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Um levantamento com 120 crianças, entre 5 a 13 anos, mostrou que a percepção sobre a cor da pele é negativa. Ainda de acordo com a pesquisa, conversar sobre identidade social, preconceito e respeito às diferenças contribui para o aumento da autoestima na primeira infância.
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NotíciasTranscrição
00:00A Universidade Federal de Sergipe divulgou um estudo que fala sobre a aceitação de crianças pretas.
00:08O levantamento ouviu 120 crianças de 5 a 13 anos, além das mães delas.
00:14Os pesquisadores pediram para que essas crianças indicassem com qual cor da pele elas se identificam
00:24e levantaram também a percepção delas sobre esse assunto.
00:27E olha só o resultado, presta atenção minha amiga, olha aqui para a TV, presta atenção.
00:3346%, quase metade das crianças pretas não gostam da cor da pele,
00:40enquanto quase 83% das crianças brancas dizem gostar da sua cor.
00:46O estudo apontou ainda que conversar sobre identidade racial, preconceito, respeito às diferenças,
00:55contribui para o aumento da autoestima na primeira infância, o que é muito importante.
01:01Então a gente está falando o quê? De diálogo.
01:03Essa é a palavra-chave, pai e mãe, porque esse período da primeira infância é o momento onde a autoestima
01:10começa a ser formada.
01:12E para que esses meninos e meninas cresçam seguros, eles precisam se aceitar.
01:18E ó, quem tem filho branco também tem um papel importantíssimo nessa história.
01:25Vamos bater um papo sobre esse assunto?
01:26Vem cá, participa com a gente.
01:28Olha só, aqui no nosso estúdio eu recebo Sarita Faustino, que tem dois filhos.
01:33Obrigada pela sua participação, viu?
01:35Boa tarde, seja bem-vinda, Sarita.
01:37Boa tarde.
01:38Boa tarde.
01:38Boa tarde.
01:39Boa tarde.
01:40Boa tarde.
01:42Boa tarde, Cacau, tem três meninas, né, Cacau?
01:44E o Alexandre Brito, que é psicólogo.
01:47Obrigada também pela sua presença, Alexandre.
01:49Se fossem os filhos de vocês, nessa pesquisa, o que eles responderiam?
01:55Diz aí.
01:56Olha, os meus, tenho certeza, sem sombra de dúvida, que eles responderiam que são pretos,
02:02que não são morenos, porque os morenos nem existem.
02:05Então eles têm uma certeza, eles têm uma afirmação,
02:08eles têm a valorização da história, da cultura, eles gostam muito de quem eles são.
02:14Mas isso não é uma coisa simples.
02:16Essa formação da identidade não é uma coisa simples, porque eles precisaram...
02:21A gente trabalhou muito com a questão da literatura infantil,
02:24a gente trabalhou muito com a questão das imagens, dos bonecos.
02:27Tem bonecos variados, mas tem os bonecos também que são pretos.
02:32E é o que você falou, as crianças brancas, a gente costuma presentear com bonecas pretas,
02:38para ver essa diversidade, isso é muito importante falar.
02:41Na escola, a mesma coisa, imagens positivas, a gente exigia, nesse sentido, a exigência, né?
02:47Poxa, cadê a nossa família aqui no quadro do Dia das Famílias?
02:51Como que a nossa família está representada?
02:54Então, assim, é um processo.
02:57E essas meninas, Cacau?
02:59Totalmente pretas.
03:00Elas responderiam?
03:01Elas saberiam identificar a cor delas?
03:03Sim.
03:04E a aceitação?
03:05Se elas gostam da cor delas?
03:07Qual seria a resposta?
03:09Sim, elas amam.
03:11Mas hoje elas são com quantos anos?
03:133, 17 e 23.
03:16Certo.
03:17E os seus?
03:18Eu tenho um de 11 e um de 18.
03:20Isso sempre foi assim?
03:22Ou no início, vocês tiveram dificuldade de trabalhar essa aceitação, delas gostarem?
03:30E ter essa autoestima?
03:32É assim.
03:34Quando eu entrei, eu sou professora de educação física da Rede de Vitória.
03:37E quando eu entrei em 2006, me chamou a atenção, porque mulher adulta, uma mulher preta adulta, já tinha consciência,
03:44já me reconhecia muito bem.
03:46Só que quando eu entrei nessa escola, uma escola que fica em São Pedro, eu percebi que as famílias declaravam
03:54o pertencimento racial das suas crianças como crianças brancas, mesmo sendo crianças pretas.
04:01E eu não entendi.
04:02As próprias famílias.
04:03As próprias famílias.
04:04Então, eu não entendi, eu não conseguia ajudar no momento, mas elas me ajudaram, porque eu percebi que eu precisava
04:10pesquisar, estudar e entender por que eu me reconhecia, porque a única criança preta da escola era meu filho e
04:18todas as outras crianças não conseguiam se identificar.
04:20E achavam que era feio, era suja a cor de pele.
04:24Então, assim, desde 2006, eu estudo muito para fazer com que meus filhos tenham essa sensação de pertencimento.
04:32Invisto em literatura e invisto muito no processo formativo.
04:37Alguma vez, Sarita, eles expressaram em algum desenho ou em algum super-herói, alguma referência, uma imagem oposta?
04:47Sim, eles têm primos, primos negros e primos de casamento interracial.
04:54Então, o meu filho mais velho, com 18 anos, ele falava assim, eu queria o cabelo do meu primo, porque
05:00a gente tem isso até hoje, todos os dias na escola.
05:03A gente tem o cabelo ruim e tem o cabelo bom.
05:06É essa a determinação.
05:08Só que o cabelo não é o cabelo crespo e o cabelo liso.
05:11Cabelo é cabelo.
05:13Mas tem essa construção, essa construção que ainda todos os dias aparece muito forte e o doutor sabe, né?
05:21Traz prejuízos muito fortes para as nossas crianças, que é essa construção.
05:25Assim, eu vejo o padrão de estética, aquele padrão que eu vejo, que eu reconheço como bonito, como belo,
05:31não é o padrão e o corpo preto, o cabelo crespo.
05:36Infelizmente.
05:37Alexandre Brito, por que as crianças pretas têm esse sentimento?
05:41E o que chama a atenção, 46% é um número muito expressivo.
05:46É muito alto isso.
05:48E é importante a gente dizer que racismo, autoestima, igual você começou falando, é tudo construído.
05:57É tudo parte de um aprendizado.
05:59Você aprende a ser racista, desde pequeno, desde pequena, por expressões, por exemplos, por vocabulário.
06:09Então, vou pegar um exemplo bem simples, que às vezes passa despercebido, mas que é uma cultura racista.
06:15Você pega com a criança, na escola, com professores, às vezes os pais, e fala assim,
06:21Pega esse lápis daqui de cor de pele, aí você pega o lápis de cor de pele, esse é cor
06:28de pele de quem?
06:29O que isso significa?
06:30Não é só dizer que é um lápis de cor de pele.
06:33Aí você, a criança vai e pega o bege.
06:35Logo, a criança entende que o bege, aquela cor mais clara, é a cor da pele que tem que ser.
06:41E ele não tem aquela cor, se for uma criança preta, ela vai logo pensar, então tem algo errado comigo.
06:47Eu tenho, essa não é a minha cor de pele, a cor de pele certa.
06:52E pode parecer muito simples para algumas pessoas, despercebido, mas isso não é.
06:57Isso traz muitos prejuízos também.
06:59Ao ponto da criança, ela querer ser o que ela não é.
07:03Ela não consegue se afirmar, porque ela não se identifica como potência, como força,
07:08mas como desvio, como sujo, como errado.
07:11Mesmo que ela não tenha nada de desviante, é o racismo que faz a criança ter esse sentimento de inferioridade.
07:18Então, a criança também tem a outra com o cabelo liso, e aquilo ali é considerado cabelo bom, vamos colocar
07:24assim.
07:25E aí ela se sente mal, porque ela não tem.
07:27E aí, às vezes, é a mãe que faz todo um...
07:31Ou a professora, seja o professor, enfim.
07:34As referências, né?
07:35Na vida.
07:36Que vai tentando ali, Roberta, mudar o corpo da criança, ou seja, alisando, colocando uma série de produtos.
07:44Então, o racismo, ele está distribuído na forma da gente falar.
07:49Quer ver um exemplo simples que a gente faz aqui e não percebe?
07:52Quando eu falo assim, você que está em casa, está claro o que eu estou dizendo?
07:56Dizer que está claro é racista.
07:58A palavra esclarecimento significa o quê?
08:01Quer dizer que o claro é o correto, é o compreensível, e o escuro, o preto, é aquilo que é
08:08ruim, a coisa fica preta, a situação está...
08:11Então...
08:12Negativo, né?
08:13É negativo, tem uma conotação negativa.
08:15Isso faz com que a gente vá, o quê?
08:18Nos aproximando, por mais que isso não pareça, algumas pessoas não conseguem associar, mas está associado.
08:25E a criança, ela sente diretamente no corpo dela.
08:29Quais prejuízos que isso pode fazer com que...
08:32A gente está falando de crianças, gente, de 5 a 13 anos que não aceitam a própria coisa.
08:36A gente está falando da aceitação e de que forma que isso pode refletir, por exemplo, na vida adulta.
08:41Ela no mercado de trabalho, quais consequências que isso pode trazer?
08:45Olha, a primeira é a baixa autoestima.
08:47Ela já se sente mal por não ser igual ao que é diferente a ela.
08:53A criança tem que ser educada para a diferença e quando ela não é educada para a diferença, ela acaba
08:57se sentindo mal por não ser o branco, vamos colocar assim, nos casos de episódio de racismo.
09:03Então, tem uma diminuição da autoestima.
09:06A criança, ela começa a ter mais insegurança, ela começa a ter certos medos de habitar determinados lugares e ter
09:14determinados acessos, né?
09:16Então, tem essa insegurança.
09:18Algumas acabam tendo uma posição até passiva de se submeter ao que o outro quer.
09:22Então, podem até ser vítimas de algumas violações, assédio, não se sentir pertencente e, às vezes, ela mesma acaba não
09:33conseguindo lutar pelos seus direitos e se sentir violada e, às vezes, não conseguir ali fazer um enfrentamento, né?
09:41Então, tem, Roberto, um enfraquecimento da infância, tem uma dificuldade com a autoestima e isso pode prejudicar as diversas relações,
09:49inclusive, relações futuras de um relacionamento amoroso, né?
09:54Isso pode afetar diretamente, então, a criança.
09:57Olha só o comentário da Neuza Braga, ela fala, então, Roberto, meu filho, quando chega da escola, fala, mamãe, eu
10:03não gosto da minha cor.
10:04E ela pergunta, por que, meu filho, você não gosta da sua cor?
10:08Mamãe, ninguém gosta de brincar comigo porque eu sou marrom.
10:11Mas eu tento, muitas vezes, explicar para ele e tem um detalhe, ela diz aqui que ele é TDAH, né?
10:17Então, fica mais difícil ainda dele entender e ela quer saber como que ela explica isso para o filho, Alexandre.
10:24É, a questão, justamente, da cor, os pais têm que fazer um trabalho em cima muito grande, como ela trouxe,
10:31ela usa literatura, usa arte, né?
10:34O que eu sempre falo é que os pais possam o quê?
10:37Primeiro, dar o exemplo, né?
10:39Em atos, em práticas e em vocabulário, né?
10:44E outra coisa é levar a criança para outras culturas.
10:47Ela tem que conhecer outros ambientes, a diversidade, conhecer espaços diferentes, espaços culturais, regiões, bairros, comunidades.
10:58Transitar em diferentes espaços, em diferentes pessoas e ter esses acessos, né?
11:02E isso contribui para que a criança, ela tenha o quê?
11:07Uma compreensão de um pertencimento e de que ela não precisa ser igual.
11:10E que a diferença pode se tornar, justamente, aquilo que era uma fraqueza, se tornar potência, né?
11:16Então, os pais podem tentar fazer esse trabalho, justamente o quê?
11:21Que não é por causa disso, por causa da cor da sua pele, que você precisa se colocar assim, ter
11:27esse medo, ser igual ao outro.
11:29Isso tem que ser dito, pessoal, principalmente aos pais que estão em casa, de forma literal.
11:33Não é metaforicamente, não é, assim, uma história contada para chegar ao ponto.
11:39Você tem que ser direto e reto, literal, falando dessa forma mesmo, demonstrando, inclusive, o seu amor pela cor da
11:47pele que você tem, né?
11:49E não um receio, um medo, uma diminuição, né?
11:53E dizer, olha, às vezes até a minha potência vem da cor que eu tenho, da geração que eu vivo,
11:59da minha descendência.
12:01E até contar a história para a criança, dos avós, de onde vem, se são índios, se são negros, se
12:07são...
12:08De onde vem essa miscelânea, essa transformação, né?
12:11Então, a criança, eu gosto de falar isso, você tem que alfabetizar a criança em relação à própria história.
12:17Sim, perfeito.
12:17Você tem que alfabetizar a criança em relação à própria história.
12:20E, Cacau, e as suas meninas, elas sempre tiveram essa autoaceitação ou não?
12:27Foi difícil para você trabalhar isso nela?
12:29Difícil não foi.
12:30Foi, eu falo que às vezes foi dolorido.
12:34Porque até, você sabe da minha trajetória, enquanto a Cacau, da roupa,
12:39que começou justamente por causa da imposição delas, de que iam para os bagazines e encontravam só bonequinhas branquinhas nas
12:47roupas.
12:48E nós começamos a projetar a imagem delas nas roupas delas, que elas também eram princesas,
12:54que elas poderiam ser um personagem de um conto de fadas e que elas eram importantes como elas eram, do
13:00jeito que estavam ali.
13:01E a minha mãe, sabiamente, a minha mãe é uma mulher preta, maravilhosa, benzideira,
13:06e sempre contou histórias da vivência dela quando era criança.
13:11E isso foi passando por mim.
13:13E até hoje, assim, hoje ela está com 23, elas vão para a casa da minha mãe para ouvir as
13:17histórias que a minha mãe conta,
13:18aquela griolinda, maravilhosa, que conta sobre a nossa ancestralidade.
13:22Isso tudo é trabalhado muito desde pequenininho.
13:25E tanto que a minha, de 3 anos, ela acorda de manhã, ela já vai para o espelho e fala
13:28assim,
13:28Você é uma pretinha linda, você é magnífica, você é fofa, você é sensacional.
13:35Aí eu falo, vamos embora, que eu estou atrasada.
13:37Ela, vem, mamãe, você é sensacional comigo?
13:38Eu falo, tá, eu sou sensacional.
13:39Ai, que amor, gente!
13:43Precisamos cumprir a nossa agenda do dia.
13:45E todo dia, esse é o mandarim dela.
13:47A gente vai deitar com ela, ela fala, mamãe, você esqueceu de falar o quê?
13:50Que eu sou o quê? Uma menina?
13:51Aí ela fala, pretinha, uma menina sensacional.
13:54Sensacional. E ela vai se autoafirmando enquanto menina preta, ela escolhe os cabelos que ela quer.
14:01Que eu falo com mulher preta, uma mulher preta é uma camaleoa, né?
14:05Um dia está com cabelo black, um dia está de trans.
14:06Isso é verdade.
14:07E acontece. E ela, pequenininha, ela escolhe os cabelos que ela quer colocar.
14:12As mais velhas querem raspar o cabelo.
14:13Olha ela ali, gente! Que coisa mais linda no vídeo!
14:16Olha isso!
14:17E a gente se apaixona pela gente cada dia.
14:21Cada dia ela está mais apaixonada.
14:23As irmãs trabalham muito essa questão.
14:26Eu trabalho muita literatura também, que eu também sou pedagoga na região da Grande São Pedro também.
14:32E quando eu cheguei lá, eu vi aquela meninada preta, linda, correndo.
14:36A gente faz a colina de manhã, eu tenho que estar lá de manhã.
14:40E ela falou, nossa, tia, seu cabelo está lindo hoje.
14:42Mas eu falei, mas o seu está maravilhoso.
14:44Elas se inspiram em você, já que você também é pedagoga.
14:46Exatamente.
14:47Você que lida com isso.
14:48Hoje eu tenho um tirão, uma manifestação de penteado.
14:51Eu quero penteado, eu quero penteado.
14:52Falei, vamos fazer uma oficina de penteado.
14:55Uns 20 dias atrás, a gente fez uma oficina com ela sobre as princesas negras.
15:00Amarramos turbantes, coroamos as meninas, os meninos.
15:03Fizeram maquiagem em mim.
15:05Foi aquela coisa maravilhosa.
15:06E a cada dia eu percebo que aquelas crianças, quando eu cheguei, estavam meio assim...
15:10Elas estão se descobrindo, pedem a mãe para deixar o black solto para ir para a escola.
15:13E isso, para mim, é uma causa muito boa.
15:17Porque eu vejo que eu estou plantando a autoestima, uma referência, um pertencimento,
15:23uma aceitação de si própria.
15:26Porque enquanto criança preta, para mim, não foi fácil.
15:29Eu ia perguntar isso.
15:31Como é que foi para vocês?
15:32A minha mãe sempre me falou que eu era linda, maravilhosa.
15:34Mas a sociedade, não vou falar as mesmas línguas.
15:37Na escola, principalmente.
15:40Eu era aquela menina na hora da apresentação que eu tinha que ficar lá atrás.
15:44E era demarcado aquele território com as letras de nome, para a gente não sair daquele local.
15:51E eu saía daquele local porque era o único dia que a minha mãe podia me ver na apresentação.
15:55Eu ia lá para frente.
15:56Mesmo que depois a professora quase arrancava o braço da gente com o beliscão.
16:01Mas eu ia.
16:02E eu falei, eu vou ficar de novo porque é o dia que a minha mãe pode me ver e
16:06eu quero que ela me veja.
16:08E eu nunca fui intimidada por isso.
16:10Por quê?
16:11Dentro de casa, a minha mãe falava que era linda.
16:12Então, eu acreditava no que a minha mãe falava.
16:14No que eu via sobre a minha pessoa.
16:17E é isso que eu passo para as minhas filhas, passo para as minhas aluninhas lindas que eu amo.
16:22Pretas, maravilhosas.
16:23Meninas brancas também têm autoestima.
16:26Você chegou no ponto que a gente, desde o início, também ia falar.
16:30O papel, o quanto é importante, o quanto é sadio, principalmente para a relação das crianças.
16:37Você ter essa interação, você ter essa amizade, você ter essas brincadeiras.
16:41E a Alexandra, conta para a gente o quanto que uma criança branca também pode contribuir
16:46para a autoestima da negra e vice-versa.
16:48E vice-versa.
16:49A criança, ela, em geral, se você pegar principalmente as primeiras idades, elas não têm essa distinção
16:56entre elas.
16:57Tem.
16:58Né?
16:58Assim tão grande.
17:00Elas percebem.
17:01Você está aqui falando que tem.
17:02Tem.
17:02Porque elas percebem.
17:03Quando eu estava contando a história das princesas pretas, aí eu falei que tem princesa
17:07branca, princesa loura, diversas cores.
17:10E elas pegaram o livro e começaram a olhar para as princesas pretas e olhavam para as
17:16amigas e o olhinho brilhava, que tipo assim, é igual a ela.
17:20A nossa literatura é de crianças brancas.
17:24Exatamente.
17:25A nossa literatura.
17:26As princesas são loirinhas com os olhos azuis.
17:29Os príncipes, os pequenos príncipes, são loirinhos de olhos azuis.
17:34A nossa literatura, todo o contexto curricular, ele é voltado para a Europa.
17:42E isso a gente tem uma dificuldade muito grande, porque para falar das questões raciais, a gente
17:47está falando na educação, das relações étnico-raciais.
17:50É para todo mundo.
17:51É valorização.
17:52É isso que o doutor...
17:54Alexandre, eu estava falando, essa valorização, ela é importante, mas ainda hoje, não só
18:00na nossa época com a Cacá, infelizmente, as pessoas ainda entendem que isso é uma coisa
18:06que é besteira, que não precisa...
18:08Tomara que muita gente escute você falar, doutor, porque a gente tem, assim, relatos
18:13todos os dias de adolescentes que têm problemas, dificuldades de aprendizagem, que estão deprimidos
18:19porque eles não entendem.
18:21O racismo faz isso.
18:22Parece que a culpa é minha.
18:24Parece que o problema está em mim.
18:26Exatamente.
18:26E aí, o que eu quero fazer?
18:27Eu quero tomar banho para ficar o mais branco possível.
18:31Eu quero que tenha criança que se automutil e rasgue a pele para embranquecer a sua pele.
18:38Fala com a gente no microfone.
18:39Ah, perdão.
18:40Então, assim, as crianças, elas passam por um processo que a gente chama de processo
18:44de embranquecimento.
18:45Elas querem tomar que boa, elas querem raspar a pele.
18:48Olha aqui o comentário da Rosângela Madalena.
18:51Roberta, boa tarde.
18:52Meu neto tem sete anos.
18:53Ele fala que não gosta de ser preto.
18:55Ela está aqui falando, é muito triste.
18:57E aí, Alexandre, como que uma criança branca pode, voltando à pergunta anterior, pode
19:01ajudar nessa amizade?
19:04E as crianças, como eu falo da primeira idade, que eu digo, é as que não teve aquisição
19:07da linguagem ainda, quando eu estava dizendo nesse caso.
19:11As crianças, então, as primeiras infantes que não têm aquisição da linguagem, elas
19:14ainda não têm a questão das diferenças raciais ou das diferenças em relação a gênero.
19:24Quando elas começam a ter aquisição da linguagem, aí que eu ia chegar, né?
19:28Elas começam, porque na linguagem já há o preconceito, já há o racismo.
19:33E aí elas têm essa questão.
19:34Então, as crianças brancas e pretas, elas têm que fazer um trabalho sempre de acolhimento,
19:42de inclusão, não de tolerância, mas de acolher.
19:45De respeito.
19:45Não é só isso, de respeito.
19:48Porque quando eu tolero, quer dizer o quê?
19:50Que eu não suporto o outro, mas ele está ali tudo bem.
19:53Eu tenho que conviver.
19:54Eu tenho que conviver.
19:55Então, a educação com a criança branca não é essa que tem que acontecer.
19:58Então, ela tem que ser incluída.
19:59É aceitar o amigo preto, aceitar porque ele não sofra o racismo, é defendê-lo disso.
20:07São essas posturas.
20:08A postura que eu sempre falo, quando a gente está falando de racismo, ou qualquer forma
20:12de preconceito, é todo mundo admitir que é racista.
20:15Isso.
20:15Então, o primeiro ponto é admitir o racismo estrutural, que é o quê?
20:21Que está na linguagem, está nas instituições, está na escola, está na família, está em
20:26todo lugar.
20:27Quando você inclui isso, você consegue, admitindo isso, mesmo que você fale que você é o último
20:34pacote, bolacha do pacote, mas mesmo assim você tem que admitir que há essa possibilidade
20:40do racismo.
20:40E você consegue alcançar essa criança branca e essa criança, admitindo isso nela também,
20:47ela consegue incluir o colega de uma outra forma.
20:49Ela consegue vê-lo de uma outra forma.
20:52Ela consegue ver beleza ali onde as pessoas às vezes veem sujeira, porque às vezes vê
20:58a pele preta como se suja.
21:00Às vezes vê...
21:01O cabelo crespo é sujo.
21:02O crespo como sujo.
21:04Então, é justamente a criança branca, ela tem que participar desse processo e tem que
21:08ser uma inclusão de forma sistemática.
21:12Eu vou até, para finalizar esse estúdio, eu vou contar, com toda licença, viu Vitória,
21:18a nossa produtora, ela é negra, linda, ela tem uma alta aceitação.
21:22Hoje ela tem uma alta aceitação que é de bater palma, de aplaudir.
21:26E ela contou para mim hoje a história, resumindo para você de casa, por que é importante que
21:32a criança branca participe desse processo.
21:35Ela disse que ela e uma amiga estavam num condomínio onde ela morava e a amiga, que
21:40era uma branca, uma japinha, foi chamada a atenção no condomínio.
21:44Ela não pode fazer isso.
21:45Ela falou assim, mas por que você está falando comigo?
21:47A dona do apartamento é ela.
21:49Então, quer dizer, a amiga se posicionou porque ela é a negra e aí ela não foi talvez
21:55chamada a atenção por conta do quê?
21:59A dedução daquela pessoa, daquele funcionário, em que a branca fosse a proprietária do apartamento.
22:04E olha a postura dessa amiga, a importância.
22:08É sobre isso, né gente?
22:09Obrigada pela participação de vocês.
22:11O nosso tempo acabou.
22:12Se deixasse, a gente continuava falando, né?
22:14Com certeza.
22:16Tá certo.