- há 3 semanas
Famílias vivem drama para internar dependentes e tira-los do vício. Mãe, pais e esposas vivem sob essa realidade tão triste. O tratamento não é fácil, exige paciência e atenção de toda a família. No estúdio, Cláudia Miranda, que vive esse drama com o filho vai falar da batalha que é lutar contra a dependência do filho. Kleber Serra da ONG "Viva Mais" também participa do debate, além da psicóloga Luciane Pinheiro e a Letícia Mameri.
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NotíciasTranscrição
00:00Gente, o drama dessa mãe que a gente viu aí é o mesmo de milhares outras que tentam tirar os
00:06filhos das drogas e a gente sabe que não é fácil.
00:08Quantas e quantas mensagens a gente recebe aqui no nosso celular, mães aqui na portaria da TV Vitória falando preciso
00:14de ajuda para internar meu filho.
00:17E é difícil porque, primeiro, a maioria não aceita o tratamento.
00:21E do outro lado, a gente sabe que também não é fácil encontrar lugar para internar os dependentes, né?
00:27E esse vai ser o assunto agora aqui no nosso estúdio, participa com a gente, é a sua realidade ou
00:32então você conhece alguém que enfrenta esse mesmo drama.
00:35Vem cá, aqui no nosso estúdio eu recebo a Cláudia Miranda, obrigada pela sua participação.
00:40Ela é mãe e vive esse drama com o filho, daqui a pouco ela vai contar para a gente, seja
00:46bem-vinda, viu? Boa tarde.
00:47A gente também recebe aqui o Kleber Serrano, que é da ONG Viva Mais, que cuida de dependentes químicos e
00:56vai explicar para a gente também como é que é feito esse processo de reabilitação.
01:00E a psicóloga Luciane Pinheiro, obrigada também, sejam todos bem-vindos, boa tarde.
01:05Conta para a gente essa dificuldade, esse sentimento da mãe que a gente acabou de mostrar agora nessa reportagem.
01:12Você se identifica? Há um tempo atrás você estava vivendo esse mesmo drama com o seu filho?
01:19Sim, Roberto, eu estava vivendo o mesmo drama como vivo até hoje.
01:25É difícil a gente achar uma vaga, a gente internar um filho da gente, uma pessoa da família,
01:32e quando a gente encontra, eles não querem ir.
01:39Esse é o meu drama, o que eu passo é isso aí.
01:42Eu encontro a vaga em vários lugares.
01:45É ele que não quer ir, muitas das vezes.
01:48Eu tenho um pastor, uma casa para poder acolher ele,
01:54eu vou até o lugar, falo, ele está em tal lugar.
01:57O pastor vai até lá, chega lá, ele não quer ir, fala que vai no outro dia, fala que vai
02:03depois e nunca vai.
02:05Tem, o pastor dá três, quatro viagens para conseguir resgatar ele.
02:10Quer dizer, eu já estou nesse drama pela terceira vez que eu estou passando.
02:15Já foi até um, eu estou lutando com isso há uns cinco anos, seis anos mais ou menos.
02:20Ele já aceitou em outros momentos ser internado?
02:23Já aceitou em outros momentos.
02:24Mas não permanece?
02:25Não permanece, ele fica no máximo 15 dias.
02:29Aí fala que lá dentro tem perturbação, que tem alguém perturbando ele,
02:35aí ele foge, porque essas casas também não têm uma segurança.
02:39Eles são livres, eles podem sair a hora que eles quiserem, né?
02:42Aí ele sai e vai embora.
02:45Anda, anda até chegar em casa.
02:46É difícil conseguir recuperar uma pessoa que está nesse ponto de dependência química, se não ser de outra forma através
02:55da internação?
02:56Olha, Roberta, boa tarde para quem está assistindo.
03:01Ela falou comigo ali, por trás das câmeras, a gente conversou bem rapidamente, dessas tentativas, as várias tentativas.
03:08Mas não adianta ter casa para ajudar a prefeitura, ou seja lá qualquer órgão, ajudar, se essa pessoa não quiser
03:16ser ajudada.
03:17É aí que está o grande X da questão.
03:19E ela falou, não tem segurança.
03:21Não, não tem, porque não tem como a gente manter preso pessoa que não quer ser curada.
03:26E outra coisa, que também é muito sério, eles não acham que eles precisam.
03:31Eles chegam num nível que a droga consome tanto as vontades, os desejos, que eles não conseguem entender que virou
03:40patológico, que virou uma doença.
03:42Entendeu?
03:42E não tem outro caminho a não ser a internação?
03:45Não tem.
03:46Quando chega num ponto como isso?
03:47Não tem.
03:48Não tem.
03:48Não tem.
03:49E Kleber, como é que é a realidade, né?
03:52Hoje, você com a sua ONG, quantas pessoas vocês atendem?
03:55Como é que funciona essa situação, essa relação com as vagas?
03:59Porque, como eu disse inicialmente aqui na entrevista, por um lado, tem casos dos filhos que não querem, não aceitam
04:06ajuda.
04:06E aí, quando você convence, nem sempre essa mãe, nem sempre esse pai consegue vaga.
04:12Como que isso funciona, por exemplo, na sua clínica?
04:16Então, boa tarde.
04:17Boa tarde.
04:17Boa tarde.
04:17Todos que estão nos assistindo, né?
04:19O Não Viva Mais, a gente enfrenta uma realidade quase que regularmente de não ter vaga.
04:27Porque, eu não sei se é o modelo que nós temos terapêutico, aquilo que nós oferecemos.
04:31Então, as pessoas, os acolhidos, gostam de permanecer lá.
04:35Inclusive, há uma reincidência, as pessoas saem, recaem, como o caso da filha da nossa amiga aqui, do filho da
04:43nossa amiga.
04:44E eles acabam, na hora de retornar, falando que eu quero voltar para o Viva Mais.
04:47Então, nós temos um problema muito sério de vagas.
04:50Nós temos 50 leitos e hoje eu tenho 46 acolhidos.
04:55Então, eu tenho 4 vagas disponíveis.
04:58Dessas 50 vagas, nós temos 10 sociais.
05:02Então, dessas 10 sociais, hoje eu tenho 8.
05:05Então, nós teríamos aqui duas vagas sociais, vamos dizer assim.
05:08As outras são...
05:10As famílias ajudam porque nós não recebemos ajuda de nenhum órgão público, nem empresas.
05:16Algumas poucas empresas que, de vez em quando, fazem essa contribuição.
05:20Mas, então, a gente depende muito da ajuda das famílias.
05:22E a realidade, Roberta, é complicado mesmo.
05:26Quase todos os dias bate alguém no nosso portão.
05:29Quase todos os dias...
05:31Aí, eu nem vou falar quase.
05:32Todos os dias, eu e o Pedro recebemos cerca de 5 a 10 ligações de mães pedindo informação e pedindo
05:39socorro.
05:40E a grande maioria acontece o que ela mencionou.
05:43Às vezes, até vão.
05:44No outro dia, desiste.
05:47A respeito dessas vagas sociais, a disputa, a gente imagina que deva ser grande.
05:53Como é que é essa triagem que vocês fazem para acolher ou não aquele dependente?
05:59O que vocês analisam?
06:00Então, o primeiro processo, a família entra em contato conosco pedindo informação.
06:04Aí, eu mando um portfólio, mando fotos, mando todas as informações terapêuticas.
06:09E a família retorna com questionamentos.
06:11Eles vão questionando, questionando, até que chega no momento da questão financeira.
06:15Quando a gente explica como é que funciona, então, às vezes, a família fala, ah, eu não tenho condições.
06:21Então, a gente tenta, na triagem, entender a situação real dessa família.
06:25Às vezes, até assistente social investiga para ver se, de fato, essa família não tem condições.
06:32Porque o que acontece, em alguns casos, é que a família gastou muito pagando dívida de tráfico.
06:37E agora, ela diz assim, não, eu não vou pagar o tratamento.
06:41Mas, às vezes, a família tem condições.
06:43E aí, eu sempre falo assim, mãe, pai, se você tem condição, contribui.
06:48Porque você está tirando a vez de uma pessoa que realmente não tem condição.
06:52Então, na triagem, a gente tenta identificar não só o aspecto econômico, mas também o aspecto emocional.
06:58O que levou essa pessoa a usar, quanto tempo usa, por onde ela já passou, quais os mecanismos que foram
07:04utilizados para ajudar para que ele saísse da dependência ou das drogas.
07:10Vamos fazer o seguinte, vamos incluir a psiquiatra, a doutora Letícia Maméria, aqui nesse bate-papo.
07:14O que ela vai explicar para a gente é a respeito dessa dificuldade de tirar uma pessoa do vício sem
07:21internação.
07:22Não é verdade, doutora?
07:23Acaba que a mãe não tem outra alternativa.
07:26Boa tarde.
07:27Boa tarde, boa tarde, boa tarde, gente.
07:30Prazer estar com vocês.
07:32Realmente, a retirada do vício sem internação, ela é muito, muito, muito complicada.
07:41Eu não vou falar impossível, porque na medicina as coisas são relativas e porque para Deus nada é impossível, né?
07:50Mas é muito difícil.
07:52Por quê?
07:52Porque a pessoa, quando ela está dentro do quadro da dependência química, ela passa muitas vezes mais tempo sob o
08:00efeito da droga do que sem o efeito da droga.
08:04E quando ela está sob o efeito da droga, ela está intoxicada pelo uso da droga.
08:10E isso altera as condições de consciência dessa pessoa.
08:15Então, mesmo que ela queira, o vício, a dependência é mais forte do que o próprio querer dela.
08:24Ela é uma doença.
08:26Então, muitas vezes é necessário a internação para fazer esse processo de desintoxicação, de retomada da consciência normal,
08:37para que essa pessoa possa depois ter condições de seguir com a vontade própria.
08:45Eu ia até te perguntar isso, doutora.
08:46Qual é o tratamento adequado, o tratamento ideal para que essa pessoa continue querendo essa ajuda,
08:56para que ela permaneça ali naquele centro de reabilitação?
09:02Então, a gente não tem medicações específicas, assim, a esse remédio aqui é para dependência química, não tem.
09:11Porque a dependência química, muitas vezes, ela é uma doença psiquiátrica secundária a uma outra doença.
09:20Então, as pessoas, às vezes, começam a ficar dependentes de álcool porque estão deprimídos,
09:25às vezes, abrem um quadro de depressão bipolar e acabam usando estimulante, por aí vai.
09:33Então, a gente precisa tratar a doença de base para que essa pessoa fique equilibrada.
09:39Então, não tem uma receita única, sabe, Roberta?
09:43Não tem como te falar, tem que tomar tal remédio específico, não.
09:48Vai depender de caso a caso, mas, muitas vezes, é necessário que haja o uso de medicação, sim.
09:59A pessoa parar de usar a droga e ficar sem usar a droga, sem fazer uso de nenhuma medicação como
10:07tratamento,
10:08pode acontecer, mas é a raridade da raridade da raridade.
10:14Então, a gente não pode partir do princípio que isso é regra, isso vai ser exceção.
10:20Então, é um conjunto de ações, se tiver que entrar com medicamentos, atividades terapêuticas, socialização.
10:26E é para isso que a gente tanto cobra, para que a gente tanto clama,
10:32porque pelos espaços onde a gente consiga atender essa demanda que a gente sabe que é enorme e, infelizmente, aumenta
10:40a cada dia.
10:40Deixa eu voltar a falar aqui com a Luciane Pinheiro, que é psicóloga, que está com a gente no programa.
10:45Lu, como convencer, como usar da palavra no momento com aquela pessoa que a gente tanto ama, o nosso filho,
10:54o neto,
10:54para que ele aceite essa ajuda.
10:57Imagino que a Cláudia já deve ter feito de tudo, né, mãe?
11:00Tudo, tudo.
11:00De tudo.
11:01É, Roberta, é um processo e é complicado.
11:04Você chegar para uma família e falar, tem que ter calma, tem que falar com amor,
11:08porque geralmente a família já está no limite, está no limite do desespero, está no limite da dor,
11:14porque imagino que não deve ser fácil para uma mãe que gerou um filho, que criou com todo carinho,
11:18que pagou os melhores escolas ou fez o possível ver o filho numa situação dessa.
11:23Então, primeiro passo é, primeiro, tentar se equilibrar e entender que os três Cs não é culpa sua,
11:34você que é familiar não consegue curar e você também não consegue fazer com que controlar essa situação.
11:42Então, quando você entender que não foi culpa sua, que você não consegue controlar e que você não tem como
11:48curar,
11:48você já dá uma relaxada.
11:50Então, o que você faz, já que você não consegue curar, não consegue controlar?
11:54Acolher.
11:54Então, ame, espere passar o tempo de crise, de abstinência ou que ele esteja drogado,
12:00no momento em que ele esteja sóbrio ou ela esteja sóbria, que você mostre ali sua compreensão,
12:06seu acolhimento e seu amor.
12:07Porque é importante a gente falar, Roberta, que o que levou essa pessoa a usar droga não foi a vontade
12:12de usar droga.
12:13Foi, geralmente, alguma frustração ou alguma doença ou distúrbio anterior, que é com depressão, ansiedade ou algum tipo de transtorno
12:25psiquiátrico.
12:26Então, a pessoa tem que ter consciência de que é uma doença, mas é uma doença secundária, como a psiquiatra
12:33falou.
12:33Então, acolhimento, demonstração de amor e depois um tratamento psicológico é o mais indicado.
12:42Qual é a situação hoje do seu filho, Cláudia?
12:44Hoje, a situação dele é...
12:47Está em situação de rua, né?
12:50Está lá...
12:51Há quanto tempo fora de casa?
12:53Aproximadamente uns dois meses, está fora de casa.
12:55Deve assim, ele estava trabalhando numa boa, direitinho, do nada.
13:02Surtou, falo, surtou dentro de casa, pegou algumas coisas, saiu de madrugada para a rua e não voltou mais.
13:09Aí, quando me liga, é para pedir dinheiro, pedir ajuda, eu falo, eu vou te ajudar, mas para um tratamento.
13:18Não vou te dar mais dinheiro, não vou te dar nada para isso, um tratamento sim.
13:23Aí, fica nessa peleja, nessa luta, né?
13:25Para poder conseguir fazer ele aceitar ir para uma clínica, ir para uma casa.
13:33Porque ele fala, eu não estou doente.
13:36Eu falo, meu filho, você precisa, isso é uma doença, você precisa de um tratamento.
13:41Eu não, não estou doente.
13:42Eu saio a hora que eu quiser.
13:44Mas a gente vê que não é assim.
13:46Ele até fala, quando ele está muito atacado, ele fala, mãe, eu preciso sair dessa.
13:51Eu falo, meu filho, eu sei que você precisa.
13:53Vamos procurar um tratamento, um lugar que a gente consegue.
13:57Eu fui na CAPS umas três vezes levar ele.
14:00Ele vai lá, passa por todo aquele procedimento, um psicólogo, um psiquiatra, assistência social, tudinho.
14:09Na hora de fazer os exames, ele casca fora, não faz.
14:13Aí, quer dizer, tudo que eu fui lá, tudo que eu fiz, foi em vão.
14:17E ele ficava frustrando a gente.
14:19O que a gente faz?
14:20Está batendo, está lutando, está lutando e não consegue resultado.
14:23Não foi em vão, não, mãezinha.
14:25Ele guardou isso aí.
14:26Pode ter certeza.
14:27Essa tentativa ficou no coração dele.
14:29Nada do que você faça é em vão.
14:33Todos os tijolinhos que você colocar, ele vai ter uma hora que ele vai usar para ter força para sair
14:37disso.
14:38Só que eles precisam, Roberto, entender que chegou no fundo do poço.
14:42E é aí que está difícil, é aí que é difícil eles chegarem no fundo do poço.
14:45Porque quando eles chegam no fundo do poço, a família já está destruída.
14:48Ou está sem nada dentro de casa porque eles venderam tudo, ou já está sem forças nenhuma.
14:53E você que está em casa e passa por essa situação, tenha muita força.
14:57Procure ajuda espiritual e psicológica.
15:01Precisa, não altere as ordens.
15:03Precisa, primeiro, forças em Deus.
15:06Segundo, procure ajuda psicológica.
15:07Por quê?
15:08Enquanto você estiver ali dando suprimento, igual ela falou, ele procura quando precisa de ajuda financeira para comer ou para,
15:15inclusive, comprar droga.
15:17Não dê.
15:18Eu sei que é difícil, que é muito dolorido, que como você vai encolher as mãos para o seu filho
15:24ou para o seu ente querido.
15:25Mas você está financiando o vício.
15:28E ele precisa chegar no fundo do poço, realmente não ter nada, não ter como usar, não ter, sabe?
15:34Chegar realmente no limite dele, para ele entender que ele precisa de ajuda.
15:39E essa ajuda não vai ser um trato de comida, não vai ser uma droga, vai ser realmente a internação
15:43e um passo mais sério em busca de cura.
15:46E é aí que muitas famílias pensam na internação compulsória.
15:50Na sua clínica, você consegue ter uma média de quantos por cento das pessoas que te procuram, pedindo essa ajuda,
15:58são por vontade própria?
16:00E quantas mães falam assim, interna o meu filho a qualquer custo?
16:04A procura é muito grande por isso, né?
16:07Mas a gente, quando começa a triagem, a gente já deixa claro que no Viva Mais nós só fazemos o
16:12procedimento voluntário.
16:14Então, compulsório, eu até instruo como deve ser feito o processo, mas não é feito pelo Viva Mais.
16:20Inclusive, a gente deixa bem claro...
16:22Mas chegam casas, né?
16:23Não chega, não chega exatamente lá, mas por telefone, quando as pessoas pedem socorro.
16:27E a primeira pergunta que a gente faz é falar isso.
16:30Me fala um pouquinho, na triagem, me fala um pouquinho, seu filho aceita?
16:34Não, ele não aceita.
16:35Aí eu já mudo até o contexto da história, já esqueço voluntariedade e vou trabalhar com ela a possibilidade de
16:42fazer uma intervenção.
16:44Então, essa intervenção, eu lembro que a primeira intervenção que eu ajudei a fazer, que foi do meu próprio filho,
16:50o promotor de Vila Velha me perguntou assim,
16:53você acha que essa internação vai fazer com que ele pare de usar droga?
16:58Eu falei, não.
16:59Mas então, para que você quer a internação?
17:01Como ela mencionou, como a doutora também falou, é o primeiro passo para a pessoa recuperar a sanidade.
17:07Porque você tira ela do meio do uso, aí sim você é capaz de começar a fazer um trabalho.
17:14Só para você ter uma ideia, Roberta, quando a pessoa chega no Viva Mais, que ele já está há 3,
17:204, 5 dias fora do uso, o resultado do tratamento é 1.
17:24Quando a pessoa chega já no uso, o resultado é completamente diferente, muito mais difícil e normalmente essa pessoa não
17:32permanece na instituição.
17:33Vamos deixar bem claro que no caso de internação compulsória tem que ser feita através da justiça, tem que ser
17:39feita pela justiça.
17:40E aí, deixa eu voltar a falar com a doutora Letícia Mameri, que ela vai explicar para a gente como
17:44que funciona, doutora, esse processo.
17:47Em que momento que a gente aciona o advogado ou a defensoria pública?
17:53Então, a gente precisa muitas vezes fazer a internação compulsória quando você vê que aquela pessoa vai morrer e não
18:04vai sair daquilo, né?
18:06Porque quando a pessoa está intoxicada, ela está fora da consciência dela, né?
18:10Como eu disse anteriormente, a última coisa que ela vai falar é, ah, eu quero me internar.
18:17Normalmente isso não acontece.
18:20Então, a gente precisa justificar essa internação compulsória nessas situações.
18:28Então, ah, eu estou vendo que meu filho ou minha filha não estão bem, estão cada vez pior, estão parando
18:37de comer, estão se afundando, estão na rua.
18:41E não vou pedir para sair dessa sozinha, daí a gente precisa ter uma internação compulsória, tá?
18:47A internação compulsória, ela precisa do áudio de água.
18:54Então, muitas vezes...
18:57Perdão, agora acho que retomou, doutora, pode continuar, retomar o seu áudio.
19:00Desculpa, tá meio falhando.
19:04Não, mas agora pode não é...
19:06A internação compulsória, ela precisa do laudo do médico psiquiatra.
19:12Então, uma coisa que às vezes as pessoas pensam, não, porque a interna compulsória pega igual na ditadura e...
19:18Não, não é desse jeito.
19:20Tem que ter uma avaliação técnica para que justifique essa internação compulsória, tá?
19:28Por isso que às vezes não é tão simples fazer internação compulsória.
19:34Porque tem alguns pré-requisitos.
19:37Pré-requisitos? Conta pra gente quais são, doutora.
19:41Não, então, ele precisa passar por uma avaliação técnica para ver se justifica a internação compulsória.
19:48Justamente para que a internação compulsória não vire mecanismo de prisão, né?
19:57De cerceamento de liberdade.
19:59Então, tem uma questão técnica, tem uma justificativa.
20:02A internação compulsória, ela é para salvar, guardar a vida daquela pessoa.
20:10Quais são as chances de recuperação desse dependente químico feita com a internação compulsória?
20:19Roberta, assim, eu não tenho os dados exatos, mas eu vou te falar.
20:24Recuperação de dependente químico, seja por vontade própria ou por internação compulsória, é baixíssimo.
20:33Então, a gente tem que ter em mente que nós estamos travando uma luta com algo muito forte, que é
20:43a dependência química.
20:45Muitas vezes a pessoa faz uma internação voluntária, ela fala que ela quer se internar e, mesmo assim, depois ela
20:56recidiva N vezes.
20:59Então, ser compulsória ou ser voluntária, eu não vejo uma diferença significativa nas taxas de reincidência.
21:12Porque a dependência química, por si só, ela já tem uma taxa de reincidência muito alta.
21:19Então, não adianta ir para uma clínica de internação e voltar para o mesmo ambiente que aquela pessoa frequentava antes.
21:28Ela precisa mudar.
21:30Ela tem que mudar o ambiente, ela tem que mudar a ocupação da cabeça, ela tem que mudar uma série
21:37de coisas.
21:38E aí vem de todo o acompanhamento multiprofissional, que ela vai precisar de tudo.
21:46Depois da internação, a internação é para desempotivar, para limpar a pessoa.
21:52Agora, depois que ela tem a alta, tem os narcóticos anônimos, tem os TAPs, tem vários mecanismos de apoio para
22:04que essa pessoa consiga se manter livre das drogas.
22:07Inclusive, a gente entrou em contato com a Secretaria de Saúde, e olha só essa informação importante, gente.
22:13Pelo SUS, a porta de entrada para os dependentes químicos é a atenção primária à saúde nas unidades dos bairros.
22:21A SES informou que os casos com maior comprometimento são encaminhados ao CAPS, que são o Centro de Atenção Psicossocial.
22:29O atendimento é oferecido por psicólogos, médicos e assistentes sociais para o dependente também e também para as famílias.
22:39O Estado tem 361 leitos para internação em saúde mental, o que inclui os dependentes químicos,
22:47e que tem convênios com várias unidades terapêuticas para onde os casos são encaminhados.
22:54E aqui no nosso Facebook eu estou recebendo uma chuva de comentários, tem um comentário aqui, tem a participação da
23:01Holly Verlia,
23:02ela diz, eu perdi um filho por não ter encontrado apoio de nenhuma clínica, porque eu não tinha condições financeiras
23:09para pagar,
23:10e outra, porque ele não queria aceitar o tratamento.
23:15E aí a gente sabe, Kleber, que é uma realidade de muitas mães, né?
23:20Demais, isso aí, eu lá atrás, eu passei por essa realidade, né, meu filho, aliás, eu estou hoje trabalhando com
23:30dependência química
23:31por causa do meu filho, talvez se ele não tivesse tido envolvimento, eu não creio que eu estaria envolvido com
23:38dependência química,
23:40tamanha a dor que isso traz até para os profissionais que se empenham nisso.
23:44Então, lá atrás, meu filho passou por isso, desde que começou usando droga aos 10 anos, quando a gente ainda
23:49vivia nos Estados Unidos,
23:51e você imagina, até hoje a gente luta para ele permanecer limpo.
23:55Hoje a situação é diferente, mas a gente luta para isso.
23:59E a minha luta é a luta dela, é a luta de todas as mães que batem aí na porta,
24:04que mandam mensagem para vocês aqui na redação,
24:07é a luta dos pais e mães que vão até a Rede Abraço procurar ajuda.
24:11Enfim, quando uma pessoa chega, me ligar a procurar o Viva Mais ou qualquer outro instrumento de ajuda,
24:19eu sei na pele exatamente o que essa família está precisando.
24:24A gente tem aqui a participação da Eliana Lua, ela disse que onde a irmã dela se tratou,
24:28não foi preciso fazer o uso de nenhum medicamento, só com a palavra de Deus, muita oração.
24:34Então, hoje ela tem, inclusive, primeiramente agradecer a Deus e depois ao projeto, ela até cita aqui o nome,
24:40é Cristolândia, que a gente sabe, também já mostramos aqui no programa, que tem um trabalho muito bacana.
24:45Das vezes que o seu filho conseguiu, que ele aceitou inicialmente ir para uma casa, um centro de reabilitação,
24:54o que ele te relatava?
24:56Não, ele foi umas três vezes, aí ele chegava lá e não falava nada, simplesmente chegava, dormia, comia.
25:05Nem participava das orações, das atividades, nada.
25:09Ele não se envolvia com a socialização?
25:12Não, não.
25:13Aí, de repente, aquilo ali não é para mim, só falava aquilo ali não é para mim e saia do
25:18nada.
25:19Assim, teve uma, lá em Domingo Martins, que ele ficou, ele saiu de madrugada.
25:25Eu só fui saber no outro dia que o pastor foi procurar ele, cadê ele e ele, que ele não
25:31estava lá.
25:32Quando botou a sentida, ele estava chegando em Viana, andando a pé.
25:35Depois chegou em casa.
25:36Aliás, não foi para casa, foi para a rua.
25:38Depois de um certo tempo, que quando ele chega no fundo, lá no fundo mesmo, não tem nada, ele bate
25:44em casa.
25:45Naquela situação.
25:47Aquilo que você acabou de dizer, né, Lu?
25:48Aí chega em casa, naquela situação, que deprorável, assim, a mãe vê chorar.
25:56Aí ele vai para o banheiro, toma um banho, faço comida, o que tem para comer e finaliza.
26:00Alguma vez ele já te pediu ajuda?
26:02Já veio dele?
26:04Ou foi você que o convenceu?
26:05Eu sempre, eu que convenço ele a procurar ajuda.
26:08E ele sempre fala, não, porque eu não sou doente.
26:11Eu saio a hora que eu quiser.
26:13Só que não é isso que a gente vê.
26:15Eu luto, eu fico ali.
26:16Meu filho, você precisa, você precisa.
26:18Só que não consegue.
26:19Eu acho que não é só o meu filho, não só eu estou passando por isso.
26:23Eu acho que tem muitas mães também que estão passando isso, que tentam tirar seus filhos dessa vida e não
26:29conseguem.
26:30Não por a gente querer, por eles não querem.
26:33Acha que eles podem sair a hora que eles quiserem.
26:35Como é que vocês lidam com esses casos, Kleber?
26:37Então, eu ia até interromper ela com muito carinho.
26:41O que acontece muitas vezes é o seguinte, caso do filho dela, três, quatro vezes que já tentou.
26:47Hoje, ela estava conversando ali em off com a gente, que tipo assim, ele não aceita, ele não acredita.
26:53É o que acontece com a maioria dos dependentes que já passaram por uma, duas, três, quatro, cinco internações, cinco
26:58acolhimentos.
26:59Eles falam assim, eu não preciso.
27:01E quando você vai fazer uma análise do que aconteceu nos outros acolhimentos, o camarada só dormia e comia, como
27:10ela está falando.
27:11Então, assim, eu tiro você do meio do uso, trago você para uma instituição, para você fazer o quê?
27:17Você continua no uso psicológico, mental.
27:20Você não está, de fato, usando a substância, mas você está alimentando a sua mente com os desejos.
27:26Por isso que a atividade que as instituições oferecem, as atividades terapêuticas, elas são extremamente importantes e é o que
27:34diferencia uma da outra.
27:36Exatamente.
27:36Então, você coloca uma pessoa num centro de recuperação, numa comunidade terapêutica, como o nome que você quiser usar.
27:44Mas você precisa ter um atendimento psicológico, você precisa ter um atendimento, talvez, com assistente social.
27:51Por exemplo, no nosso caso do Viva Mais, é o que eu posso falar do Viva Mais.
27:54Nós temos terapia toda manhã e toda tarde.
27:57Toda manhã e toda tarde, segunda a sexta.
27:59Sábado e domingo a gente deixa livre com recriação.
28:01Mas tem atendimento com psicanalista, tem atendimento com psicólogo, tem atendimento com assistente social.
28:07Tudo isso faz com que o indivíduo comece a identificar falhas no seu comportamento.
28:14Porque no nosso entendimento, o que leva muitas vezes ele ao uso é o comportamento.
28:18Então, se você consegue identificar as falhas de comportamento, as falhas de caráter e consegue restituir isso aí,
28:25ele tem grande probabilidade de olhar para a droga e falar assim, você é muito gostosa, você me leva a
28:31Dubai.
28:32Mas eu não quero mais você porque você também me traz muito prejuízo.
28:35E a gente vai ver agora um depoimento muito forte do Marcos Emílio.
28:39Ele sofreu com as drogas por anos, mas hoje ele se recuperou e se tornou empresário, mostrando que é possível
28:46sim.
28:47Vamos ver.
28:49Eu cheguei ao projeto, depois de seis anos com transtornos relativos ao uso abusivo de entorpecentes, eu estava irreconhecível.
29:00Quem me vê hoje, quem me viu naquela época, pode se dizer que são duas pessoas.
29:08E foi por um milagre que eu cheguei lá, que eu estava basicamente em estado de rua.
29:12Hoje eu voltei para a minha família, hoje eu tenho uma empresa no meu nome, voltei para o mercado de
29:20trabalho.
29:22E eu acredito que projetos desse tipo ajudam as pessoas, além de retomarem a vida normal, a voltarem para o
29:30mercado de trabalho,
29:31que é o mais importante, a ter a vida digna.
29:39Ele fez parte do projeto do pastor Márcio da Vitória, que a gente também agradece, que contribuiu muito com a
29:43gente nesse estúdio, com várias informações.
29:46Agora ele trouxe um ponto importante, que várias pessoas aconselharam a importância não só da família, dos amigos também não
29:55desistirem.
29:56E uma vez eu ouvi isso, Lu, eu queria que você reforçasse, que às vezes a mãe tenta, tenta, tenta,
30:02tenta, mas tem alguém, que às vezes não é o pai, não é a mãe,
30:06alguém que tem um poder maior de influência, de convencer aquela pessoa.
30:12Ah, eu acho que enquanto a vida é esperança, né?
30:15E se você tem esse amor pelas pessoas, se você conhece alguém, não desista dessa pessoa.
30:21Seja você mãe, pai, amigo, primo, o que for, não desista do dependente químico, não desista do depressivo, não desista
30:29de quem precisa.
30:31Às vezes uma palavra sua naquele momento, naquele dia exato, que ele está ali no limiar da decisão, vai fazer
30:39a diferença para essa pessoa.
30:40Então, se você pode, dê essa boa palavra, dê esse acolhimento.
30:45E você que é mãe, está aí, já desgastada, triste, exaurida, no seu limite, não desista nunca do seu filho.
30:53Vá até a última consequência por ele, porque se ele não tiver você, ele vai ter quem?
31:00Costumo falar um pouquinho.
31:01A gente finalizar.
31:02Para finalizar, um minuto eu conto essa historinha.
31:04Uma vez chegou um rapaz, nós acolhemos ele e a mãe foi lá, duas semanas depois, tem o mesmo nome
31:11que eu.
31:12E aí eu falei, quando ela chegar, eu quero falar.
31:15Quando chegou lá, ele falou, o Kleber quer falar com a senhora, eu não quero falar com o meu filho.
31:18Não, mas não é seu filho, é o outro Kleber.
31:21Resumindo, conversei com ela, chorei com ela, com o pai, e ela irredutível, não queria mais dar oportunidade para o
31:26filho, desisti dele, não quero saber dele.
31:28E eu falei assim, quanto tempo tem que a senhora conhece seu filho?
31:31Ela fez aquela risadinha irônica, nos 30 e poucos anos, meu filho?
31:36Eu falei, pois é, eu conheço ele há três meses, eu não vou desistir dele, se a senhora quiser desistir,
31:41a senhora desiste.
31:42Choramos juntos.
31:43Ela saiu dali, abraçou e hoje ele é meu coordenador.
31:47Olha aí que bacana, que reviravolta para a gente encerrar esse estúdio com muita esperança para você aí de casa
31:53que está vivendo esse mesmo drama.
31:55Mãe, obrigada pela sua participação.
31:57Obrigada, Kleber.
31:58Agradecer a minha mãe, que fica comigo o tempo todo ali, me ajudando, me apoiando, me abraçando, não deixando eu
32:06desanimar, que às vezes a pessoa desanima, né?
32:09E agradecer a pessoa também que é muito importante para mim, que é minha psicóloga, que me ajuda bastante, e
32:15minha patroa Michele, que você deu o dia hoje para me vir aqui falando.
32:20Obrigada, patroa Michele, viu, por esse momento também.
32:23Obrigada também, Lu, e a doutora Letícia Maméria, que também contribuiu com a gente no programa de hoje.
32:27Boa tarde, doutora.