00:00Por causa da onda de calor, 15 estados brasileiros e o Distrito Federal estão sob alerta de grande
00:05perigo segundo diferentes agências de meteorologia. As altas temperaturas, que podem persistir em
00:11algumas cidades durante vários dias, devem levar a recordes históricos em diversas cidades. Há locais
00:16em que os termômetros podem marcar até 13 graus Celsius a mais do que o esperado para esta época
00:21do ano. Mas o que está por trás desse fenômeno? Sou André Bernati, da BBC News Brasil, e neste
00:26vídeo te explico quais são os fatores, como o El Ninho, as mudanças climáticas e a formação de um domo
00:31de
00:32calor que ajudam a entender o que está acontecendo agora no Brasil. Como você vai descobrir ao longo
00:36desse vídeo, ondas de calor como essa podem se tornar ainda mais frequentes e intensas daqui em diante.
00:42E, de acordo com os especialistas, é urgente discutir planos de mitigação e adaptação a
00:47eventos climáticos extremos, como verões muito intensos e chuvas torrenciais.
00:52Para começar, é bom lembrar que a atual onda de calor não é um fenômeno isolado no Brasil. Segundo
00:56um relatório do Instituto Nacional de Meteorologia, o IMET, a temperatura média bateu recordes no país
01:02nos últimos quatro meses. Os resultados mostram que, entre julho e outubro de 2023, as temperaturas
01:08ficaram acima da média registrada para esses períodos em anos anteriores. Em julho, por exemplo,
01:13a temperatura média era de 21,9 graus. Mas, em 2023, esse número ficou em 23 graus,
01:20um desvio de 1 grau em relação ao que era esperado. Esse desvio se repetiu em agosto,
01:25setembro e outubro. E, diante da onda de calor mais recente, deve se manter acima da média histórica
01:30também em novembro. O relatório do IMET aponta que o cenário indica que o ano de 2023 será o mais
01:36quente
01:37desde a década de 1960. E aqui vale lembrar que as ondas de calor não foram um problema exclusivo do
01:43Brasil nos últimos meses. Um estudo divulgado pela organização Climate Central faz um balanço do que
01:49eles chamam de os 12 meses mais quentes já registrados na história. Segundo os autores,
01:54que avaliaram dados de 175 países, incluindo o Brasil, houve uma elevação média de 1,3 grau nos
02:01quatro cantos do planeta. Durante todo esse período, 90% da população da Terra, ou 7,3 bilhões de
02:09pessoas, experimentaram pelo menos 10 dias de temperaturas fortemente afetadas pelas alterações
02:14climáticas. E 73%, ou 5,8 bilhões, passaram mais de um mês nessas condições, estima a pesquisa.
02:21O texto ainda aponta que, entre as nações do G20, o grupo que reúne as maiores economias do planeta,
02:27nove tiveram problemas com ondas de calor entre maio e outubro de 2023. Na lista, o Brasil aparece
02:33como o sétimo mais afetado. Atrás de Arábia Saudita, México, Indonésia, Índia, Itália e Japão.
02:40E na frente de França e Turquia. Mas como essa situação de momento se compara com o passado,
02:45será que temos de fato mais ondas de calor agora do que nas últimas décadas?
02:49Segundo o levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, a resposta é sim.
02:55O número de eventos climáticos extremos, como temperaturas muito altas, secas ou chuvas
03:00intensas, aumentou consideravelmente no Brasil de 1960 para cá. O primeiro dado que chama atenção
03:06nessa pesquisa tem a ver com as anomalias positivas de temperatura máxima. Entre 1991 e 2000, essas ondas
03:14de calor não ultrapassavam o limite de 1,5 grau em comparação com a média histórica. Mas elas
03:19praticamente dobraram e atingiram 3 graus a mais em alguns locais, especialmente no Nordeste
03:25entre 2011 e 2020. Entre 1961 e 1990, a média de temperatura máxima no Nordeste era de 30,7 graus
03:35e
03:35subiu gradualmente para 31,2 em 91 a 2000, 31,6 em 2001 a 2010 e 32,2 entre 2011
03:44e 2020. Os autores também
03:46observaram mudanças significativas no regime de chuvas. O cenário é contrastante. Houve uma queda
03:52na taxa média de precipitação no Nordeste, em partes do Sudeste e no Brasil Central, entre 10% e 40%.
03:59Já no Sul e em partes dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, aconteceu o contrário,
04:04um aumento de 10% a 30% nas chuvas. Outros dois dados permitem entender esse contexto.
04:09Entre 61 e 90, parte do Nordeste e do Brasil Central tinham entre 80 e 85 dias consecutivos,
04:16sem chuva por ano. Esse número subiu para 100 dias mais recentemente, entre 2011 e 2020.
04:22Enquanto isso, no Sul, a precipitação máxima ocorrida em cinco dias ficava na casa dos 140
04:28milímetros de água entre 61 e 90. Mais recentemente, a taxa subiu para 160 milímetros.
04:34O número de dias com anomalias de onda de calor também sofreu um salto dramático. No período de
04:40referência, de 61 a 1990, o número de dias com ondas de calor não passava de 7 ao ano. Para
04:47o período
04:47de 91 a 2000, subiu para 20 dias. Entre 2001 e 2010, atingiu 40 dias. E de 2011 a 2020,
04:54o número de dias
04:55com ondas de calor chegou a 52. Ou seja, em três décadas, houve um salto de sete vezes na quantidade
05:02de
05:02dias no ano em que os brasileiros vivem sob uma temperatura bem alta. Vale destacar que a análise
05:07do INPE vai até 2020 e, com isso, ainda não leva em conta os fenômenos de calor de 2023.
05:14Mas o que explica essas ondas de calor mais recentes? Segundo especialistas e relatórios
05:18publicados, a onda de calor atual não é resultado de um único fator. Ela acontece por causa de uma série
05:24de fenômenos e mudanças que, juntas, fazem a temperatura subir. O INMET chama atenção para o
05:29El Nino, em que ocorre o aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico nas proximidades da
05:34linha do Equador. Quando essa porção do mar fica mais quente, há uma elevação da temperatura em
05:39várias regiões do planeta, inclusive em partes do Brasil. Mas, de acordo com um estudo da Climate
05:44Central, o El Nino está apenas começando a aumentar as temperaturas. E com base nos padrões
05:49históricos, a maior parte do efeito do fenômeno será sentido no ano que vem. Abre aspas.
05:55Com base nos registros, é altamente possível que os próximos 12 meses sejam ainda mais quentes,
06:00segundo o Climate Central. A tendência é que o El Nino tenha um pico em 2024, o que indica um
06:06verão bem quente pela frente. Depois, o fenômeno que ocorre no Oceano Pacífico deve entrar numa fase
06:11neutra. A geógrafa Karina Lima acrescenta que boa parte do território brasileiro se encontra agora
06:17sob uma espécie de domo de calor.
06:19Se formou novamente um domo de calor, que é um fenômeno que ocorre quando uma área de alta pressão
06:24permanece algum tempo numa mesma região, aprisionando o ar quente, e está havendo instabilidade de chuva
06:30na periferia dessa massa de ar.
06:33Entre fenômenos globais e locais, não dá para ignorar aqui os efeitos das mudanças climáticas
06:39na frequência e na intensidade das ondas de calor.
06:42O relatório da Climate Central avalia que os recordes de temperatura registrados nos últimos meses
06:47em várias partes do mundo não surpreendem e fazem parte da tendência de aquecimento alimentada
06:54pela poluição de carbono.
06:55Enquanto a humanidade continuar a queimar carvão, petróleo e gás natural, as temperaturas continuarão
07:01a subir e os impactos disso vão acelerar e se espalhar, segundo a entidade.
07:06Para lidar com o problema, ou ao menos mitigar seus efeitos na economia e na saúde de bilhões
07:11de pessoas, especialistas apostam justamente na transição energética rumo a fontes menos
07:16poluentes e na preservação de florestas.
07:19A ideia, por exemplo, envolve substituir os combustíveis fósseis, que geram os gases
07:23por trás do efeito estufa e do consequente aquecimento do planeta, por fontes de energias
07:28sustentáveis e renováveis.
07:30Outro aspecto fundamental dessa equação está em reduzir drasticamente o desmatamento,
07:35especialmente de florestas tropicais como a Amazônia.
07:38Isso porque essas reservas contêm e retêm grandes quantidades de carbono e, com isso,
07:43ajudam a frear a subida da temperatura global.
07:46A gente tem muita coisa a fazer.
07:48Essa mitigação do aquecimento global para conseguir o melhor cenário possível, que
07:53não é um bom cenário, mas é o melhor que nós conseguiremos, não é simples.
07:57A gente tem que fazer corte drástico de emissões de gases de efeito estufa, toda uma transição
08:03energética, mudanças estruturais na sociedade, e cada décimo de grau evitado importa e faz
08:11muita diferença, inclusive, para eventos extremos.
08:14A Karina ainda me explicou que, além da mitigação, é necessário discutir também
08:18a adaptação de cidades e bairros para esses cenários de calor extremo.
08:22A gente precisa repensar as nossas cidades, a questão da vegetação, a vegetação das
08:28nossas cidades, a arborização, maior arborização também em locais estratégicos, como próximo
08:34a pontos de ônibus, por exemplo, que é um local que as pessoas ficam muito tempo ali
08:39e muito expostas.
08:40Isolamento térmico nas casas, pintura de telhados com cores mais claras, o acesso à água,
08:47a protetor solar, tem que ser maior, tem que se falar disso na TV, tem que se explicar
08:53para a população os riscos, para que evitem exposições que não sejam necessárias.
08:58Eu acho que não se está dando o devido valor, o devido urgência a esse problema, é o maior
09:04desafio da humanidade.
09:06As mudanças climáticas são uma questão transversal que afeta todas as áreas da nossa
09:11vida, saúde, economia, segurança alimentar, não tem uma única área que não será afetada
09:18pelas mudanças climáticas.
09:20Bom, com isso eu fico por aqui, espero que você tenha gostado dessa reportagem.
09:24Continue acompanhando a nossa cobertura sobre a onda de calor e as mudanças climáticas por
09:28aqui, nas redes sociais, em bbcbrasil.com.
09:32Um abraço, se cuida e até a próxima!