- há 4 semanas
Na semana do carnaval, a campanha "Não é Não" ganha força. O clima de festa também ganha um ar de alerta. A advogada Kamilla Dias, a psicóloga Letícia Santana e a Luiza Marques falam sobre os cuidados no momento da folia.
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NotíciasTranscrição
00:00E o que a gente pode esperar desse julgamento?
00:03Nesse um ano preso, o atleta já mudou a versão cinco vezes.
00:08Agora, a defesa dele tenta provar que a relação foi consensual.
00:14Esse é o nosso assunto aqui no nosso estúdio.
00:16Eu recebo a psicóloga Letícia Santana, a advogada Camila Dias
00:22e também a Luísa Marques, que vai dar um relato dela
00:25sobre essa questão do assédio que acontece nesse período de carnaval.
00:30Vamos começar falando do caso do Daniel Alves.
00:33Camila, é um julgamento muito extenso.
00:36Amanhã são esperadas 22 testemunhas
00:40e um julgamento que até agora mostra uma guerra de versões também,
00:44uma guerra de narrativas.
00:46O que a gente pode esperar desse caso tão complexo lá na justiça espanhola?
00:52Boa tarde.
00:53Boa tarde. É um caso bem resumido, complexo.
00:57Tem um apelo mundial, por conta da notoriedade do Daniel,
01:05mas que está sendo muito bem conduzido até então,
01:08criticamente falando, na parte jurídica,
01:10que é diferente do Brasil, as leis e tudo,
01:14mas o caminho jurídico tem sido persistido de uma forma bem abrangida.
01:23Vai ser um julgamento longo, cansativo até para quem vai estar ali acompanhando.
01:30Agora, cabível, dependendo da sentença, para que ele possa recorrer ou não,
01:37a gente não sabe.
01:38Por enquanto, ele é um acusado.
01:41E eu achei interessante até a forma como eles vão manter a privacidade da vítima,
01:45porque em casos de crimes sexuais, até aqui no Brasil, acabam expondo, de certa forma,
01:52e a mídia acaba tendo contato.
01:53No caso da vítima, nesse caso, ela vai ser preservada.
01:57Então, a gente está aí nessa expectativa.
01:59Estou acompanhando aqui na agência de notícias F, da França,
02:04e que informa que a pena para esse tipo de crime no país é de 12 anos de prisão.
02:10Quais diferenças, Camila, você pode apontar do julgamento na Espanha para um julgamento aqui no Brasil?
02:17Bom, com questão de tempo, de crime, de penas, também são diferentes, né?
02:23O Daniel Alves, não tenho certeza, eu acredito que é estritamente ao estupro que ele está sendo acusado, né?
02:31Então, ele não tem outros agravantes, como aqui no Brasil tem muitos agravantes, dependendo dos crimes,
02:36então, isso modifica bastante.
02:39Até um tempo razoável, de um ano de prisão até o julgamento, no Brasil, provavelmente seria um pouco mais.
02:47Então, e o sigilo que está acontecendo lá na Europa, por conta do caso, também é algo bem diferente do
02:55que acontece com a gente.
02:56Acabam vazando muitas informações e que prejudicam o caso, mas no caso do Daniel já mudou a versão mais de
03:03cinco vezes,
03:04ou quatro, cinco vezes.
03:05Então, tem muita coisa que a gente vai saber à medida que os depoimentos forem saindo e as testemunhas forem
03:13apresentando.
03:14Claro, a gente vai acompanhar cada detalhe desse julgamento.
03:17Letícia, agora eu gostaria de um raciocínio seu sobre justamente a posição dessa vítima de estupro.
03:26Ela estava numa casa noturna, quando tudo teria acontecido, de acordo com as informações,
03:32e, reiteradamente, ela é questionada a repetir a própria versão.
03:39Enquanto o jogador alterou cinco vezes a versão, ela sempre manteve desde o início.
03:45É a mulher precisando reafirmar, né, uma denúncia que foi feita inicialmente.
03:50Sim, porque a gente está falando também de uma questão que é terrivelmente cultural, né?
03:56Então, a mulher, mesmo na situação de vítima, ela é revitimizada quantas vezes forem necessárias para que, tá assim?
04:05A gente está falando de...
04:06Pode recomeçar, Letícia, porque o seu microfone, o pessoal de casa não te ouviu, aí você pode falar agora.
04:11Claro, claro.
04:12Infelizmente, a gente está falando de algo que atravessa uma questão cultural, né?
04:17Em se tratando de Brasil, que é um país historicamente patriarcal, a mulher, ela sempre está nesse lugar de vulnerabilidade.
04:25E o homem, na condição de livre acesso a esse corpo da mulher.
04:29E falar que essa mulher, ela precisa colocar regras, ela precisa colocar sinais para que o óbvio não aconteça,
04:37acaba sendo muito naturalizado no nosso país.
04:39Então, essa mulher, ela precisa o tempo todo estar provando que ela foi vítima,
04:44sendo que existe uma série de sinais, né, e de filmagens dizendo que ela realmente foi vítima.
04:49E o triste é a gente ter que ouvir de outras mulheres, de homens também, de que ela estava ali
04:56e ela se colocou naquela condição,
04:59independente do que se ela estivesse com uma roupa mais curta ou menos curta, isso não importa.
05:03Então, isso não é um ponto que prega contra ela, que legítima contra ela.
05:09Então, ela é vítima, ela sofreu um abuso.
05:11E um caso como esse, indo à imprensa, também traz uma reflexão e um constrangimento de não normalização desse tipo
05:20de coisa, né?
05:21Perfeito. E olha, uma das versões da defesa do atleta, a última versão, inclusive,
05:28era de que ele estava sob forte efeito de bebida alcoólica e reafirmou que a relação teria sido consensual.
05:36Então, a gente vê argumentos que não justificam absolutamente nada, né?
05:41Sim, e a gente sabe que álcool também não tira o abusador da condição de abusador, né?
05:50Então, se o homem, ele bebeu, ele precisa assumir isso.
05:54E em se tratando desse contexto, por exemplo, desse tempo que a gente vive do carnaval,
05:59em que o álcool acaba sendo desculpa para cometerem atos de ilegalidade, contravenções,
06:06eu acho que fica aí um exemplo de que o álcool não é justificativa para absolutamente nada.
06:10Se a pessoa bebeu, ela precisa também assumir as consequências dessa falta de sanidade, né?
06:16Fruto dessa bebida.
06:18Perfeito.
06:18Camila, desde o início desse julgamento, a gente viu um cuidado da justiça espanhola
06:25em preservar a identidade da vítima.
06:27Por exemplo, em nenhum momento a vítima ficou frente a frente com o atleta.
06:33No Brasil também há essa preocupação?
06:37Nesse primeiro momento, sim, haveria, até porque ele não teve oportunidade de ter esse contato.
06:43A questão ali que eu tenho visto e acompanhado é para não gerar, justamente, evitar esse tipo também de julgamento
06:50como nós mulheres enfrentamos.
06:52Em se tratando de artistas e jogadores, quando vem um crime sexual à tona contra mulheres,
06:58costuma-se dizer de antemão que a mulher provocou ou que estava naquele lugar porque ela quis,
07:04estava naquela festa, aceitou aquela bebida, teve relação com aquele homem, quer aparecer, quer notoriedade.
07:10Sendo que essa daí, no caso do Daniel Alves, ela não quer estar em lugar nenhum.
07:15Ela falou não, ela poderia se ela quisesse.
07:18Ela é a vítima, né?
07:19Colocar a cara dela tona, ela não quer porque ela quer tão somente que a justiça seja feita.
07:23Então, aqui no Brasil, por muitas vezes, as vítimas são expostas ou porque elas desejam,
07:29elas não precisam de se esconder, caso elas não queiram, quem são as vítimas são elas,
07:33inclusive, quem deveria se esconder eram esses homens, mas acabam saindo e aí gera esse burburinho, né?
07:40Porque você tem a foto da mulher que mandou a mensagem, aí teve ali o contato com ele e tudo,
07:46até aquele momento ela quis, mas ela pode mudar de ideia e não querer na hora.
07:49Então, isso não invalida o crime quando ele acontece.
07:52Então, essa preservação ou não de imagem cabe primeiramente à vítima.
07:57Perfeito.
07:57Esse é o ponto.
07:58Às vezes, num momento lá, estava na balada, curtindo, conversando, ela quis ficar, estou supondo uma hipótese,
08:05mas aí, num momento em que ele pudesse ter avançado o sinal, ela falou não, não quero mais.
08:11Isso, isso pode acontecer a qualquer tempo, sabe, Lucas?
08:15Existe estupro dentro do casamento.
08:17A gente não pode, mesmo ele sendo marido, ele não pode tocar no seu corpo,
08:22não pode ter uma relação sexual com a esposa, se ela não quiser.
08:25A partir do momento, então, se o próprio marido, deitado do lado dela, vivendo uma vida,
08:30ela pode não querer isso ser um estupro, caso permaneça, imagina um estranho, né?
08:34Então, fica o alerta também para as mulheres ficarem atentas.
08:38Se os homens também aprenderem, porque às vezes, né, pecam pela ignorância no sentido da lei,
08:44que todo não é não, né?
08:46Então, é muito claro quando é um sim.
08:48E se a mulher foi, trocou uma mensagem, quis sair, seja da forma que foi, no aplicativo, numa balada,
08:53ou enfim, chegou na hora, ela por algum momento se sentiu desconfortável e não queira,
08:58é para sair, é para deixá-la ir, porque senão pode acontecer também com vocês, né?
09:03Eu fico pensando o absurdo que é quando a gente traz isso para a nossa sociedade, Letícia,
09:10agora o seu microfone está funcionando.
09:12Ah, tá, tá, tá.
09:13Como que é a mulher ter que reforçar o óbvio o tempo todo?
09:20É, e é o que você bem colocou e que a Camila também colocou, né?
09:24A gente está falando de algo que é óbvio.
09:26Só que quando se trata de uma construção histórica, social e cultural,
09:30o óbvio, vamos colocar dessa forma, é esse direito do homem sobre o corpo dessa mulher.
09:36Então, não é ensinado, ou não foi ensinado para esse homem,
09:40que a mulher, ela tem direito sobre o seu corpo.
09:43Que a mulher tem direito de colocar limites, a mulher tem direito, como Camila bem colocou,
09:48de mudar de ideia em qualquer momento que seja.
09:51E essa sociedade que hoje se coloca é uma sociedade que vive essa transição
09:56e que precisa da lei para punir o óbvio.
09:59Porque quando a lei vem e pune o óbvio, quando a lei diz que um beijo forçado
10:05ou uma mão num lugar indevido é passivo de crime, é passivo de retenção,
10:10esse homem, ele precisa pensar que alguma coisa está mudando.
10:15E quando se trata da educação de filhos, a educação de filhos,
10:18também fica essa responsabilidade.
10:21Então, não é dizer para a menina que ela precisa se dar o respeito,
10:24é dizer para os filhos que eles precisam respeitar uns aos outros.
10:28Então, eu acredito muito nessa construção, nessa geração que está vindo
10:32e no comprometimento de todos.
10:35Porque essa luta, ela não é só das mulheres, é uma luta dos homens.
10:38Não basta o homem não violentar, ele também precisa se posicionar de forma ativa também.
10:44Perfeito.
10:45O jornalismo da Record vai continuar acompanhando o desenrolar desse julgamento do jogador Daniel Alves,
10:52que entrará no segundo dia amanhã.
10:55Mas ao contrário do que muita gente pensa, o estupro não é apenas o ato sexual,
11:00é muito mais do que isso.
11:02Tem ainda a importunação, que é tão grave quando.
11:06Na semana do carnaval, a campanha não é não, ganha força.
11:10O clima é de festa, mas também de cuidado.
11:13Segundo o governo federal, 45% da população feminina, quase a metade,
11:20já teve o corpo tocado sem o consentimento em lugares públicos.
11:24Durante o carnaval, esse problema se agrava.
11:27Muitas mulheres são vítimas de violência, abuso e importunação sexual.
11:33As situações vão de beijo forçado até casos extremos, ligados a investidas sexuais.
11:39A primeira é mais importante e mais importante das regras que nós sempre reforçamos aqui é
11:47denuncie, nunca deixe passar impune.
11:50E a gente vai falar sobre esse caso aqui com a nossa convidada, Luísa,
11:55para poder falar um pouquinho, você curte o carnaval, aproveita os bloquinhos,
11:59o pessoal está lá na folia e você, como mulher, sente esse assédio aumentar?
12:05Não, com certeza.
12:06Eu passei carnaval agora na sexta-feira, eu fui no São Paulo do Povo e no sábado fui no bloquinho
12:11de rua.
12:12E já dá para perceber a diferença, assim, quando é uma festa fechada e uma festa mais aberta, assim.
12:18Essas situações do assédio e tudo mais.
12:20Eu mesma já sofri um assédio durante o bloquinho de rua, assim, foi uma situação horrível.
12:26Tive um beijo forçado, né, porque eu estava no relacionamento.
12:29Então, assim, é aquela situação que a gente para e pensa várias vezes, né, como você estava falando.
12:33Será que foi a minha culpa? Será que, tipo, foi a minha roupa?
12:36E as minhas amigas na hora me tranquilizaram muito, dizendo que, não, o cara que te beijou forçado
12:40e nem perguntou se eu queria ficar com ele, sabe?
12:43É umas coisas, assim, que só acontece mesmo na rua, assim, no carnaval e a gente fica...
12:48Gente, para quê? É uma festa tão legal, sabe?
12:50Não precisa.
12:51Está indo para curtir.
12:51Sim, está todo mundo lá.
12:53Quem quer, como você falou, quem quer, quer, sabe?
12:56Vai lá, beija.
12:57Mas quem não quer, não quer. Acabou.
12:59É tão simples você definir quando a menina, a mulher está afim de você ou não.
13:04É muito simples, né?
13:06Pelo olhar, pelos sinais, a pessoa percebe.
13:09E esse sentimento, ele é recíproco, né?
13:12Quando não é, tchau, né?
13:14Vai para a curtição aí, para a próxima.
13:17Agora, você acredita que nessas festas de carnaval, o pessoal fantasiado, curtindo, também tomando umas, né?
13:24Os homens se sentem, são mais, como é que eu vou dizer assim, agressivos, para frentes em relação às mulheres?
13:33Não, com certeza, assim, sempre quando eu estou nessas festas, eu tento levar algum amigo homem, porque aí já dá
13:38uma afastadinha nele, sabe?
13:39Isso chega a ser machismo, né? Óbvio, é ser horrível, mas é o que me arminha contra ele, sabe?
13:45É um absurdo isso, né? Você tem que levar um homem para ficar do seu lado, para não sofrer assédio.
13:52É absurdo mesmo, cara, eu não tenho palavras.
13:54Nós estamos em 2024 mesmo?
13:55Juro, não parece.
13:57Ô, Letícia, a Luísa falou muito sobre essa questão da mulher se culpar, né?
14:02Será que foi culpa minha isso que aconteceu?
14:06Mesmo com o empoderamento, com mais informações sobre o assunto disseminadas, o incentivo à denúncia, isso ainda acontece muito?
14:13Acontece todo o tempo, porque a gente está vivendo essa transição, né?
14:17A transição da percepção da mulher.
14:19E a gente está falando de uma jovem.
14:20Quantos anos você tem?
14:2124.
14:2224 anos.
14:23A gente está falando de uma jovem.
14:24Então, ela está vivendo esse período de transição entre esse empoderamento, mas uma cultura ainda muito enraizada,
14:31que é da responsabilidade da mulher, o cuidado.
14:33E aí, se tratando de carnaval e de álcool e tudo mais, vem essa legitimação da afronta-lei, afronta-regra.
14:42Então, se existe, se beber, não dirija, se beber, não acedir, porque ambos ali estão passivos de serem penalizados.
14:51Então, precisa ficar aí esse posicionamento.
14:53Isso que ela coloca de chamar um amigo é o que as mulheres vivem, não só no carnaval, mas todos
14:58os dias.
14:59Então, você vai para uma festa, você precisa mostrar lá a sua localização, você precisa colocar no grupo das amigas
15:05onde você está.
15:06É todo dia.
15:07Então, a gente está vivendo um tempo de transição, ótimo, mas com muitos resquícios culturais, muitos resquícios sócio-históricos,
15:15de que essa mulher, ela não tem direito sobre si e sobre o seu corpo.
15:19Então, muito bom estarmos aqui falando sobre isso, porque é mais uma pedrinha na construção dessa mudança, né?
15:24Eu tenho uma amiga que falou uma vez comigo, Lucas, é muito difícil ser mulher, porque a gente não pode
15:31andar num ônibus tranquilo,
15:33a gente não pode andar na rua, a gente não pode ir para uma festa, ir para uma balada, e
15:36a todo tempo nós precisamos ficar vigilantes,
15:40porque pode acontecer alguma coisa com a gente.
15:42É insano isso.
15:43E claro, eu, como homem, não consigo nem me colocar no lugar dela, mas imagino que a situação seja terrível.
15:50Camila, uma mulher que sofreu uma importunação sexual lá no bloquinho, no momento da folia, que atitude ela deve tomar?
16:00Procurar a polícia imediatamente?
16:02Sim, fazer uma denúncia tão logo, porque a gente não sabe se um desses caras que vão estar praticando isso,
16:09ele vai fazer isso reiteradamente.
16:10Então, se ele chegou na Luísa, a Luísa não quis, e ele tocou no corpo dela, e aquilo ali foi
16:16invasivo, ela faz uma denúncia.
16:18Fez a mesma coisa comigo, eu vou lá, identifico tudo, então vai juntar e vai ver que aquele comportamento é
16:23um comportamento repetitivo.
16:25Então, pode gerar uma acusação ou isso ir adiante.
16:29A gente nunca sabe quem é essa pessoa, né?
16:32Às vezes a gente sabe, mas a gente nunca sabe do que ela é capaz.
16:35Então, eu sei que aqui no Carnaval, pelo menos em Vitória, no Sambão do Povo teve, porque eu estava lá
16:40e eu vi,
16:41essas campanhas do Não é Não, existem uns pontos de apoio, caso você mulher passe por alguma situação dessa,
16:49pode estar indo lá para poder ser acolhida de alguma forma, procurar denúncia, procurar fazer algo.
16:57E eu sempre brinco, eu uso essas reflexões e hoje também é importante para isso.
17:03No caso, Lucas, eu bebo no Carnaval, saio com você, você é meu amigo, você bebe também muito,
17:08na hora de ir embora, na hora de você pedir um Uber, você não vai me mandar a sua localização,
17:11você não tem preocupação com como é que você vai chegar em casa.
17:13A gente precisa mandar a localização, a gente precisa ver se, sabe, se alguma parte do corpo está tão à
17:19mostra
17:19ao ponto que alguém possa vir e tocar e o homem não fica preocupado com isso.
17:22Como se isso justificasse.
17:23Exatamente. Então, esse lugar do Carnaval, ele é apenas um lugar onde a gente pode transitar à vontade.
17:30Então, vamos viver o nosso Carnaval, cada um da sua maneira, da sua forma,
17:35até chegar ao ponto onde a gente não precise de levar um amigo para nos proteger,
17:39porque os homens vão entender que o nosso corpo, ele não é livre e sim livre para nós,
17:46se nós desejamos ou não qualquer tipo de contato.
17:49E, se precisarmos, a gente pode denunciar, ligar e fazer a festa.
17:55Claro.
17:55Bom, espero chegar nessa época, algum dia, ver isso ainda nessa geração.
18:01Luísa, e como é que você e suas amigas, quando vocês vão sair, por exemplo,
18:05para curtir um bloquinho ou para uma situação em que vocês podem se sentir vulneráveis de alguma forma,
18:12qual que é a importância de você ter essas amigas, como vocês se comunicam, como que é isso?
18:16Então, a gente sempre sai juntas, é uma regra, né?
18:19Nunca, tipo, ir no banheiro sozinha, porque gera um medo na gente, a gente não sabe o que pode acontecer.
18:24Então, a gente sempre está com a conversa, assim, meio, ó, vou lá, vamos lá comigo.
18:28Então, é sempre assim, bem comunicativo mesmo, porque é o jeito que a gente tem para lidar com essas situações.
18:33Sozinha não dá?
18:34Nunca.
18:35Que coisa, é impressionante, né?
18:37A gente está falando disso ainda em 2024.
18:41Letícia, normalmente, quando acontece uma situação dessa, a mulher, às vezes, ela se sente mais confortável
18:46em primeiro falar para uma amiga, falar para outra mulher, né?
18:51Como é que essa pessoa pode ajudar no momento de fazer uma denúncia?
18:56Olha, tem que denunciar, não deixa por baixo isso, chama a polícia.
19:01Qual a importância de ter uma pessoa assim também?
19:03É, o respaldo, né, social das redes de apoio, ela mesma colocou um exemplo muito bonito, assim,
19:09ela se sentiu culpada, ela começou a questionar a própria vestimenta, se aquela vestimenta
19:14estava sendo provocativa, se ela deveria ter feito diferente.
19:17E aí vem uma amiga e acolhe e fala, não, não, né, você não errou, esse não é o seu
19:21problema.
19:21Então, eu acho que a comunidade, reforçando esse posicionamento, também ajuda a vítima
19:26se sentir menos, menos atingida.
19:31Porque, assim, uma importunação sexual, ela traz muito constrangimento, ela traz muita tristeza,
19:38ela traz uma sensação de impunidade muito grande.
19:40Então, quando a comunidade vem e acolhe, essa pessoa se fortalece para criar movimentos de denúncia,
19:46de posicionamento, né, e aí vai e continua caminhando a sua história.
19:50Então, a rede de apoio é fundamental nessa hora.
19:53Não fique em silêncio, a culpa não é sua.
19:56Divida mesmo para que esse outro, junto com você, consiga ir buscar uma solução.
20:01Letícia Santana, psicóloga, Camila Dias, advogada, e a Luísa Marques, professora.
20:07Obrigado, gente, pela participação de vocês.
20:10Que todos possam curtir o Carnaval com tranquilidade, com paz, com folia, sem assédio,
20:17sem aquelas piadas de tiozão.
20:19Ninguém merece, né, Luísa?
20:22Chega.
20:22Ninguém merece.
20:23Chega disso, tá?
20:24Não é não e bora curtir sem assédio, sem ultrapassar o limite, a barreira do próximo.
20:29Obrigado, pessoal.