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  • há 8 horas
Helena Coelho
Transcrição
00:00Há uma coisa que me está a inquietar bastante sobre tudo isto que se está a passar em Portugal.
00:03Primeiro, porque começámos por falar sobre direitos básicos de acesso a casas,
00:08de que as pessoas não estão a ter, e de repente parece que a discussão virou
00:11sobre quem é que está certo, seja a polícia ou os manifestantes.
00:14E eu acho que estamos a perder totalmente o foco,
00:16porque isto nem sequer devia ser uma questão de escolha de lados,
00:19porque a Constituição garante-nos o direito à manifestação.
00:23É um dos pilares de uma democracia, precisamente, não é?
00:25E é precisamente quando as pessoas estão descontentes que esse direito se torna tão importante, certo?
00:30E se queremos as leis a nosso favor, obviamente também temos que cumprir os nossos deveres.
00:33Há leis, há regras de utilização de espaços políticos, desculpem, públicos.
00:37E segundo a PSP, houve ordens para retirar as tendas e não foram cumpridas.
00:42E eu acho que é importante também reconhecer isso.
00:44Agora, há uma grande diferença entre ter legitimidade para intervir
00:49e ter legitimidade para usar qualquer grau de força nessa intervenção.
00:53E a polícia tem como responsabilidade garantir que a lei é cumprida,
00:58mas também tem como responsabilidade cumprir os cidadãos e os seus direitos.
01:01Força utilizada tem que ser adequada e minimamente proporcional.
01:05E as imagens desta madrugada são preocupantes, merecem esclarecimentos e transparência.
01:10Embora vocês me cobrem um producionamento, às vezes eu não o quero fazer,
01:13porque eu não quero, nem acho responsável, fazer julgamentos definitivos
01:16a partir de vídeos de poucos segundos, às vezes em silêncio, muitas vezes sem contexto.
01:21Não me quero só informar por coisas que vejo no Instagram, como é lógico.
01:24Então, também não acho aceitável que a falta desse contexto sirva para desvalorizar aquilo que estamos a ver.
01:29Sou completamente a favor da manifestação, mas sou a favor de o fazer de uma forma ordeira.
01:33E, obviamente, se houve comportamentos ilegais por parte dos manifestantes, devem ser apurados.
01:37Se houve uso excessivo de força por parte das autoridades, também.
01:41Sem exceções.
01:42Embora eu respeite a polícia, isso não significa que eu não possa questionar a sua atuação.
01:48E também defender o direito da manifestação não significa concordar com absolutamente tudo o que acontece
01:53durante uma manifestação.
01:54Compreendo que ter uma plataforma pública traz responsabilidade e, por isso, obviamente,
01:57tem a expectativa de um posicionamento.
02:00Mas ter responsabilidade também significa não transformar uma situação tão delicada quanto esta
02:05numa opinião muito precipitada, tal como eu estava a explicar agora,
02:08só porque sentimos que temos que dizer alguma coisa imediatamente.
02:11Mas, falando em cobrar posicionamento, devíamos fazê-lo de quem?
02:15Do Montenegro e de outros tantos, não é?
02:17Porque há uma diferença muito importante entre o tempo que se exige a um cidadão para
02:22refletir e a responsabilidade de quem governa de prestar esclarecimentos.
02:26Portanto, gostava, efetivamente, de ver o Luís Montenegro, a sua posição clara sobre
02:30o que aconteceu.
02:31Estava muito caladinha há muito tempo.
02:32E, sobretudo, sobre as soluções para o problema que levou tanta gente à rua.
02:36E esse, sim, é o ponto fulcral desta situação.
02:38Estamos a falar de famílias que pagam seus impostos, que trabalham todos os dias,
02:42cumprem suas obrigações.
02:43E quem está assim não conseguem garantir uma casa com condições e um preço comportável.
02:47Estamos a falar de jovens que não conseguem sair de casa dos pais, ter vidas empreendentes,
02:51pessoas que adiam projetos de vida.
02:52A quantidade de famílias que vivem naquela angústia sem saber se conseguem pagar a próxima
02:56renda.
02:57E isto não pode ser normal.
02:58Tenho plena consciência da minha realidade.
03:02Eu tenho uma casa, tenho estabilidade.
03:03Sei que há preocupações que eu não vivo da mesma forma que outras pessoas.
03:07Portanto, tenho plena consciência de classe e de privilégio.
03:10Não vou fingir que conheço dificuldades que não são as minhas, mas isso não me impede
03:14de reconhecer a injustiça.
03:16Até porque, como dizem, se a dor do outro não te afeta, estás morto por dentro há
03:20muito tempo.
03:21Não me impede de reconhecer não só a injustiça, como de ouvir quem vive essas preocupações
03:26e angústias, de compreender a importância de quem se manifesta por uma vida mais digna.
03:29E quero deixar uma palavra de gratidão e de respeito para todas as pessoas que de forma
03:34ordeira, respeitosa, pacífica, saem à rua, organizam-se, dedicam o seu tempo a lutar
03:41pelos direitos de todos nós.
03:42Até porque muitas das liberdades e conquistas que hoje damos como garantidas só existem
03:47porque um dia houve pessoas que não aceitaram ficar caladas.
03:51Nós não precisamos concordar com todos os métodos de protesto para reconhecer a legitimidade
03:55da causa.
03:56E este é o maior ponto que eu queria deixar aqui.
03:58E, ao mesmo tempo, também não podemos deixar que a discussão sobre a intervenção policial
04:02substitua a discussão sobre a crise da habitação.
04:05Porque este é o ponto.
04:06O problema político e social desta dimensão precisa, sobretudo, de respostas políticas.
04:11E é isso que eu acho que nós todos queremos.
04:13Precisamos de um diálogo com transparência, com responsabilidade nas medidas certas e que
04:17tenha um impacto real e reais na vida das pessoas.
04:19Até porque lá está, como eu comecei este vídeo, uma democracia não se mede apenas
04:23pela capacidade de se fazer cumprir a lei.
04:25Mede-se também pela forma como protege quem se manifesta, pela capacidade de ouvir e responder
04:30a quem pede mudanças e, às vezes, este silêncio por parte de quem governa torna-se complicado
04:35aceitar.
04:36E, no meio disto tudo, há uma pergunta que não podemos deixar de nos fazer.
04:38O que é que está a falhar num país onde tantas pessoas trabalham, cumprem os seus
04:42deveres e, ainda assim, não conseguem ter acesso a direitos básicos, ter uma casa onde viver?
04:48E é isto.

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