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  • há 3 semanas
m entrevista, a Psiquiatra Clínica e Terapeuta Cognitiva, Giuliana Claudia, alerta os pais sobre alguns pontos da educação

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00:03Olá, meu nome é Juliana Cividanes e estou aqui hoje para conversar um pouquinho com vocês sobre
00:09disciplina e educação de crianças e adolescentes. Eu sou psiquiatra, mestre em psiquiatria e
00:17psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e também sou mãe. Acho que nesse difícil período
00:24de quarentena e isolamento, nós todos estamos convivendo mais em família e ao mesmo tempo
00:31estamos enfrentando as dificuldades que muitas vezes passavam despercebidas. Como está a educação
00:39dos nossos filhos? Como está o comportamento deles? Nessa vida corrida que levamos, trabalhando o dia
00:46inteiro, muitas vezes a educação dos filhos ficam direto com a escola. Deixamos nossos
00:54nossos filhos de manhã e os pegamos à tarde, mas a pandemia mudou todo esse aspecto e passamos a
01:01conviver dia a dia todos juntos em casa e aí nos deparamos com dificuldades. É certo que essas
01:08dificuldades também existem em tempos que não são de pandemia. Muitas vezes nos perguntamos se
01:14estamos sendo boas mães, bons pais, bons educadores. E o mundo muda, os conceitos mudam e os conceitos de
01:22educação também. E como fazer para dar uma boa educação aos nossos filhos sem ser muito rígidos e
01:29também não muito flexíveis? É correto chamar a atenção de crianças que fazem birra? Olha, é claro que sim.
01:38O que é a birra final de uma criança? É ela tentando, pelos meios que tem, pelas possibilidades que tem,
01:45conseguir a todo custo, algo que quer. Entretanto, ela não tem ainda a noção e a capacidade de entender
01:52se aquilo que ela quer é de fato o melhor para ela ou é adequado para aquele momento. Cabe aos
01:59pais
01:59determinar isso. Isso é o melhor para essa criança no momento? E se não for, é preciso dizer não.
02:06Como lidar então quando a criança faz birra? O ideal é você ser firme, dizer não. Não ter outra pessoa
02:15junto que contradiga a sua ordem. Por exemplo, um avô, um tio ou mesmo o outro cônjuge. Porque senão as
02:23ordens
02:24ficam contraditórias e a criança logo percebe isso. A criança percebe muito fácil quando não há um acordo
02:32das partes sobre o que ela pode ou não pode fazer. E pega uma brecha para se utilizar disso para
02:38fazer
02:39uma chantagemzinha emocional. Ah, as crianças são ruins? É claro que não. Elas estão usando os recursos
02:46que têm para conseguir aquilo que quer. Afinal de contas, não é isso que todos nós fazemos?
02:52Então, quando a sua criança fizer birra, se jogar no chão, falar que quer alguma coisa, num shopping,
02:57por exemplo, eu acho que muitas de nós já nos deparamos e já vivemos essa cena, é dizer não. Não
03:04se preocupar
03:05em estar passando vergonha ou não. Deixar a criança fazer a sua birra e por mais que ela grite, por
03:11mais que ela
03:12berre, continua sendo não. Um jeito também de lidar com isso é se afastar. É claro que mantendo a segurança,
03:20não vai abandonar a criança sozinha. Mas se afaste, deixe que ela perceba que aquela cena, aquele ataque
03:27emocional não te afeta, não te incomoda, que a sua palavra continua sendo não. E às vezes me perguntam,
03:35mas vale um castigo físico, tipo umas palmadas? Olha, eu não acredito nisso. Eu não acredito na violência
03:42para educar ninguém. Eu acho que, enquanto adultos, nós estamos numa posição privilegiada em relação às
03:49crianças. Nós temos o poder, o controle e temos mais força. Não é justo você usar da força física com
03:56alguém que não possa se defender. Existem outras maneiras de educar que não incluem nenhum tipo de
04:03violência, nem palmadas. Ela tem que entender que não pode aquilo simplesmente porque não pode,
04:10não porque vai ser castigada fisicamente. Um outro conflito muito grande é como adequar a educação
04:18quando os pais pensam diferente, quando a mãe tem uma opinião e o pai tem outra. É sempre importante que
04:25os pais conversem longe da criança e de forma particular sobre o que será, como será a educação
04:33da criança e, em momentos específicos, o que será decidido, se ela vai poder ou não poder fazer aquilo.
04:40Como eu já disse anteriormente, as crianças, assim como os jovens e adolescentes, percebem rapidamente
04:46quando existe um contrassenso ou uma oposição de opiniões entre os pais e se utilizam disso para fazer a
04:55chantagem, tanto de um lado quanto do outro. Então, tudo deve ser tratado anteriormente à resposta ser
05:04comunicada à criança. Tudo tem que ser decidido em conjunto entre os pais que devem chegar num consenso
05:11antes de dar a resposta para os filhos. É importante saber também que no desenvolvimento psicológico da criança
05:19é necessário ter a figura masculina ou do pai e a figura feminina, a da mãe. Isso não necessariamente está
05:27relacionado
05:28a gênero, ser um homem masculino, uma mulher feminina, não é essa a questão. Mas existe um pai e uma
05:36mãe
05:36que educam e que vão permanecer dentro da criança. O poder do pai é aquele que veta, é aquele que
05:44diz não,
05:44é aquele que é mais duro. E o poder da mãe é aquele que acolhe, aquele que resgata o carinho,
05:53resgata a doçura.
05:55Então, mesmo em famílias que são formadas diferentemente, por exemplo, com casais homoafetivos,
06:02dois homens, duas mulheres, é necessário sempre ter essas forças de oposição. Então, aquele que é mais rígido,
06:10que dá os limites de uma forma mais clara e aquele que é mais compreensivo, que adoça e explica esses
06:17limites.
06:18Isso cria para a criança uma sensação de segurança, uma sensação de que ela tem, de fato, limites,
06:25limites, mas que esses limites podem ser entendidos, compreendidos e aplicados de uma forma sutil e doce na vida.
06:34Sem castigos físicos e sem a possibilidade também de eu fazer tudo o que eu quero,
06:43sem ter ninguém para me explicar o que é certo e o que é errado.
06:47Isso é muito importante. Então, quando o seu cônjuge, o seu par, o seu parceiro, ou se você não é
06:54casado,
06:55mas tem um representante masculino ou feminino que faz o papel opositor ao seu,
07:01quando ele falar, escute, preste atenção, as crianças, elas são como massas amorfas.
07:08Elas precisam dos limites dos adultos para que elas possam se moldar,
07:13para que elas criem tanto a personalidade quanto a ética interna,
07:19os valores internos que elas vão levar para o resto da vida.
07:23Isso, meus caros amigos, não é feito pela escola, é feito pela família.
07:30De que forma essa família for constituída é dentro dessa primeira cela social,
07:36chamada família, que os valores e os limites são criados.
07:40Eu acho que é até redundante perguntar se os exemplos dos pais vão refletir na educação dos filhos.
07:47É claro que sim. A família é a nossa primeira célula social.
07:52É onde aprendemos tudo aquilo que tem a ver com limites, valores e ética.
07:58São esses valores que aprendemos em casa, nos mais tenros anos da vida,
08:03que vamos levar para a vida adulta e que vai fazer com que aprendamos ou não a nos comportar em
08:09sociedade.
08:09Tudo aquilo que ensinamos em casa é o que vai refletir numa sociedade.
08:16Infelizmente, hoje convivemos com muitos pais que são eles próprios muito mimados,
08:22que acreditam que podem tudo, ou porque tem um poder financeiro um pouco maior,
08:27ou porque estudaram, que podem passar por cima das leis,
08:31que é uma característica muito do brasileiro, achar que com uma carterada, com um nome,
08:38ou então com dinheiro, está acima da lei do certo e do errado.
08:43Nossa sociedade é constituída assim.
08:46Temos um péssimo hábito de resolver as coisas com aquele famoso jeitinho brasileiro.
08:53Mas tudo que nossos filhos verem a gente fazendo lá fora, é isso mesmo que eles vão fazer.
08:59Não só lá fora, mas também dentro de casa.
09:02Então, quando você se queixar de um comportamento do seu filho, preste atenção.
09:06Veja onde ele aprendeu.
09:08O mais importante do que falar, bater ou castigar, é o exemplo que você dá.
09:14E nessa época de pandemia, eu acho que fica mais claro ainda para todos nós.
09:19Escola transmite conhecimento, transmite saber.
09:23Escola também serve para educar.
09:25Claro, é na escola que temos a nossa primeira convivência em sociedade fora da nossa família.
09:33Primeira convivência em sociedade fora da nossa família.
09:37Porque a primeira convivência em sociedade foi a nossa família.
09:40E é da família que levamos esses valores.
09:44Então, esses valores são muito importantes.
09:46A escola é uma continuação do que você ensina em casa.
09:50Mas ela sozinha não é responsável pela educação dos seus filhos.
09:55Durante essa pandemia, que estamos todos aí sofrendo com a tal da homeschooling.
10:00Tendo que acolher e ensinar nossos filhos em casas.
10:03Eu vi e ouvi muitas mães, muitos pais, muitas pessoas revoltadas.
10:09Se queixando que, afinal de contas, eu pago a escola para quê?
10:12Se eles deixaram para mim o papel de educar o meu filho.
10:16Mas o papel de educar o seu filho sempre foi seu.
10:20O papel da escola é educar o seu filho para uma sociedade que não seja célula familiar.
10:27Ajudá-lo a ter essa ação social.
10:31Ser capaz de conviver em sociedade no futuro.
10:34E também passar conhecimento.
10:36Mas a base, a base, meu caro, tem que vir da escola.
10:42E uma última consideração.
10:44Castigo vale, né?
10:45Falei aqui várias vezes de castigo físico.
10:48Castigo físico eu acho que não vale.
10:50Mas castigos que tirem os privilégios, quando eles não se comportam de forma adequada,
10:57realmente valem.
10:58Há uma necessidade da gente aprender primeiro.
11:03Ensinar, aprender não, ensinar, desculpe.
11:05Ensinar primeiro os nossos filhos a se frustrarem.
11:09Cada vez mais eu vejo as gerações incapazes de sofrer frustrações.
11:14Quando recebem um não, seja, por exemplo, de uma prova que tiraram uma nota baixa,
11:19de um professor que não concorda com o que escreveram num trabalho,
11:23ou mesmo de um relacionamento amoroso que termina,
11:26essas crianças, esses jovens e esses adolescentes,
11:29eles chegam ao consultório completamente desestruturados.
11:33A gente percebe que eles não estão prontos para lidar com o não.
11:36Eles não estão prontos para lidar com a frustração e com a rejeição.
11:41Mas na vida, sempre vai haver rejeição.
11:45Por mais poder que você tenha, por mais dinheiro que você tenha,
11:49sempre vão haver momentos de rejeição.
11:53Seja no seu trabalho, seja na sua vida amorosa, seja na sua vida de amizades,
11:58você sempre vai passar por situações em que você será rejeitado,
12:02de uma forma ou de outra, mais ou menos intensa,
12:05e vai ter que lidar com essa emoção negativa.
12:07E esse ensinamento básico de rejeição começa em casa.
12:12É exatamente quando frustramos os nossos filhos,
12:14como dizendo não para eles,
12:17como não aprovamos todas as suas atitudes,
12:19ou não fazemos todos os seus gostos,
12:22ou não atendemos a todos os seus pedidos,
12:25que estão preparando essas crianças e esses jovens
12:29para enfrentar a vida lá fora
12:31e serem capazes de superar as frustrações.
12:35Uma outra coisa muito importante,
12:37além das frustrações,
12:39é aprender que muitas vezes você vai perder,
12:43você não vai ganhar sempre.
12:46E essa é uma outra forma de frustração.
12:48O que acontece quando os jovens não estão preparados para isso,
12:52eles acabam tendo um mal-estar emocional tão grande
12:56e não são capazes de sustentar,
12:58não são capazes de aguentar e lidar com essa frustração.
13:01E cada vez mais nós vemos jovens tentando lidar com as suas emoções
13:06através de expressões corporais, expressões físicas,
13:10seja se cortando, seja se tatuando em excesso,
13:15seja consumindo drogas,
13:17seja colocando vários pírcens e outros acessórios,
13:21não só porque está na moda, porque é bonito, porque quer se enfeitar,
13:26muitas vezes como uma forma de automutilação,
13:29porque não conseguem se expressar afetivamente.
13:34A segunda coisa importante é aprender que toda ação tem uma reação
13:39e todos os nossos atos e nossas escolhas têm consequência.
13:44Não existe ação sem consequência.
13:47Então, se eu erro, por melhor que seja a minha boa intenção,
13:50eu vou sofrer uma consequência desse meu erro.
13:53Se eu faço algo que não devo, eu devo ser punido,
13:57eu devo ser responsabilizado pelos meus atos.
14:02E é outra coisa que a gente vê cada vez menos na sociedade.
14:06As crianças estão dominando os pais,
14:09mandando na casa,
14:12determinando como será o dia a dia.
14:14Os adolescentes pegam o carro dos pais,
14:17sempre de ordem,
14:18e fazem isso de uma forma repetitiva.
14:21Por quê?
14:22Não há consequências para os meus atos.
14:25Eu faço, eu desagrado as pessoas,
14:28as pessoas se aborrecem,
14:29mas para mim não acontece nada.
14:32Então, castigo é possível?
14:34Sim, castigo é possível,
14:36de uma forma moderada,
14:38e que, de fato, faça sentido educativo para aquela situação.
14:44O que temos que nos policiar muito,
14:47enquanto adultos,
14:48é não transferir para os castigos,
14:51as broncas,
14:52as nossas raivas,
14:54as nossas mágoas,
14:55e as nossas frustrações.
14:57Quando conversamos com as nossas crianças,
15:00quando orientamos as nossas crianças,
15:02ou mesmo quando punimos por ações inadequadas,
15:06que não se enquadrarão no mundo social,
15:09temos que fazer isso por amor,
15:11e não por ódio e por raiva.
15:13e de uma forma focada,
15:16direcionada,
15:17para que as nossas ações
15:19reflitam as consequências
15:21e levem ao aprendizado que desejamos.
15:26Então, mais uma vez,
15:27eu agradeço a atenção
15:29e fico à disposição.
15:30Se vocês quiserem entrar em contato,
15:32tirar dúvidas,
15:34estarei sempre presente.
15:36Muito obrigada.

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