- há 4 meses
Debate aborda a necessidade de encontrar o equilíbrio ideal entre afeto e regras firmes para garantir o desenvolvimento saudável das crianças.
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NotíciasTranscrição
00:00Pessoal, você aí de casa conhece alguma criança que você olha e fala
00:03sem limite, hein, bagunceiro, birrento, levado, criança mimada?
00:09São conceitos que vêm carregados de muitos julgamentos.
00:14Mas será que as respostas são tão simples assim?
00:17Hoje a gente vai mergulhar exatamente nesse ponto.
00:21Mesmo que você não tenha criança em casa, certamente você tem alguma criança perto de você,
00:26convive com alguma. Você conhece a educação positiva? Já ouviu falar nesse termo?
00:32Tem muita gente que tem preconceito, que confunde com educação permissiva.
00:37Vamos entender melhor o que está por trás desses comportamentos de cada tipo de educação
00:45que cada família decide dar aí para os seus pequenos.
00:48Vamos conversar com a Keila Rodrigues Mendes, é psicóloga infantil e neuropsicóloga.
00:54Bem-vinda, Keila.
00:55Bom dia, gente. Bom dia. Obrigada pelo convite. Mais uma vez estar aqui.
00:58Obrigada a você.
00:59Sobre a infância, então, que eu mais gosto de falar.
01:01É bom, né?
01:01Essa temática é maravilhosa.
01:03E vamos conversar também, Keila, com a Raíssa Reis, que é mãe do José de sete anos.
01:09Bem-vinda, Raíssa.
01:11Obrigada.
01:11Bom dia.
01:12Bom dia. Bom dia, pessoal de casa.
01:15Bom demais ter vocês por aqui, meninas.
01:17Já vamos ver o José aí na tela, José, brincando, se divertindo.
01:22Olha que delícia.
01:23Sendo criança, né?
01:25Sendo criança, criança, sendo criança.
01:28O Rai, conta para a gente, você aplica a educação positiva dentro de casa com o José?
01:35Como é que funciona?
01:35Então, eu aplico a educação, assim, tem gente que usa esse termo positiva, mas eu acho que fica muito dentro
01:45de uma caixinha e não é receita de bolo.
01:48Então, eu aplico o seguinte, o José, ele merece respeito, ele não é uma extensão minha, ele é um ser
01:57humano, único, em sua singularidade.
02:01Então, a partir desse momento, eu o trato com respeito, como qualquer ser humano, entendeu?
02:09Eu, por exemplo, eu não chego aqui em você e te dou um tapa.
02:13Por que eu vou fazer isso com o meu filho?
02:16Então, assim, é muito mais fácil, inclusive, você ser paciente com as pessoas que você não conhece do que com
02:24pessoas que a gente conhece, né?
02:26E convive diariamente, é verdade.
02:29Então, assim, não é receita de bolo, precisa de paciência, precisa estabelecer limites.
02:38A maternidade, eu até estava falando com ela aqui fora do ar, que a maternidade é uma coisa que a
02:43gente planta hoje para colher depois.
02:46Então, assim, não é um resultado que você vai ter, ah, fiz hoje e o meu filho vai aprender agora.
02:56É repetição, é paciência, é impor limites, saber conversar, né?
03:02Mas sem violência, porque a violência não leva a lugar nenhum.
03:07Eu costumo dizer, como que eu vou ensinar meu filho que não pode bater, batendo, né?
03:12É uma coisa contraditória até.
03:14Teve algum momento, alguma situação com o José que te desafiou mais, que você ficou ali nervosa, porque a gente
03:21fica e ficou ali com vontade, de repente, de dar um aperto, um beliscão, alguma coisa que te levou ao
03:27limite?
03:28Teve.
03:28Ele tinha uns três anos e a gente estava numa padaria e aí ele queria um picolé e ele nunca
03:38foi a criança de se jogar no chão, mas nesse momento ele se jogou e começou a fazer aquela birra,
03:46né, que costuma falar, dar esse termo.
03:50Mas, por quê? Porque ele estava desregulado, ele estava com sono, ele estava, quando a criança, são necessidades básicas, sono,
03:58questão de fisiologia, né, comer, fome, essas coisas.
04:10Então, quando o adulto fica desregulado, ele não consegue ter a conexão de entender a necessidade da criança.
04:18Então, o que acontece? Principalmente em público.
04:20A criança começou a fazer aquilo ali, o adulto fica mais nervoso com os olhares em volta do que com
04:29a criança em si.
04:31Então, eu comecei a ficar com vergonha e as pessoas olham e veem aquele recorte de um minuto e falam,
04:39nossa, que criança mimada, essa mãe não dá limite.
04:42Eu digo, bate, é só bater, por que que não bate? Eu apanhei, estou viva até hoje.
04:49Então, assim, é muito complicado.
04:51Então, naquele momento, eu peguei, peguei ele assim do chão, né, peguei mais firme, levei para o carro, ele estava
05:01chorando, ele estava desregulado ainda.
05:04Aí eu cheguei em casa, ele ainda estava assim, aí eu respirei, contei até 10, falei, não é nada pessoal.
05:12Porque a gente, às vezes, leva para o pessoal, aquilo ali fere a nossa criança interior, a pessoa na infância,
05:19às vezes, não foi acolhida.
05:21Então, qualquer criança que chora, a pessoa já fica nervosa, já não gosta do choro, porque não sabe o acolhimento.
05:29Então, eu falo com a Raíssa pequena, eu falo assim, não, ele não está te desafiando, é só ele.
05:36Aí depois fui, conversei, ele dormiu e depois dele dormir, ele acordou novamente e conversei de novo.
05:45E assim, na minha maternidade, eu sou muito esquecida, eu tenho uma memória assim, de peixe.
05:51Então, por exemplo, ele faz uma coisa hoje que eu não gostei.
05:55Aí, essas últimas semanas, ele estava com o comportamento de interromper quando eu estava conversando com algum adulto.
06:05Aí eu vou e anoto, porque eu preciso lembrar daquilo ali, então eu esqueço.
06:12Aí eu falo, José, falei uma vez, falei segunda, terceira.
06:18E aí eu converso e explico, porque não adianta você chegar para a criança e falar assim, não pega.
06:25Ela vai falar assim, por que não pega?
06:27Então, eu falei, não é educado, não é de bom tom você interromper quando a gente está conversando.
06:34E aí eu dei o exemplo dele com os amigos dele.
06:37Muito diálogo e muita conversa, né, Raíssa?
06:39Muito, muito, muito diálogo.
06:40Perfeito.
06:41Perfeito.
06:42Keila, tem um ponto aqui no depoimento da Raíssa que chama muita atenção.
06:45Ela falou uma coisa que a gente escuta muito.
06:49Ah, mas na minha época, minha mãe me batia, levei e foi ótimo.
06:54Eu aprendi no Morrito aqui até hoje.
06:57Como é que é esse conflito, assim, né, de gerações e de criações?
07:02E que é muito pertinente quando a gente fala de educação positiva, né?
07:06Só para deixar bem claro, assim, não preciso falar mais nada, porque ela já é...
07:09Falou a verdade.
07:10Só para deixar isso bem claro, já.
07:13Mas, brincadeiras à parte, né, eu tenho muitos pais e mães como pacientes lá no meu consultório, exatamente, tratando isso.
07:20Então a gente fala, ah, mas, sobrevivi.
07:24Mas a que ponto que você sobreviveu?
07:25De que forma que você sobreviveu?
07:27Tomando qual medicação de tarja preta hoje você faz uso, né, com frequência para poder lidar com os silenciamentos que
07:33a gente teve na nossa infância, né?
07:34Então exatamente o que a Raíssa traz, a tona, é uma questão que a gente viveu na nossa infância, né?
07:40Aquilo que a gente tem como referência de paternidade, parentalidade, inevitavelmente, quando a gente está desregulado, a gente vai colocar
07:46para fora.
07:46Sim.
07:47Então quando a gente não tem conhecimento, quando a gente não estuda, né, a gente estuda para muita coisa na
07:50vida, mas para ser pai e mãe a gente esquece que isso é uma coisa imprescindível, né?
07:55A gente está plantando hoje e vai colher isso lá no futuro a duras penas, ou plantar para benefício ou
08:01para um malefício.
08:03Então a gente precisa ter essa consciência de estudar até para ser pai e ser mãe para sair do piloto
08:09automático.
08:09Então quando a gente fala sobre educação positiva, eu gosto muito da ideia de parentalidade consciente, sabe?
08:15Que é uma pessoa que um pai e uma mãe que não vai agir no piloto automático, naquilo que já
08:20tem como referência de pai e mãe, que já foi, já aconteceu.
08:23Ah, minha mãe fazia assim, né?
08:25Mas sim, pode ter sido uma boa referência, mas às vezes, na maioria das vezes não foi, né?
08:30A gente teve choros que não pudemos chorar, falas que não foram escutadas e aquilo fica silenciado, não vai ser
08:37elaborado.
08:38E quando a gente não elabora, não trabalha as duas áreas do cérebro, fica só o emocional ou fica só
08:42o racional.
08:44E aí vai gerar a longo prazo uma série de desdobramentos, né?
08:47E a gente, como um adulto, com o cérebro maduro, completo, a gente tem essa responsabilidade quanto pai e mãe
08:54de estar junto com essa criança ali e ensiná-lo a refletir sobre a vida.
08:58Porque depois de chegar na adolescência, Bruna, o pai e a mãe falam, por que ele não faz essas coisas?
09:03Por que ele não entende?
09:04Vai ficando mais difícil, né?
09:05Por que ele não conversa, não tem diálogo?
09:08Ah, você não teve diálogo.
09:09A infância é um chão que a gente pisa a vida toda.
09:12Então, tem que ter um diálogo ali, para depois, né, a pessoa...
09:16Aí existe que a criança, a adolescente, tem autonomia, mas na fase da infância, não foi instruído, orientado, né?
09:23Só faz sim, faz não.
09:25A criança só sabe obedecer a ordem.
09:26E aí, quando chega na fase da adolescência que ele precisa exercer essa autonomia, não está em repertório para fazer.
09:32Então, a gente precisa sair desse piloto automático, né, dessa ideia de que, ah, fizeram comigo, eu vou fazer igual,
09:38vai dar tudo certo.
09:39Nem sempre.
09:40Mas, às vezes, a gente teve uma educação bem de respeitosa, né?
09:43E a gente reproduz isso inevitavelmente, no automático mesmo da vida, não é da correria, não é nem maldade do
09:47pai e da mãe.
09:48Sim, lógico.
09:48Às vezes, é falta de tempo, às vezes, falta de orientação, falta de suporte, rede de apoio, né?
09:53Quantas mães hoje a gente percebe que têm dificuldade, exatamente por isso.
09:56Estão no limite, né?
09:58Exatamente.
09:58Não conseguindo tempo nem para elas elaborarem suas próprias questões, né?
10:02Os pais também, né?
10:04Cada um com o seu nicho, né?
10:06Mas, quanto mais, dá atenção para o filho.
10:08Só que a criança, ela inevitavelmente não tem o cérebro pronto.
10:11Então, ela precisa de esse adulto regulado, né?
10:13Como a Raissa traz, essa temática, para emprestar esse cérebro regulado para essa criança também se regular no momento de
10:19birra.
10:19Para ela poder compreender que mundo é isso que ela está vivendo.
10:22Como agir de forma mais assertiva.
10:24Então, isso é nossa responsabilidade, né?
10:26Teve filho, como diz aquele estado, quem pariu, o Matheus, quem bala, né?
10:29E balança.
10:30Exatamente.
10:30Doutora, como que a gente pode dar limites em diversas situações?
10:35É possível sem brigar, sem ser autoritário, sem apontar o dedo, sem levantar a voz?
10:43É possível?
10:44É, é possível.
10:45E eu aconselho fortemente que a gente faça terapia contra o pai e mãe.
10:49Porque nós somos seres adultos, somos seres humanos.
10:52Os seres humanos somos imbuídos de emoções.
10:55Então, como a mesma raiz atrás, né?
10:57Nossa infância vem à tona, nossa criança teria ouve à tona.
11:00Quando uma criança se joga no chão, a gente não está falando necessariamente de um adulto com uma criança.
11:05Às vezes são duas crianças brigando, né?
11:07Uma criança grande e uma criança pequena.
11:09Verdade.
11:10Sabe?
11:10E aí eu fico olhando aquilo e falo, meu Deus, né?
11:12A pessoa não consegue se perceber, porque ela não chama razão para pensar que não é uma questão pessoal de
11:18fato.
11:19É uma questão mais emocional de regulação de um cérebro imaturo.
11:23Então, a gente precisa ter essa consciência de que limites, de regras, orientações, elas são imprescindíveis, né?
11:30Para toda a sociedade, sabe?
11:32Mas que elas não precisam ser de forma autoritária, né?
11:36Pode ser conversado, pode ser orientado, pode ser combinado.
11:40Eu acho que o combinado não sai caro, né?
11:42Exatamente.
11:42Se você senta com aquela criança e combina uma coisa, você está dando a ela autonomia de pensar antes.
11:46Poxa, eu combinei isso, eu acertei isso.
11:48E se eu acertei, eu tenho responsabilidade com isso.
11:51Sabe que poder tem isso?
11:53Da criança poder exercer esse combinado, essa decisão.
11:56E não porque alguém impôs isso nela.
11:58O trabalho é até autoconfiança, o destino da criança.
12:01Ela se sente potente, sabe?
12:03Poxa, eu combinei e eu vou cumprir com aquilo que eu fiz.
12:06Ah, não consegui fazer por uma série de questões?
12:09Ok, aí exerce autoridade, de fato.
12:11Existe uma questão de mãe, pai, pode ser, estar no papel de amigo, mas ele não é amigo.
12:19Ele é uma autoridade sobre a vida da criança, porque a ele foi dada a responsabilidade de cuidar como adulto,
12:25com cérebro completo.
12:26Não confundir isso, às vezes é difícil, né? A linha é tênue.
12:29Muito tênue.
12:30Então você pode exercer esse papel de amigo, mas você não é.
12:35Entende?
12:35Então é diferente de você ser, parecer ou se portar como e ser.
12:40É diferente.
12:41Então eles também precisam compreender isso.
12:43Porque existe um linear.
12:44Até aqui você pode ir.
12:45É uma liberdade controlada, sabe?
12:48Eu te dou autonomia, então, por exemplo, dá um exemplo bem prático da vida, né?
12:51Tem uma criança que quer usar uma roupa, uma fantasia, assim, megalomaníaca, uma roupa suja.
12:56Tem criança que às vezes escolhe uma roupinha, né?
12:58Quer usar ela para todos os lugares da vida.
13:00É verdade.
13:00Quer ir para a escola, quer para a creche, quer para a igreja, para tudo que vai ter canto.
13:03E aí, para você não tolir, né, essa criança, né, da autonomia de escolher aquilo que ela
13:08vai vestir, você pode dar duas opções.
13:10Olha, você tem essa daqui e tem esta daqui.
13:14São dois possíveis.
13:15Para este ambiente, a roupa é adequada, é essa daqui.
13:19Então você deu um limite, sabe?
13:21Mas você não cerciou ela a possibilidade de escolher.
13:24Então ela vai escolher dentro dessas duas opções.
13:26Qual que ela vai usar.
13:27Qual que ela vai usar.
13:28Então você nem foi autoritário, mas também não foi...
13:33Negociou e deu oportunidade da criança escolher, né?
13:36Eu preciso me dizer assim, eu falo com o José, que são três coisas que eu não negocio.
13:40Saúde, educação e higiene.
13:44Tomar banho, vai tomar banho.
13:47Ah, saúde, vai, entendeu?
13:49São coisas que...
13:50Não dá para negociar.
13:51Não dá para isso.
13:52Gente, que bate-papo bacana.
13:54Ficaria aqui mais um tempão conversando, como a gente aprende.
13:56Obrigada, meninas, pela entrevista.
14:00Parabéns aí pelo filhote.
14:01Obrigada, doutora, pelo estarecimento.
14:03Deixar um beijo aqui para ele.
14:05José, te amo.
14:06Faltou o José aqui, né?
14:08Faltou.
14:08Até a próxima ele vem.
14:10Obrigada, meninas.
14:11Até a próxima.
14:12Até a próxima.