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RONALDO FRAGA REVELA SUAS ORIGENS

O estilista mineiro Ronaldo Fraga participa do segundo episódio do podcast Opinião com Estilo, do Jornal Estado de Minas.

Aos 60 anos, ele celebra os 30 anos de sua marca e conta como a infância em Belo Horizonte, a literatura, a arte e a cultura popular brasileira influenciaram sua trajetória na moda.

Na entrevista, Ronaldo Fraga relembra o início da carreira, a experiência em Nova York e Londres, a valorização das tradições brasileiras e coleções inspiradas em Zuzu Angel e Carlos Drummond de Andrade.

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Transcrição
00:00Oi gente, estamos aqui no segundo episódio do nosso Opinião com Estilo e temos hoje um convidado pra lá de
00:09especial que eu amo de paixão, que é o estilista Ronaldo Fraga, que está simplesmente comemorando 30 anos da sua
00:20marca e 60 anos de vida, porque na última terça-feira ele fez aniversário.
00:26Muito obrigada, parabéns Ronaldo, que você seja muito feliz, que esse ano realmente seja um ano mais especial que todos
00:37os outros que você já viveu, porque são duas datas muito importantes.
00:41É um presente estar aqui, é um presente, a notícia, a novidade do podcast aqui do Estádio Minas, adorei, e
00:48está com você.
00:48É uma honra ter você aqui. Gente, eu falo que todos os convidados aqui, foi Gustavo Pena na semana passada,
00:57dispensam apresentações, mas a gente tem que falar.
01:01O Ronaldo Fraga é um dos estilistas mais renomados desse país, mineiro, aqui de Belo Horizonte, que a gente ama
01:10demais.
01:11A trajetória dele de moda passa pela arte, pela literatura, tem uma profunda valorização da cultura popular brasileira.
01:21Ele viaja o Brasil inteiro e ele suga dessa cultura de todos os estados, da raiz mesmo.
01:32E eu nunca vi tanta criatividade, você borbulha a criatividade.
01:38Então, nesse bate-papo, nós vamos falar aí das coleções, algumas coleções.
01:45Mas eu estava falando aqui que se a gente falar de tudo dele, vai ter que ser série turca, 1
01:50.500 capítulos, não dá.
01:52Então, nós vamos falar um pouquinho da vida dele e de algumas coleções.
01:59E vamos começar da sua infância, porque eu fiquei muito impressionada, porque você perdeu sua mãe quando você tinha 6
02:09anos,
02:11e perdeu seu pai quando você tinha 10.
02:14Como é que foi crescer, sem pai, sem mãe?
02:19Quem foi sua referência aí?
02:21Como que foi essa vida desde a infância, só você e seus irmãos?
02:27Como é que foi isso?
02:28Bom, primeiro, eu gosto de falar que o Brasil era outro.
02:32Então, era uma época que eu fui sequer na Sagrada Família e as crianças brincavam na rua.
02:37E os vizinhos cuidavam dos filhos dos outros também.
02:42Então, tinha uma coisa de uma grande família ali, naquela convivência.
02:47Nós éramos cinco irmãos, e minha irmã do meio, eu e o Rodrigo, também o estilista mais jovem, dois mais
02:55velhos.
02:55Mas era tipo assim, o Rodrigo estava com 5 anos e o mais velho estava com 15.
03:00Então, ficamos crianças e adolescentes em casa.
03:04Outro dia, eu estava lembrando que eu e ele, a gente brincava desenhando dentro de casa.
03:08As paredes eram todas desenhadas.
03:10E eu achava que era normal criança desenhar em parede.
03:14E a vizinhança, ela chegava para poder ver os desenhos na parede.
03:17A gente desenhava, fazia retrato da vizinhança na parede.
03:20Quando já estava tudo desenhado, desenhava em papel e colava por cima.
03:22Então, foi uma infância que a brincadeira veio de um lugar de poucos recursos.
03:30Eu acho que talvez a falta foi fundamental para que, nesse lugar da falta, eu me forjasse o adulto que
03:38eu sou.
03:40Tipo, a procissão de semana santa na rua.
03:43Quem chamava para desenhar?
03:45Eu.
03:45Então, eu ia desenhar a rua inteira para que a vizinhança viesse ali fazendo os tapetes com serragem, com calco,
03:53não sei o que lá.
03:54Então, tudo que era referente a desenho que a vizinhança precisasse, eles vinham atrás de mim.
03:59Tipo, o cara querendo dar de presente para a namorada um desenho.
04:03Eu fazia o rosto dele.
04:04Ou vice-versa.
04:05E aí, essa história também era muito forte, ou talvez a única referência, a cultura da televisão.
04:13Sou de uma geração da televisão.
04:15E a televisão nos anos 70, apesar da censura que a gente estava passando,
04:21teve algo assim que o Círculo Papal Amarelo, a adaptação de 77,
04:26as adaptações de literatura para a televisão.
04:29Então, eu acho que foi um momento muito rico nesse sentido.
04:34E assim, você tinha que pegar e tentar se virar daquela forma.
04:38Eu sonhava um dia que alguém me pagasse um curso de desenho.
04:43Porque eu nunca tinha feito curso de desenho.
04:45Mas você era desenho instanato.
04:46É, mas não tinha isso.
04:47Eu queria aprender.
04:48Eu achava que um dia eu fosse aprender.
04:50Então, na adolescência, eu comecei a procurar nos classificados, nos jornais, cursos de desenho que fossem gratuitos.
04:57Então, tinha faixa de rua, tinha rosca de parafuso.
05:00Porque aí você ia lá fazer o curso e eles te empregavam, de alguma forma e tal.
05:04E foi aí que eu encontrei uma vizinha no ponto do ônibus.
05:07E ela estava indo para um curso de figurinista no Senac.
05:09E quando ela me mostrou a pasta de desenho, que era de desenho de moda, eu achei que era uma
05:13coisa mais linda.
05:14Mas eu não me prendi na roupa.
05:16E nem que era um desenho de roupa.
05:17Eu vi que o desenho era lindo.
05:18E ela falou, ah, é um curso gratuito no Senac.
05:20Você passa por uma prova de admissão.
05:22E era um curso, sei lá, de quatro, seis meses.
05:24Bom, primeiro que eu fui escondido fazer esse curso dos amigos.
05:28Por quê?
05:29Se naquela época, que era início dos anos 80, dissesse que num futuro próximo, o Brasil seria o país com
05:35maior número de faculdades de moda do mundo.
05:37Ou que moda seria algo que se aprendesse sem faculdade, eu ia rir na sua cara.
05:41Porque a turma era formada por senhorinhas de cabelo lilás, que estavam ali para aprender a desenhar as costas do
05:46figurino.
05:47Cabelo lilás e cabelo lilás.
05:48É, porque foi aquele período pré-petaportê.
05:50As pessoas tinham a coisa da costureira de família.
05:53Presenteavam com corte de fazenda.
05:55Então, eram senhorinhas.
05:57A turma era formada por essas senhorinhas e a outra parte formada por travestis.
06:00As meninas estavam ali para aprender a desenhar a fantasia de carnaval.
06:03Com a maturidade, eu fui ver que eu sou a mistura dos dois.
06:06Das velhinhas com os travestis, entendeu?
06:08Então, sacode isso aí.
06:11Aí eu fui escondido dos amigos, porque era o final da ditadura militar.
06:15Eu já estava naquela coisa de movimento de rua, de estudantil, defender cinema metrópole, tombamento cinema metrópole, bomba de gás
06:23arquimogênico, acertetada, aquela coisa toda.
06:25E só lia literatura política.
06:26Então, não combinavam os amigos ficarem sabendo que eu estava fazendo desenho de roupa.
06:30Lá no Routo Minambás, lá no Vinal.
06:33Quando terminou o curso, eu recebo uma ligação oferecendo um emprego numa loja de tecidos.
06:39E aí, essa era na Rua Paraná.
06:42Eu ia te perguntar isso.
06:44Porque eu vi que você trabalhou desenhando roupa numa loja de tecidos.
06:50Porque era isso.
06:51E quando me ligaram, eu me lembro que eu falei assim, Isabela, quanto que eu tenho que pagar?
06:54Minha preocupação era essa.
06:55Eu falei assim, não.
06:56Você não tem que pagar.
06:57Você vai receber por isso.
06:58Eu falei, o quê?
06:59Eu vou trabalhar o dia inteiro desenhando e vamos pagar.
07:02Só que eu achei que foi um pesadelo.
07:04Porque quando abriu a porta da loja, tinha uma fila de umas 30 mulheres já com rolo de tecido de
07:08lado do braço,
07:09criando roupa para o casamento, para o velório, para o batizado.
07:12E as mulheres eram pretas, gordas, amarelas, laranjas.
07:17E aí, depois, décadas depois, eu também, com a maturidade, eu fui ver que o melhor da minha formação não
07:24foi a Passions em Nova York.
07:25Não foi a Sam Martins de Londres.
07:27Foi a loja de tecidos.
07:28E aí, é isso que eu ia perguntar, porque a sua moda sempre foi muito autoral, muito sua, muito personalidade
07:35ali.
07:36Como que foi desenhar na loja de tecido?
07:40Porque é isso que você falou, era gente de tudo que é tipo, e você não ia desenhar o seu
07:45gosto,
07:46você tinha que desenhar o que elas queriam.
07:48Como é que foi isso?
07:49Primeiro que, naquela época, não existia esse negócio de autoria na moda.
07:53Eficiente era quem conseguisse copiar.
07:54Eficiente era quem tinha condição de ir fora do país, pegar uma roupa, provar, colocar no camarão de coisa,
08:03fotografar, então trazer uma revista importada.
08:05Não era fácil isso aqui no Brasil.
08:07Não, é.
08:07Mas eu falo que talvez esse olhar autoral, ele vem justamente daí.
08:11Por quê?
08:12Porque eu peguei aquele último, era o fim de um período da história da moda no Brasil e o início
08:19de outro.
08:19Porque ali estava finalizando o período da roupa sob medida para começar o preto aportê.
08:24E nesse período que estava finalizando ali, as pessoas tinham mais autonomia sobre o próprio corpo.
08:31O padril não tinha que ter essa medida.
08:33A cintura não tinha que ter essa medida.
08:35E era muito engraçado, porque elas chegavam, arrancavam a folha da revista e falavam assim aqui,
08:40desenha para mim as postas desse modelinho e muda alguma coisinha.
08:44Porque eu quero exatamente isso.
08:45Só que ao invés dessa manga bufante, eu quero uma manga presunto.
08:47Ela direcionava.
08:48Olha a saia rodada, você põe a saia justa.
08:51Então, quer dizer, até aí as pessoas criavam.
08:53E tinha uma outra coisa que eu aprendi.
08:55Porque quando eu fui para a loja, eu só sabia fazer um desenho bonito.
08:58Eu não tinha conhecimento de costura e de roupa.
09:00Eu aprendi numa manga e devo ter arrasado com o tecido de muita gente.
09:05Só que aí eu tomei gosto por aquilo.
09:08Porque eu aprendi uma coisa que eu trago para a vida até hoje,
09:13que é por trás da escolha de uma roupa, vai sempre existir uma conquista amorosa.
09:19Uma conquista amorosa com o seu tempo, uma conquista amorosa com o seu grupo.
09:23E a parte mais difícil, uma conquista amorosa com você mesmo.
09:25Então, quando a pessoa sentava, eu começava a desenhar a carinha dela aqui assim,
09:29como se estivesse desenhando a Isabela, o óculos dela, o cabelo,
09:31e tentando puxar coisas dela.
09:33E ali começando a contar a vida dela, a história dela.
09:36E nessa contação da história particular, a roupa aparecia.
09:40Nem ela sabia que a roupa que ela estava ali querendo que eu desenhasse,
09:44ela ia me contar, como se eu estivesse psicografando isso.
09:46E eu lembro que eu ia para casa no final de semana e ficava viajando as histórias.
09:51Ah, hoje vai ser o casamento com aquela menina que é empregada doméstica,
09:54comprou um tecido e que ela vai para a cidade do interior dela
09:59e ela vai chegar com uma tieta chegando no Agreste, sabe?
10:03Ou aquela pessoa que vai encontrar com o amor dela e tal.
10:06Então, assim, aí eu falei, gente, o fascinante da moda é isso.
10:09Aí eu tomei gosto pela moda.
10:11Aí um dia apareceu uma pessoa que tinha um ateliê de alta costura e roupa para aluguel,
10:18que era a ID, ali no Santo Antônio.
10:21E ela falou que... Ela sempre comprava tecido lá.
10:24Ela falou assim, quanto você ganha aqui?
10:25Eu falei, X. Ela falou, te pago três vezes para você ir trabalhar comigo.
10:28Aí eu fui.
10:29Foi aí que eu saí da minha bolha de menino da periferia
10:32e fui para uma outra bolha, para uma classe média mais alta.
10:38E aí foi aí que eu aprendi.
10:40E logo na sequência veio o curso de estilismo da UFMG,
10:43que foi o primeiro do país.
10:45Aí chegou a hora do vestibular, aí eu fiz para Belas Artes da Guiné-Anhá,
10:49eu fiz arquitetura e fiz o recém-instaurado curso de moda.
10:52Passei nos três, mas eu acabei escolhendo moda.
10:54E aí eu estou aqui com você.
10:55E aí...
10:57Ainda bem. Muito bem escolhido. Valeu muito a pena, não é não?
11:00É.
11:01E, assim, você, porque você sempre foi muito criativo e tudo,
11:09eu imagino como você não era criativo, mesmo antes de fazer moda,
11:16e você conseguiu absorver muito, o curso te acrescentou muito?
11:22Primeiro, que era um primeiro curso de moda,
11:24nem sei como é que era essa estrutura dele no início.
11:26Até hoje, quando me perguntam e pedem indicação para cursos,
11:29eu falo que, assim, o aproveitamento de uma faculdade, seja de qualquer área,
11:35eu acho que está no aluno, ele entender o que ele pode tirar dali, naquele momento.
11:43Então, você não sai formado de nada, de nenhuma escola.
11:47Depois do seu empenho.
11:49A escola é de fora, mesmo.
11:50Então, eu me lembro que a escola de Belas Artes, a escola da UFMG,
11:54tinha a Júnia Mello dando aula de modelagem,
11:58tinha um professor de alfaiataria,
12:02e tinha um professor, que esse foi um grande mestre,
12:08que ele dava...
12:10A primeira matéria, você chegava no UFMG, já tinha aula com ele,
12:13que era a história indumentária, que era o Décio Noviello.
12:15Então, o Décio Noviello...
12:17Cara, o Décio Noviello era carnavalesco,
12:19era figurinista.
12:21Então, ter a sorte de, no caminho, numa trajetória,
12:25encontrar com o Décio Noviello, não é pouco.
12:28Então, eu lembro que no primeiro dia de aula,
12:30ele vai e apresenta o filme, o baile, doeta de escola.
12:33Duas horas de filme.
12:34Aquele filme que é maravilhoso,
12:37é uma referência para a moda.
12:38Então, o Décio, quando era aula com ele...
12:42O curso todo valeu pela aula do Décio.
12:45Então, até, quando encontrei com o Décio,
12:49pouco antes do falecimento dele,
12:51eu falava que, para sempre,
12:53eu vou estar falando e jogando louros
12:56sobre o artista Décio Noviello.
12:58Ele era muito bom.
13:00E tinha uma outra vantagem,
13:01que, como não tinham professores da área de moda,
13:04os professores da área de moda eram da Belas Artes.
13:06Então, a minha formação foi uma formação de estilismo
13:10com um olhar lapidado pelo olhar de professores e artistas plásticos.
13:15Então, quando você olha o meu trabalho,
13:17talvez, e sabendo disso,
13:18aí você entende onde eu me forjei.
13:20Foi justamente aí.
13:22Muito bacana.
13:23E, bom, você fez a primeira coleção,
13:28que foi Eu Amo Coração de Galinha,
13:30lá no Fitoervas, em 1996.
13:32Mas aí tem uma lacuna que, quando eu saio do...
13:34Porque você foi para Nova Iorque e para Londres.
13:36Teve um concurso nacional promovido pela Santista.
13:39Era dois anos de eliminatória.
13:41É um concurso que começava a receber mil e tantos projetos.
13:43Você tinha que desenhar de novo.
13:45Até terminar cinco no funil.
13:47E o prêmio foi uma pós-graduação na Paz, em Nova Iorque.
13:50De Nova Iorque.
13:51Aí eu fui para Nova Iorque, depois eu fui para Londres.
13:52Então, eu fiquei ao todo quatro anos fora do Brasil.
13:54Quatro anos fora.
13:55De 92 a 96.
13:57Isso.
13:57Isso.
13:58Aí, quando eu volto para o Brasil,
14:00estava o auge.
14:00Aí você já volta com outra cabeça também.
14:03Não, total.
14:03Porque aí você já...
14:04Total.
14:05Mas foi uma coisa que, assim,
14:06era uma época que quem saía não voltava.
14:10Todo mundo queria as chances de ir embora.
14:12Ainda mais jovem.
14:13Sabe?
14:14Estava ali aquela confusão de Collor, impeachment.
14:18Aquela confusão toda do país política, econômica, inflação alta.
14:22E eu lembro quando você chegou aqui para falar com a Ana Maria.
14:26E aí, quando eu fui para lá, para essa história de Londres e Nova Iorque,
14:30eu olhei de lá e falei, gente, teve um momento, tá?
14:35Que eu acho que ele foi uma virada na minha cabeça.
14:37Eu estava em Nova Iorque.
14:39Eu não conhecia muito bem os estilistas.
14:40A gente não tinha informação.
14:42Era um mundo pré-internet.
14:44E eu estava andando no sorro.
14:46Quando, de repente, eu me deparei com uma loja,
14:48que era um caixote de vidro imenso,
14:50com manequins transparentes,
14:52pendendo por um cabo de aço.
14:54Hoje pode parecer uma bobagem isso,
14:55mas, na época, eu nunca tinha visto isso aqui do chão.
14:58E eles ficavam rodando.
14:59E uma portinha.
15:00Eu falei, gente, é uma galeria de arte.
15:02Aí, quando você abre essa porta,
15:03você tinha que ir nadando no meio desses manequins.
15:06Aí você chegava no interior da loja.
15:07A loja era toda em concreto, verde água.
15:10E tinha uma escadaria.
15:12E o desgaste dos degraus,
15:14como das soleiras das igrejas de Minda,
15:16revelando um tom de terracota.
15:18Era um ponto de laranja.
15:19Então, é como se, no meio daquela frieza do inox,
15:22do concreto e do verde água,
15:23tivesse algo de humano ali.
15:26E a música?
15:27Estava tocando Dalva de Oliveira.
15:30Aí, quando eu fui ver,
15:31eu estava do outro lado da rua,
15:32sentado na calçada, chorando.
15:34Porque aquilo me pegou de um jeito.
15:36Primeiro, que eram as músicas que minha mãe cantava no tanque.
15:39Que dia que eu podia imaginar
15:40que aquilo podia estar numa loja de moda.
15:42E essa loja de moda era da Gasson,
15:45da Rekwakubo.
15:46Aí, quando eu vi aquilo,
15:47naquele momento eu falei,
15:48é isso que eu quero fazer.
15:49Eu quero voltar para o Brasil e fazer isso.
15:51Eu quero olhar para a minha cultura
15:52como os joponeses olham para deles.
15:54Eu quero reafirmar a minha cultura,
15:58que tanto me emociona,
15:59através do meu trabalho,
16:00através do meu ofício.
16:01E foi isso que eu fiz.
16:03Então, quando eu terminou o curso,
16:04eu já tinha emprego em Nova York,
16:06na Interdins.
16:07Fui visitar meu irmão em Londres,
16:09só que eu gostava mais de Londres.
16:10Aí eu falei,
16:11eu tinha economizado todo o dinheiro
16:13que eu recebia durante o tempo que eu fiquei ali.
16:16Eu falei, não,
16:16agora eu quero fazer os cursos na São Martins
16:18que eu nunca fiz em Nova York.
16:20Aí foi isso.
16:21E aí, de lá, eu volto para o Brasil.
16:24E aí, o Estado de Minas tem uma importância
16:27para mim muito grande,
16:29muito afetiva,
16:30porque, quando eu estava na Federal,
16:32e eu que botava fogo na turma,
16:35não vou fazer uma exposição na Praça 7,
16:36não vou fazer uma exposição não sei onde.
16:39Você sempre foi inquieto, né?
16:40E os colegas não queriam fazer.
16:41Eu falava, eu faço para você,
16:43mas vamos que eu não posso ir sozinho.
16:44Não vou fazer a exposição de uma marca só.
16:47E chamava a imprensa,
16:48fazia não sei o que lá.
16:48E aí, uma vez, eu bati no Estado de Minas.
16:50Eu queria divulgar sobre isso daí.
16:53E eu fui recebido pela Patrícia Espírito Santo.
16:55Foi a primeira matéria.
16:56Hoje, muito amigo da Patrícia.
16:59Amo a Patrícia.
17:00Amo a Patrícia.
17:01E eu tenho esse recorte até hoje.
17:03Aí, quando eu volto para...
17:07Eu volto do Brasil para cá,
17:09eu fui recebido pela Eloísa Aline,
17:12lá no Estado de Minas, na Rua Goiás.
17:16E aí, foi isso.
17:17Isso aí, muito bacana.
17:19E aí, quando você chegou e que você lançou a sua marca,
17:26você já chegou quebrando paradigmas,
17:29porque você não quis saber de modelo com cara de modelo, né?
17:36Você já foi mudando a historinha aí.
17:42Viviane Stiud e o Jean-Paul Gaultier já faziam isso nos anos 70 e 80.
17:47Eles te inspiraram?
17:48Porque, no Brasil, você foi o primeiro.
17:50Olha, tem uma coisa que...
17:52Inclusive, quando a gente fala 30 anos de carreira,
17:54se eu fosse começar com o primeiro curso,
17:57você vai 40 anos de carreira.
18:00Porque aí...
18:00Não, mas eu não estou falando 30 anos de carreira.
18:02Nós estamos falando 30 anos de marca.
18:03De marca, é.
18:0430 anos de marca.
18:05Muita gente que está publicando 30 anos de carreira,
18:07eu fico caladinho.
18:08Não, tá bom.
18:08Não, é 30 anos de marca.
18:09Mas, então, nessa história,
18:11quando eu vou para fora,
18:13e aí eu começo a prestar atenção nos estilistas,
18:15e minha grande referência,
18:18das minhas grandes referências,
18:19além da Rick Wacub, da Câmara de Garçom,
18:22além das Uzo Angel,
18:24é, você bem disse, a Viviane Westwood.
18:26E aí eu fui ver que, naquele momento lá fora,
18:29a rua estava influenciando a passarela.
18:33Então, enquanto aqui no Brasil as pessoas achavam...
18:36Era passarela alta, eram 40 minutos de desfile.
18:39Era uma coisa assim.
18:40A rua já estava tomando conta.
18:42E eu falava assim,
18:43gente, mas é muito mais interessante
18:44esse lugar que a gente está vivendo na moda.
18:46Da gente tentar trazer...
18:48O povo lançar a luz sobre o ordinário
18:51e mostrar o quanto esse ordinário
18:52pode ser extraordinário.
18:55Então, com isso, eu fui super influenciado
18:57por aquele movimento que estava acontecendo lá.
18:59Mas tudo que eu via, eu falava assim,
19:01mas e isso se fosse em Belo Horizonte?
19:02E isso se fosse no Brasil?
19:04Quais seriam as nossas referências?
19:06O que a gente poderia trazer
19:08para uma linguagem de moda?
19:09Não o que eles estão falando aqui.
19:11O jeito que eles estão falando aqui,
19:13mas com as nossas palavras.
19:15Com a nossa fala, com a nossa língua.
19:17E aí foi isso que eu fiz.
19:18E logo, obviamente, que por anos
19:22isso causou um desconforto muito grande.
19:25Porque, por exemplo,
19:26o primeiro desfile no São Paulo Fashion Week
19:29foi em 2001.
19:31Em 2001.
19:32Quando o Morumbi Fashion passa
19:34a chamar São Paulo Fashion Week.
19:35que foi um encontro de um judeu
19:38com uma palestina,
19:39com pães na passarela,
19:40não sei o quê.
19:41Foi uma coisa, sabe?
19:43Foi o melhor desfile...
19:43Foi tido como o melhor desfile da temporada.
19:46Mexeu com tudo.
19:47Muita matéria.
19:48Se não, quase todos os seus
19:49sempre são o melhor da temporada.
19:52Melhor da temporada.
19:54Só que sempre teve essa história.
19:57As editoras de moda
19:58sempre tiveram muita dificuldade
20:00de colocar a minha coleção
20:02nos editoriais.
20:03E elas falavam assim,
20:05tipo, Vogue pedia dez convites,
20:07ainda hoje é assim.
20:08Você entra todo mundo na primeira fila
20:09e depois, quando você vai ver
20:10as revistas na sequência,
20:12sai alguma coisa do Ronaldo Fraga.
20:13Aí a minha assessoria fala,
20:14qual é essa?
20:15Eu falo, não.
20:15Deixa eu te falar...
20:16Hoje não, hoje é até mais fácil.
20:17Mas aquela fala,
20:18deixa eu te falar,
20:19vai usar fusor.
20:20Ele só trouxe pantalona agora
20:22por conta da coleção da China.
20:26Não, estou falando de Marfim.
20:28Ele fez uma coleção agora
20:29ao de família do Nelson Rodrigues,
20:30tudo roxo.
20:32Então, assim,
20:32eu sempre paguei o preço por isso.
20:34Foi uma escolha.
20:35Pela sua vanguarda.
20:36Pela escolha.
20:37E, claro,
20:38mais à frente,
20:39quando eu comecei a trazer
20:40temas mais espinhentos
20:43para a moda,
20:43porque o que eu acho?
20:46Quando você fala,
20:47eu agradeço,
20:48quando você diz,
20:48você é muito criativo e tal,
20:50eu acho que eu tive a sorte
20:52de nascer em um país
20:54extremamente inspirador.
20:56A nossa face mestiça
20:58é a inspiração
21:00para tudo que você quiser.
21:02E eu acho que,
21:03no caso,
21:04de onde é essa inspiração?
21:05O que pode inspirar?
21:06Aquilo que assombra
21:07e aquilo que alumbra.
21:09E eu via na moda
21:11sempre aquela coisa,
21:11só o bonito,
21:12aquilo que alumbra.
21:13Ah, vou fazer uma coleção
21:14inspirada em deusas gregas.
21:15Ah, vou fazer uma coleção
21:18inspirada na mulher rica
21:19que pega o concórdia,
21:20não sei o quê.
21:20Eu sempre achei isso
21:21uma bobagem.
21:22Então, eu sempre achei
21:24que cabia tudo.
21:25Eu me lembro que,
21:25em 2003,
21:26quando eu falei assim,
21:28gente,
21:28se eu fosse lá
21:29para o Jequitinhonha,
21:31sou doido para ir
21:32nesse Jequitinhonha.
21:34E aí eu tinha recebido
21:36um convite,
21:37que era um convite
21:39do governo,
21:39de uma pessoa do governo,
21:41ligada a uma pessoa
21:41do Sebrae,
21:42na verdade.
21:43E ela falou,
21:43ah, Ronaldo,
21:44tem um projeto,
21:44que é um projeto
21:45que a gente está levando
21:45adiante da dona Ruth Cardoso,
21:47que é o Turismo Solidário.
21:50E a gente está tentando
21:51trazer esse projeto
21:51Turismo Solidário
21:52para o Jequitinhonha.
21:53Você não gostaria
21:54de ser o turista número zero,
21:55não?
21:56Eu falei,
21:56menino,
21:56mas é tudo
21:57que eu quero,
21:58eu quero dar para conhecer lá.
21:59Ela falou assim,
21:59olha,
21:59mas o Turismo Solidário
22:01ele só hospeda
22:02na casa das pessoas,
22:04ele come
22:05o que as pessoas
22:05estão comendo
22:06e vive.
22:07Eu falei,
22:07menina,
22:08eu quero demais.
22:09Eu falei,
22:09mas eu posso levar
22:10umas pessoas?
22:11Ela falou assim,
22:11vou levar quem?
22:12Não,
22:13vou levar
22:13dois design gráficos
22:14e um video maker,
22:17porque eu vou fazer
22:18uma coleção sobre isso.
22:19Ela levou um susto,
22:20assim,
22:21e eu fiz a coleção.
22:22Foi coleção
22:22Costela de Adão.
22:24E assim,
22:24foi mil flores
22:26de cerâmica
22:26na passarela.
22:28E eu lembro
22:28que até hoje,
22:30jornalistas,
22:30que eram de grandes veículos,
22:31chegavam para mim e falavam assim,
22:32mas como um lugar
22:34tão miserável
22:36pode influenciar
22:36uma coleção de moda?
22:38Eu falei,
22:39eu não estou falando
22:40de um lugar miserável,
22:40eu estou falando
22:41de um lugar,
22:41para muitos,
22:42pobre,
22:43mas de uma cultura
22:45gigantesca.
22:46Riquíssima.
22:46Riquíssima.
22:47Então,
22:47mesmo,
22:48por exemplo,
22:48hoje,
22:48quando a gente vê o passo
22:50que nós demos na moda
22:51e as pessoas começaram
22:53a valorizar,
22:54começaram a valorizar
22:56as rendas brasileiras,
22:57mas até bem pouco tempo
22:58no traço não era isso.
22:59E para muita gente ainda,
23:01o Nordeste é só litoral.
23:03E aí,
23:04com o meu trabalho,
23:05mas eu ponho a culpa,
23:05sabe em quem?
23:06O meu mentor intelectual,
23:07que é Mário de Andrade.
23:09Tudo de bom
23:10e tudo de ruim,
23:11que dá,
23:11que tudo de errado,
23:12eu ponho na conta dele,
23:13porque é ele que sobra
23:14no meu ouvido.
23:14E aí,
23:15quando eu encontrei
23:15com o Mário,
23:16eu tinha, sei lá,
23:18os 14 para 15 anos,
23:19e eu li uma troca
23:21de cartas dele
23:22com o Manuel Bandeira.
23:23Eu fiquei tão encantado
23:24por aquela figura,
23:24Mário de Andrade,
23:25que ele,
23:26eu falei,
23:26gente,
23:27eu nunca mais vou
23:27abandonar esse cara,
23:29entendeu?
23:29E aí,
23:30e o Mário,
23:31principalmente hoje,
23:32o Mário cada vez
23:32mais caro a obra do Mário.
23:34Foi a primeira vez
23:35que eu vi um intelectual
23:36apaixonado pelo Brasil.
23:37E eu falava assim,
23:38gente,
23:38que profissão que eu posso
23:39arrumar
23:40quando eu crescer,
23:42que eu viaje o Brasil,
23:43que eu possa ir
23:43nesses lugares
23:44que o Mário foi.
23:45Será que é caminhoneiro?
23:46O que que era?
23:47Mal sabia eu
23:48que seria o estilista.
23:49Foi aí que a moda me levou.
23:51Se tem uma coisa
23:52que eu sou grato
23:53à moda,
23:54foi ter me levado
23:54por lugares
23:55que, pelas vias normais,
23:56eu não iria.
23:57Ter encontrado pessoas
23:58que, pelas vias normais,
23:59eu não encontraria.
24:01Então,
24:01todos os lugares
24:02do livro
24:02Turista Aprendiz
24:03do Mário de Andrade,
24:04eu passei por lá
24:05e fiz alguma coleção
24:06sobre eles.
24:07Muito bom.
24:09Põe, por favor,
24:11a foto,
24:13uma foto sua
24:14com seus meninos
24:15pequenos.
24:16Gente!
24:19Ludovico
24:20e Graciliano.
24:21O Ludovico,
24:22ele hoje faz publicidade,
24:24faz,
24:25não,
24:25já fez,
24:25já formou
24:26e o Graciliano Marketing,
24:28e eu vi
24:29que você falou
24:30numa entrevista,
24:31numa das muitas entrevistas
24:32que eu li sua,
24:34você falando
24:34que, graças a Deus,
24:35eles não são
24:36da área de moda.
24:37Por que esse graças a Deus?
24:39Primeiro,
24:40porque eu queria
24:41que eles tivessem
24:41o caminho deles,
24:42um caminho próprio,
24:43sabe?
24:44E se há de convir
24:46que um pai
24:46que capinou
24:47tanto lote,
24:48bateu tanto estaca,
24:50sabe?
24:50Coitado de um filho
24:51estilista
24:52que vem seguir
24:52esse caminho.
24:54E era bom
24:54de mudar de assunto,
24:55porque hoje,
24:56na mesa de café,
24:57do jantar,
24:58de não sei o que lá,
24:59eu continuo contando
25:01as histórias para eles,
25:02são histórias
25:02que acontecem comigo
25:03pelo Brasil,
25:04e eu escuto
25:04as histórias deles,
25:06com os clientes deles.
25:08eles têm uma empresa
25:09de marketing digital,
25:10e o Graciliano
25:11tem essa empresa,
25:12e o Ludovico
25:13acabou de formar
25:14e trabalha
25:14empregado
25:15da empresa do Graciliano.
25:17Então, assim,
25:18eles têm uma...
25:20Outro dia,
25:20alguém perguntou para eles,
25:21assim,
25:21mas teve alguma influência
25:25de escolher uma profissão
25:27para seguir
25:28sua trajetória?
25:30Aí, um dos dois
25:31disse assim,
25:32o meu pai,
25:33do jeito que ele faz moda,
25:35é como eu vendo
25:36o meu trabalho hoje.
25:38Bacana.
25:39Agora,
25:40bom, para quem não sabe,
25:42o Ronaldo,
25:44ele foi um dos sete estilistas
25:45do mundo,
25:48não é do Brasil, não,
25:49do mundo,
25:50escolhidos em 2014
25:51para apresentar peças
25:53no Designs of the Year,
25:55promovido pelo
25:56Design Museum de Londres.
25:58Me conta como é que foi isso,
26:01como é que foi essa coisa
26:02bacanérrima,
26:03o que você levou e tal,
26:04porque eu não consegui foto
26:06do que você levou,
26:07nem nada,
26:08mas fala um pouquinho
26:08sobre isso.
26:10Esse do Design Museum de Londres,
26:12isso já começou
26:14no mundo com a internet.
26:16E com o mundo com a internet,
26:17o Brasil ainda levou um tempo
26:19para acordar,
26:19estava olhando para si mesmo,
26:21e o mundo já estava
26:21olhando para o Brasil.
26:23A realidade é essa,
26:24o mundo já estava de olho
26:25no Brasil.
26:26Aí, um dia,
26:27eu recebo um convite
26:28do Museu Ecuador,
26:29que é o Museu Design de Londres,
26:31e falo,
26:31você foi selecionado,
26:33você está no mundo
26:35entre o primeiro,
26:36foi duas vezes,
26:37a primeira vez foi entre,
26:38escolheram 10,
26:39e da segunda vez
26:40escolheram 7.
26:42Porque não tem,
26:42porque quando tem
26:43design de moda,
26:44design de produtos,
26:44a primeira coleção
26:46foi a coleção a China,
26:47que eu fiz a China
26:48de Ronaldo Fraga.
26:49Eu tinha ido para a China,
26:50fiquei 40 dias
26:51trabalhando com uma empresa,
26:52quando eu voltei,
26:53eu falava assim,
26:54gente, vai mudar tudo,
26:55vai acabar,
26:56vai acabar,
26:57vai acabar,
26:58vai acabar,
26:58E aí,
26:59os colegas falavam assim,
27:00ah lá,
27:00já vem ele com mais uma falácia.
27:02Falei,
27:02gente,
27:02a indústria teixo vai migrar,
27:04isso tudo vai acontecer,
27:05vocês não acreditam,
27:06a China não é essa porcaria
27:07que vocês estão achando
27:08que é só não.
27:09Eu fui lá em lugares
27:10que produzem para o Armani,
27:11que produz para a Crisia,
27:13que produz para as grandes
27:13marcas europeias.
27:15Nós temos que correr aqui,
27:16porque vai acabar.
27:19Aí,
27:19eu resolvi fazer uma coleção,
27:20que é uma coleção linda,
27:21e falava sobre isso.
27:23E isso,
27:23quando caiu na internet,
27:24que estilista estava fazendo
27:26uma coleção sobre a China?
27:27Nenhum europeu.
27:29Me localizaram,
27:30viram aqui no Brasil,
27:32viram que era um trabalho
27:33em que eu me inspirava na China,
27:35mas eu trabalhava com
27:37saberes e fazeres tradicionais
27:39do Brasil.
27:40Aí,
27:41quando entraram,
27:41contaram,
27:42falaram assim,
27:42nos interessa ter essa peça aqui.
27:43Eu falei,
27:44tá,
27:45tudo bem.
27:46Aí,
27:46tem a passagem para você.
27:47Quando eu cheguei lá,
27:48os outros estilos eram Prada,
27:50era Dior,
27:51eram os grandes,
27:52e estava lá o latino,
27:53entendeu?
27:55Maravilhoso.
27:55Aí,
27:56quando foi a segunda coleção,
27:57foi dois anos depois,
27:58foi a carne seca,
27:59que é a mesma coisa.
28:00Nós vamos mostrar.
28:01A carne seca nós vamos mostrar.
28:02Então, pronto.
28:03Daqui a pouquinho você fala.
28:04Aí você me lembra do que é a história.
28:05Pode deixar.
28:07Então,
28:08vamos mostrar aqui
28:10a primeira coleção que eu consegui fotos,
28:14poucas,
28:14mas consegui,
28:15que foi Quem Matou Zuzu Angel,
28:16de 2002.
28:18É,
28:182001.
28:192001?
28:20É.
28:20Então,
28:212001.
28:22E,
28:23depois,
28:24em 2020,
28:24você fez outra dela,
28:26que aí eu não peguei foto.
28:28Zuzu Vive.
28:29Zuzu Vive.
28:30Isso mesmo.
28:30Esse do desenho do meio,
28:32que foi durante a pandemia,
28:34e que foi uma coleção,
28:36no auge da pandemia.
28:38Bom,
28:38foi...
28:38Ah,
28:38então essa do meio é de 2020.
28:41É.
28:41Ah,
28:41então que bom,
28:42que eu mesclei sem querer.
28:43Durante a pandemia.
28:44E as outras duas foi coleção de 2001.
28:482001.
28:48E foi a primeira vez que a moda falou sobre Zuzu Angel.
28:52Ninguém tinha falado Zuzu Angel.
28:53Não existia Zuzu Angel nas escolas de moda.
28:56Eu achava isso impressionante.
28:58E onde...
28:58A primeira vez que eu encontrei com a Zuzu,
29:01de novo,
29:02final da ditadura militar,
29:03um menino que só lia literatura política,
29:05e eu li um livro do Zuzu Ventura.
29:07Não,
29:07mas essa é essa ainda não.
29:09Essa é outra, tá?
29:10Tinha um capítulo lá falando sobre a Zuzu Angel.
29:13Aí eu falei,
29:13cara,
29:14a menina é costureira,
29:15nasceu em Curvelo,
29:17e ela denunciou o que estava acontecendo nos porões da ditadura militar.
29:21Então a Zuzu ficou em mim.
29:22Então eu fiz a coleção,
29:24e foi uma coleção que foi o Marco,
29:26no São Paulo Fashion Week.
29:28Agora,
29:28a outra que nós vamos mostrar,
29:30se eu tiver com a data errada,
29:32você me corrige, tá bom?
29:33É de 2005,
29:35que é a Todo Mundo é de Ninguém,
29:37deve estar aí com o nome de TD Mundo,
29:39que é literatura e identidade mineira,
29:42baseada em Carlos Drummond,
29:44de Andrade.
29:44Todo mundo e Ninguém.
29:46É, todo mundo e Ninguém.
29:47E eu tinha uma jaqueta jeans que tinha aquela árvore nas costas,
29:52os botõezinhos eram de...
29:54É, de batismo.
29:55De batismo, de batismo.
29:56De batismo, de batismo.
29:57É a coisa mais maravilhosa.
30:00Ah, isso aí.
30:01Não é?
30:01Essa é a coleção do Drummond,
30:03que foi a primeira coleção que eu transitei na literatura.
30:09Trazer também a obra desse grande mestre.
30:12Essa coleção foi linda, linda, linda.
30:14Você dá os botões aqui do batismo, linda.
30:17E foi a primeira vez no Brasil também que um estilista olhou para a literatura brasileira
30:21e levou isso para a roupa.
30:22Eu fiz isso que originou um livro,
30:24que eu selecionei 25 poemas do Drummond e fiz ilustrados,
30:29dois era inéditos, inclusive.
30:31Não tinha nunca sido publicado.
30:32Tinha sido publicado no Diário de Minas, né?
30:34Há muitos anos atrás.
30:35E eu fui autorizado pela família.
30:37Esse livro é uma peça de colecionador.
30:39As pessoas infernizam o ponto desse livro.
30:41Mas foram feitos em 2000.
30:42E só na época acabou.
30:44E é uma coleção que as pessoas procuram até hoje, sabia?
30:47Olha.
30:47E agora nós vamos para uma de 2009, do Rio São Francisco.
30:52Ah, Rio São Francisco.
30:53Mostrando a cultura ribeirinha, né?
30:57Que está Rio São aí, no arquivo.
31:01É, a coleção chamava Rio São.
31:02Rio São.
31:04Ela é toda de retalhos, de tecidos, de algodão.
31:08Essa também foi uma história que foi um...
31:12O meu pai, ele morreu aos 42 anos sem nunca ter visto o mar.
31:16E ele falava que isso não fazia falta,
31:18porque ele tinha o Rio São Francisco.
31:19Então, todas as vezes que ele tinha um respiro,
31:22ele ia para o Rio São Francisco pescar e tal.
31:24E ele voltava contando as histórias do Rio.
31:26E as histórias que ele contava para a gente
31:28eram meio de realismo fantástico,
31:30do tamanduá que abraçava,
31:32da cobra que ria,
31:33e tal.
31:33E aí, quando...
31:35Estou vendo de onde que vinha essa criatividade?
31:38Das histórias contadas.
31:40Das histórias contadas pelo pai.
31:42E aí eu me lembro que eu vivia de ano aí
31:45da Rio São Francisco.
31:46Eu morria de medo de não encontrar o Rio
31:48que o meu pai tinha me dado.
31:52Mas, quando, na polêmica em torno da transposição,
31:55falei, não, está na hora de conhecer o Rio.
31:57E eu fui conhecer o Rio e fiquei encantado.
31:59E eu falei, vou fazer uma coleção.
32:00Aí eu fiz não só uma coleção,
32:02como fiz uma exposição,
32:04que ela rodou seis cidades brasileiras.
32:08No Palácio das Artes,
32:09é uma das posições mais visitadas até hoje,
32:12que era a grande galeria do Palácio das Artes.
32:14E era uma coleção feita por um estilista,
32:17mas que misturava gastronomia, audiovisual,
32:20enfim, tudo nessa história.
32:23E foi o primeiro projeto aprovado pela Lei Rouanet
32:28como um projeto de moda.
32:30Foi a primeira vez que a Lei Rouanet
32:31aprovou o projeto de moda.
32:32Foi a primeira vez.
32:33Demoraram falar que a moda é cultura,
32:35que a moda é arte.
32:36E naquela ocasião, como não era visto,
32:38a moda não era vista como cultura,
32:40que isso aconteceu a partir da gestão de Gilberto Gil,
32:44na segunda vez que eles não aprovaram,
32:47a primeira vez,
32:48a segunda vez,
32:49a terceira vez,
32:50tira a palavra moda
32:51e tira a palavra estilista.
32:52Então eu tirei a palavra moda,
32:54aí como eu virei artista,
32:55aí o projeto foi aprovado.
32:56E eles falaram assim,
32:56nos interessa muito esse projeto,
32:58mas a moda não pode ser,
33:00ela não era ainda.
33:01E aí, com o Gilberto Gil,
33:03ela passou, se aceita,
33:05e é isso.
33:07E vamos agora para 2009 também,
33:10com risco de giz,
33:14tudo é risco de giz,
33:15onde você fala sobre envelhecimento,
33:19sobre inclusão.
33:20E aí tinha criança,
33:22mas a maioria era idoso.
33:24Na verdade, essa coleção,
33:25ela foi inspirada
33:26num espetáculo lindo
33:28do Álvaro Apocalipse,
33:30que é o giz,
33:31que é o que eu mais amo
33:33dos espetáculos dele.
33:33O Álvaro era outro artistaço.
33:37E o Álvaro,
33:38todos os bonecos dele,
33:39eram de resina,
33:40que ele falava que boneco
33:41tinha que durar para sempre.
33:42Só que o giz,
33:43ele fez todo de tecido.
33:45E ele falava assim,
33:45eu estou falando,
33:48esse espetáculo,
33:49ele estava indo
33:50para um festival de inverno,
33:52sei lá,
33:52se araxá,
33:53não me lembro bem agora,
33:54o Poço de Caldas,
33:54e ele dizia assim,
33:55eu quero,
33:56esse espetáculo,
33:57eu quero falar
33:57sobre a impermanência,
33:59sobre aquilo
34:00que não resiste
34:01a um risco de giz.
34:02E eu sempre fui fascinado
34:03por isso.
34:04Então, eu fiz essa coleção,
34:06onde o casting,
34:07era formado por anciões,
34:09anciões de 65 anos para cima
34:12e crianças de 6 a 10 anos.
34:15E eles cruzavam pela passarela.
34:17E era muito interessante,
34:18porque, às vezes,
34:19o olhar,
34:20o andar da criança
34:21estava num velho.
34:23E o andar cansado e tímido,
34:26às vezes, você via numa criança.
34:28Então, foi um espetáculo.
34:29E os bonecos
34:30sendo manipulados
34:32pela equipe do Giramundo,
34:33foi um desfile marcante também.
34:35Muito bom.
34:37E depois vem
34:38um em 2010,
34:41que é o Turista Aprendiz,
34:44que eu achei esse trabalho
34:48encantador.
34:49Parece quando a gente faz
34:51aquele recorte em papel.
34:52A ideia era essa.
34:54Essa coleção,
34:55ela é chamada
34:57Disneylândia.
34:58É Disneylândia.
34:58Ah, é Disneylândia?
35:00É a Disneylândia latina.
35:01Eu tinha voltado do México.
35:03E eu estava encantado com o México.
35:04Eu falei, não, agora eu quero...
35:05Então, corrija aí Disneylândia latina.
35:07Eu falei, eu quero investigar
35:08sobre a América Latina.
35:10Eu já estava nessa altura do campeonato
35:13muito presente no Chile,
35:16na Argentina,
35:18na Colômbia e no México,
35:20sempre dando palestras
35:21sobre as coleções,
35:23sobre o meu trabalho,
35:24que foi o Desfile das Uzuêndio
35:26que abriu essa história,
35:28principalmente na Argentina,
35:29porque a ditadura
35:30era um período tão caro a eles,
35:32eles falavam assim,
35:33mas nenhum estilista argentino
35:34trabalhou isso ainda.
35:36Então, todo ano,
35:37me convidavam a falar
35:38sobre o Desfile dos Uzuêndio.
35:39E aí, quando eu estive lá,
35:41eu falei, não,
35:41eu quero fazer a coleção
35:43sobre uma mini mouse latina.
35:48E aí eu trabalhei essa coisa
35:50das bandeiras mexicanas,
35:51cortadas a laser,
35:52como se fossem
35:53aquelas banderolas de seda.
35:55É uma coleção que eu gosto muito.
35:56E aí vem, em 2011,
36:01a coleção inspirada em Noel Rosa.
36:03Ah, Noel.
36:05Não é que...
36:08Noel Rosa.
36:09Toda em preto e branco,
36:11praticamente.
36:13Noel, ele, na época,
36:15me perguntaram assim,
36:15mas o que Noel Rosa
36:16tem a ver com moda?
36:17Eu falo assim, gente,
36:18primeiro,
36:19quem é o inventor
36:20da música brasileira,
36:21para mim, é Noel Rosa.
36:23Do jeito que nós conhecemos hoje,
36:24com Chico Buarque,
36:25com Caetano Veloso,
36:27com Arnaldo Antunes,
36:27foi Noel Rosa.
36:28Porque ele pega crônica e poesia
36:30e coloca no mesmo lugar.
36:32Quer dizer, Noel sentava aqui
36:33e fazia uma música
36:34sobre essa mesa
36:35e essa mulher linda
36:36na minha frente, entendeu?
36:37Muito obrigada por mim, linda.
36:39No minuto.
36:39E aí, quando eu olho isso,
36:40eu falo assim, gente,
36:41mas a moda, ela tem que...
36:43Isso deveria ser um caminho
36:44da moda também.
36:45Falar de crônica e poesia.
36:47Crônica, que é a vida real,
36:49e a poesia,
36:49aquilo que te faz sonhar.
36:51Você tem que unir
36:51esses dois pontos.
36:52E eu, fascinado com o Carnaval,
36:54fascinado com a história de Noel,
36:56foi uma coleção,
36:57foi um desfile,
36:58e eu tive a grande...
37:01Vamos dizer que eu te levei a...
37:03Foi o primeiro estilista
37:04a levar uma bateria
37:05de escola de samba.
37:06Eu levei a velha guarda
37:08da Vila Isabel.
37:09Estavam todos ali no fundo
37:10de marinheirinho,
37:11vestidos de marinheiro,
37:12e foi um desfile lindo.
37:14E aí vem para a coleção,
37:18em 2011,
37:19inspirada no Atos Bulcão.
37:22Ai, o Atos.
37:24Delícia, o Atos.
37:26Que ela vem aí...
37:28O Atos Bulcão...
37:29Em cima dos azulejos.
37:31O Atos Bulcão,
37:32ele é um artista fascinante.
37:36Eu sempre fui fascinado com o Atos,
37:39porque eu falo que
37:39é difícil imaginar Brasília
37:42sem o traço do Niemeyer.
37:45Impossível imaginar Brasília
37:47com o traço do Niemeyer
37:49sem o registro gráfico
37:50e os azulejos do Atos Bulcão.
37:52Do Atos Bulcão.
37:52E o Atos, ele teve uma coisa também
37:55que era o seguinte,
37:56de uma forma simples,
37:58no traço simples do azulejo,
38:00ele fazia os olhos viajar.
38:03Então, o Atos é maravilhoso.
38:04É muito bonito também.
38:05E aí vem o verão de 2013
38:12com aquelas roupas que você fez
38:14com triângulo de madeira.
38:16Eu vou mostrar,
38:17porque eu fiz dois grupos
38:20para mostrar a coleção.
38:23Esse é um turista aprendiz
38:24lá na Terra do Grão Pará.
38:27Exatamente.
38:28Inspirado em Pará.
38:30Então, primeiro tem esses vestidos
38:32e aí a segunda leva...
38:35Esse é um paetê de papelão.
38:37E aí vem essa que é toda
38:39de triangulinho de machetaria.
38:42Uma machetaria.
38:43Que foi uma fórmica
38:44recortada a laser
38:45e colada como se fosse um paetê.
38:48Um paetê.
38:48Só que o paetê é de madeira.
38:50É coisa de doido mesmo.
38:52É literalmente.
38:54Esse foi o resultado também
38:55de um projeto
38:55que eu desenvolvi durante seis meses
38:58em Tucumã,
38:59que é uma cidade no sul do Pará.
39:01E é uma região
39:04muito desmatada.
39:06Então, eu fui lá trabalhar
39:07com biojóias,
39:08com um grupo de biojóias
39:09e machetaria.
39:11E machetaria é linda.
39:12Isso, e a gente trabalhava
39:13com o resto das madeiras
39:15das serralherias.
39:20E era só madeira nobre.
39:22E eu ficava...
39:23Era um desconforto sem fim
39:26aquilo virando descarte total.
39:28E fizemos toda essa linha
39:29de acessórios,
39:31de tudo segue a machetaria.
39:33Muito linda.
39:35Muito criativo mesmo.
39:36E aí vem o inverno de 2013,
39:39O Fim do Sem Fim.
39:43Não é em cima do livro
39:45de Paulo Marques de Oliveira?
39:46Essa foi em 2014,
39:48verão de 2015.
39:50Você desfilou em 2014
39:51no São Paulo Fashion Weeks,
39:53inspirada no modernista
39:58I Portinari.
39:59Vem toda influência aí,
40:01Pierre Rosa.
40:02As pessoas sempre me perguntam
40:03como você escolhe.
40:05Por que fazer uma coleção
40:06inspirada em Portinari, por exemplo?
40:08Poderia ter sido o...
40:11Sei lá, Di Cavalcante.
40:13Poderia ter sido o Guignar.
40:15Sim, poderia.
40:16Pode ser até que sei o que aconteça.
40:17É, que ainda venha.
40:18Mas eu sou fascinado por artistas
40:21que, de alguma forma,
40:23fizeram o papel de cronistas do Brasil
40:26no tempo em que eles estavam vivos.
40:28Então, para se entender o Brasil
40:30daquela época,
40:31você consegue fazê-lo
40:33através da obra de Portinari.
40:35Portinari foi uma figura,
40:36talvez um dos primeiros
40:38a trazer as mazelas
40:39dos retirantes nordestinos,
40:42as mazelas da fome no Brasil
40:44para a arte.
40:46E eu sou fascinado por ele,
40:47sou fascinado pela história dele.
40:50E fazer uma coleção
40:51é uma forma também
40:52de você investigar
40:53e entender todo esse processo
40:55e como ele se forjou.
40:56E agora vem carne seca,
40:59que ela foi feita,
41:00acho que toda em couro,
41:02ou pelo menos usando muito couro,
41:04e que foi levada, então,
41:06para Londres,
41:07lá para o Museu do Design.
41:08Essa segunda peça,
41:08esse vestido azul aí,
41:11esse mosaico,
41:12foi a peça que foi para o Design Museu.
41:14E o que era isso?
41:15Eu fiz um trabalho,
41:17também estava desenvolvendo um projeto
41:18com seis curtumes no Brasil.
41:20E um deles era em Petrolina.
41:23E aí, quando eu cheguei,
41:24eles me apresentaram,
41:25o curtume era gigantesco e tal,
41:26e tinha um galpão fechado.
41:27Eles falaram assim,
41:28isso aqui é refugio,
41:29que vai ser incinerado.
41:32Eu falei, refugio?
41:33Eles falaram assim,
41:34é, porque esse curtume,
41:37eles vendem o couro
41:40para fazer luva para Chanel,
41:42para os europeus todos, sabe?
41:44Então, é alto luxo.
41:46E eles falaram assim,
41:46não, isso daí é quando tem a marca
41:49da vida pregressa do animal,
41:51que pode ser a marca de um carrapato,
41:53de uma cerca,
41:54aí não vale.
41:56Isso é julgado fora.
41:57Eu falei,
41:57ah, então é isso que eu quero trabalhar.
41:59Eles olharam, né?
42:00Você sempre querendo.
42:01Eu falei,
42:02é isso que eu quero trabalhar.
42:02O que é fora de padrão.
42:04Eu falei,
42:04gente,
42:04mas aqui,
42:05você pega um couro lindo,
42:07perfeito e maravilhoso como esse,
42:08que se você coloca do lado
42:09de um couro sintético,
42:11é a mesma coisa.
42:12Então,
42:13isso daí,
42:14que está a marca da vida pregressa do boi,
42:16é um atestando
42:17de autenticidade do produto.
42:20Aí,
42:20você fala,
42:20ah,
42:21você quer trabalhar com isso?
42:21Então,
42:22vai.
42:22Aí,
42:22eu desenvolvi,
42:23junto com um químico,
42:25uma cera vegetal,
42:27que passando sobre o couro,
42:29evidenciava esses riscos,
42:30e no avesso desse couro,
42:31eu fiz um desenho,
42:33que veio com uma marca d'água,
42:34e uma xilogravura,
42:35contando a história do Rio São Francisco.
42:37Então,
42:37a coleção levou isso daí,
42:39e aí,
42:39quando isso chegou lá fora,
42:40que eu fui selecionado,
42:41por conta disso,
42:43porque eles falam assim,
42:43gente,
42:44tem um cara
42:45que,
42:45ao invés de jogar o couro fora,
42:47entendeu?
42:48Tem uma história bacana
42:49em cima disso.
42:50E aí,
42:50eu fui parar,
42:51no Design Museum,
42:52e fui parar também
42:53com essa coleção
42:54na feira,
42:57não sei o que,
42:58pele de Bolonha,
43:00que,
43:01curiosamente,
43:01até aí,
43:02era uma feira
43:02que,
43:02quando aparecia um brasileiro,
43:03brasileiros nem deixavam entrar,
43:05porque achavam que ele estava vindo sempre copiar.
43:07E aí,
43:07nós chegamos com esse desfile,
43:08com essas peças por lá.
43:11Agora,
43:11nós vamos pular,
43:13porque eu estou com medo do nosso tempo,
43:15porque eu ainda quero falar um negócio com você.
43:18Então,
43:18nós vamos pular
43:20para
43:232017,
43:25é a que deve estar aí como 92 para você,
43:29Léo,
43:29que é o dia
43:31que é Mequeiras,
43:32que você...
43:33É o dia que é Mequeiras.
43:33É aquilo que nós estávamos conversando.
43:35Você fez
43:36uma coleção contra a xenofobia,
43:38desfilou ela em Buenos Aires,
43:41teve bailarino dançando,
43:43achei isso maravilhoso.
43:44É maravilhoso.
43:45E depois você fez outra coleção
43:48contra a xenofobia,
43:49que desfilou no São Paulo Fashion Week.
43:52E aí,
43:53eram duas coleções completamente diferentes,
43:56com o mesmo...
43:57mesmo tema.
43:58Tema,
43:59e aí eu não entendi,
44:00foi nada.
44:01Mesmo ano,
44:03mesmo tema,
44:04e duas coleções completamente diferentes.
44:07Bom,
44:07essa primeira coleção
44:08foi a convite
44:10da Bienal de Arte Contemporânea.
44:13do...
44:13Bienal Sur.
44:14É,
44:15Bienal Sur.
44:16Ah,
44:16Bienal Sur.
44:17Então,
44:18era de países latinos,
44:20e eu apresentei essa coleção
44:21que eu falava de xenofobia
44:22na América Latina.
44:26Então,
44:27aí tem muito traço
44:28dos Maputes,
44:30de Anomamis,
44:32enfim.
44:34Então,
44:34era um tema
44:35que falava disso,
44:36desse preconceito.
44:37Pode passar,
44:38próxima,
44:39que eu acho que eu peguei
44:40duas desse desfile
44:42lá de Buenos Aires.
44:44aí.
44:45Isso.
44:45E lá também,
44:47esse senhor aí
44:49tinha sido prefeito
44:50de Buenos Aires.
44:52E essa mistura
44:53de pessoas também,
44:55as pessoas ficavam
44:55muito assustadas lá,
44:57entendeu?
44:57Mas eu estou falando assim,
44:58uma coleção,
44:59quando eu estou falando
44:59contra xenofobia,
45:00o casting tem que ser esse,
45:02entendeu?
45:02E foi muito sucesso.
45:03E aí depois,
45:04você trouxe
45:05para o São Paulo Fashion Week,
45:06mas aí essa,
45:07essa coleção
45:08foi um prédio,
45:09é bem streetwear,
45:10é bem casual.
45:12Aí,
45:12na hora que vem,
45:13a do São Paulo Fashion Week,
45:15pode passar,
45:15por favor,
45:16é a próxima.
45:17Aí ela fala...
45:18Aí você chamou ela
45:20de reexistência.
45:22E aí é uma...
45:25É outra face,
45:26é um outro olhar.
45:26É um outro olhar.
45:27porque eu falo aí
45:29sobre a crise
45:31da imigração
45:33com os refugiados
45:35africanos
45:36e árabes
45:37na Europa.
45:39Então,
45:40aí eu trago
45:41uma outra coisa,
45:41que é a coisa
45:42do navio
45:44que afundou,
45:44lotado
45:45de imigrantes.
45:47Essa coisa
45:48dos países
45:48fechando as suas portas
45:50à imigração.
45:51ela fala basicamente
45:53disso.
45:53Então,
45:54toda a investigação
45:54dessa coleção,
45:55pesquisa dessa coleção,
45:56foi padronagens árabes
45:58e africanas,
45:59sobretudo do norte
46:00da África,
46:01que foi instalada
46:02depois em Angola.
46:04E aí agora
46:06nós vamos
46:06para
46:082025
46:09com você.
46:11Aí,
46:11essa também
46:12é ainda
46:14da resistência,
46:15porque é
46:15a coleção masculina.
46:19Refugiados
46:19no Brasil.
46:21E aí nós vamos
46:22para 2025,
46:24que é a Minas Nascimento
46:26que você fez.
46:27Ah, mas o Milton.
46:28Para Milton Nascimento,
46:29para o show
46:30de despedida dele.
46:32Isso.
46:32Não é?
46:35Essa coleção
46:35vai no Museu
46:36da Língua Portuguesa
46:39e Milton,
46:41mais que a gente
46:41fale de Milton,
46:42a gente fale pouco.
46:43E é outro grande mestre.
46:45E quando eu fiz
46:45o figurino
46:46da última sessão
46:49de música,
46:50que foi o último show
46:50do Milton,
46:52eu brinquei com ele.
46:52Falei assim,
46:53nossa, é muito difícil
46:53fazer um,
46:54eram dois figurinos,
46:55na verdade.
46:55Dois figurinos para você,
46:57porque, na verdade,
46:58você é uma coleção inteira.
46:59E ele morreu de rir.
47:00Falei,
47:00então faça.
47:01É uma coleção inteira.
47:02Não por isso, né?
47:04Eu faço uma coleção.
47:05Eu fiz a coleção,
47:06que, infelizmente,
47:08teve o acelerar
47:09da enfermidade dele,
47:11da doença,
47:12então ele não chegou
47:13a tomar fé
47:14do que tinha sido apresentado,
47:16mas eu acho que,
47:17de qualquer forma,
47:18para sempre,
47:19o Brasil precisa reverenciar
47:21Milton Nascimento.
47:22Com certeza.
47:22E aí nós vamos mostrar
47:28a última coleção
47:32que você desfilou
47:33semana passada
47:34no São Paulo Fashion Week,
47:36que é Cartas de Algodão,
47:39celebrando seus 30 anos
47:41de carreira,
47:4210 anos do projeto
47:43Sol de Algodão,
47:45Sol de Algodão,
47:46que foi lindíssima,
47:48por sinal,
47:49tem várias lâminas
47:50de quatro em quatro fotos
47:52que você pregou cartas.
47:55Foi muito lindo.
47:56Essa história, por exemplo,
47:57eu falo de algo,
48:00dessas pequenas cartografias
48:03ou registros de afeto
48:05que se perdem no tempo.
48:07E o quão, hoje,
48:09uma carta escrita
48:11virou algo de outra vida.
48:14E eu fico pensando,
48:15gente,
48:16como vai ser no futuro?
48:18O que a gente vai deixar?
48:19Hoje a gente vive
48:20nas mensagens do WhatsApp.
48:22Que as mensagens
48:23que a gente deixa
48:24escritas por isso daí?
48:26Então, essa coleção
48:27Cartas de Algodão
48:27fala sobre cartas
48:29que nunca foram enviadas,
48:30mas nunca deixam de chegar.
48:32E eu posso te falar uma coisa?
48:33Na hora que eu li
48:34você falando isso,
48:35eu falei, gente,
48:36ele me viu nisso.
48:40Porque eu tinha...
48:41Agora eu posto uma caixa,
48:43mas eu tinha uma gaveta
48:44no meu quarto,
48:45numa mesa que eu tinha,
48:47de carta que eu escrevia
48:49e não punha no correio.
48:50Olha só!
48:51Mas inúmeras,
48:53várias, você acredita?
48:54Hoje eu pus elas todas
48:56numa caixa,
48:57quer dizer,
48:57tem um monte de amigo
48:58que nunca recebeu uma carta
48:59e elas estão lá escritas.
49:01Isso é maravilhoso.
49:02E falar disso daí,
49:04eu acho que é falar
49:04desse tempo
49:05que a gente está vivendo.
49:06A gente está vivendo
49:07em tempos desmemoriados,
49:09a gente está vivendo
49:11questões muito complexas,
49:13também de um fim
49:14de um ciclo
49:15para início de outro.
49:16E falar do algodão,
49:17para mim,
49:17é isso.
49:18Eu acho que o tecido do algodão
49:20sempre se prestou
49:22como base
49:24de uma história
49:25pessoal
49:25escrita.
49:27Seja presente
49:28na mesa,
49:29no quarto
49:30ou na roupa.
49:33Então foi isso
49:33que eu quis trazer
49:34para essa coleção.
49:35que é a última
49:37que tem,
49:39inclusive,
49:39você.
49:43É uma linda coleção,
49:45você está de parabéns.
49:46Obrigado, querida.
49:47E um passarinho
49:48me contou
49:50que o senhor
49:51está abrindo
49:52um bloco
49:52de carnaval.
49:54Menino,
49:54um bloco de carnaval.
49:55Me conta disso.
49:56Aqui,
49:57eu sou enlouquecido
49:57para o carnaval.
49:58Ponto.
49:59Ponto.
50:01E durante
50:02muitos anos
50:03eu passei o carnaval
50:04em Recife,
50:05Recife e Olinda.
50:07E tem uns dois anos
50:08que eu passei
50:09em Belo Horizonte
50:09e eu estou encantado
50:11com esse carnaval
50:11de Belo Horizonte.
50:12E antes do carnaval
50:13de Belo Horizonte
50:14pegar,
50:14eu já fazia,
50:16fiz uma vez na rua
50:17e depois eu fiz dois bares
50:18dentro do Alguerro de Hotel.
50:20Que era o fabuloso
50:21baile de carnaval
50:22do estilista Ronaldo Fraga.
50:23Uma coisa assim,
50:25sem modéstia alguma.
50:28Não, eu sei.
50:29Era um baile
50:30que começava
50:31às 11 da manhã
50:32e até às 11 da noite
50:33para não incomodar
50:34os vizinhos.
50:35Com bandas.
50:35Começava com carnaval retrô
50:37e evoluindo
50:38até terminar
50:38na escola de samba.
50:40E aí,
50:40eu vivia falando,
50:41gente,
50:41eu quero ter um bloco
50:42para chamar de meu.
50:44Eu quero ter um bloco
50:45para poder brincar
50:45com isso e tal.
50:46E aí nasceu essa ideia.
50:48Eu sentei com uma pessoa
50:49que organiza
50:50e trabalha
50:51com o carnaval
50:51de Belo Horizonte.
50:53E ela falou,
50:53Ronaldo,
50:53você que é mesmo?
50:54Então,
50:54vamos conversar
50:55sobre esse bloco.
50:55Escrevendo tudo
50:56que eu queria
50:56com o bloco.
50:57Dois vezes depois,
50:57ela falou assim,
50:58olha,
50:58foi aprovado esse bloco.
51:00Como é que vai
51:00chamar o bloco?
51:02Provisoriamente,
51:03é o nome do baile
51:04que eu fazia,
51:04que é o fabuloso
51:05baile de carnaval
51:06do estilista Ronaldo Fraga.
51:08E já sabe
51:09quando que vai sair?
51:10No sábado à tarde.
51:11Sábado de carnaval
51:12à tarde.
51:13Saindo lá da frente
51:14do grande hotel?
51:15Não, não, não.
51:16Ele vai ficar fixo?
51:18Eu queria,
51:18eu gosto de bloco fixo,
51:20eu não gosto de bloco
51:20que anda, sabe?
51:21Fica batendo carrinho,
51:23vítima, não sei o que lá.
51:23Eu gosto da banda
51:24tocando ali,
51:25é mais fácil
51:25as pessoas se encontrarem,
51:26é mais fácil a paquera,
51:28entendeu?
51:28Só que a prefeitura
51:29de Belo Horizonte
51:30não considera,
51:31bloco que não anda,
51:32eles falam que não é bloco,
51:33é evento.
51:34Então,
51:35nós vamos dar uma voltinha,
51:37sabe?
51:37Nós vamos dar uma voltinha
51:38e qual região já sabe?
51:40Vai ser,
51:43provavelmente vai ser,
51:44aí está para bater o martelo,
51:45mas deve ser na Praça Floriano Peixoto.
51:47Então,
51:47a gente vai dar uma volta
51:48na praça,
51:50parar num lugar
51:51e entrar para o baile fechado,
51:52entendeu?
51:55Então,
51:56eles vão dar a voltinha
51:57que tem que voltar,
51:57rodar os metais,
51:59que eu gosto de banda de metais,
52:00e entrar para dentro
52:01do carnaval,
52:02e é isso aí.
52:04Muito bacana.
52:06Porque eu sempre brinquei,
52:07quando eu sempre tinha
52:08que ir para São Paulo
52:09montar um desfile,
52:10eu falei,
52:10deixa eu ir lá montar
52:11a minha escola de samba.
52:12E eu sempre brinquei
52:13entre os amigos,
52:14eu falei,
52:14é igual fazer um carnaval,
52:16fazer uma coleção de moda,
52:17um desfile de moda,
52:18é a confusão do carnaval,
52:21é o samba enredo,
52:22é a moça,
52:22tanto é que eu lembro
52:23que nas minhas primeiras coleções,
52:25nos meus primeiros desfiles,
52:26quem amava o meu trabalho
52:29ou quem detestava,
52:31usava a mesma expressão,
52:33olha lá,
52:33já vem ele,
52:33o estilista carnavalesco.
52:35Porque é o seguinte,
52:36não era comum trazer um tema,
52:38trazer uma história,
52:40uma história que estivesse fechada
52:41desde o convite do projeto gráfico
52:43até a música,
52:44até a cenografia.
52:45E aí,
52:45quando falavam isso,
52:46eu falei,
52:47gente,
52:47olha,
52:47eu recebo isso com muita elogio.
52:49Primeiro,
52:49que muito do meu,
52:51eu criança,
52:53acompanhando as escolas de samba do Rio,
52:55foi muito importante
52:56para a minha formação cultural.
52:57Foi ali que eu conheci,
52:58por exemplo,
52:59sim,
52:59a Olímpia.
53:01Então,
53:02isso,
53:02se a moda se prestar,
53:03isso,
53:03eu acho que vai ser interessante.
53:04E o que eu acho impressionante,
53:08nós vimos assim,
53:09você estava me falando,
53:11quando você chegou,
53:12que você fez 65 coleções,
53:15fora outros trabalhos,
53:17a parte das coleções.
53:21Nós olhamos aqui algumas,
53:25todas completamente diferentes
53:28umas das outras.
53:29Quer dizer,
53:30claro,
53:31a gente enxerga você,
53:33você tem uma marca ali
53:36que a gente sabe que a roupa é sua,
53:37não tem jeito.
53:38mas são conversas muito diferentes
53:43e muito próprias
53:45de cada tema
53:45que você faz.
53:49E isso é muito legal,
53:51isso é muito rico.
53:52E agora você está me falando,
53:54que eu consegui te pescar
53:56exatamente
53:56em uma semana
53:57que você está em Belo Horizonte,
53:59e você falou,
53:59agora eu vou sair,
54:02só volto em dezembro.
54:03Eu fico o mês de novembro inteiro
54:05no Médio São Francisco.
54:08Eu faço expedições para o Brasil,
54:11que também foi a realização
54:12de um sonho antigo,
54:13porque eu sempre fiz essas viagens
54:15muito solitárias,
54:16muito sozinho,
54:17para desenvolver projetos.
54:18E as pessoas falavam assim,
54:19eu pago para carregar sua mala,
54:21me leva nesse lugar.
54:22Ah, então agora você está fazendo...
54:25Desde 2001,
54:26são expedições,
54:27que é com os parceiros que eu tenho,
54:30que é os meninos da Quevisu,
54:31que já trabalhavam com turismo,
54:35que eu chamo de turismo de emoção,
54:36e eles me convidaram
54:37e nós fizemos esse projeto.
54:39Então nós levamos,
54:40eu levo grupos de pessoas
54:41para conhecer o Cariri Paraibano.
54:43Eu levo pessoas para conhecer
54:45o Cariri Cearense,
54:47lá na Chapada do Araípe.
54:49Eu levo as pessoas
54:50para poder conhecer
54:51o Rio São Francisco.
54:52E aí você fala,
54:53o que você oferece
54:54para essas pessoas?
54:55A travessia de um portal.
54:57Então nós estamos fazendo isso
54:58desde 2001,
55:00fazemos alguma coisa
55:02em torno de 15 expedições
55:03por ano.
55:04Por ano?
55:04Por ano.
55:05Por exemplo, agora vão ser quatro,
55:07agora no Rio São Francisco,
55:08como eu já tinha feito
55:08no início do ano,
55:09e são as últimas do ano,
55:10desse ano.
55:12E quando eu recebo as pessoas...
55:14Geralmente são quantos dias cada um?
55:15São cinco dias.
55:17São cinco dias.
55:17Cinco a seis dias.
55:18E aí eu levo um Brasil
55:21para um outro Brasil
55:22que esse Brasil anterior,
55:24que os Brasis não conhecem.
55:26Então as pessoas têm acesso direto
55:28com o artesão,
55:30com a gastronomia.
55:32E como já sabem
55:33que eu sou festeiro,
55:34tem festa.
55:36Não poderia ser diferente.
55:39Tem festa.
55:39Então essa coisa,
55:40volta lá atrás,
55:42eu escuto a gargalhada
55:43do meu mentor intelectual,
55:45que era Mário de Andrade,
55:47quando ele saiu,
55:48tirou os dois anos
55:49pelo Brasil,
55:51foi de encontro ao Brasil
55:52e criou o Turista Aprendiz.
55:54E ele falava da importância
55:56do artista,
55:57ou quem se pretende artista,
55:58ir de encontro
55:59a esse chamado Brasil profundo.
56:01E como que é a reação
56:03das pessoas?
56:04Quem não está acostumado a ir,
56:06principalmente os primeiros,
56:07porque agora você já deve
56:08ter uma clientela meio fiel,
56:10que todo lugar que você é novo,
56:13que você vai,
56:13eles já correm e já vão.
56:15Mas como que era a reação
56:17dos primeiros desbravadores
56:20aí com você?
56:21Bom, o perfil das pessoas
56:22são pessoas que têm,
56:23obviamente, um apreço pelo Brasil,
56:25pela cultura brasileira.
56:26Outra coisa,
56:27são pessoas que já viajaram demais
56:29o mundo inteiro.
56:30Então, ir para a Europa,
56:31para eles,
56:31é uma coisa que é corriqueira.
56:33E são pessoas que conhecem muito o Brasil.
56:35Eu estou conversando com a Marieta Severo.
56:37E a Marieta disse,
56:37Ronaldo,
56:38eu estou louco para fazer
56:38uma expedição dessa,
56:39porque eu não conheço o Brasil.
56:40Eu falei,
56:40como assim?
56:41Eu viajo o Brasil,
56:42sempre viajo,
56:43e com peça.
56:44Chega,
56:44apresenta.
56:45A Simone me falou isso,
56:47a Simone Cantor.
56:47Eu falei,
56:47Simone,
56:48vamos reunir uma turma
56:49para você poder ir.
56:50E várias pessoas,
56:51eu estabeleci um laço
56:52de amizade,
56:53como a Sandra Nemberg,
56:55o Ernesto Paglia,
56:56a Maite Proença,
56:57com essas expedições.
56:58Quando eu assustei,
56:59eles estavam ali
56:59para poder fazer a expedição.
57:01E tem pessoas,
57:03profissionais liberais,
57:04de áreas diversas.
57:05E o que essas pessoas procuram?
57:07Oxigênio.
57:09Respirar um outro Brasil.
57:11Então,
57:11nós fizemos a primeira
57:12em 2021,
57:14que estava no finalzinho
57:15da pandemia,
57:18mas estava no auge
57:19do terror
57:19que foi o governo Bolsonaro.
57:22Então,
57:22onde eu falei,
57:23eu não posso perder
57:24esse Brasil de vista.
57:26E eu falava,
57:27gente,
57:27quem quer vir comigo?
57:28Eu estou indo para um lugar
57:29que eu não quero perder
57:30o Brasil de vista
57:30e eu não posso acreditar
57:32que esse Brasil
57:33é esse Brasil
57:36fétido
57:36que a gente está vivendo agora.
57:38E naquela ocasião.
57:39E foi isso.
57:40Foi aí que eu mantive
57:41a sanidade
57:42e eu adoro dizer
57:43e ver
57:44e apresentar
57:46os números,
57:47porque é o rastro
57:48de prosperidade
57:49que essas expedições
57:50têm deixado
57:50nesses lugares.
57:52Porque eu levo
57:53as pessoas
57:53para um grupo
57:54de rendeiras
57:54que elas nunca vão
57:55encontrar
57:56esses grupos
57:56de rendeiras ali.
57:58E aí as rendeiras
57:59estão recebendo
57:59pessoas que vão consumir
58:01sem um atravessador.
58:03Isso é maravilhoso.
58:04Então,
58:04eu levo de encontro
58:06as artesãos
58:07na casa do artesão.
58:09e o valor
58:09que você paga
58:10para essa expedição,
58:12ele já recebe
58:13pela visita.
58:14Se você não quiser
58:14comprar nada,
58:15ele já fica na expectativa
58:16porque ele já recebe
58:17para te receber.
58:19Claro que eu nem preciso dizer
58:20que a mesa é farta,
58:22que a comida é farta
58:23e que você se emociona muito.
58:25Então,
58:26é uma vivência
58:26para que a gente
58:28não perca
58:29a nossa humanidade.
58:31E eu acho
58:31que é isso
58:32que a gente tem que fazer.
58:33Que é o risco
58:34constante,
58:35principalmente
58:35que a gente está vivendo agora,
58:36de perder a humanidade
58:37no Brasil.
58:39Querido,
58:41muito obrigada.
58:42Eu amo,
58:43Rápido.
58:43Sem palavras.
58:44Eu achei que foi curto demais,
58:46viu?
58:47A gente ia virar noite aqui.
58:49Mas eu tive que
58:53cercear, assim,
58:54a quantidade de coisas
58:55a falar,
58:56porque a gente realmente
58:57tem um período limitado.
59:00Me chama para outras conversas
59:01que eu volto.
59:01Pode deixar.
59:02Nós vamos conversar muito ainda,
59:04viu?
59:04Eu vou acompanhar,
59:06adorei a novidade.
59:08Boa viagem.
59:09Obrigado.
59:09E muito obrigada.
59:10E até a próxima.

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