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A forte reação do mercado financeiro à reeleição de Lula, com disparada do dólar e queda da Bolsa, aumenta as dúvidas sobre os rumos da economia. O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, analisa a turbulência registrada na segunda-feira (26), as preocupações com as contas públicas e os sinais esperados da equipe econômica do novo governo. Saiba todos os detalhes no News Primeira Edição.

Imagens: SBT News

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#Lula #eleições2026 #Mercadofinanceiro

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Transcrição
00:00Para analisar esse cenário, entender a dimensão dessa resposta do mercado à eleição de Lula e o quanto a escolha
00:07da equipe econômica do governo Lula 4 pode ajudar a acalmar o mercado financeiro,
00:12a gente conversa agora com Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV.
00:18Muito obrigada por conversar conosco aqui no SBT News.
00:21Os economistas apontam que a definição da equipe econômica e a apresentação de medidas concretas podem ajudar a recuperar a
00:28confiança do mercado.
00:30Mas quais os sinais o governo Lula precisa dar nas próximas semanas para reduzir essa incerteza?
00:36Por exemplo, a escolha dos nomes para a fazenda, para outros postos também estratégicos, pode ser suficiente ou o mercado
00:43vai exigir compromissos fiscais mais objetivos?
00:48Oi, bom dia, obrigado pelo convite.
00:50Eu acho que são várias questões, né?
00:52O mercado gostaria de ter previsibilidade, essa é uma lógica comum aos movimentos financeiros.
01:00E para que você tenha previsibilidade, você precisa de uma série de coisas.
01:03Primeiro é entender quem que é a equipe econômica.
01:05Equipe econômica nesse momento é fundamental porque ela pode emprestar reputação e, portanto, trazer confiança no futuro.
01:12Mas só equipe também não basta. É preciso que sejam anunciados um plano de voo, metas para se ajustar às
01:21contas públicas.
01:22Para que isso tenha credibilidade, precisa ser acoplado a um anúncio de medidas que serão adotadas.
01:30Não adianta falar, olha, vou buscar aqui um resultado primário de 2,5% se isso não estiver associado a
01:36medidas factíveis que possam, de fato, conduzir a esse cenário.
01:40E, por último, eu diria que é preciso que haja apoio político, do executivo, do legislativo, para essa agenda de
01:47estabilização.
01:48Então, são várias medidas que, no fundo, reduzem o desconhecimento e incerteza em relação ao futuro.
01:54E, ao fazer isso, trazem menor instabilidade financeira, um bom desempenho para ativos como câmbio, juros e bolsa de valores.
02:03Antes da eleição, havia uma expectativa majoritária no mercado de que Lula não apresentava um plano claro de ajuste para
02:11conter o crescimento da dívida pública.
02:13Qual o peso dessa preocupação fiscal nessa reação?
02:17O que os investidores esperam ouvir, por exemplo, do presidente reeleito sobre gastos públicos, equilíbrio das contas?
02:24Eu acho que a grande fragilidade econômica do país hoje é o fato da dívida do governo mostrar uma trajetória
02:31clara de alta.
02:32Ela se encontra nos patamares mais elevados da história, acho que a exceção da pandemia em 2020.
02:37E essa trajetória de alta, ela preocupa porque ela acontece em um contexto global desfavorável.
02:44A gente tem alta de juros internacionais, investidores do mundo todo cautelosos e, portanto, seletivos em relação às suas opções.
02:52Nesse ambiente global de aversão a risco, quando você tem um aumento da dívida pública, isso pode acabar inibindo fluxo
02:59para o país,
03:00pressionar o dólar, o custo das empresas e, portanto, fazer com que a inflação mais alta mantenha juros elevados.
03:07E isso pode ser complicado numa situação como a que a gente vive hoje, de elevada atenção financeira das famílias,
03:15das empresas e do próprio governo.
03:16Portanto, é preciso um sinal de que o governo vai conseguir estabilizar a dívida pública e, com isso, abrir espaço
03:23para a queda da taxa de juros,
03:24trazendo alívio financeiro.
03:26Mas para a dívida pública, é necessário que você tenha uma sobra de caixa, é necessário que você tenha o
03:33que a gente chama de superávites primários.
03:35Então, a sinalização do governo, nesse momento, tem que ser na direção de que as contas públicas serão administradas no
03:43sentido de gerar sobras
03:45e, portanto, a médio prazo, capacidade política e técnica de estabilização de dívida.
03:51Agora, falando um pouco da reação de ontem, foi de forte queda da Bolsa e disparada do dólar,
03:57que fechou o dia cotado a R$ 5,40, que é a maior valorização diária da moeda norte-americana,
04:03isso desde 1999, quando o Brasil abandonou o regime de câmbio fixo, passou a permitir que a cotação fosse determinada
04:11pelo mercado.
04:12O que explica uma resposta tão brusca dos investidores?
04:15O resultado eleitoral, por si só, explica essa dimensão dessa turbulência?
04:20Ou o principal fator é a expectativa sobre a política econômica deste governo Lula 4?
04:27Eu acho que o que a gente viu ontem nos mercados locais foi uma mudança de nível de preços.
04:33Então, a Bolsa se ajustou para um patamar mais baixo, o dólar para um nível mais elevado.
04:38A gente viu o retorno dos mercados futuros de juros a taxas mais altas.
04:42Esses movimentos de ajuste refletem uma informação nova.
04:47Você tem superada a eleição, você tem um novo governo e esse novo governo tem desafios econômicos.
04:53Esses desafios acabam sendo incertezas que geram prêmios de risco e, portanto, níveis diferentes de preço.
05:01Então, eu diria que ontem o que a gente viu nos mercados foi um ajuste dado à informação do quadro
05:07político.
05:07Nada mais do que isso. É uma adaptação, uma realidade nova.
05:13Uma reação, de fato, já vista em outras oportunidades, em outros governos que não eram esperados ali pelo mercado financeiro.
05:22É, eu acho que é uma reação, uma informação nova do cenário, qualquer que seja ela.
05:26Quando você tem um conflito, quando você tem uma decisão de política monetária no mundo, quando você tem eleições no
05:32Brasil, decisões do governo aqui no Brasil.
05:35Quando você tem uma informação nova, os mercados reagem a essa informação, incorporam esse dado na leitura econômica e, portanto,
05:43na leitura de preços relevantes, como taxa de juros, câmbio e bolsa.
05:47Então, eu diria que, independentemente do resultado eleitoral, é o mercado reagindo ao cenário econômico.
05:54E essa turbulência também atingiu as ações da Petrobras, do mercado de juros futuros, levando à suspensão de negociações de
06:01parte dos títulos do Tesouro Direto, por exemplo.
06:04Como é que essa instabilidade pode chegar à economia real?
06:07Em que momento a alta do dólar, dos juros, começa a afetar o bolso da população?
06:13Esse é um ponto fundamental, porque o que a gente está vendo agora é um ajuste nos mercados financeiros.
06:18Agora, esses movimentos financeiros, eles não ficam isolados nesse mercado, eles acabam, pela característica desse mercado, acabam se propagando pela
06:27economia.
06:28Então, eu diria que um movimento pode ser através do câmbio, o câmbio pressiona custos e faz com que a
06:34inflação ceda menos, se a inflação cede menos, o Banco Central reage menos com cortes de juros.
06:40A gente está vivendo hoje um processo de alívio monetário no Brasil e o Banco Central pode ser mais cauteloso
06:44caso o dólar fique pressionado.
06:47Um outro canal é que os mercados futuros de juros passaram a incorporar uma leitura de que a gente sem
06:55ajuste fiscal tem menos espaço para corte de juros,
06:57portanto os juros ficariam mais elevados por mais tempo.
07:00É o que o mercado está dizendo para a gente ontem.
07:04Agora, essa combinação de menos espaço para corte de juros pelo Banco Central e custo do dinheiro efetivamente mais alto
07:11nos mercados
07:11acaba impactando um cenário que já é complicado, que é um cenário de tensão financeira.
07:18Então, quando você tem juros altos com famílias, empresas e governos endividados, a tensão financeira aumenta.
07:25De modo geral, a indústria bancária fica muito mais cautelosa, isso acaba batendo no crédito e aí começa a afetar
07:32o bolso da população,
07:34porque com menos crédito você vai consumir menos, as empresas vão vender menos e aí há uma expectativa que a
07:40taxa de desemprego pode subir.
07:41Então, esse processo acaba contagiando o ambiente econômico na medida em que os juros ficam elevados,
07:48encarece o crédito, reduz o consumo e aumenta o desemprego.
07:51E o que devemos esperar e observar também daqui para frente?
07:55Quais indicadores e decisões do próprio governo federal serão fundamentais para avaliar a trajetória do dólar, da bolsa, dos juros
08:04nos próximos meses?
08:07Marias, eu acho que os investidores, de maneira geral, vão ficar aguardando informações novas.
08:11Eles vão se ajustando e reagindo a cada cenário.
08:14Eu acho que o que faz sentido, o próximo passo, é que o governo eleito indique a sua equipe econômica.
08:21Os nomes fazem diferença nesse momento, porque como eu falei, eles podem emprestar reputação para a gestão econômica como um
08:28todo.
08:29Então, a indicação é importante.
08:31Uma vez indicada a equipe econômica, a gente vai precisar entender quais são as suas estratégias, quais são as suas
08:37políticas,
08:38para também, a partir daí, perceber qual que é a possibilidade de que a dinâmica da dívida pública no Brasil
08:45seja alterada ou não.
08:47Enfim, a gente vai ter mais informações sobre isso.
08:49Entendendo qual que é a dinâmica fiscal no país, aí sim, você vai poder fazer preços, como qual é a
08:56reação do Banco Central,
08:57portanto, qual que é a taxa de juros que vai prevalecer nos mercados.
09:00Com taxa de juros, você entende exatamente qual a capacidade do país atrair fluxos,
09:05portanto, a gente vai ter uma resposta sobre dólar e com juros e câmbios,
09:09você vai entender qual que é o ritmo de crescimento da economia,
09:12o que, obviamente, afeta os negócios, principalmente o mercado acionário.
09:15Então, acho que a gente vai ter um conjunto de informações nas próximas semanas
09:18que vão ajudar o mercado a entender o cenário, reduzir a imprevisibilidade
09:22e, portanto, diminuir a volatilidade que a gente tem visto.
09:26Queria frisar mais um ponto que a gente trouxe no comecinho,
09:29mas o que o mercado vai esperar a curto e a longo prazo de decisões desse novo governo Lula 4
09:37agora
09:37para que essa instabilidade saia um pouco do cenário?
09:43Clarice, existe um consenso técnico sobre o que precisa ser feito.
09:46Esse não é o desafio do país.
09:48O desafio do país é justamente a capacidade política de se implementar a agenda de estabilização.
09:54Mas, do ponto de vista técnico, o consenso que existe entre os economistas
09:58é de que é preciso mudar a indexação de gastos como saúde e educação,
10:05desindexar o sistema previdenciário dos ganhos reais de salário mínimo,
10:11indexando eles, por exemplo, essas despesas, a inflação.
10:15É preciso atacar o problema do gasto tributário, que parece muito elevado,
10:19essa gera uma preocupação do governo anterior.
10:22Você tem espaço para reformas na estrutura de gastos do Estado,
10:26como a reforma administrativa, a reforma da Previdência.
10:29Portanto, há um conjunto de medidas que podem ajudar o governo a gerar caixa
10:37e, portanto, pagar a dívida que subiu muito nos últimos quatro anos.
10:41Então, é preciso estabilizar essa dívida.
10:44Tecnicamente, eu diria que é relativamente simples a receita para se gerar esse caixa.
10:49O desafio nosso, no entanto, é o desafio da implementação política.
10:53Será que a gente vai ter as condições, a vontade política de se enfrentar a esse problema?
10:57Acho que essa que é a dúvida dos mercados hoje.
11:01Perfeito.
11:02Conversamos agora com Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV.
11:06Muito obrigada pelos esclarecimentos.
11:08Uma ótima terça-feira para o senhor.
11:11Obrigado pelo convite.

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