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  • há 3 semanas
Filhos contam como a ausência do pai teve repercussões na vida.

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Transcrição
00:00Domingo é dia dos pais, só que muito mais que uma data para comemorar, é claro, com o paizão, beijar,
00:09abraçar, né?
00:10Isso quem pode, porque é um momento que também traz uma discussão muito importante, que é sobre o papel do
00:16pai.
00:17Só em 2021, quase 54 mil crianças foram registradas sem o nome do pai.
00:24Então, a gente vai falar sobre isso. Vem cá, aqui no nosso estúdio, eu recebo a psicóloga Satina Pimenta.
00:30Satina, obrigada pela sua participação.
00:32Boa tarde.
00:34Para que a gente consiga até mesmo reduzir esses números, né?
00:38Para pensar na tristeza de muitas crianças, adolescentes, jovens que crescem sem essa referência da figura paterna, né?
00:46Qual é o papel do pai na criação dos filhos?
00:50É muito importante que a gente pense sobre isso pelo seguinte, quando a gente vai estudar pela psicologia, o pai
00:58e a mãe têm papéis determinados, né?
01:01E aí, o papel da mãe é aquele papel acolhedor, aquele papel que vai, te puxa, te provém e tudo
01:08mais.
01:08E aí, Freud vai falar para a gente na psicanálise que o papel do pai é aquele papel do sujeito,
01:14que não necessariamente precisa ser um homem, mas que vai realizar esse papel, de que vai trazer a norma, vai
01:20trazer o limite, vai trazer o não para essa criança.
01:23Inclusive, ele fala sobre isso dentro de uma lógica do complexo de édipo, que ele chama, né?
01:28Então, esse sujeito, que pode ser tanto uma mulher quanto homem, porque é só um papel, ele é importante para
01:35que essa criança cresça com a construção daquilo que é certo, daquilo que é errado, daquilo que é socialmente determinado,
01:44daquilo que não é socialmente determinado.
01:46E aí, quando a criança, principalmente se tratando aí da primeira infância, não tem essa figura, não tem essa pessoa
01:55que dita as regras, que corrige, né?
01:59Conforme você bem disse agora sobre o papel do pai, quais são as consequências que isso pode trazer na vida
02:04dela, não só em relação a corrigir, mas também tem um lado afetivo, né?
02:08Que o pai é pai, mãe é mãe, são sentimentos que a gente tem que se resumem, deveriam se resumir
02:15em amor.
02:15Mas quando a gente não tem isso, quais são as consequências?
02:19Quando a gente tem a divisão dos papéis de forma socialmente, né?
02:25Colocada, então a mãe sendo essa mãe, né?
02:27E o pai sendo esse pai socialmente determinado, a gente vai ter uma construção aí conjunto, onde a gente provavelmente
02:34vai ter uma criança saudável, que vai se posicionar frente à sociedade, que vai estar bem nesse contexto.
02:41Quando a gente tem a ausência de qualquer um dos dois, a gente tem a falta, e essa falta gera
02:48como se fosse um buraco, que vai tentar ser buscado por essa criança.
02:53A criança, ela vai buscar em outras pessoas, sujeitos que possam realizar esse papel, certo?
02:59Só que nem sempre ela vai encontrar.
03:01A mãe, ela vai tentar fazer, mas nem sempre ela vai conseguir, certo?
03:06Então, a gente pode ter como consequência uma tristeza muito grande, uma revolta muito grande,
03:14crianças e adolescentes que não têm uma lógica de regramento, entende?
03:21E isso pode prejudicá-los na vida adulta.
03:24Até mesmo em relacionamentos, porque eu já ouvi algumas histórias, por exemplo, pessoas que não têm essa figura paterna, lá
03:32na frente, durante o namoro, o casamento,
03:35ela pode procurar a figura do pai nesse pretendente? Acontece isso?
03:40Acontece, porque fica um buraco, né?
03:42Então, fica aquele buraco e a gente vai buscando alguém para ocupar esse buraco.
03:47E aí, às vezes, a gente projeta esse desejo de ocupação no nosso companheiro, ou até mesmo na nossa companheira,
03:55né?
03:56E tenta fazer esse movimento de receber o cuidado que não foi dado por aquele pai.
04:03Mas pai é pai, companheiro é companheiro, tá, gente?
04:05E como que a família pode amenizar a ausência do pai?
04:09Porque, como a gente bem disse aí, né, por ano a gente tem números que assustam a gente de pais
04:17que não registram seus filhos.
04:19E se não registra, é porque não está também presente fisicamente, não está presente também emocionalmente, afetivamente, né?
04:28É, a gente tem pai biológico que é só pai biológico, né?
04:32A gente tem muito pai sócio-afetivo que é mais pai do que aqueles que, né, biologicamente, sanguíneamente determinados.
04:42O que que acontece?
04:44A gente não pode tentar fazer a substituição desse sujeito de forma agressiva.
04:50Essa substituição, ela é feita pela própria criança.
04:53Então, por exemplo, um padrasto, é até horrível falar essa palavra agora, a gente nem fala mais isso, a gente
04:59fala de pai sócio-afetivo dentro da psicologia jurídica, né?
05:03Esse sujeito, ele pode tratar essa criança como se dele fosse.
05:08E essa criança começar a se ver como, também, como se fosse filho, né?
05:13O próprio direito vai falar sobre multiparentalidade e vai falar pra gente que uma criança, ela pode ter tanto um
05:18pai biológico quanto um pai sócio-afetivo.
05:20E os dois têm os mesmos direitos e os mesmos deveres sobre ela, né?
05:25E é importante, porque não fica o buraco.
05:28Aquela história do pai McDonald's, aquele pai que só vai ali no final de semana, faz a brincadeirinha e vai
05:35embora, que não participa da relógica, da relação com o filho.
05:39Isso daí é muito prejudicial, é como se eu tivesse pai e não tivesse pai.
05:43Então, cadê esse sujeito dentro da minha construção?
05:46E aí fica, pro dia dos pais, fica aquele apelo.
05:49A gente tem essas crianças e essas crianças, elas vão ser espelho da gente.
05:54Então, quando os dois estão ali, pai e mãe estão ali, aquela criança, ela vai ter referências positivas de amor,
06:02de cuidado, de carinho,
06:03e não vai precisar projetar num outro uma busca pela ausência.
06:08E aí ela vai ter uma vida mais saudável.
06:10Olha só, a gente vai ver agora o depoimento da Raquel.
06:12Ela sofreu muito na infância por não ter o registro do pai.
06:16Vamos ver como é que ela conta isso.
06:18Eu, quando criança, descobri que eu não tinha pai registrado, minha mãe foi bem solteira.
06:24E aquilo tudo, quando chega a ver o dia dos pais, eu ficava muito triste, muito constrangida,
06:29porque eu sempre esperava ter meu pai para me dar um carinho, um abraço, uma atenção especial.
06:34Eu nunca tive isso.
06:36E no decorrer dos anos, eu entrei na justiça, consegui meu registro, meu pai, o nome do meu pai e
06:43meus documentos.
06:44E hoje, no dia dos pais, para mim, eu superei aquela tristeza toda que eu tinha, aquela angústia.
06:50E hoje eu sou uma pessoa, assim, realizada.
06:53Apesar de não ter tanta aproximação do meu pai, mas eu me sinto, assim, com o dever cumprido de tudo
06:59aquilo que eu lutei na minha vida toda,
07:01e construí, consegui.
07:03E hoje eu sou muito feliz.
07:04E o dia dos pais, para mim, hoje é um dia muito especial.
07:08Parabéns, Raquel, pela sua superação, viu?
07:11Agora, ela trouxe um assunto importante, né?
07:13Seja na comemoração, na escola, no próprio domingo também, no almoço em família,
07:18ela disse que esperava o abraço, né?
07:21Esse momento abraço do pai, e não, isso não acontecia.
07:24O que é a realidade de muitas crianças nesse momento, né?
07:27Minha filha mesmo, hoje, vai ter apresentação na escola, meu marido vai estar lá,
07:31mas quantas outras crianças vão estar à espera do pai e não vão, né, ter?
07:36Como que a gente pode amenizar essa frustração?
07:38É possível?
07:39Como que a gente lida com esse assunto, Sátina?
07:42É, a frustração não tem como deixar de ter, né?
07:46Ele vai tentar, como eu disse, buscar um novo sujeito ou uma nova pessoa que vai exercer esse papel,
07:53mas a ausência, ela vai estar ali.
07:55Então, um buraco vai estar ali.
07:57O que a gente pode fazer?
07:58Dar o máximo de amor possível.
08:00É esse o nosso papel, gente.
08:01Como pais, é isso.
08:03A gente oferta amor, a gente oferta cuidado, a gente oferta carinho,
08:06e a gente oferta a acolhida.
08:09Dando a acolhida, a gente consegue fazer com que esse buraco se torne um pouquinho menor.
08:14Agora a gente vai ver o depoimento da Ana.
08:17Ela teve a ausência do pai desde os três anos.
08:19Ela vai contar como é que foi enfrentar essa ausência ao longo do tempo.
08:25Meu pai me reconheceu, sim, participou da minha vida,
08:28até eu ter três anos de idade, quando ele ainda tinha um relacionamento com a minha mãe.
08:34E quando esse relacionamento se findou, foi uma escolha dele não participar mais da minha vida,
08:41financeiramente, afetivamente.
08:43Isso acarretou, teve vários prejuízos na minha vida.
08:48Eu lembro de, na minha infância, eu ter febre, dores emocionais,
08:56porque eu convidava, por exemplo, para alguma atividade na escola,
09:01ele não negava, falava que iria, mas não iria.
09:04E isso trouxe várias questões psicológicas.
09:10E também, na minha adolescência, eu sentia por que que meu pai me conhece,
09:16ele sabe que é meu pai, eu ligo para ele, ele me atende,
09:20mas ele não escolheu não ser participativo,
09:25escolheu não querer ter proximidade comigo,
09:29e essas questões martelavam na minha mente.
09:32Hoje, né, isso não, eu sei que não é uma culpa minha,
09:36é uma escolha dele, não me afeta mais,
09:38mas eu já tive essa dúvida batendo na minha cabeça durante muito tempo.
09:45Obrigada pela sua participação, viu?
09:47E quem também tem um relato parecido é o Davi.
09:50O Davi chegou agora aqui no nosso estúdio,
09:52seja muito bem-vindo, obrigada pela sua participação.
09:55Você também conheceu o seu pai, mas não teve relação de pai e filho,
10:00foi isso, Davi? Boa tarde.
10:02Boa tarde.
10:03Isso, eu conheci o meu pai, né,
10:05mas, assim, a gente nunca teve um vínculo de amizade,
10:09não por minha parte, mas pela parte dele.
10:12A minha mãe também sempre deixou isso muito aberto,
10:15porém, ele nunca quis ter esse vínculo,
10:18muito também pela família dele,
10:20por conta que eram racistas e a minha mãe é negra.
10:23Então, assim, eu também nunca fiz muita questão de estar perto da família,
10:29por essa questão, mas, tipo assim,
10:31eu sempre quis ter um vínculo de paterno, né?
10:34Então, sempre foi muito complicado pra mim,
10:36tipo, o meu maior sonho era ter ele nas festas de escola,
10:39ali no Dia dos Pais.
10:40Então, pra mim foi muito difícil esse momento,
10:44tipo, desde pequeno, nunca ter ele presente,
10:46porém, hoje em dia, eu já levo um pouco mais tranquilo, assim.
10:49Você consegue identificar as consequências
10:53que essa ausência, desde a sua primeira infância,
10:56e embora hoje você leve com mais tranquilidade,
10:59com mais naturalidade esse assunto,
11:01mas você consegue identificar quais foram as marcas
11:04que isso deixou na sua vida, Davi?
11:06Muitas marcas, assim.
11:08Uma delas, por exemplo, é que,
11:10desde pequeno, eu falava que eu nunca teria filho,
11:12se eu tivesse filho um dia, né?
11:14Eu falava, nossa, nunca, jamais, não quero ter uma criança,
11:19por conta que, eu já até falei isso com a minha mãe,
11:22eu não sei como passar esse amor paterno pra uma criança.
11:26Sabe? Porque eu não tive.
11:27A minha mãe fez um trabalho incrível,
11:30ela foi a melhor mãe do mundo, assim,
11:32tipo, a melhor mãe que eu poderia ter,
11:35porém, falta algo, sabe?
11:36Tipo assim, falta ali uma ausência de um pai.
11:39E eu achava que não.
11:40Por muito tempo, eu relutava comigo e falava,
11:43não, galera, eu acho que não, tá tudo bem,
11:45minha mãe é incrível, ela faz tudo por mim,
11:48se doa e já fez altos esforços.
11:50Porém, eu fui crescendo e eu falei,
11:52cara, eu acho que faltou uma coisinha aqui, sabe?
11:56Tipo, eu lembro de vários relatos de...
11:59Eu estar ali querendo falar com ele,
12:03buscando, eu mandava cartinha.
12:05Eu lembro que um dia muito importante pra mim
12:07foi quando ele falou que iria me ver no Dia dos Pais
12:10e eu comprei presente, assim,
12:11minha mãe fez tudo muito bonito.
12:13E ele não foi.
12:14E eu fiquei chorando, assim,
12:16e, tipo, todas as vezes que me vem sobre...
12:21Tipo, vem esse assunto na minha mente,
12:23eu lembro desse exato momento, sabe?
12:26Então, é uma marca muito grande
12:28que não vai se apagar.
12:29Porém, hoje em dia, eu já levo mais tranquilo.
12:32Porém, tem muitas marcas que,
12:34quando você vai crescendo, você vai sentindo,
12:36putz, eu acho que se eu tivesse...
12:37Isso aqui teria sido diferente, talvez.
12:40O psicológico, eu acho que teria aceitado melhor, enfim.
12:43Como ressignificar essa dor
12:46e superar, virar a chave
12:49e tentar fazer do limão uma limonada, Sátina?
12:54Não dá.
12:55Vou ser muito sincera com você.
12:57É uma marca que fica.
12:58É uma marca.
12:59Não dá.
13:00É uma ausência que marca mesmo.
13:02Até porque a sociedade, ela fala com você,
13:04olha, você é um filho,
13:05e se você é filho, você tem um pai e uma mãe.
13:07Aí, do nada, você não tem?
13:09Todo mundo quer que você tenha.
13:12Então, você fica esperando aquilo.
13:14Você quer aquele pai, você espera ele no Dia dos Pais.
13:17Você tem esse movimento.
13:18Então, quando você não tem,
13:20a sociedade mesmo olha para você e fala,
13:23está faltando, tem alguma coisa aí que não tem.
13:25Aí, você fica com a falta.
13:28Tem.
13:29Teve algo que marcou,
13:31assim, que foi um episódio que ficou extremamente marcado,
13:33além desse que você disse, né?
13:34Que ele prometeu que ia passar o Dia dos Pais com você,
13:36você comprou presente, fez a cartinha
13:38e nada dele aparecer.
13:39Além disso, tem outros episódios que,
13:41para você, assim, ficou muito marcado, Davi?
13:45Eu acho que tem dois episódios que são de muita alegria
13:48e alguns de tristeza.
13:52Tipo, eu lembro que os meus primos,
13:54eles falavam muito, tipo,
13:57ah, eu tenho pai e você não tem.
13:59E isso, tipo, ficava muito,
14:00caraca, por que eu não tenho um pai, sabe?
14:03Porque, tipo, ele não quer estar próximo a mim.
14:06E um outro momento foi que,
14:08de muita alegria, assim,
14:09que, tipo, me marca até hoje,
14:11mesmo ele não sendo presente,
14:12é que eu estava saindo da escola, né?
14:14Sabe, porque eu morava na Bahia.
14:16E eu estava saindo da escola, assim,
14:18ele mora lá.
14:18E ele simplesmente parou o carro, assim,
14:20e, tipo, me chamou e me colocou dentro
14:23e me levou para casa.
14:24E eu falei, caraca, que incrível,
14:26é assim que eu tenho um pai.
14:27Então, assim, são dois momentos diferentes.
14:30Um de muita alegria,
14:31que mesmo ele não estando presente,
14:33ainda me vem na memória e fala,
14:35eu acho que ele seria um bom pai.
14:37E esse outro momento que, tipo, assim,
14:39não faz tanta relação a ele,
14:41mas, pela ausência dele,
14:43ouvir das outras pessoas,
14:44por que você não tem pai?
14:45Ué, por que o seu pai não vai vir na reunião?
14:47Entendeu?
14:47Os meus primos falavam,
14:49ah, você não tem isso,
14:50você não tem esse brinquedo,
14:51porque o seu pai não te deu.
14:52O meu pai me deu.
14:53Entende?
14:54Então, é algo que ainda me marca, assim.
14:56Eu sinto que, tipo,
14:57é uma memória que,
14:59mesmo eu tentando ignorar,
15:02ela vem de alguma forma, assim.
15:04Ai, Davi, você vai falando,
15:05eu fiquei já arrepiada
15:07inúmeras vezes.
15:07A Sátia não está aqui
15:08com os olhos também marejados.
15:10Isso é emotiva, gente.
15:11Eu sou psicóloga,
15:12mas eu sou emotiva.
15:13Porque, quando a gente tem isso na nossa vida,
15:16e eu posso falar,
15:18graças a Deus,
15:20de boca cheia,
15:20quando a gente tem,
15:21é um sentimento que realmente
15:25enche o nosso coração de alegria.
15:26E quando a gente ouve o outro lado,
15:29aquele que não tem,
15:31isso traz para dentro de casa,
15:33traz a reflexão
15:34da importância
15:36de um momento simples
15:37com o seu filho.
15:39Você disse de uma carona
15:41que seu pai te deu.
15:43E você achou aquilo incrível.
15:45Nenhum momento você falou
15:46até agora aqui
15:46de presente,
15:48disso, daquilo.
15:48Você falou de momentos.
15:50E olha só o comentário aqui
15:51da Letícia Pimenta.
15:52Eu sou adotada,
15:53não conheci o meu pai biológico,
15:55na verdade,
15:55isso nunca me interessou.
15:57Minha mãe faz quatro anos
15:59que faleceu,
16:00e ela foi mãe e pai
16:01tudo ao mesmo tempo.
16:02Foi mais que tudo, né?
16:04Mas como bem você trouxe.
16:06Ninguém preenche
16:07a lacuna do pai.
16:08É claro que a própria criança,
16:11o adolescente,
16:11ele pode eleger alguém.
16:13Você, ao longo da sua vida,
16:14conseguiu eleger alguém
16:16para ter como referência
16:18de uma figura paterna
16:20na sua vida?
16:21Sim.
16:22Eu acho que,
16:23por muito tempo,
16:25todas as figuras masculinas
16:27que passavam pela minha vida,
16:28seja amigo da minha mãe,
16:29alguém assim que estava ali
16:31no vínculo de família,
16:32eu meio que
16:34trazia aquilo para mim
16:36como, caraca,
16:37eu acho que essa pessoa
16:39pode ser meu pai e tal.
16:40E você sempre fica,
16:41tem essa visão, né?
16:43E por muito tempo,
16:45eu criei vários vínculos
16:47assim,
16:47durante a minha adolescência,
16:50enfim.
16:51Mas hoje em dia,
16:52minha mãe,
16:52ela se casou,
16:53e o meu padrasto,
16:54eu chamo ele de pai,
16:55e não tem discussão,
16:57eu chamo ele de pai, sim,
16:59e ele faz esse papel,
17:01digamos assim,
17:03assim também com o meu irmão,
17:05que o meu irmão,
17:06nós somos filhos de pais diferentes,
17:08da mesma mãe,
17:09e ele também não teve,
17:11não foi presenteado
17:14com a presença do pai dele,
17:17e que também foi algo
17:18que me machucou muito,
17:19porque eu passei por tudo isso,
17:21e eu vi se repetir.
17:23Entende?
17:24Então,
17:24quando você vê isso,
17:26se repetir,
17:27é muito mais doloroso,
17:28porque você vê de fora.
17:30E aí,
17:31por vários momentos,
17:32eu surtava e falava,
17:33você tem que deixar
17:34o seu pai de lado e tal,
17:35e ele é uma criança,
17:36ainda ele vai fazer 12 anos,
17:37e minha mãe falava,
17:38cara,
17:38ele não vai entender.
17:40Tipo,
17:40agora ele não vai entender,
17:41ele ainda é muito novo
17:43para isso, sabe?
17:44E ele ficava,
17:45tipo,
17:45eu preciso falar com meu pai,
17:47eu quero falar com meu pai,
17:48quando eles vinham aqui
17:49para o Espírito Santo,
17:50não,
17:50eu quero encontrar o meu pai.
17:52E, tipo,
17:52o pai dele,
17:53não queria ver,
17:54ele,
17:54e se repetia,
17:55e isso doía muito,
17:56mas,
17:56hoje a gente já tem
17:57o meu padrasto
17:58como a nossa figura paterna,
18:00assim,
18:01que faz muito por nós,
18:02e que hoje,
18:04meio que,
18:06não que apaga,
18:07sabe?
18:07Que eu acho que é aquilo,
18:08nunca vai se apagar,
18:10mas que a gente tem
18:11um conforto melhor
18:12de falar,
18:12hum,
18:12meu pai,
18:13eu acho que hoje
18:14eu consigo falar
18:15com mais facilidade.
18:16Você trouxe um detalhe
18:17muito importante
18:18na sua fala,
18:19que eu quero que a Satina
18:20explique,
18:21como que as mães
18:23podem conversar
18:24sobre esse assunto
18:25com os filhos,
18:27igual você bem disse,
18:28seu irmão tem 12 anos,
18:29né?
18:30Então,
18:31ele ainda tem
18:31essa esperança,
18:33né?
18:34Ele ainda tem isso
18:34dentro dele,
18:35mas você passou por isso,
18:37sua mãe sabe também
18:38da realidade,
18:39e não vê luz
18:41no fim do túnel
18:42para essa realidade,
18:43né?
18:44E aí,
18:44Satina,
18:45como que as mães
18:45conversam sobre esse assunto?
18:47Isso vai depender
18:48da idade
18:49de cada filho,
18:51tá?
18:51Então,
18:51cada etapa
18:53do desenvolvimento,
18:54aquela criança
18:55entende uma coisa,
18:56então,
18:56quando sua mãe fala,
18:57ele tem 12 anos,
18:59ele não vai entender
19:00aquilo,
19:00ela está falando a verdade,
19:01realmente ele não tem
19:03ainda experiências de vida,
19:05ele não tem ainda
19:06maturidade
19:06para compreender
19:08aquela informação.
19:09Talvez,
19:10mais lá para frente,
19:11ela possa chegar e falar,
19:12olha,
19:12infelizmente,
19:13o seu pai não quis
19:14estar com você.
19:16E aí,
19:17ele vai parar
19:18e vai falar,
19:18poxa,
19:19tudo bem,
19:20pelo menos eu tenho
19:20aqui o meu padrasto,
19:22né?
19:22E por aí vai.
19:24Então,
19:24sempre vai depender
19:25da idade
19:26daquela criança.
19:27E, por favor,
19:28muito cuidado
19:29com a alienação parental,
19:30né?
19:31A alienação parental,
19:32inclusive,
19:32tem lei que fala
19:33sobre alienação parental,
19:35a gente não deve
19:36nunca,
19:38tá?
19:38Trazer,
19:39denegrir,
19:41falar mal,
19:44daquele pai.
19:45Ah,
19:45mas ele é isso,
19:47mas aquela criança,
19:48ela não é a pessoa
19:50que você tem que falar aquilo.
19:51Você fala isso
19:52para a sua amiga,
19:52você fala isso
19:53para o seu parente,
19:54mas aquela criança
19:55tem a ideia do pai,
19:57aquela ideia,
19:58quando é maculada,
20:00ela machuca.
20:01Então,
20:02a gente tem que tomar,
20:03não é nem pelo sujeito,
20:05tá?
20:05É pela criança,
20:06protegendo a criança.
20:07até porque ela não tem
20:08maturidade, né?
20:10Para decifrar tudo isso
20:12no mundo,
20:12na cabecinha dela.
20:13Imagina a situação
20:15de abandono,
20:15eu estou sendo abandonada,
20:17aquela sentimento
20:19é caminhando com ela
20:20durante toda a sua vida
20:21e ela não está
20:22na maturidade
20:23para entender isso.
20:24Agora a gente vai ver
20:25o relato do Tiago,
20:26ele conheceu o pai
20:27com 11 anos
20:28e conta como foi
20:29esse tempo, né?
20:31E como eles estão agora,
20:32olha aí.
20:33Eu tenho 19 anos,
20:35conheci meu pai
20:36com 11 anos de idade.
20:38Antes disso,
20:39eu morei com minha bisavó,
20:42depois morei com minha avó
20:43e aí eu sempre falei com ela,
20:45eu falei,
20:45bisavó,
20:46quem é meu pai?
20:47Me leva para conhecer ele.
20:49E aí,
20:49ela saiu onde ele morava
20:50e com 11 anos de idade,
20:51ela esperou crescer
20:52mais um pouquinho,
20:53com 11 anos de idade,
20:53ela me levou para conhecer ele,
20:55me levar na casa dele
20:57e graças a Deus,
20:58a gente tem uma
20:59amizade boa
21:00entre eu e ele.
21:02A gente não tem
21:02um contato diariamente,
21:03mas também eu não guardo
21:04nenhuma mágoa dele também,
21:05porque eu entendo
21:06que coisas do passado
21:07ficaram no passado.
21:08Estou aqui também
21:09para desejar um feliz
21:10dia dos pais
21:10para todo mundo aí,
21:12todas as pessoas
21:12que têm seus papais em casa.
21:15Obrigada, Thiago,
21:16pela sua participação.
21:17Sátina,
21:18quem não teve a presença
21:19do pai na primeira infância,
21:20é possível
21:22restabelecer
21:23uma nova conexão,
21:25mesmo depois de certa idade?
21:26Sim,
21:27é possível.
21:28É como o Thiago,
21:30né?
21:30O Thiago falou,
21:31ele entende,
21:33conversa,
21:34senta,
21:34amadurece a situação,
21:36entende os motivos,
21:37às vezes teve motivo
21:38para não estar ali,
21:39às vezes foi influenciado
21:42a não estar ali
21:43e a gente pode conseguir
21:45tentar fazer
21:45esse reencontro.
21:47Dá para fazer.
21:48Olha o comentário
21:49da Erika Rod
21:50aqui no nosso Facebook.
21:51Eu tenho um pai comigo
21:53desde quando eu nasci,
21:54mas nunca tive
21:55um amor e carinho de pai.
21:57Isso que dói mais no coração.
21:59Já com o meu irmão
22:01e todo o carinho do mundo,
22:03mas achei no meu tio
22:05o pai, né?
22:06Que é mais que pai,
22:09acho que ele está...
22:10Enfim,
22:10vou tentar entender melhor
22:11o finalzinho do seu comentário.
22:14Ela disse,
22:15pai tio Hudson,
22:16melhor tio e pai do mundo.
22:19E isso traz um alerta,
22:22principalmente,
22:23que a gente até tocou
22:24nesse assunto aqui
22:24no início do programa,
22:26que muitos pais,
22:27hoje a gente vê muitas famílias
22:29com os pais separados.
22:30E aí a gente vê o pai,
22:32muitas das vezes,
22:33pegando nos finais de semana
22:35conforme determinação do juiz.
22:37E a gente sabe
22:38que perde um pouco também
22:39daquela vivência, né?
22:41Que foi o caso aqui da Erika.
22:43Ela tem o pai,
22:45a presença física,
22:46mas não tem a presença,
22:47muitas das vezes,
22:49afetiva,
22:49que a gente sabe
22:50que pode também trazer
22:51consequências, né, Satina?
22:53Sim,
22:53inclusive no direito,
22:54dentro da psicologia jurídica
22:56e dentro do direito das famílias,
22:58a gente tem uma ação
22:59chamada ação
23:00por dano moral
23:01para abandono afetivo.
23:03Mas é difícil cobrar afeto.
23:06Como que você cobra?
23:07Como?
23:08Você sai de dentro da pessoa.
23:11Isso é difícil.
23:12Inclusive,
23:12dentro dos processos judiciais
23:15que a gente atua
23:15como perito,
23:17nós percebemos
23:18uma situação muito complexa.
23:20Então, por exemplo,
23:20o pai não pega a criança
23:22no final de semana.
23:23Aí a mãe fala,
23:24poxa, mas tem que pegar.
23:26Tá, mas qual que vai ser
23:27a punição para esse pai?
23:29A gente,
23:30hoje,
23:31a advocacia tem colocado,
23:32inclusive,
23:32multas,
23:33multas pecuniárias
23:34em dinheiro
23:35pela não presença.
23:36Só que dinheiro
23:38não paga, amor.
23:40Então,
23:41eu acho que,
23:41primeiro,
23:42a gente tem que pensar.
23:43Filho tem que ser
23:46desejado.
23:46Então,
23:47ter essa consciência
23:49de que a gente
23:50escolhe ter filhos.
23:52Não pode sair por aí
23:53fazendo filho
23:54e depois deixar no mundo.
23:55Tanto pais
23:56quanto mães.
23:57E a partir disso,
23:59fazer a maternagem,
24:00fazer a paternagem
24:01com amor,
24:02com carinho.
24:03São pessoas que dependem
24:04da gente.
24:05Eles dependem da gente.
24:07Exatamente.
24:07e muita responsabilidade,
24:09uma paternidade responsável.
24:12Davi,
24:12obrigada pela sua participação.
24:13Sua história
24:14é muito emocionante
24:15e que você consiga,
24:16de alguma forma,
24:18encontrar,
24:18manter essa figura paterna
24:21para preencher
24:22de algum...
24:24Embora a gente
24:24já debateu aqui,
24:26não é possível,
24:27de certa forma,
24:28mas que você consiga
24:29sempre se espelhar
24:31em alguma figura
24:33que para você
24:33tenha essa representatividade.
24:35Obrigada, viu?
24:36Obrigada.
24:36Obrigada, Sácia.
24:37Talvez eu faça um pedido.
24:38Gente,
24:38eu quero mandar um beijo
24:39para o meu pai
24:40que está cuidando
24:40da minha neném
24:41para eu estar aqui.
24:42Um beijo,
24:42eu sou careca,
24:43eu te amo.
24:44Um beijo,
24:45até mais.

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