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  • há 3 semanas
Crianças e adolescentes que tiveram mães assassinadas precisam de apoio.

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Transcrição
00:00A gente já começa o programa de hoje com o depoimento da dona Marlete, gente.
00:05A filha e neta dela foram vítimas de feminicídio depois do crime.
00:11O que aconteceu? A dona Marlete passou a cuidar dos netos e também da bisneta.
00:15Olha o depoimento dessa mulher.
00:17Hoje eu cuido dos meus netos.
00:21A minha neta que está lá em casa, que é gêmea com essa que morreu,
00:25está lá em casa também, foi lá pra casa.
00:28É uma vida muito difícil, mas não está levando a vida.
00:31Eu quero que esse cara fique a podreza na cadeia, que eu não quero que ele saia de lá, não.
00:37Porque ele mentirou tudo o que ele queria fazer, o que ele fez,
00:40ele mandou ainda pro celular da minha neta, ainda, e a polícia viu, entendeu?
00:45Está sendo muito forte pra gente, está muito doido.
00:50Enfrentar uma dor da perda da filha, da neta, o luto,
00:54você imagina você ter que mudar toda a sua vida.
00:58Muda a rotina, a logística da família inteira.
01:01E olha só, gente, o Espírito Santo registrou nos últimos cinco anos,
01:06158 casos de feminicídio.
01:08Um crime que traz consequências pra toda a família,
01:11mas principalmente pra quem?
01:14Pros filhos.
01:15Pros filhos que ficam.
01:16Falta mãe, muitas vezes falta o pai que está preso,
01:22falta amor, falta ajuda psicológica,
01:24e também um outro ponto que é fundamental,
01:27o apoio financeiro pra esses meninos e meninas que ficam órfãos.
01:30Aqui em Vitória, um projeto prevê auxílio financeiro
01:34para os filhos de vítimas de feminicídio.
01:37O benefício será voltado para famílias com renda de até três salários mínimos.
01:43O projeto prevê ainda que para receber o auxílio,
01:46os menores devem estar matriculados na escola.
01:50Em São Paulo, gente, essa lei de auxílio aos filhos de vítimas de feminicídio
01:56foi sancionada na semana passada.
01:59A ajuda financeira está prevista para crianças e os adolescentes menores de 18 anos.
02:05E é isso que a gente vai discutir a partir de agora aqui no nosso programa.
02:09A necessidade de políticas públicas para que esses filhos possam,
02:15pelo menos, continuar a vida com dignidade.
02:18Aqui no nosso estúdio, vem cá, eu recebo a psicóloga Daniela Sampaio.
02:22Dani, obrigada pela sua participação, boa tarde.
02:25Recebo também Jusceléia Santos, que faz parte do projeto Cartas à Maria da Penha.
02:30Estava com saudade de você, Ju.
02:31Bem-vinda novamente ao programa.
02:33Você, enquanto uma mulher que está aqui representando
02:37muitas famílias que sofrem dessa dor,
02:41como que você vê esse projeto de lei, especificamente,
02:45a gente está falando dele agora, né?
02:46A gente começa falando dele, como é que você vê essa necessidade,
02:50a importância de voltar o olhar, principalmente para os órfãos do feminicídio, Ju?
02:56Eu acho esse projeto um projeto tardio,
02:59um projeto incompleto, porque não abrange o Estado todo,
03:02e um projeto que é incompleto,
03:06porque eles pedem uma criança que seja matriculada na rede pública,
03:09mas não existe que essa criança tenha atendimento psicológico.
03:13Esse dinheiro que é dado, ele não vai sanar a dores dessa criança,
03:17nem desse adolescente.
03:19Pelo contrário.
03:20Eu acho que cada vez, assim, isso vai remete,
03:22porque esse jovem, mesmo recebendo esse dinheiro,
03:24ele não ressignificou isso,
03:26porque ele tem um pai preso e tem uma mãe morta.
03:28Então, assim, o projeto, a gente falar em política pública
03:32para a mulher vítima de feminicídio no Estado do Espírito Santo
03:35é uma hipocrisia, porque não existe.
03:38Nós não temos atendimento psicológico nem para a mulher vítima,
03:41nem para a mulher vítima de feminicídio.
03:43Nós somos uma rede que essas crianças não têm psicólogos à altura,
03:48nem psiquiatra infantil que faça esse acolhimento.
03:50E é necessário, porque uma criança que perde a mãe,
03:53ele, de uma hora para a outra, tem a família toda destruída,
03:56ele fica sem rumo. E como é que ele vai se ressignificar a isso?
03:59É uma dor que nunca vai passar.
04:01Então, se a gente falar assim, eles vão doar um salário
04:04para essa criança.
04:05Mas a alma dessa criança, a mente dessa criança,
04:09ela está completamente...
04:10Porque, necessariamente, um mau marido
04:12não significa que ele é um mau pai.
04:14E como é que fica a mente dessa criança?
04:15Então, assim, nós estamos fazendo projetos incompletos,
04:18porque não abrange o Estado todo,
04:20isso deveria ser uma lei estadual
04:21e não uma lei municipal.
04:24Temos que verificar também aonde está as políticas públicas
04:27de tratamento psicológico e emocional para essas crianças,
04:30porque não temos.
04:32Porque, hoje em dia, a gente fala assim, no Espírito Santo,
04:34nós falamos de um número muito grande,
04:36150 e poucas mulheres assassinadas em negócio,
04:39são 30 mulheres assassinadas por ano.
04:42E outra coisa, nós verificamos que essa faixa etária de meninas
04:44está caindo.
04:45Nós já não temos meninas que são...
04:47mulheres que são mortas com 30 anos.
04:49Nós temos meninas mortas com 15.
04:51Então, assim, é uma coisa que a gente tem que levar em consideração
04:54que esses projetos e essas políticas públicas estão incompletas.
04:58E, sinceramente, em Vila Velha não existe política pública eficaz
05:01para as mulheres.
05:03Como é que é a realidade dessas crianças?
05:05Você que lida diretamente...
05:07Gente, a Jusceléia faz parte de um grupo muito bacana.
05:10A Jusceléia, a Dona Joana, a Camila lá na Serra também.
05:14Vocês têm um papel muito importante de reunir mulheres e dar apoio,
05:20dar força, correr atrás de alguma ajuda.
05:22Mulheres que estão desesperadas, precisando mudar de estado,
05:26fugindo do agressor, apoio às suas crianças.
05:30Como é que é a realidade dessas crianças, Jusceléia?
05:33A realidade dessa criança é a seguinte,
05:34quando a mãe é assassinada, começa aquele contexto,
05:36daquele corpo estar ali, o pai ser apreendido,
05:38aquilo ali já é um choque para a criança.
05:40Porque os meus filhos ficaram chocados de me ver sendo agredida.
05:44Imagino a criança vendo a mãe ser assassinada.
05:46Nós tivemos um caso em Curitiba que o pai assassinou a mãe
05:49e a criança sai correndo.
05:51Então, se você vê assim, aquela criança está ali,
05:53vê aquele pai preso, e ali, de uma hora para a outra,
05:56ela não tem mais referências familiares.
05:59Perdeu a referência familiar.
06:00Ela não tem mais o pai e ela não tem mais a mãe.
06:03Só que, nesse contexto, entra o quê?
06:05Eu entro o Estado falando bem assim que eu vou te dar um dinheiro
06:08para abranger sua dependência econômica.
06:11Mas e aí?
06:12Como que fica essa criança?
06:13Como que a criança processa?
06:15E, quando a criança é pequena,
06:16eu acho que é mais fácil ela sofrer menos.
06:19Também não digo que não sofra.
06:20Porque tem umas que estão até sendo amamentadas ainda
06:22quando a mãe é ceifada.
06:24Então, assim, como aquela criança,
06:26que é um adolescente, vê aquilo?
06:28Como que ela ressignifica aquilo?
06:29Você imagina uma noite de uma criança dormir
06:32após o homicídio da mãe?
06:34É o que a gente nem pensa.
06:35Os políticos, hoje em dia,
06:38eles não pensam naquela criança que está ali.
06:40Você imagina você dormir após você ver a sua mãe sendo assassinada
06:43e seu pai ser preso.
06:45Ninguém pensa nisso.
06:46Nós pensamos na parte punitiva,
06:47que funciona excelentemente bem no nosso Estado,
06:50que nós saímos do primeiro lugar
06:52para o décimo segundo lugar em questão de feminicídio no Brasil.
06:55Nós temos uma política jurídica que funciona,
06:58com leis marias da peia
06:59e medidas protetivas saindo em menos de 24 horas.
07:01Mas nós não temos a parte que cabe às políticas públicas.
07:05Nós não temos.
07:06Em Vila Velha, nós temos um psiquiatra infantil
07:08para uma população de 500 mil pessoas.
07:12Então, você, uma criança que sofre um feminicídio na família,
07:15ela precisa de psicólogo, psiquiatra,
07:17terapeuta ocupacional.
07:18Ela precisa fazer vários tipos de tratamento.
07:21Eu vou aproveitar aqui a presença da Daniela, gente.
07:23A Daniela é psicóloga,
07:24já apresentei ela aqui no nosso estúdio hoje.
07:27Dani, qual a importância dessa ajuda psicológica
07:30para essa criança?
07:31E se ela não tiver isso, ainda mais nesse detalhe,
07:35nessa cena que a Jusceléia bem ilustrou,
07:38nesse primeiro dia, nesse primeiro momento,
07:40o que isso pode acarretar na vida dela futuramente?
07:42Boa tarde.
07:43Boa tarde, Roberta.
07:44É um assunto tão complexo,
07:46que envolve tantas variáveis.
07:48O que eu consigo pensar, primeiramente,
07:51com relação ao projeto,
07:53é que talvez, se a gente tentar ver
07:56algumas possibilidades,
07:58o dinheiro possa, de repente,
08:00dar o acesso a esse tratamento.
08:02Foi o que eu consigo pensar,
08:03sabe o que eu consegui pensar?
08:05De, de repente, essa pessoa que não teria esse acesso,
08:07porque a gente sabe que é a rede pública do país,
08:10enfim, o modo que funciona.
08:12E aí eu penso também na questão do luto,
08:14porque a gente sabe que o luto tem as fases
08:16a serem vividas.
08:17O primeiro dia é um impacto maior,
08:19mas o dia a dia se passando é ainda pior.
08:22Como que vivencia esse luto?
08:24Por quê?
08:25Uma coisa é um luto de uma pessoa que está hospitalizada.
08:29Então, você vê que sua mãe está hospitalizada.
08:31Não estou aqui, de modo nenhum,
08:33medindo a dor de ninguém,
08:34mas você consegue ir entendendo aos poucos.
08:37Agora, quando é um assassinato,
08:39que é algo brusco, né?
08:40Sua mãe está aqui hoje e ela foi assassinada.
08:42E aí, para você lidar com esse luto,
08:45é ainda mais difícil.
08:46Se for o seu pai ainda, a dor é imensurável.
08:49Acho que não tem nada que consiga dizer
08:51o tamanho dessa dor.
08:52E esse primeiro dia,
08:53eu ainda consigo pensar ele como o menos pior,
08:56no sentido de que ainda tem aquele, sabe,
08:58aquele monte de gente em volta,
08:59mas e aí quando os dias forem se passando?
09:01Cada um vai viver a sua vida, né?
09:02E aí essa criança?
09:03No primeiro dia, ainda a pessoa quer,
09:05não, vamos lá ficar com fulaninho, aconteceu isso.
09:08Mas aí os dias vão se passando,
09:09os meses vão se passando,
09:10cada um volta para a sua realidade,
09:12volta para a sua vida e o fulaninho fica lá.
09:14Outra coisa que eu consigo pensar é assim,
09:16morreu a mãe, digamos,
09:18o pai está preso ou foragido.
09:20Essa criança, digamos, vai ficar com a avó.
09:22A avó não tem condição financeira.
09:23Como que ela vai dar conta de tudo?
09:25Então, como eu disse,
09:26são tantas coisas que a gente tem que pensar
09:28num assunto desse que a gente ficaria aqui
09:30dias falando sobre isso.
09:32Mas eu penso que pode ser uma porta
09:34para a gente começar a falar sobre isso.
09:36E eu vejo quando o poder público
09:37faz uma lei dessa, por exemplo,
09:39ele está vendo, né?
09:40Está começando a ver outras possibilidades
09:42sobre esse assunto.
09:43A situação da avó,
09:44essa que a gente ouviu,
09:45o depoimento é tão complicada,
09:47que ela não está conseguindo
09:48nem processar o luto da filha.
09:51A rotina dela virou de cabeça para baixo,
09:54ela tem que abraçar o neto,
09:57continuar trabalhando mais ainda
09:59para dar conta financeira.
10:01Ok, um projeto muito bem-vindo,
10:03mas como a Jusceléia disse,
10:05incompleto.
10:06E está chegando tarde, né?
10:07A gente espera que ainda seja aprovado.
10:10Já era para ter sido pensado nisso
10:12há muito tempo.
10:14A gente vai convidar agora aqui
10:15para o nosso bate-papo, gente,
10:16a Nathiele.
10:17Há quatro meses,
10:18a irmã dela, a Daniela,
10:20foi vítima de feminicídio.
10:22Isso aconteceu aqui em Viana.
10:23Um crime, minha gente,
10:25que aconteceu na frente do filhinho.
10:28O filhinho de apenas quatro anos.
10:30Ela vai contar para a gente agora
10:31quem é que está cuidando dessa criança,
10:33no caso, o seu sobrinho, né, Nathiele.
10:35Como é que ele está?
10:36Boa tarde.
10:40Boa tarde.
10:41O meu sobrinho está sendo muito...
10:44Tipo assim, para a gente,
10:45é mais...
10:46Está tudo para nós todos
10:47que está sendo difícil, né?
10:49Porque a minha irmã era uma mãe.
10:51Ela era uma mãezona.
10:52Independente de tudo
10:53que ela já fez
10:54ou deixou de fazer
10:54que o povo fala,
10:55que ela nunca comunicou para a gente,
10:59mas...
10:59Pensa numa menina que era mãe.
11:01Era minha irmã.
11:02E meu sobrinho,
11:03ele está sentindo falta
11:05da presença da mãe,
11:06dele passear,
11:07que a mãe dele levar ele
11:08para passear muito.
11:08Coisa que minha mãe,
11:09nós já estamos tudo criados.
11:11A minha mãe não tem esse hábito
11:12de sair, de passear.
11:14A gente fala com ela,
11:15mãe, vai passear com ele
11:16para ver se ele distrai a mente.
11:18Agora mudou tudo, né?
11:20Que a gente...
11:20Tipo assim,
11:21minha mãe não tem aquele hábito
11:22de criar a criança pequena.
11:24Ela passava final de semana
11:26com a criança.
11:26Agora não,
11:27a criança é dela.
11:29Ela...
11:29Tipo assim,
11:30para a gente,
11:30eu não tenho filhos.
11:32Minhas irmãs têm filhos,
11:34então para elas é mais fácil
11:35cuidar, lidar com a criança.
11:36Mas mesmo assim,
11:38o amor da mãe,
11:39ninguém substitui.
11:41É muito diferente.
11:42Para a gente,
11:42está sendo muito difícil,
11:44porque, tipo assim,
11:45a gente...
11:45E saber que o cara
11:46está aí solto, né?
11:47E a gente não pode fazer nada.
11:50Ele...
11:51Praticamente,
11:52a minha mãe bota o menino
11:52na escola,
11:53ela sai 5 horas da manhã
11:54para ir trabalhar
11:55e só chega 5 da tarde.
11:58E paga alguém
11:59para tomar conta da criança
12:00uma rotina que minha mãe
12:01não tinha,
12:02uma responsabilidade
12:03que minha mãe não tinha,
12:04que hoje ela tem.
12:05e a gente tenta fazer
12:07o melhor,
12:08mas nunca vai ser
12:09a mesma coisa, né?
12:10Com a presença
12:11da mãe dele.
12:12Quer dizer,
12:13de papel de avó,
12:15que até então a sua mãe
12:16pegava nos finais de semana,
12:18né?
12:18Aquele chamego de avó,
12:20ela passa a ter
12:22responsabilidades
12:23de mãe.
12:24Não só na rotina,
12:25pelo que você está me relatando aí,
12:27até mesmo financeiramente?
12:30Sim,
12:31verdade.
12:32Tudo mudou na vida
12:33da minha mãe,
12:34porque, tipo assim,
12:34a minha mãe não tinha
12:35a responsabilidade
12:35de comprar leite,
12:37de pagar alguém
12:38para tomar conta,
12:39pagar alguém para levar,
12:41porque todos nós
12:41temos a nossa vida.
12:43E a minha mãe,
12:44a gente nunca esperaria,
12:45não imaginaria
12:45que a gente ia ter
12:46essa vida que a gente tem hoje,
12:48de ter uma responsabilidade,
12:49principalmente a minha mãe,
12:51de cuidar dele.
12:52E ela sozinha
12:53para tudo,
12:54independente.
12:54A gente faz uma coisa,
12:56mas não é a mesma coisa.
12:57a responsabilidade ficou nela.
12:59Ela pegou uma responsabilidade
13:00que é difícil
13:02para a gente substituir
13:03a mãe dele.
13:04E tudo o que ele faz,
13:05ele vê a mãe dele
13:06e ele sabe de tudo.
13:08Não adianta a gente
13:08querer falar para ele assim,
13:09ah, meu filho,
13:10sua mãe,
13:10ele sabe que a mãe dele
13:11foi morar no céu,
13:12ele chama a gente
13:13para ir lá fora à noite
13:15para ver a mãe dele
13:15nas estrelas,
13:17ele sabe que o pai dele
13:18que tirou a vida.
13:19E o cara está aí,
13:21dando um...
13:22Quantas iguais,
13:23eu acho isso,
13:23sabe o que eu acho estranho?
13:24Porque o policial mataram,
13:26eles já pegaram o cara
13:28que mataram o policial.
13:30A minha irmã,
13:31não sei o porquê
13:33que ele matou,
13:33qual for o motivo,
13:34nem isso justifiquei,
13:35ninguém tirou a vida
13:36de ninguém.
13:37Ainda mais na frente
13:37de uma criança
13:38de quatro anos.
13:40E ele é uma criança
13:40muito inteligente.
13:42E a gente precisa muito
13:43da ajuda do psicólogo,
13:45de alguém que poder ajudar.
13:47Tipo assim,
13:48financeira,
13:48a gente pode fazer
13:49o que a gente pode fazer
13:50por ele.
13:50A gente não vai fazer
13:51a mesma coisa
13:51que a mãe dele faria,
13:53que já fez por ele,
13:54mas a gente pode tentar fazer.
13:58Ele já teve alguma ajuda?
14:00Foi oferecida para ele?
14:01Ele conseguiu acesso
14:02a alguma ajuda psicológica?
14:05Até hoje,
14:06não.
14:06Tem três meses
14:07que a minha irmã faleceu,
14:08vai fazer quatro.
14:09Até hoje,
14:10não apareceu ninguém.
14:11No início,
14:12o povo ficava
14:13igual a carnice em cima.
14:14O conceito telar era...
14:17O conceito telar
14:17e o negócio de menor aprendiz,
14:20tudo ficava em cima.
14:21Agora, não.
14:22Tipo,
14:23é só no momento
14:23que estava acontecendo,
14:24que estava todo mundo
14:25com a cabeça quente,
14:26eles ficavam ali
14:26perguntando as coisas
14:27que a gente não poderia fazer.
14:28E agora,
14:29no momento,
14:30eu falo mesmo,
14:31a gente está precisando
14:32mesmo da ajuda.
14:33E é uma coisa que vocês
14:34botaram lá na fila de espera,
14:35nós estamos aí esperando
14:36o psicólogo chamar.
14:38Chamou a minha mãe,
14:40que já que minha mãe
14:41não participou da presença,
14:42mas nós temos que passar
14:43por isso, né?
14:44Passar pelo psicólogo.
14:46Querendo ou não,
14:46a minha irmã morreu,
14:47mas parece que ela está
14:48no meio da gente ainda,
14:50porque foi uma coisa
14:51que a gente não esperava.
14:53É muito complicada
14:54essa história,
14:55porque, tipo assim,
14:55eu nunca imaginaria
14:56que a gente ia passar por isso.
14:57É uma situação muito difícil,
14:58ainda mais o meu sobrinho.
15:00Ele precisa da ajuda, sim,
15:02porque foi ele
15:03que preneceu tudo.
15:04Foi ele que pediu ajuda,
15:06o cara ainda foi fazer café,
15:07ainda deu café para ele,
15:08então ele sabe de tudo,
15:09não precisa nem a gente
15:10falar nada.
15:11A gente não fica perguntando,
15:13mas ele sabe.
15:14Ele vê as fotos da mãe dele,
15:16às vezes a gente tenta apagar,
15:17tentamos apagar a foto dele,
15:18mas não sei como,
15:20de repente,
15:20ele vê a foto dele
15:21mais a mãe dele,
15:22porque eles sempre tiraram
15:23fotos juntos,
15:24mas o que a gente conseguiu
15:26a gente apagou dele,
15:27tipo assim,
15:28tirou para ele não ficar mexendo.
15:30Mas vira e mexe,
15:31ele toca no assunto,
15:33ele fala,
15:34e eu acho que tem gente
15:36que fala assim,
15:36ah, vai esquecer,
15:37eu acho que ele nunca
15:38vai esquecer dessa cena.
15:39De que forma que ele reage?
15:41Quando ele pergunta pela mãe,
15:43quando ele pergunta
15:44pelo pai também?
15:47Não,
15:48ele não pergunta pelo pai,
15:49porque na vez que uma repórter
15:51veio fazer uma pergunta,
15:52aí eles tentaram afastar dele.
15:54Ele falou assim,
15:55eu sei que vocês estão falando
15:56do Hélito,
15:57o Hélito é o pai dele.
15:58E ele tinha um carinho,
16:00ele tinha um amor,
16:00pensa num cara,
16:01o menino doicia,
16:02quando o pai saía,
16:03ele fazia,
16:03ficava passando febre e tal.
16:06O pai dele saiu,
16:07ele não sentiu nada,
16:09nada,
16:10nada,
16:10nada,
16:10eu acho que ele sentiu falta
16:11mais da mãe dele,
16:12do carinho da mãe,
16:12do que do pai.
16:13Ele nem toca no assunto do pai,
16:15ele fala,
16:15eu sei que foi ele
16:16que matou minha mãe.
16:18Fica com a gente,
16:19Nath,
16:19mais cinco minutinhos,
16:20eu volto a falar com você,
16:21eu sei que você está no trabalho,
16:22já já eu te libero.
16:23É que eu quero repercutir aqui
16:24com a Dani,
16:25que é psicóloga,
16:25está com a gente
16:26no nosso estúdio.
16:28Dani,
16:28como é que é na cabeça
16:29da criança,
16:30essa mudança abrupta
16:31do conceito que você tem,
16:33da imagem que você tem
16:35do seu pai?
16:36De uma hora para outra,
16:38toda aquela imagem
16:38que você tinha
16:39se desmorona
16:40e você interpreta ele
16:42como um assassino.
16:44Como é que é isso
16:45na cabeça da criança?
16:46Qual é o impacto disso?
16:48Por isso que,
16:49às vezes,
16:50a gente vê essas crianças
16:51e elas ainda falam
16:52do pai com amor.
16:53Porque não é
16:54do dia para a noite,
16:55pelo menos não na maioria
16:56das vezes,
16:56a gente não consegue falar
16:57de 100% dos casos,
16:58cada um é cada um,
16:59mas de um modo geral,
17:01as crianças,
17:01elas ainda vão falar
17:02do agressor com amor,
17:03porque foi literalmente
17:05de um minuto para o outro,
17:06hoje eu te amo
17:07e em um minuto
17:08você matou minha mãe
17:08e eu já tenho
17:09o que te odiar.
17:10Então,
17:10para que isso processe
17:12no cérebro,
17:12para que a gente
17:13consiga entender
17:13o que de fato aconteceu,
17:14é um processo.
17:16Então,
17:16às vezes a família
17:17fica chateada com a criança,
17:18ah, fulano,
17:19você não pode gostar dele,
17:21mas pensa que é um processo
17:22que essa criança
17:22está passando.
17:23E é muito difícil,
17:24Roberto,
17:26realmente precisa
17:26de acompanhamento,
17:27precisa de fazer terapia,
17:28porque na terapia
17:29é um momento
17:29que você vai colocar para fora,
17:31uma pessoa que não vai
17:31te julgar,
17:32que vai te ouvir,
17:33que vai te entender,
17:34e essa pessoa,
17:35de fato,
17:35precisa de um acompanhamento
17:36mais urgente
17:37que ela possa conseguir,
17:38porque o resultado
17:40disso vai vir,
17:41essa criança vai ser
17:42um adulto,
17:43e aí?
17:43E a gente precisa cortar
17:44esse ciclo de violência,
17:45como que vai ser ele
17:46enquanto marido,
17:47por exemplo?
17:48Deixa eu voltar
17:48a falar com a Nath,
17:49como é que fica
17:52essa sobrecarga,
17:53Natiele,
17:54com a sua mãe?
17:58Para minha mãe,
17:59está sendo muito difícil,
18:00ela não fala com a gente,
18:02não tem,
18:02mas eu sei que está
18:03sendo difícil para ela.
18:06você sente uma exaustão
18:08nela,
18:08até mesmo,
18:10poxa,
18:10ela precisa acordar
18:11cinco horas da manhã,
18:12pelo que você me relatou,
18:13para ir trabalhar.
18:14Aí tem que pensar
18:15em dias alternados,
18:17porque eu sei que você
18:18já me contou
18:19como é que é a logística
18:19aí da família,
18:20que algumas irmãs
18:21conseguem ajudar,
18:22quando não conseguem,
18:23aí vem uma moça
18:25para ajudar a cuidar
18:25da criança.
18:26Alguém tem que levar
18:27essa criança para a creche,
18:29uma outra pessoa
18:30tem que buscar
18:31essa criança,
18:32aí à noite
18:32a sua mãe chega.
18:34como é que é?
18:35Você sente
18:36essa sobrecarga
18:37na vida da sua mãe?
18:40Sim,
18:41eu sinto,
18:41ela não fala com a gente,
18:42mas eu acho que é uma
18:43carga muito grande
18:44para ela sozinha,
18:45só que a responsabilidade
18:46é dela,
18:47a gente não pode fazer nada.
18:50O que a gente pode,
18:51a gente faz.
18:53Igual a psicóloga
18:54falou aí,
18:55a gente não fala
18:57nada com ele
18:58sobre o pai dele,
18:59a gente não fala
19:00que ele é ruim,
19:01que ele é bom,
19:01a gente não fala nada,
19:02sabe o que é nada?
19:03A gente nem foca
19:04no assunto,
19:05a gente já fala
19:05coisa da mãe dele.
19:07Às vezes ele fica igual
19:08no dia do,
19:09do,
19:10do,
19:11do dia do,
19:12quarta-feira agora,
19:14semana que foi do,
19:15finados,
19:16que foi do finado,
19:17né?
19:17A gente foi no,
19:19na igreja,
19:20na missa,
19:20e depois foi para o cemitério,
19:22chegou lá ele mesmo,
19:23não falamos nada.
19:25Ele mesmo foi lá na rua
19:27com a minha mãe,
19:27comprou as flores,
19:28colocou lá,
19:29conversou com a mãe dele,
19:31aí pediu a mãe dele
19:32para olhar ele,
19:33coisas que a gente não fala.
19:36Faz o seguinte,
19:37Nath,
19:37vai tomar uma água,
19:38a gente já volta
19:39a falar com você,
19:40tá?
19:41Se recompõe aí,
19:42a gente entende
19:43a sua dor,
19:43até porque está tudo
19:44muito recente.
19:46Jusceléia,
19:47assim como a gente
19:48está ouvindo o depoimento
19:49da Nathiele,
19:50que aconteceu com a irmã dela
19:51há quatro meses,
19:52a gente sabe que essa
19:53é uma realidade,
19:55você que lida diretamente
19:56com essas famílias,
19:57é uma dor parecida,
19:59são histórias que se repetem,
20:01infelizmente.
20:02A gente não tem como
20:02não se emocionar
20:03com a história da Nathiele,
20:04porque é uma perda
20:06terrível para essa criança.
20:07Você imagina uma criança
20:09após esse episódio
20:10para a escola,
20:12tem essa vertente,
20:13o outro alunozinho,
20:13o outro amiguinho
20:14para perguntar,
20:15talvez não por maldade,
20:16mas por curiosidade,
20:17porque viu falar.
20:18Então, essa criança revive,
20:19eles não falam,
20:20mas essa criança revive
20:21essa dor todos os dias.
20:23E o que a gente entende,
20:24assim,
20:24é como que uma criança
20:25que passa por uma situação
20:27dessa,
20:27ela tem que pegar
20:28um caminhamento
20:29e ir no posto de saúde
20:30para dar entrada
20:31no psicólogo
20:31e aguardar,
20:33aguardar o psicólogo
20:35chamar,
20:35porque, infelizmente,
20:36não é questão
20:37dos psicólogos,
20:38eles são mal remunerados
20:39na rede pública,
20:40então, por isso,
20:40não tem uma expansão
20:41e a criança fica aguardando.
20:43O que acontece
20:44nesse tempo
20:44que essa criança guarda?
20:46Quando a gente fala
20:46de vítima e feminicídio,
20:47a gente também
20:48vamos levar em consideração
20:49aquelas crianças
20:50que viram mãe
20:50contra essa atrocidade,
20:52como o filho da Marciane
20:53e de outras,
20:54que também trazem traumas
20:55para o resto da vida
20:56e não têm
20:57um atendimento
20:59psicológico adequado.
21:00É por isso
21:00que essa geração
21:01de agressores
21:02não acaba,
21:02porque essa geração
21:03não é tratada.
21:05Não são tratadas,
21:06o filho que vê
21:06um pai bater na mãe,
21:07a tendência dele
21:08é seguir o exemplo
21:09do pai.
21:10Nós temos esse menino,
21:11como ele vai significar isso,
21:13essa dor dele.
21:14Ele pode significar
21:15essa dor com coisas boas
21:16e com coisas ruins.
21:17Ele pode exercer,
21:20aflorar nele
21:21o espírito de vingança.
21:22Como é que a sociedade
21:23não vê isso?
21:24Quem cria agressores
21:26é a sociedade,
21:27que não cuida
21:27da parte emocional.
21:29Não adianta
21:29colocar dinheiro,
21:30concordo que talvez
21:31esse dinheiro,
21:32igual a doutora falou,
21:33seja para poder pagar
21:34um plano de saúde
21:35para poder acolher
21:35essas crianças,
21:36mas geralmente
21:37não vai ser
21:37porque essa família
21:38tem necessidade,
21:39porque para receber
21:39esse dinheiro
21:40ela está enquadrada
21:42no padrão.
21:42E olha só,
21:43é importante a gente
21:44ressaltar que
21:44são orçamentos
21:45que já estão
21:46completamente comprometidos.
21:48O orçamento
21:48dessa avó aí,
21:50dessa,
21:50a dona Marlene também
21:51que a gente mostrou
21:52no início,
21:53certamente são orçamentos
21:54que já estão
21:55completamente comprometidos.
21:56Ou estão enganadas,
21:57Juscelia?
21:57Não,
21:57a mulher vítima de violência
21:59geralmente já vem
22:00de dependência financeira.
22:02Geralmente,
22:02a maioria da mulher
22:03já não tem
22:04uma produtividade,
22:05ela não tem
22:06uma renda específica.
22:07O que acontece?
22:07essa renda
22:08dessa avó
22:09que ela vai receber
22:09já está comprometida
22:10com essa criança,
22:11porque o orçamento
22:11dela era X
22:12e com a entrada
22:12dessa criança
22:14mudou.
22:14Então,
22:15ela não tem como
22:15pagar um plano de saúde
22:16para que dê
22:16atendimento psicológico.
22:18Ela vai para a rede pública,
22:19pega o encaminhamento
22:20que eles fazem isso,
22:21pelo menos em Vila Velha,
22:22e encaminha para a rede pública.
22:23Na rede pública,
22:24essas crianças
22:24não são priorizadas.
22:27Elas vão para uma fila comum
22:28de tratamento seletivo,
22:30que pode demorar
22:30de um mês
22:32a dois meses,
22:33seis meses,
22:33ninguém sabe.
22:34E aí,
22:35nesse tempo,
22:35como que fica essa criança?
22:36É essa a pergunta
22:37que eu quero fazer
22:38para os felizes.
22:39Como é que você vê
22:41uma criança dessa?
22:42Não é filho deles, não.
22:44Não é filho meu,
22:45graças a Deus estou viva.
22:47Mas eu imagino
22:48a dor dessas crianças.
22:49Esse filho da Rubina Natieri
22:50chegar na escola
22:51e perguntar,
22:51hein,
22:52foi seu pai
22:52que matou sua mãe?
22:54Hein?
22:55Ah,
22:56a criança,
22:57até por inocência,
22:58por curiosidade,
22:58porque eles ouvem
22:59os adultos falar,
23:01eles vão perguntar.
23:02Então,
23:02essa criança,
23:03todos os dias,
23:03ele ouviu,
23:04cadê o conselho tutelar
23:05que poderia dar prioridade
23:06no caso dela?
23:08O conselho tutelar
23:08tem esse poder,
23:09já que vão lá cobrar,
23:10eles vão lá fiscalizar
23:11se a criança é bem tratada,
23:12como é que eles não fiscalizam
23:13a parte psicológica da criança?
23:15Então,
23:16nós estamos vivendo
23:16um impasse de leis.
23:18A lei Maria da Penha,
23:19ela traz isso, Roberto.
23:19Ou se fiscaliza,
23:20como é que é
23:20esse acompanhamento, né?
23:22Não tem essa fiscalização, Roberto.
23:24A lei Maria da Penha,
23:24ela traz todos os parâmetros
23:26para tratamento psicológico
23:27de todas as vítimas
23:28incluídas na lei.
23:29Só que,
23:29infelizmente,
23:30no Estado do Espírito Santo,
23:31essa lei não é cumprida.
23:32Nós temos pessoas
23:35a se promoverem,
23:36mas essa lei em si,
23:37ela não é promovida.
23:39Por quê?
23:39Nós não temos
23:40atendimento psicológico,
23:41nós não temos atendimento
23:43na área de saúde.
23:44Em Vila Velha,
23:45tem uma lei orgânica
23:45que fala assim,
23:46toda criança vítima de,
23:47filho de mulher
23:48vítima de violência
23:48ou feminicídio,
23:49ela tem direito
23:50a ser remanejada na escola.
23:52Essa lei não é cumprida,
23:52só através do Ministério Público.
23:54E é uma lei que existe.
23:55Então, a criança...
23:56Você diz isso até mesmo
23:57por experiência própria,
23:58Justiça da Lei?
23:59Experiência próxima.
23:59Esse dia eu tive que botar
24:00a boca no mundo,
24:01que eu boto,
24:02para poder pedir
24:02que uma mulher
24:03fosse remanejada
24:04porque o homem
24:05foi prego com arma
24:06dentro de casa
24:06e ela teria que mudar
24:08dali para outro lugar
24:09de Vila Velha
24:10e simplesmente falaram
24:11que a criança
24:12estava na lista de espera
24:13porque não tinha vaga.
24:14Então, essas leis
24:15não são cumpridas.
24:16Se a lei fosse cumprida
24:17na sua totalidade,
24:18nós teríamos,
24:19hoje em dia,
24:19psicólogo especializado
24:20nesse tipo de assunto.
24:21É uma coisa
24:22que a gente não queria
24:22que tivesse,
24:23mas nós, infelizmente,
24:24temos que ter.
24:25O bom é que não tivesse
24:26esse tipo de necessidade.
24:28Mas nós temos
24:29a necessidade de psicólogo
24:31especializado em tratar
24:31essas crianças
24:32porque nós estamos
24:34criando uma geração
24:34de ófão.
24:35No Brasil,
24:36são 2 mil e poucas
24:37crianças ófão por ano
24:38de feminicídio
24:40e nós, simplesmente,
24:41estamos tampando os olhos.
24:42Estamos tratando
24:43como seres invisíveis.
24:45É, eles são invisíveis
24:46para a sociedade.
24:47Você tocou
24:47num ponto muito importante,
24:48Dani,
24:49que eu gostaria até
24:49de tirar essa dúvida
24:50com você.
24:51Existe uma chance maior
24:53de crianças
24:54que crescem
24:55nesses lares,
24:56que veem essas cenas,
24:58delas desenvolverem
24:59essa agressividade.
25:01E de que forma
25:02que a família,
25:03assim como a gente
25:03está vendo o relato
25:04da Nathiele
25:05com a mãe dela,
25:06de que forma
25:07que a família
25:07pode tentar
25:09suprir isso?
25:11Infelizmente,
25:11existe.
25:12Mas a gente não afirma
25:13que é assim, né?
25:15Porque eu gosto
25:15sempre de explicar
25:16que existem duas coisas,
25:17correlação
25:18e causalidade.
25:19Então, ter relação
25:20não quer dizer
25:21que vai ser a causa.
25:22Mas o que acontece,
25:23a gente vive numa era
25:24que a gente escuta
25:25muito essa frase,
25:26vamos ver se vocês
25:27nunca ouviram assim,
25:28eu passei por isso
25:29e não morri.
25:30Todo mundo,
25:31a gente ouve falar
25:32isso aí o tempo todo.
25:32O que isso quer dizer?
25:33A pessoa que vivenciou
25:35essa violência,
25:35quando ele for adulto,
25:36ele pode pensar assim,
25:37mas eu passei por isso,
25:38estou vivo,
25:38porque tem meu filho
25:39ver o agredir também.
25:40Olha, eu aqui,
25:40sou trabalhador,
25:41deu tudo certo para mim,
25:43é assim que é a vida.
25:44Então, essa frase,
25:45ela vem sendo muito repercutida,
25:46eu passei por isso
25:47e não morri,
25:47e aí as pessoas acham
25:48que pode fazer
25:49com todo mundo
25:50o que elas passaram.
25:51Outra coisa
25:52que é importante
25:52a gente falar, Roberta,
25:54é que o ciclo da violência,
25:55de fato,
25:55a gente tem que ter atenção
25:56e a gente tem que ter atenção
25:57na criação dos nossos filhos,
25:58principalmente dos meninos.
26:00Não estou dizendo
26:01que a criação
26:01é a causa,
26:03mas a gente tem que ter cuidado
26:04com a relação.
26:05Outra coisa
26:06que a gente percebe muito
26:07é assim,
26:07as crianças,
26:08elas vêm sendo muito,
26:10o tempo todo,
26:11elas são compensadas.
26:12Então, a pessoa fala assim,
26:13vamos tirar sangue,
26:14depois eu te dou um doce.
26:15Não,
26:16a gente não precisa compensar
26:17por momentos difíceis.
26:18Momentos difíceis acontecem,
26:20a gente vai falar,
26:20meu filho,
26:21tirar sangue dói,
26:22você vai passar por isso,
26:23eu estou aqui com você
26:24e está tudo bem.
26:24E depois a vida que segue.
26:26Porque a gente cresce
26:26um adulto querendo ser
26:27compensado por tudo.
26:28E aí eu chego em casa,
26:29eu falo,
26:29meu dia hoje foi muito difícil,
26:31não me estressa não,
26:31senão eu te bato.
26:33Isso não estou falando
26:34que é a causa, tá?
26:35Mas a relação
26:35no sentido psicológico
26:37do pensamento da pessoa,
26:38eu fui compensado
26:38a minha vida toda,
26:39como que eu vou ter
26:40um dia difícil
26:40e você ainda vai me estressar?
26:42Então,
26:43as ligações
26:44que cada um faz
26:45a partir das vivências
26:46é individual,
26:47mas que a gente precisa
26:48ter atenção
26:48com essa compensação
26:50que a gente faz
26:50o tempo todo
26:51com as crianças,
26:52a gente precisa ter um pouco
26:53de atenção
26:53com relação a isso.
26:54E olha só,
26:56garantir políticas públicas
26:58para filhos do feminicídio
26:59na visão da advogada
27:00Camila Dias
27:01também é uma discussão
27:03urgente
27:04nos dias de hoje.
27:06Vamos ver o depoimento dela.
27:08A cada dia,
27:09seis novos órfãos
27:10do feminicídio,
27:11eles fazem parte
27:11dessa estatística.
27:13E até o momento,
27:15também, infelizmente,
27:16não temos políticas públicas
27:18para abraçar,
27:19principalmente,
27:19as crianças
27:20e os adolescentes
27:21que perdem as suas mães
27:22para esse tipo de crime.
27:24E existem projetos
27:25de lei
27:26nesse sentido
27:26para poder,
27:27de alguma forma,
27:28o Estado
27:30auxiliar
27:31em algum reparo
27:33que seja financeiro
27:34ou algum apoio
27:35porque essas crianças,
27:37esses adolescentes
27:38ficam desamparados
27:39sem suas mães,
27:41muitas vezes
27:41sem os próprios pais
27:42que podem ser
27:43tidos como
27:44os assassinos,
27:47às vezes não,
27:48mas mesmo assim
27:49essas crianças
27:50e adolescentes
27:51ficam sem sua mãe.
27:52Então,
27:53até o momento,
27:54não temos políticas públicas
27:55para isso.
27:56Esperamos que,
27:57muito brevemente,
27:57essa realidade
27:58seja modificada
28:00e essa gama
28:01da sociedade
28:02desamparada
28:03seja assistida.
28:05É lamentável, né, gente?
28:06Deixa eu voltar
28:06a falar com a Natielle
28:07que eu acho que agora
28:08ela conseguiu
28:08respirar fundo
28:10para a gente continuar
28:10um pouco
28:11o nosso bate-papo.
28:11Natielle,
28:12como a gente está aqui
28:13anunciando,
28:13tem um projeto de lei
28:15que a gente espera
28:16que aí os órfãos
28:18do feminicídio,
28:19assim a gente espera,
28:20recebam uma assistência,
28:22um auxílio,
28:23estou falando em questões
28:24financeiras.
28:26Me fala assim,
28:27de que forma
28:28que um projeto
28:29como esse
28:30pode ajudar,
28:31contribuir até mesmo
28:33na criação
28:33do seu sobrinho,
28:35ajudar até mesmo
28:35na sua mãe,
28:36que está batalhando
28:38tanto para tentar,
28:39porque a gente para
28:40para pensar
28:41no orçamento
28:41da sua mãe
28:42e de muitas outras mães
28:44que assumiram os netos,
28:45os sobrinhos,
28:46a mais no café
28:47da manhã,
28:48a mais no almoço,
28:49a mais no material
28:50escolar,
28:51a mais na janta,
28:52a gente não está falando
28:53só de um dia
28:53ou de uma semana,
28:54a gente está falando
28:55de uma conta
28:56que a gente assume
28:56para a vida,
28:57né?
28:59É,
29:00para minha mãe,
29:01está sendo tipo assim,
29:02é mais uma renda,
29:03né?
29:03E minha mãe,
29:04ela é tipo pessoa assim,
29:05que ela não tem paciência
29:06de ficar esperando,
29:07de correr atrás
29:09para fazer as coisas
29:10para o meu sobrinho.
29:11O que a gente tem,
29:12o tempo que a gente tem,
29:13a gente faz,
29:14mas igual hoje,
29:15tipo assim,
29:16para minha mãe,
29:16é uma renda maior.
29:18Por quê?
29:18Minha mãe não pagava
29:19ninguém para tomar
29:20conta dos filhos,
29:21porque já estava criado,
29:23não tinha esse,
29:24não é que vai fazer
29:25falta no salário dela,
29:26né?
29:27Mas esse dinheiro
29:27também não vai trazer,
29:28esse dinheiro que o povo,
29:29que o governo está dando,
29:30não vai trazer
29:31a minha irmã de volta,
29:32mas vai ajudar sim
29:33a minha mãe.
29:34Só que a minha mãe
29:35é uma pessoa que não tem
29:36paciência de correr atrás.
29:38e, tipo assim,
29:39só para olhar uma criança,
29:40só para olhar ele de manhã
29:42até a hora que minha mãe
29:43chega,
29:43é R$400.
29:45Aí tem que levar
29:46para a escola de manhã,
29:47tem que trazer,
29:48tem que comprar leite
29:49que ele ainda toma,
29:50ele não toma mamadeira,
29:51mas toma leite,
29:52tem as coisas que ele gosta
29:53de comer,
29:54tudo minha mãe compra,
29:54quando minha mãe não compra,
29:55a gente compra,
29:56é um ajudando o outro
29:58lá em casa,
29:59mas mesmo assim,
29:59é uma diferença,
30:00é mais uma renda
30:02que está dando,
30:02que é uma coisa
30:03que não estava
30:03no nosso orçamento,
30:04né?
30:05Querendo ou não,
30:06tipo,
30:06é um gasto maior
30:08e a responsabilidade
30:09é bem maior ainda
30:10que a gente,
30:11aí como esse cara
30:12ainda está solto,
30:14a gente,
30:14não vou falar a verdade,
30:15a gente não temos
30:15aquela segurança
30:16de deixar o meu sobrinho,
30:17às vezes nem a gente
30:18quer levar ele para algum lugar,
30:19fica com medo de levar
30:20e chega lá,
30:21esse cara está lá
30:21e querer fazer alguma coisa
30:23com o meu sobrinho
30:24ou até na escola,
30:25minha mãe não deixa,
30:26ele fica assim,
30:27ah, avó,
30:28deixa eu ir sozinho
30:28com o meu sobrinho,
30:29que eu tenho uns dois sobrinhos,
30:31um de nove e um de dez
30:32que vai só,
30:32a minha mãe não deixa
30:33e nem a gente deixa
30:35porque a gente fica com medo,
30:36que é criança,
30:37né?
30:37Vai estar vigiando,
30:38pode pegar.
30:39É muito difícil,
30:40para a gente está sendo difícil,
30:41muito difícil.
30:42E o tipo assim,
30:43a ajuda do psicólogo,
30:45no início a gente achou assim,
30:46ah, ele vai dar todo apoio
30:47para a gente,
30:48a gente não vai ter
30:48aquela dificuldade
30:49para a gente estar tendo,
30:51no início o conceito
30:52de ter lá ficava na porta,
30:52que adianta o conceito
30:53vir na minha casa
30:54e saber se meu sobrinho
30:56está bem,
30:57talvez chega numa hora
30:58que ele está sujo
30:59ou às vezes chega uma hora
31:01que ele está brincando,
31:02vai falar,
31:02ah, o menino está jogado.
31:03Não é assim.
31:04A gente tenta prender
31:05o máximo que a gente pode,
31:06a gente tenta cuidar dele
31:07o máximo que a gente pode,
31:09mas nem sempre,
31:09porque senão vai crescer
31:10uma criança,
31:11tipo,
31:11por que eu não posso fazer isso?
31:14A gente tenta evitar
31:15muitas coisas,
31:16de falar as coisas
31:17perto dele,
31:17porque ele é um menino
31:18que pega as coisas no ar.
31:20Ele é uma criança
31:21que só de você abrir a boca
31:22parece que ele lê a sua boca
31:23para saber o que está falando.
31:25Obrigada pela sua participação,
31:27abriu o seu coração,
31:29parar um pouquinho aí
31:30da sua atividade hoje,
31:31que eu sei que você está aí
31:32ralando,
31:33trabalhando
31:33para levar dinheiro
31:34para casa,
31:35para levar comida
31:36para a mesa.
31:36A gente agradece imensamente
31:38esse tempo que você tirou
31:39para abrir seu coração
31:40aqui com a gente
31:41no Fala Espírito Santo,
31:42viu?
31:42E a gente quer acompanhar
31:44o seu caso de perto,
31:45depois dê notícias
31:45para a gente,
31:46principalmente a respeito
31:47da repercussão
31:48dessa reportagem,
31:49dessa entrevista de hoje,
31:50viu?
31:51Obrigada pela sua participação,
31:52dá um abraço
31:53na sua mãe.
31:55Tá bom,
31:55pode deixar tudo.
31:56Um beijo.
31:58Ju,
31:58obrigada também,
31:59mais uma vez,
31:59pela sua participação.
32:00Só lembrando que essa lei
32:02que foi aí,
32:03é lei municipal,
32:04tá?
32:04Municipal, gente.
32:05Não é lei estadual,
32:06não é a Brande Viana
32:07e nem outro município,
32:08só a Brande Vitória.
32:09Pois é,
32:09a gente precisa,
32:11esse é o objetivo
32:12do programa,
32:13é a gente estar aqui
32:14debatendo,
32:15mostrando como que é
32:16a realidade
32:17e chamar a atenção
32:18das nossas autoridades
32:19para casos como esses
32:21que a gente precisa
32:23de ter políticas públicas.
32:24Obrigada, Ju,
32:25mais uma vez
32:26pela sua participação.
32:27Eu queria convidar
32:28as mulheres
32:28vítimas de violência,
32:29nós estaremos na Assembleia
32:30no dia 25,
32:31com uma forma de protesto
32:33e pedindo políticas públicas
32:34que sejam feitas
32:35para a gente
32:36e sejam feitas
32:37com justiça,
32:38como no caso da Natieri.
32:39Então,
32:39nós estamos convidando
32:40todas elas,
32:40inclusive você já foi convidada,
32:42para que compareçam lá,
32:43para que a gente possa
32:44fazer um movimento
32:45chamado Mulheres
32:46que Levantam Mulheres.
32:47A gente precisa disso.
32:48Obrigada.
32:49Dani,
32:49um beijo especial
32:50no seu coração também,
32:51tá?

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