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  • há 4 horas
O colunista Gabriel Wainer opina sobre o último debate entre os candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes do segundo turno das eleições. Promovido pela TV Globo, o encontro desta sexta-feira (23) foi a última oportunidade para eles apresentarem propostas e confrontarem suas posições antes da votação, no domingo (25).

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Transcrição
00:00Quem viu o debate da Band ligou a TV hoje e teve a impressão de que os candidatos trocaram de
00:05roteiro.
00:06Flávio Bolsonaro chegou moderado, falando com o eleitor indeciso que rejeita a retórica violenta habitual do bolsonarismo.
00:13Prometeu governar para todos e citou parcerias com governadores do campo oposto.
00:18Lula fez o caminho contrário.
00:20Subiu o tom e gastou boa parte do tempo, quando não jogou minutos fora, atacando o governo do pai do
00:26adversário.
00:27O gesto mais revelador da noite foi um pedido de desculpas.
00:31Flávio debochou de Lula o chamando de nove dedos, ouviu do presidente a história do acidente de trabalho e recuou.
00:38Um Bolsonaro reconhecendo o erro em rede nacional é uma coisa muito rara e mostra que a campanha enterrou a
00:45aproximação desastrada com Pablo Marçal.
00:48A arrogância apareceu nos grupos focais.
00:50A despablo-marçalização, como cunhou aquele Matos, virou estratégia para que o indeciso não migre para Lula por medo.
00:59Aquele foi o melhor momento de Lula também, que enfim contou a própria história como alguém que conhece a dor
01:04do trabalhador.
01:05O resto da noite jogou contra o presidente.
01:08Lula se atrapalhou com o tempo, repetiu a pergunta sobre licença-maternidade do debate anterior
01:13e perguntou sobre uma privatização do SUS que ninguém propôs.
01:17Levantou a bola e Flávio usou a tréplica para apresentar propostas e atacar o governo.
01:22O ponto central, porém, está no discurso.
01:25Lula passou a noite culpando a elite e chamou a reclamação contra uma das maiores cargas tributárias do planeta de
01:32reclamação da elite.
01:34Só que, segundo o Datafolha, 56% do país prefere pagar menos imposto, mesmo tendo menos serviços públicos.
01:41A maioria absoluta não é elite.
01:43E quando se olha para o voto, a conta fica ainda pior para o presidente.
01:47No primeiro turno, nos 20% dos bairros mais pobres do Rio de Janeiro,
01:52Flávio teve 51% dos votos válidos contra 41% de Lula.
01:57Nos 20% mais ricos, Lula venceu com quase 50%.
02:02A elite que Lula ataca no palanque é, em boa parte, quem vota nele também.
02:06E o pobre que ele diz defender está do outro lado.
02:09O inimigo dos anos 90 não é o mesmo de 2026.
02:13Flávio entendeu isso e acenou para o empreendedorismo na favela,
02:17conversou com o CEO de MEI e resgatou o marco legal do saneamento,
02:21uma das poucas medidas bem avaliadas do governo do pai dele.
02:24Mas nem tudo colou, claro.
02:26Flávio chamou Lula de pai do tigrinho,
02:28mas foi o governo de Jair Bolsonaro que deixou o decreto das Betes na gaveta por quatro anos.
02:33Então a paternidade é compartilhada.
02:36A noite terminou com o apresentador César Trale gritando no meio da algazarra da plateia,
02:41um retrato do nível dessa eleição.
02:43O debate dessa sexta começou propositivo e desceu ao subterrâneo, no último bloco,
02:48com acusações que deveriam ficar no máximo com a militância.
02:52Até porque, em suspeitas de corrupção,
02:55a disputa entre os dois me parece bem mais apertada do que sugere o último Datafolha.

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