15e ele acha que o absento do Renato é a fofoca.
17:20Tem Joaninho do Muxá.
17:22Eu lembro disso.
17:23E é uma central de fofoca.
17:25Então,
17:25eu acho que é uma marca do imaginário do capixabos.
17:28Eu acho que o capixabos é muito fofoqueiro.
17:30Mas, João,
17:32tudo bem.
17:33Eu acho ótimo isso.
17:34Mas,
17:36o motivo,
17:38qual o porquê,
17:40qual a razão
17:41de se,
17:43de o capixaba ser,
17:46de ter essa propensão à fofoca,
17:48ao distúrbio,
17:49a usar as palavras
17:51para uma perturbação social?
17:53Eu acho que nós temos duas marcas.
17:56Eu vou lá,
17:56volto a Renato,
17:58e volto aos coronéis também,
18:00porque se você pega
18:02a obra de Getúlio Neves,
18:03aquela memória repartida,
18:05que ele estuda colatina,
18:07ele faz uma...
18:08Sim, sim.
18:08Como o Renato,
18:09o território,
18:10um é a coerção da barra,
18:12o território é colatina.
18:14Quando você pega Pedro Nunes,
18:16o território é...
18:18São José do Caçado.
18:20Mas,
18:20os elementos são muito parecidos.
18:22A fofoca está presente em todos os lugares.
18:26Mas, assim,
18:27esses são personagens do mundo caipira.
18:31O Getúlio me chamou a atenção,
18:34Getúlio não,
18:35o Pedro Nunes,
18:36me chamou a atenção
18:38para um texto do povo brasileiro,
18:41do Dacir Ribeiro,
18:42tem muitas entrevistas,
18:44que até ele me mandou o link,
18:45eu vi todas,
18:47em que ele fala,
18:48o Dacir fala do Código de Honra do Matuto.
18:52Ele diz que para nós é muito difícil
18:55honrar o Código de Honra do Matuto.
18:57E esse Código de Honra do Matuto,
18:59para mim,
19:00é um Código de Honra que está vigente.
19:01É isso que faz,
19:03hoje,
19:03um certo movimento conservador
19:06voltar e organizar a sociedade
19:08a partir da negação.
19:10A negação do aborto,
19:13a negação do mundo gay,
19:15a negação das conquistas,
19:16dos atores coletivos do século XX,
19:19a partir da metade do século XX.
19:20Essas conquistas,
19:23elas passam a ser questionadas,
19:27passam a ser combatidas,
19:29e você tem uma espécie de retorno
19:31ao Código de Honra do Matuto.
19:33Eu acho que o mundo capixaba,
19:35o mundo caipira, capixaba,
19:37se assemelha muito ao de Minas,
19:40se assemelha muito ao interior de São Paulo.
19:42Acho que esse mundo caipira,
19:44tem um texto,
19:45uma entrevista do Antônio Cândido,
19:47nesse documentário sobre o NACI,
19:51tem uma entrevista do Antônio Cândido
19:53que ele fala isso,
19:54ele cita o mundo caipira de São Paulo,
19:57Minas, Espírito Santo,
19:59uma certa região do Oeste brasileiro também.
20:02Então, eu acho que isso não é só capixaba.
20:05Esse nosso mundo caipira,
20:07esse Código de Honra do Matuto,
20:09essa coisa,
20:10é a partir do Código de Honra do Matuto
20:13que você institui a fofoca,
20:15porque quem honra?
20:16Você tem que corrar esse Código.
20:18Então, as mulheres que traem,
20:21todo esse universo que você pegar lá,
20:24e tem sempre nesse romance capixaba,
20:26o que assusta é o novo.
20:29Você tem um Código de Honra instituído
20:31que preserva um certo status quo naquele lugar.
20:35O que pode e o que não pode?
20:37A fofoca é um instrumento de punição
20:39daquilo que não pode.
20:41Porque no mundo da fofoca,
20:43você não enfrenta de assim,
20:45você não tem um enfrentamento.
20:47A fofoca é esfaquear pelas costas, né?
20:50A fofoca é destruir na intriga,
20:55sem que a pessoa tenha estrutura
20:57para rebater aquilo, né?
21:00Institui assim,
21:01você faz uma espécie de cancelamento
21:03no modo antigo,
21:05tanto que a personagem que leva o novo
21:07para a Conceição da Barra,
21:09no final do romance,
21:10ela parte,
21:11ela vai embora.
21:13Segundo a Bernadette Lira,
21:14é ela, né?
21:15É, a Bernadette falou que era.
21:16João, eu tenho uma...
21:21As vezes as pessoas comentam,
21:23a gente ouve,
21:24a gente está conversando com alguém,
21:27de repente alguém fala,
21:29o capixaba,
21:30ele é muito desconfiado.
21:31Isso.
21:33Essa desconfiança vem justamente
21:36por conta do novo,
21:37ou seja,
21:38o novo continua assustando o capixaba?
21:41O capixaba,
21:43nós estamos vivendo um mundo globalizado.
21:44É.
21:45Um mundo em que as distâncias
21:47estão cada vez menores.
21:48Isso.
21:49Né?
21:49E que a comunicação via internet,
21:51ela é uma coisa imediata.
21:52Isso.
21:53Isso não deveria fazer o capixaba
21:55deixar de ser um pouco caipira?
21:57Olha,
21:58eu lembrei aqui do Roberto da Mata, né?
22:01O da Mata fala sempre que
22:04na sociedade brasileira,
22:07o novo e o velho convivem de forma desigual.
22:10Então, você vê isso com muita clareza.
22:13O novo e o velho se organizando
22:16e se articulando no mesmo tempo.
22:18O arcaico e o moderno
22:19se articulando no mesmo tempo.
22:21Então,
22:22no mundo caipira,
22:24que nós vivíamos aqui,
22:26no século XIX,
22:27começo do século XVIII,
22:29esse mundo caipira,
22:30ele começa a ser invadido pela modernidade.
22:33Então, é isso que eu digo,
22:35essa articulação desigual
22:37entre o arcaico e o moderno,
22:39entre o novo e o velho,
22:41o velho, ele fica minando o novo.
22:45Ele fica sabotando o crescimento.
22:49Então, acho que a nossa cultura
22:51é produto do novo,
22:52porque nós somos um Estado admirável também.
22:54Um Estado empoderado,
22:56um Estado que tem uma marca importante,
22:59um Estado que estava lá no mundo do café
23:01e depois fez nos anos 60 e 70
23:04uma virada para o mundo industrial.
23:06É por isso que eu falei do Arthur,
23:08doutor Américo mesmo,
23:10que participou desse processo.
23:12Você tem um...
23:13Quando se institui aqui
23:14a nossa industrialização,
23:15e com grandes plantas.
23:17Tubarão,
23:19antiga CST,
23:21antiga aracucelulose,
23:23Samarco,
23:24agora a Celor,
23:26Suzano
23:26e a Vale é a Samarco.
23:28Então, assim,
23:29essas grandes plantas
23:30criam cadeias produtivas
23:34muito modernas.
23:35Então, nós não podemos dizer
23:37que a gente é um pessoal atrasado.
23:40Nós entramos
23:42nesse mundo moderno
23:45com força,
23:46com empoderamento.
23:47Mas nós mantivemos
23:48um código de honra.
23:49Isso.
23:50Sabe, são coisas...
23:51É porque o econômico
23:53e o social
23:54não são obrigatoriamente articulados.
23:57Perfeito.
23:57Mesmo nível.
23:59Aí você pode ter
24:00uma sociedade
24:00que economicamente
24:02é pungente,
24:03mas que mantém
24:04código de honra
24:05muito retrógrado.
24:07Maravilha.
24:08Olha só,
24:08nós vamos parar agora.
24:09Vamos parar
24:09para a gente continuar
24:11semana que vem.
24:11Tá bom.
24:12Porque eu estou tendo
24:13uma aula aqui.
24:14Uma aula de história
24:16e sociologia.
24:18Pessoal, olha só.
24:19Essa é a primeira parte
24:21da entrevista
24:22com o João Galberto.
24:23Na semana que vem
24:24nós vamos ter
24:25a segunda parte.
24:26Então fique ligado
24:27para que vocês
24:27entendam
24:28o pensamento
24:29dessa figura brilhante
24:30e ao mesmo tempo
24:32nós vamos abordar
24:34na semana que vem
24:35o fato de João
24:36estar trabalhando
24:37com alguns escritores
24:40do Espírito Santo.
24:41Até a próxima, gente.
24:43Na segunda parte
24:44do Vitrino Literário
24:45com o Francisco Grinjó
24:46com o João Galberto
24:47como convidado.
24:49Você ouveu
24:51Vitrine Literária
24:52com o professor
24:53e escritor
24:54Francisco Grinjó
24:55tudo sobre
24:56literatura contemporânea
24:58temas, autores,
24:59obras, debates,
25:01análises, curiosidades
25:03e bate-papo
25:04com autores e editores.