00:00Sim, a minha mãe está num lar e foi o melhor para todos.
00:02Hoje vou falar sem merdas sobre ter procurado um lar para a minha mãe.
00:05Em primeiro lugar, as pessoas que acham que o melhor para a pessoa que está doente
00:10é sempre ficar em casa. Lamento dizer-vos, não é.
00:13Há situações em que não é mesmo, por inúmeros fatores.
00:16Pela vida que os cuidadores têm, era melhor a minha mãe estar em casa sozinha o dia todo,
00:21visto que já não consegue tratar dela? Não, não era.
00:24Isto é só apenas um exemplo que eu vos podia dar.
00:27Há pessoas, sim, que ficam em casa até ao fim dos seus dias,
00:31mas ficam 12 horas sozinhas em casa e isso também não é bom para a pessoa.
00:35A pessoa chega a um tempo que precisa de acompanhamento 24 sobre 24 horas.
00:41O julgamento. O julgamento é, sim, toda uma questão.
00:44As pessoas faziam sempre melhor do que nós, sabem sempre mais do que nós.
00:47Não pensam sequer que isto foi uma decisão com vários pareceres
00:50a nível da área da saúde mental, física e que não foi um dia em que eu acordei.
00:55Pensei, olha, se calhar era boa ideia.
00:56O medo. Porque as pessoas julgam muito facilmente, mas acham que para a família está tudo bem,
01:01que é tudo linear, que não há medos, que não há culpa,
01:04não há uma incerteza daquilo que vai acontecer.
01:07Claro que há. E por isso, esta decisão foi uma decisão multifatorial,
01:11foi uma decisão tendo em conta o estado de saúde da minha mãe,
01:14que é Alzheimer já avançado,
01:16tendo em conta o estado de saúde física e mental dos cuidadores,
01:19tendo em conta toda a nossa logística de vida.
01:21E mais uma coisa, espantem-se porque eu também me espantei,
01:24depois da entrada da minha mãe e depois de perceber como é que estava a correr,
01:28que correu lindamente desde o dia 1.
01:30Espantem-se se eu vos disser que ela está muito melhor lá do que em casa.
01:34E aqui vem uma culpa, não é?
01:35De fogo, como é que eu não conseguia?
01:37Mas eu não conseguia.
01:38Eu não conseguia, o meu pai não conseguia.
01:39E é estranho, mas de facto, há instituições preparadas,
01:43muito preparadas, mais do que as famílias,
01:45para receber as pessoas que precisam de cuidados.
01:47Se 1% foi julgamento,
01:49tudo o resto foram profissionais de saúde
01:51e pessoas que trabalham nestas instituições
01:53e que me pediram também para dar feedback e para falar,
01:56porque fala-se pouco deste tema.
01:57E a verdade é que só quem passa por isso é que sabe,
02:00isto é o primeiro.
02:01Nem as pessoas que me são mais próximas conseguem perceber a 100%,
02:03porque só quem está cá 24 sobre 7 é que sabe.
02:06Depois cada caso é muito único.
02:07Uma pessoa com Alzheimer avançado precisa mesmo de cuidados
02:10a 100% do tempo.
02:12Apesar de tudo, esses cuidados são prestados em lares,
02:16em casas de repouso, em instituições que conseguem prestá-los,
02:19que têm formação para isso, disponibilidade,
02:21e que estão lá o dia todo, incansavelmente,
02:24por turnos a cuidar das nossas pessoas, das nossas famílias,
02:27e que se tornam família também.
02:29E portanto, esta decisão não é uma decisão fácil,
02:32não é uma decisão de ânimo leve.
02:33A minha mãe estava em casa connosco há muito tempo,
02:36isso não foi uma coisa do dia para o outro,
02:37e felizmente posso dizer que ela está melhor lá do que estava connosco.
02:41Não há arrependimento nesta decisão,
02:43que é uma decisão de amor.
02:44Se desse lado estão a passar por algum destes processos,
02:47vocês vão saber o que é melhor para a vossa família,
02:48para o vosso caso.
02:49E o que importa é o bem-estar da pessoa,
02:52não o nosso ego de queremos ter a pessoa perto de nós.
02:54Porquê é que eu quero ter a pessoa perto de nós
02:56se ela está pior comigo do que poderia estar noutro sítio?
02:59Pensem nisso.
02:59E aí