00:00Em cima de uma cama, enquanto se recupera lentamente, o rapaz ainda está assustado, sente medo e prefere não mostrar
00:10o rosto.
00:11As marcas nos braços, na barriga e nas pernas carregam a história de uma noite violenta.
00:17No dia 25 de agosto, a vítima de 20 anos voltava do trabalho quando teve a vida mudada para sempre.
00:26Eu estava meio grogue de sono, eu não estava vendo muito bem.
00:29Aí eu só lembro de o ônibus ter parado fora do ponto e entrou dois caras.
00:34O primeiro cara, ele estava com arma, aí eu imaginei que era assalto.
00:40Aí eu fiquei esperando ele me assaltar, que eu não tive reação.
00:43O segundo cara entrou jogando gasolina.
00:48Enquanto isso, o outro estava mandando os UTC.
00:51Aí eu fiquei sentado na minha cadeira.
00:53Aí quando ele chegou até mim, ele apontou a arma para mim.
00:55Aí eu levantei os dois braços, aí eu falei, não, pode levar.
01:00Aí ele, não, não, só desce, só desce.
01:02Aí nisso o meu celular tinha caído.
01:04Aí eu falei que tinha o segundo cara jogando gasolina.
01:07Então, esse cara já tinha jogado gasolina no ônibus todo.
01:10Os suspeitos que cruzaram o caminho do jovem foram registrados por câmeras de segurança.
01:15Nas imagens, dois homens de capacete aparecem passando pela via.
01:20Um deles carrega um galão, provavelmente com gasolina.
01:25Menos de três minutos depois, os mesmos voltam correndo, se juntam a outros comparsas e fogem em motos.
01:34Nesse intervalo, o coletivo foi incendiado e a vítima, desesperada, tentou apagar as chamas no próprio corpo.
01:42O ônibus já estava em chamas, eu estava dentro, aí meu braço estava em chamas também.
01:47Aí eu fui tentar virar rápido para descer na porta de trás, porém estava fechada.
01:53A única porta aberta era a do meio.
01:55Nisso que eu fui descer da porta de trás, eu escorreguei na gasolina.
01:59Aí eu acabei queimando o meu lado direito do corpo, porém eu consegui levantar e descer pela porta do meio.
02:07A polícia afirma que o ônibus foi incendiado em Roda d'Água, Cariacica, como represália à morte de um traficante
02:15durante um confronto com a PM, no bairro da Penha, em Vitória.
02:19Enquanto as equipes investigavam o caso, a vítima lutava no hospital para suportar as dores
02:26e enfrentar os dias com mais de 25% do corpo queimado.
02:31A primeira semana foi pior, porque sentia dor em tudo, tudo doía, a queimadura ardia mais,
02:40a perda de adaptação.
02:42O primeiro dia eu cheguei lá entubado, porque eu não estava segmentando de dor na ambulância.
02:47Décimo dia sim, eu já consegui sentir menos dor, mas antes disso doía muito,
02:52porque eles raspavam o braço assim, né, para limpar.
02:5622 dias separam aquela segunda-feira do dia de hoje, mas as marcas da violência continuam evidentes
03:05por todos os cantos aqui desta região.
03:09Naquela noite de segunda-feira, o coletivo passava justamente aqui por esse trecho
03:14quando foi interceptado pelos criminosos que invadiram o ônibus e atearam fogo.
03:20Dentro do coletivo, além dos funcionários, o transcol e outros passageiros, a vítima
03:26que ficou gravemente ferida.
03:28O rapaz, que voltava exausto do trabalho, estava a menos de 10 minutos da casa onde vivia
03:35ao lado da mãe.
03:36A mãe desse jovem contou que naquela data ela estranhou a demora do filho.
03:42Foi para o ponto, esperou, o menino não desembarcou e ela começou a ficar muito preocupada.
03:48Mas, um pouquinho antes dessa preocupação, ela disse que tinha ouvido um barulho.
03:56Não sabia muito bem o que estava acontecendo e a luz elétrica, não só da casa dela,
04:01mas aqui da região, desapareceu.
04:04Ela pensou que fosse uma explosão de um transformador, mas essa situação continuou ali na memória
04:11dessa mulher, até que de repente, de casa, ela olhou e viu ali uma luz vermelha.
04:17Ficou sem entender o que estava acontecendo, mas a preocupação com o filho só aumentou.
04:23Ela esperou a chegada do último ônibus e nada do filho desembarcar.
04:29Sem notícias do rapaz, mas pensando sempre naquele barulho e também na luz que ela tinha
04:35enxergado da casa dela, resolveu fazer uma oração pedindo para que o filho estivesse em segurança.
04:44Foi só depois, no dia seguinte, que ela entendeu que aquela luz vermelha distante era a ambulância
04:50que estava levando o filho dela para o hospital.
04:54A mulher, que trabalha na área da saúde, tem se dedicado integralmente ao filho
04:59e sabe que a recuperação total ainda vai demorar.
05:03Por enquanto, o curativo dele vai ser feito lá no hospital, né?
05:07Eu acho que é de dois em dois dias, se eu não me engano.
05:11E aí nós vamos estar levando ele e depois, com o passar do tempo,
05:17não sei se vai ser feito em casa, eu sou técnico de enfermagem,
05:20aí eu vou fazer o curativo dele, né?
05:22E fazer o possível para poder se melhorar logo.
05:25Enquanto pensa no futuro, ele não consegue esquecer tudo o que viveu.
05:30Eu não consigo me sentir seguro em sair agora na rua.
05:34É muita coisa para a cabeça, assim, logo. Muita coisa junto.
05:39A mãe, que naquela noite do dia 25 de agosto se apegou na fé,
05:45hoje faz planos e agradece por ter o filho de volta em casa.
05:50Que desde a gravidez, eu escolhido de Deus, né?
05:52Eu posso falar para vocês. Peço muito a Deus que Deus possa tocar no coração dele,
05:56que ele possa estar indo pela presença do Senhor,
05:59para agradecer essa grande vitória, né?
06:01E nós vamos fazer um culto de ação de graça.