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  • há 2 semanas
A força das mulheres pioneiras no Espírito Santo

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Transcrição
00:00O Mário veio embora da Itália porque ele tinha um restaurante, o pai dele era um chefão lá da Itália,
00:06porque ele não gostava de restaurante.
00:09É?
00:09Não, aí venderam o restaurante, o pai faleceu, eles venderam, ele veio pra cá.
00:15E chegava aqui e não fazia nada, gastou dinheiro tudo que ele tinha,
00:21ele trouxe dinheiro e não estava fazendo nada.
00:24Ele teve a coragem de casar pra poder viver, né?
00:28Foi difícil, muito, muito difícil.
00:31Mas uns amigos da gente, que conhecia a gente, começou a falar,
00:37Mário, por que você não abre um restaurante aqui em Vitória?
00:40Vitória não tem e tal.
00:42Mas eu vendi o meu na Itália pra poder...
00:45E não tem dinheiro também.
00:48Aí um amigo nosso, que era Tonino Neff, não sei se você conhece,
00:52no supermercado, eu tinha um supermercado ali na avenida.
00:57Eu posso contar a história?
00:58É a história que você sabe?
00:59Ah, sem problema.
00:59Ele tinha um supermercado pequeno,
01:02chamou ele uns dois, três dias na casa dele pra fazer um jantar pelos amigos.
01:06Eu falava, Mário, então olha, tem um amigo meu que tem um restaurante,
01:11na Trás Costa Ferreira, que é um restaurante.
01:14Por que você vai trabalhar lá?
01:16A garagem é você, ele está procurando um gerente, vai lá.
01:20Isso foi em 1961.
01:2462.
01:2562.
01:27Aí Mário falou, ah, de novo?
01:28Então, eu falo, bom, o restaurante era bonito o que tinha lá.
01:34Era grande, bonito lá em cima.
01:36Aí ele foi lá como gerente.
01:39Aí ele estimulou.
01:40Ah, Mário, abre, abre, o restaurante é teu.
01:43Eu empresto um apartamento pequeno, você abre, começa.
01:48Aí foi aí.
01:49Aí chegou oito meses lá como gerente.
01:53Aí na Duca de Caxias, ele tinha um apartamento pequenininho,
01:57ele emprestou pra gente.
01:58Eu estava com ela com um ano e oito meses.
02:01Era com três anos e meio já estava.
02:05Isso aqui foram 62.
02:07Caramba.
02:08Então, abrimos a cantina, lá na Duca de Caxias,
02:12uma cozinha pequena, um fogãozinho desse tamanho,
02:15de quatro bocas.
02:16Mas eram dois pratos só que a gente faria.
02:19Um dia era lasanha com filé, lasanha, a gente fazia.
02:23Outro dia era frango com talharine.
02:27Cada dia, o dia era uma carne assada, uma outra massa.
02:32Ficamos quatro anos sem nenhuma empregada.
02:35Eu na cozinha, com elas pequenininhas.
02:38E você tinha quantos anos quando começou a trabalhar?
02:41Olha, 61, sou de 33, 28 anos.
02:4528.
02:46E o que foi pra você?
02:48Mulher trabalhava naquela época?
02:49Chorava muito, viu?
02:51Chorava de saudade, chorava de trabalho.
02:54Ela pequenininha, não tinha...
02:56Ainda bem que tinha um quarto, a gente morava lá,
02:59onde tinha...
02:59Era um salãozinho de dez mesas.
03:03Mas foi difícil.
03:05Aí depois passamos pra Duca de Caxias,
03:07na escadaria Maria Ortiz.
03:08A cozinha já foi grande.
03:11Os fogões eram já um comercial.
03:14Colocamos dois gações.
03:16Vou ter duas amigas pra trabalhar na cozinha.
03:18Inclusive, uma ainda tá aqui comigo.
03:20Mas agora tá.
03:21Não me arrependi nunca de nada, não.
03:24Sempre senti saudade da minha teta, dos meus pais.
03:28Sempre viajava de vez em quando com as meninas.
03:32E você, a senhora, já sofreu algum preconceito por ser mulher?
03:36Alguma dificuldade?
03:38Você é mulher trabalhando numa época em que mulher não trabalhava?
03:41No começo eu tive problema no colégio.
03:44É.
03:44Quando as meninas foram estudar no Sacré-Cœur.
03:47Eu trabalhava na cozinha.
03:49Sempre trabalhei na cozinha.
03:51Então eu sentia que era um pouco...
03:53Como é que fala?
03:55As madames que eram aqui...
03:57Me sentia um pouquinho mais assim...
04:00Inclusive, o senhor Mauritán começou a estudar de manhã.
04:04E eles reclamaram porque atrapalhava.
04:07Era uma aluna a mais.
04:08Não quiseram ela.
04:10Então, um clima meio...
04:11Aí passei uma cozinha assim.
04:14Mas olha...
04:15Eu nunca me importei muito.
04:17Eu trabalhei sempre na cozinha.
04:18Nunca tive vergonha.
04:19Sempre fui muito prestigiada.
04:22Elogiada.
04:22Capixaba foram maravilhosos conosco.
04:25Mudaram muito.
04:26Vitória era pequena, não era grande.
04:28Então era um grupinho muito fechado.
04:34E para entrar nesse grupinho, sofri um pouquinho.
04:39Mas valeu.
04:41Valeu muito.
04:42E ele fazia muita parte do comércio.
04:45Ele que botou a luz elétrica em vitilagem.
04:49Em Lagoa.
04:51Em Lagoa.
04:51Entendeu?
04:51Em Afosto e Cláudio.
04:53Em Lagoa.
04:54A família que abai é muito grande.
04:57E foi expandindo tudo ali, aquele redor do Espírito Santo ali.
05:01Sabe?
05:02A família que abai.
05:04Que outros só tem.
05:05Que outros que abai, né?
05:06Tem Davi que abai.
05:08Darcy que abai.
05:09Orlando que abai.
05:10Todos da família que abai.
05:12Foi assim.
05:13Não tinha tudo, tudo tinha nada, nada, nada, nada.
05:17Mas eu sempre fui muito animada.
05:19E papai também.
05:21Papai Ramundo que abai.
05:22Ele era filho da família que abai, dos mais velhos.
05:26E ele não podia parar.
05:27Ele gostava do comércio.
05:29Ele começou pelo comércio.
05:31Aí começou a comprar tecidos.
05:33Para fazer, para vender para o povo de lá de Lagoa.
05:37A cidade mesmo.
05:38É.
05:38Logo perto da Lagoa tem a igreja também.
05:41Me desmiteria do lá em cima.
05:43Que era a família também de que abai também.
05:46Certo?
05:47E como é que chegava a mercadoria?
05:49Ah, chegava a mercadoria?
05:51E burros, né?
05:52É.
05:53Burros?
05:53E burros.
05:55Ah, trabalhava todo com tropas.
05:57Tropas, tropas.
05:58Tudo de, todo armadilhado, encicilhado, né?
06:05Com os cavalos.
06:08Tropas.
06:09Tropas.
06:10Os mercadorias de onde.
06:11Ele vendia de tudo, né?
06:13Tinha um atacadão lá.
06:14Tinha um atacadão.
06:15Papai gostava de vender.
06:17E ele era animado e começou com o comércio.
06:19E aí a imandade também, toda foi fazendo também.
06:23Com contabilidade.
06:26Ela trabalhou numa empresa, Brasil-Holanda.
06:28Ela era contadora dessa empresa.
06:30Uma das primeiras mulheres a trabalhar no Espírito Santo.
06:33Nossa, foi uma das primeiras?
06:34É.
06:35Nessa Brasil-Holanda.
06:36Ah, Brasil-Holanda.
06:38Pra se formar em contabilidade.
06:40Pra se formar.
06:41Estudei no colégio americano, que era o melhor colégio daqui.
06:43Aqui, colégio americano.
06:45Estudei, não comecei no colégio americano.
06:47Tive todos os cursos no colégio americano.
06:50Que leão.
06:51Todos.
06:51Todos que tinham lá.
06:53Quem tinha tantos nesses anos?
06:57Estudava inglês, né?
06:58Inglês, francês, tudo.
07:01Eu adorava.
07:03Adorava comprar e vender.
07:05É.
07:08Ah, mas isso é bom.
07:09As pessoas gostam de cabrinha.
07:11Ah, mas eu gostava mesmo do comércio, sabe?
07:13Como era bom vender, como era bom fazer compra, como era bom fazer isso, como era...
07:19Quer dizer, tudo a gente fazia.
07:22E quando foi a primeira loja?
07:23Foi em 30 de março de 1964 que ela abriu a loja em sociedade com a sua avó, lá no
07:31Parque
07:32Moscoso, na casa do pai da tia Amélia.
07:35Que era o meu avô, né?
07:37Sim.
07:38E lá, elas eram cinco mulheres.
07:40E todas mulheres muito pra frente.
07:43Não era fácil, não era difícil.
07:46Se você fosse animada, você conseguia agariar aquele povo todo que estava em volta, né?
07:54Tinha igreja perto, tinha aquele leão na igreja, era luva, era chapéu, era sapato,
08:01a gente vendia sapato, sombrinha.
08:04Vendia era de tudo.
08:05E aí virou ponto de referência aqui em Vitória.
08:07Virou porque ali em volta, por acaso, foi transformado na rodoviária, atrás da casa.
08:14Aí vinham as pessoas de outros estados, vinham as pessoas do interior.
08:18A papai nunca deixou ela viajar sozinha, sempre acompanhada.
08:21Era uma agulha.
08:22A qualquer lugar que ela fosse.
08:23Acho que essa é uma grande diferença pra hoje.
08:25É, porque eu ia perguntar exatamente isso.
08:28Qual a diferença que ela sente da sociedade daquela época pra hoje?
08:34Acho que essa é uma.
08:35Não, é outro mundo, né?
08:37Sim.
08:38É completamente diferente.
08:40Na vida, você não pode dizer, ah, porque eu vou fazer isso, vou fazer aquilo.
08:45Será que eu vou vender?
08:46Não é assim.
08:47Você tem que entrar com vontade de fazer as coisas.
08:51O negócio é esse.
08:52Você não pode pensar tudo que você vai fazer, você tem que fazer com vontade de vencer.
08:58Pra gente, assim, né?
09:00Que primeiro, ela nunca se imaginou trabalhando com feiras e eventos.
09:04Ela, quando ela fala da trajetória profissional dela, ela fala que ela é muito nova, ela passou
09:09num concurso pra trabalhar em uma prefeitura.
09:13E ela, quando ela começou a fazer aquele trabalho ali, ela viu que, assim, ela queria uma coisa muito mais
09:20dinâmica, né?
09:21E aí ela não conseguiu ficar muito tempo ali, ela não pediu exoneração.
09:25E aí ela começou, enfim, a trabalhar com N coisas, né?
09:28Chegou a abrir uma loja de roupa e foi, enfim, trabalhando com várias coisas pra buscar realmente o que ela
09:34achava que poderia, né?
09:39E aí ela conta que um dia ela foi visitar uma feira na UFIS, aleatoriamente, assim, e na hora que
09:48ela chegou lá, ela fala assim, né?
09:50Na hora que ela chegou e que ela andou naquele tapete vermelho, ela falou, poxa, é isso que eu quero
09:55fazer pra minha vida.
09:57Ela gostou daquilo que ela viu ali, talvez muito pelo lado dinâmico, imagino eu, assim, mas aquilo ali fez o
10:05olho dela brilhar e ela falou, poxa, é isso que eu quero fazer.
10:07E ela começou a pensar o que ela poderia fazer, que tipo de feira que ela poderia fazer.
10:12E aí, nessa época, né, tinha o Odilon Borges ali trabalhando no Bandes, o Henrique Toniato, o Álvaro Abreu, que
10:22eram as pessoas que sempre estavam envolvidas ali.
10:25E ela conheceu o Toniato, que na época era o presidente do CTMAG, né, que é o Centro Tecnológico de
10:30Mármore e Granito.
10:33E aí, enfim, né, veio a ideia de fazer uma feira de mármore e granito ali em Cachoeiro de Itapemirim,
10:40que já era, né, já estava ali iniciando um trabalho, né, no setor de rochos ornamentais,
10:49com a própria instalação do CTMAG ali, e aí, enfim, nasceu a feira.
10:53A primeira edição foi feita, assim, com um planejamento de dois meses, assim, de uma coisa muito rápida.
11:00Foi em 1989.
11:01Nossa.
11:02É, em 1989, foi em novembro a primeira edição da Feira de Cachoeiro.
11:07Mas ali já deu pra ver que, assim, não tinha, ela fala muito que, assim, ela não sabia nem o
11:12que ela fazia, né,
11:13até ela falou que quando chegou o visitante perguntou, ah, mas tem banheiro aqui, onde é que é o banheiro?
11:20Ah, mas precisa de banheiro? Então, assim, umas coisas muito ainda, né.
11:23Amadoras, assim, mas sempre com aquela veia de fomentar negócios, eu acho que, né, esse sempre foi um objetivo que
11:29estava ali na mente dela.
11:32E aí, em 2019, a gente fez 30 anos de Cachoeiro Stone Fair.
11:36E nessa cerimônia, assim, a mamãe sempre foi muito inteligente da forma como ela conduz as coisas de uma forma
11:42que pareça natural.
11:44Então, quando ela chegou na edição de Cachoeiro de 30 anos, a gente fez uma edição especial, né, em agradecimento
11:51ali, contando um pouco da história dos 30 anos da feira.
11:54E na hora que a gente chegou no palco, né, pra abrir a feira, ela no palco, ela falou, olha,
12:00a partir de agora, quem tá assumindo é a Flávia.
12:02Então, assim, já é ela que está fazendo há dois anos, mas eu estava à frente, mas a partir de
12:08agora é com ela, né.
12:10Então, assim, foi um momento que, porque acaba que isso vai te dando visibilidade e validação, né.
12:17Se eu te falar que eu sofri algo por ser mulher e tudo, não.
12:24Claro que, às vezes, assim, eu acho muito engraçado, assim, porque eu acho que como eu vim desse movimento, eu
12:33acho que nem eu tenho noção ainda do que talvez eu represento.
12:36E eu tenho escutado muitas pessoas falando ultimamente, quando me veem foto, tipo, só eu de mulher, né, e principalmente
12:43algumas fotos institucionais.
12:45Você estava percebendo isso.
12:46Com relacionamento de governo, né, então as pessoas falam pra mim e eu falo, gente, é mesmo, eu nem me
12:52toquei.
12:53Assim, aí você começa a observar e você fala, poxa, é verdade, assim, então, assim, você tá num ambiente ali
12:58que você tem 20, 25 pessoas e é você, né, como mulher, assim.
13:03E, de fato, a gente não, eu não tenho noção ainda do que isso representa pras outras pessoas que vêm.
13:09Então, eu fico muito feliz quando eu leio, eu recebo alguma mensagem no Instagram, enfim, ou encontro algumas pessoas na
13:14feira e que falam,
13:15Ei, Flávia, poxa, te admiro muito e tal.
13:17Porque, de fato, eu não passei por isso.
13:22Então, quando eu vejo, eu falo, poxa, legal, aí como é que eu posso contribuir pra que a gente tenha
13:25realmente cada vez mais mulheres nesses ambientes, assim.
13:29Então, hoje, quando eu vejo uma foto muito masculina, também já começa a me incomodar, era uma coisa que eu
13:36não reparava, né.
13:37Então, hoje, me incomoda não no sentido de, enfim, de ser justa ou não ser justa, mas é que realmente
13:45eu acho que tem espaço pra muitas mulheres, assim,
13:50e eu entendo que a gente ainda tem algumas barreiras que a gente precisa quebrar.
13:54Certeza que muitos desafios ela passou, né, assim, por ser mulher, enfim, no mercado de trabalho que lá atrás, naquela
14:05época, né, nem se falava, eu acho que...
14:08Mas eu também não consigo te falar algo, porque eu acho que ela blindava a gente nisso, no sentido de,
14:14cara, não tem isso, assim.
14:16Então, ela sempre tratou, por exemplo, eu e meus irmãos muito iguais.
14:19Então, a gente, é o que eu te falo, assim, eu fui muito privilegiada em não sentir isso, né.
14:24Você pode sentir de uma forma, talvez, velada, mas isso nunca, assim, nunca me atingiu, porque a gente sempre foi
14:31tratado do mesmo jeito, né.
14:33Então, eu acho que ela fez muita questão disso, assim, ela com certeza passou por inúmeros casos, mas eu acho
14:41que isso nunca impediu que ela continuasse
14:43e nunca impediu que ela continuasse trabalhando pra abrir portas pra que cada vez mais mulheres tivessem em posições de
14:49saque, de gestão e...
14:51Então, eu acho que isso também foi uma outra blindagem do que aconteceu, assim, até nos dias de hoje a
14:56gente tem.
14:57A mulher, infelizmente, ela ainda tem que provar, parece que duas, três, quatro vezes que ela é mais capaz, né.
15:04Então, assim, a gente sabe disso, mas, assim, eu fico muito feliz porque eu vejo que as coisas estão mudando,
15:09assim.
15:09É lógico que tem setores mais adiantados, mais atrasados, enfim, não dá pra gente falar, né, generalizar.
15:17Mas eu vejo, assim, eu vejo uma melhoria e, assim, o que eu puder contribuir para, eu tô superando a
15:23disposição e quero fazer isso.
15:24Obrigado.
15:24Obrigado.
15:24Obrigado.
15:25Obrigado.
15:25Obrigado.
15:25Obrigado.

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