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00:07Olá, bem-vindas e bem-vindos ao Ponto de Vista.
00:11Hoje vamos falar da saúde dos brasileiros com 60 anos ou mais.
00:17Quase 75% dos brasileiros nesse grupo acessam a internet e fazem uso do celular, de acordo com o IBGE.
00:26Mas ao mesmo tempo, é a partir dessa idade que as pessoas começam a sentir o impacto da perda de
00:33memória.
00:33Em que momento elas devem começar a se preocupar?
00:37Qual a importância da alimentação e das atividades físicas nessa faixa etária?
00:43Para falar sobre tudo isso, eu recebo hoje no Ponto de Vista a médica geriatra, Andréa Figueiredo.
00:50Doutora Andréa, seja muito bem-vinda e obrigado por estar aqui hoje com a gente.
00:54É um prazer estar aqui, Fernando, um prazer aqui aos telespectadores que estão nos escutando também para esse tema tão
01:01essencial nos dias atuais.
01:03Em que momento, doutora, em que momento a pessoa percebe que está perdendo a memória,
01:11ela já deve se preocupar nesse primeiro momento de imediato ou ela pode deixar para se preocupar mais à frente?
01:20Primeiramente, quando a gente vai falar sobre memória, é normal a gente ter alguns esquecimentos em todas as idades.
01:28Isso não é somente do envelhecimento.
01:30Por exemplo, vou dar um exemplo bem prático.
01:33A gente, às vezes, quando vai para a cozinha pegar água, por exemplo, você foi lá e esqueceu de pegar
01:38o objeto.
01:39O que é que você faz?
01:41Volta no cômodo anterior para poder pegar o que você queria.
01:44Isso é natural.
01:46Quando acontece de ter esquecimento de forma recorrente que atrapalhe no dia a dia, por exemplo,
01:54esquecer de pagar conta, esquecer compromissos importantes, datas de aniversário, que seja recorrente,
02:01que eu sei que tem homem que esquece aniversário de casamento da mulher, que não pode esquecer,
02:06mas quando isso atrapalha o dia a dia, a gente deve, sim, se preocupar.
02:11A gente tem visto cada vez mais as pessoas usando telas de celular, telas no tablet, no notebook, até nas
02:21smart TVs, né?
02:22Isso, esse uso excessivo de telas, pode contribuir para a perda da memória da gente?
02:28O uso excessivo de telas vai impactar principalmente na questão da atenção.
02:34É igual a gente quando vai assistir uma aula, por exemplo.
02:37Se eu estiver usando o celular, eu não vou aprender o que foi dito numa aula.
02:42Portanto, a tela atrapalha a capacidade de concentração, de atenção, mas não vai ser uma perda progressiva de memória.
02:51Ele vai interferir no teu dia a dia à medida que, por exemplo, se eu estou usando uma tela, se
02:57eu estou usando um celular,
02:58eu não estou prestando atenção no que estão me falando, eu não estou aprendendo uma coisa nova.
03:03Mas não necessariamente é algo que é um prejuízo cerebral específico que eu devo preocupar.
03:10Mas a gente tem que ter o uso moderado de telas.
03:13A gente sabe que a tela veio para poder nos ajudar de diversas formas,
03:17porém, ela também é prejudicial à medida que a gente só usa a tela.
03:21E a gente tem um fator, Fernando, também muito importante, é que a tela faz com que a gente diminua
03:28esse esforço mental.
03:30Por exemplo, quando a gente vai consumir o celular e vai vendo aqueles vídeos repetidamente,
03:37eu não estou gastando muito o meu cérebro para poder utilizar esse tipo de conteúdo.
03:43E aí acaba que o meu cérebro deixa de ter um estímulo, como a leitura, como aprender um idioma novo,
03:49aprender algo novo também.
03:51Isso tudo faz com que o cérebro tenha menos estímulo também.
03:56Quando a pessoa percebe que a memória está falhando, ela deve procurar logo o médico?
04:00Ou deve primeiro se autoanalisar, ver se realmente está acontecendo muito?
04:06Qual deve ser o comportamento?
04:08A perda de memória, você deve se preocupar, já quando ela é recorrente.
04:13Muitas pessoas encaram a perda de memória como algo normal da idade.
04:17Porém, não é normal.
04:19Vou dar um exemplo.
04:20Uma pessoa de 65 anos e outra de 65, elas podem ter memórias diferentes,
04:28mas a perda não é normal dos 65 anos.
04:31O que é normal com envelhecimento?
04:33Ter ruga, ter cabelo branco, mas perder memória?
04:37Não.
04:37Com 78 anos, é possível ter memória boa?
04:40Sim.
04:41E aí são pessoas diferentes.
04:44Quando que eu devo me preocupar?
04:46A partir do primeiro momento em que está interferindo no dia a dia,
04:50que esse esquecimento é frequente, que ele é recorrente,
04:53que, por exemplo, eu estou esquecendo de pagar contas, compromissos, medicações,
05:00e até mesmo de informações que eram do meu dia a dia.
05:05Esquecer o que é que eu fiz ontem, isso é importante.
05:09Mas, não negligenciar.
05:12A principal medida que eu quero dizer aqui para as pessoas que estão nos ouvindo,
05:16é que muitas pessoas dizem, é normal da idade, mas não é normal da idade.
05:21Não é normal esquecer.
05:23A gente sabe que o envelhecimento é um fator de risco para isso,
05:28ou seja, quanto mais velho, mais a chance de você ter problemas de memória.
05:33Para você ter uma ideia, acima dos 80 anos, um terço pode ter problemas de memória.
05:39Acima dos 90, cerca de 40% a 45% pode ter problemas de memória.
05:45Só que não é normal da idade.
05:48Procure ajuda.
05:49Há o primeiro passo que você entende que você está esquecendo e que está interferindo no seu dia a dia.
05:55Algumas pessoas, doutora, recorrem a suplementos, né?
05:58Ômega 3, hoje se fala muito, né?
06:01Esses suplementos, eles podem ajudar de fato ou isso é mais um mito?
06:06A indústria farmacêutica, de uma forma geral, as propagandas,
06:10elas querem trazer essa esperança para as pessoas.
06:14Porque a gente quer ter esperança, quando a gente envelhece, de não ter problemas de saúde.
06:18Eu também sou uma dessas pessoas.
06:20Eu sou defensora de que a gente tenha a prevenção de doenças.
06:24Eu não sou defensora daquelas pessoas, porque tem gente que diz assim,
06:28ah, o médico quer que a gente fique doente para procurar ele.
06:30De jeito nenhum.
06:32O médico não tem, o médico ético, o médico sério, não quer que o paciente adoeça.
06:37Tanto é que a gente trabalha muito com a medicina da prevenção.
06:41Ou seja, não procurar ajuda somente quando está doente.
06:45A gente trabalhar com a prevenção.
06:47Só que, atenção telespectadores, presta atenção, não faz automedicação.
06:52É super importante.
06:54Você acha que o suplemento é inofensivo, mas ele pode trazer consequências.
06:59Ômega 3, por exemplo, ele não tem benefício na prevenção de memória.
07:04Isso é comprovado cientificamente, a cápsula em si.
07:08Mas você pode ter alimentos que contêm ômega 3, que podem ajudar a gente ter uma memória melhor, um envelhecimento
07:17mais saudável.
07:18O ponto é, a cápsula de ômega 3, no Brasil, a maioria delas tem um tipo de óleo que vai
07:27piorar o colesterol.
07:29Que pode piorar.
07:31Porque não é o óleo puro que a gente fala que é o EPA, que é um composto de ômega
07:373 que é mais puro.
07:38Ele tem uma outra fração que não é tão pura assim e que pode trazer outros prejuízos.
07:45Não estou dizendo uma cápsula, mas várias que você vai tomando ao longo da vida pode ter o prejuízo.
07:51Portanto, se tivesse uma solução milagrosa para eu ficar sentado no sofá e tomando remédio,
07:57eu seria a primeira a dizer e a pessoa, com certeza, estaria aí ganhando muito dinheiro com o pessoal tomando.
08:05Qual deve ser, doutora, o papel da família quando percebe alguém da família que está com uma perda de memória
08:14ou falhas de memória mais frequentes?
08:17Qual deve ser o comportamento da família?
08:19A gente tem duas situações, Fernando.
08:22Tem uma situação mais precoce em que o paciente está identificando os primeiros sinais de perda de memória
08:29e que ele tem medo de um diagnóstico.
08:34Ele tem uma resistência, principalmente por parte dos homens que eu vejo dentro do meu consultório.
08:39As mulheres ainda tendem a procurar mais ajuda.
08:43Esse paciente que tem um medo, a família vai esclarecer e vai trazer essa segurança de que vai procurar um
08:51médico de confiança
08:52para poder ajudar a prevenir o quanto antes, a detectar precocemente.
08:58Então, esse paciente que está com medo, é muito comum o medo do diagnóstico,
09:02a família está junto, no papel de apoio, no papel de efetivamente cuidar, sem querer impor.
09:10Porque uma das coisas que a gente vê a família é querer tirar a autonomia do idoso.
09:16Não pode isso, não pode aquilo, não pode comer.
09:19E fica aquela cobrança.
09:22Uma pessoa com 70 anos de idade, que tem uma independência e alguém vai querer tirar, não é justo.
09:29Ou seja, a gente não é do tipo de proibir, mas a gente é do tipo assim, de dizer,
09:35até onde ele pode, que eu consiga fazer com a supervisão.
09:39Por exemplo, lavou um prato, não está muito bem lavado, não fala nada.
09:44Vai lá e lava e faz o restante.
09:48Mas deixa ele se sentir útil.
09:50A partir do momento que a pessoa deixa de se sentir útil,
09:53ela vai perdendo um propósito de vida.
09:56E o propósito de vida é o que nos traz o sentido, é o que nos dá longevidade.
10:04Tem estudos científicos longevos, mais de 100 anos, que eles chamam de Ikigai,
10:12que é o propósito dos orientais.
10:14E é justamente esse sentimento de utilidade.
10:18Portanto, uma pessoa na fase leve, é esse o cenário com a família,
10:22para buscar ajuda, para poder ser apoio nesse momento.
10:27E na fase avançada, não ficar combatendo esse idoso.
10:32Dizendo que ele está fazendo de propósito, dizendo que ele é teimoso,
10:37dizendo que ele não quer e fica aquela guerra dentro de casa.
10:41Isso é horrível.
10:42A gente sabe também, doutora, que as telas em excesso,
10:46elas têm diminuído a nossa capacidade de concentração, de foco, digamos.
10:54E isso independe, às vezes, da idade.
10:58A pessoa hoje, qualquer uma, de qualquer idade,
11:00passa horas, às vezes, rolando a tela ali do celular no Instagram,
11:06mas se pega alguma coisa para ler,
11:08não consegue parar por 10 minutos para ler nada.
11:12Isso é geral.
11:13Precisa, essa dificuldade precisa ser enfrentada também,
11:17de concentração das pessoas hoje?
11:20Precisa e precisa tomar muito cuidado com o uso excessivo de telas.
11:24Porque a gente tem uma informação muito rápida,
11:28pouca informação e uma velocidade muito mais rápida,
11:32às vezes, do que o nosso cérebro, ele processa.
11:36Então, o que é que acontece?
11:37Quando eu olho várias informações ao mesmo tempo,
11:40o nosso cérebro vai diminuindo o treinamento para se concentrar.
11:46Eu não preciso me concentrar para assistir 10 vídeos de Instagram,
11:50mas eu preciso me concentrar para ler 10 páginas de um livro.
11:56E esse treinamento, o cérebro, imagina o cérebro como sendo um músculo,
12:01para ficar bem fácil para os telespectadores.
12:03Se eu não faço um treinamento desse cérebro para poder fazer atividades que vão exigir um esforço,
12:11ou seja, uma leitura, fazer um aprendizado novo,
12:16esse cérebro vai diminuindo essa capacidade de concentração.
12:22Por outro lado, se eu fico lá só com telas, ele vai ficar só nesse estímulo.
12:28A gente fala muito, hoje em dia, eu também ensino médicos,
12:31que a capacidade de atenção diminuiu.
12:34Hoje, ninguém quer parar uma hora para poder assistir uma aula.
12:38A pessoa está aqui na televisão, muitos podem estar nos escutando e no celular ao mesmo tempo.
12:45Verdade.
12:46O ser humano não quer parar.
12:48É um ciclo inteiro de trabalho, de manhã, de tarde e de noite.
12:53Esse uso excessivo de telas, doutora, à medida que a gente usa mais as telas,
12:58a gente pode ter problemas também, isso pode prejudicar também o sono da pessoa?
13:05Com certeza, em todo absoluto, quando a gente vai avaliar,
13:10porque são dois problemas que a tela pode trazer com o sono.
13:13Um deles é a questão da iluminação, que atrapalha a produção de um hormônio chamado melatonina,
13:20que é responsável por fazer com que a gente durma naturalmente.
13:24E o outro problema é, à medida que a gente vai consumindo conteúdo rápido,
13:29existe a liberação de uma substância cerebral chamada dopamina,
13:32que é uma substância responsável pela sensação de prazer, de estímulo.
13:37Quanto mais dopamina, mais eu fico aceso e eu não consigo desligar para poder dormir.
13:45Portanto, o uso excessivo de telas, o que eu recomendo para a população,
13:50para os meus pacientes também, é que pelo menos uma a duas horas antes de dormir,
13:55que já desligue a tela.
13:57Mesmo que seja no modo noturno, o que for, é um estímulo,
14:03e a gente precisa treinar o nosso cérebro para não ficar com esse estímulo o tempo inteiro.
14:08A gente precisa desligar também, né?
14:10É necessário.
14:12Eu vou te falar uma coisa, Fernando.
14:14É comprovado que o sono faz uma limpeza de toxinas que são produzidas no cérebro ao longo do dia.
14:21E se a gente não tem um sono adequado?
14:24Sono adequado não significa somente dormir sete horas, não.
14:28Significa dormir e relaxar efetivamente.
14:31Se a gente não tem um sono adequado, isso vai trazer um prejuízo para a memória também.
14:36Porque não está tendo a limpeza dessas toxinas que a gente adquire ao longo do dia.
14:41Imagina como se fosse uma fábrica.
14:44Se você não faz uma manutenção, que é o sono,
14:47essa fábrica pode ter prejuízos.
14:51E o cérebro é uma máquina fantástica.
14:54A gente precisa cuidar dela.
14:57Muito bem, doutora.
14:57A gente vai fazer um rápido intervalo.
14:59Você que está acompanhando, não saia daí.
15:01A gente volta já, já.
15:18O Ponto de Vista está de volta.
15:21Hoje eu estou recebendo aqui a médica geriatra Andréa Figueiredo.
15:26Doutora Andréa, vamos continuar a nossa conversa?
15:29Eu li que o uso excessivo do celular pode também aumentar o isolamento social das pessoas.
15:36Eu disse eu li, mas a gente não precisa ler para perceber isso.
15:40Que as pessoas, quanto mais tempo elas ficam conectadas ali no celular,
15:44mais elas deixam de interagir com quem está ali, às vezes, muito próximo delas.
15:50Você está em casa com sua família, mas está no celular
15:53e não presta muita atenção a quem está do seu lado.
15:57Isso é um fato que acontece não só com os 60+.
16:01Acontece com qualquer pessoa hoje.
16:04É, isso é um fato que a gente precisa trazer uma observação importante,
16:08porque o isolamento social é um dos fatores de risco
16:12para a gente poder desenvolver problemas de memória,
16:15também depressão,
16:17e predispor esse idoso também a diminuir esse senso de pertencimento.
16:23O senso de pertencimento, de utilidade, de comunidade é o que nos move.
16:29Nós, seres humanos, nós somos pessoas que têm necessidade de contato,
16:34de visual, de físico, isso é super importante.
16:38E o celular, ele realmente, ele faz com que a pessoa entre naquele fluxo
16:44de uma rotina de estar lá e não sair.
16:46A pessoa passa horas lá na tela e não percebe.
16:50De uma forma muito mais viciante,
16:53porque você está lá o tempo todo e não tem uma pausa.
16:57As redes parecem que são formadas
17:00para que as pessoas continuem mais tempo lá dentro
17:03e dando aqueles estímulos,
17:05e a pessoa fica com aquela necessidade
17:08de se sentir aceito,
17:11de querer ter uma validação.
17:13No seu consultório, a senhora recebe, às vezes,
17:16pacientes que reconhecem isso,
17:18admitem que estão passando muito tempo no celular
17:21e estão deixando de interagir com a família ou com os amigos?
17:26Pouquíssimos têm essa percepção
17:28do quanto que isso pode trazer prejuízo.
17:30Quando a gente faz uma conversa com um paciente
17:33e que a gente já detecta alguns sinais de isolamento,
17:37de depressão, ansiedade e perda de memória,
17:39e a gente vai fazer, como que está a sua rotina?
17:43E eles dizem, olha, eu faço isso de manhã, de tarde e noite,
17:46mas, às vezes, eles não querem mudar,
17:49porque eles não percebem que isso faz tanto mal.
17:52Então, eu uso alguns recursos
17:55dentro da minha entrevista, digamos assim,
17:59para que traga a consciência do paciente
18:01e lhe perceba o quanto que isso está prejudicando.
18:04A gente não consegue mudar do dia para a noite,
18:06porque o cérebro, ele instala esse hábito
18:09e a gente precisa fazer mudanças graduais,
18:12porque senão vai criar uma resistência
18:15e esse paciente, ele não vai aderir.
18:17É igual a gente quando vai fazer uma mudança de estilo de vida.
18:21Não adianta eu dizer que vai fazer dieta, exercício,
18:24que você vai meditar,
18:26que você vai diminuir a tela ao mesmo tempo,
18:28porque o cérebro, ele quer economizar esforço.
18:31Nosso cérebro é para nos proteger do perigo
18:34e para economizar esforço.
18:36Se eu faço um esforço muito grande,
18:39não dá jeito.
18:41Eu preciso fazer combinados com esse paciente.
18:44Entender algumas mudanças.
18:47Dizer, seu fulano,
18:49de manhã cedo,
18:51o senhor consegue pelo menos 30 minutos
18:53não pegar o celular quando acorda?
18:55E a gente vai fazendo alguns combinados.
18:58No começo, dá muito desconforto,
19:01porque é mudar um hábito.
19:03E eu costumo dizer,
19:04troca esse hábito por outro.
19:06Por exemplo, em vez de pegar o celular,
19:09aí a gente vai e coloca,
19:10bota a roupa de academia e bota do teu lado
19:13para você já se vestir e já fazer isso.
19:15Então, a gente vai fazendo alguns combinados
19:17que do ponto de vista comportamental
19:19funcionam super bem.
19:20Não é fácil.
19:21O uso excessivo de telas
19:23pode levar também a pessoa à depressão ou não?
19:25Com certeza.
19:26Por quê?
19:27Quando a gente tem a substância
19:29que é a dopamina,
19:31que a gente vai liberando
19:32à medida que a gente vai vendo vídeos,
19:34é como se fosse, digamos assim,
19:37uma substância que vai trazer prazer para você.
19:39E cada vez mais você vai estar precisando disso.
19:43Só que ela não vai ser suficiente.
19:45E você vai sentir cada vez mais vontade.
19:47Você pode sentir aquele vazio.
19:49Você pode sentir um sentimento de solidão.
19:52o sentimento de que outras pessoas estão melhores do que você nessa vida.
19:58E essa comparação pode fazer mal para a pessoa.
20:01Tanto pelo isolamento que a tela pode dar,
20:05quanto também por essa percepção,
20:07aquele ditado,
20:08a grama do vizinho é melhor do que a nossa,
20:11é muito real quando a gente vai olhar em termos de rede social.
20:14Porque é tudo muito perfeito,
20:16tudo muito bonito.
20:17E as pessoas às vezes se iludem
20:19achando que não existe a luta do dia a dia.
20:23Que está todo mundo bem.
20:25Mas na realidade não é assim.
20:27Por outro lado, doutor,
20:28a tecnologia também tem um lado positivo.
20:30Ela aproxima também as pessoas.
20:32Pode pelo menos aproximar.
20:34É o avô que se comunica mais com o neto pelo celular,
20:38que antes, sei lá,
20:40talvez ele não se comunicasse tanto.
20:41E agora ele tem mais a facilidade de localizar,
20:46perguntar alguma coisa para o neto,
20:48ou a avó para a neta,
20:49ou para o neto também.
20:50Enfim,
20:52esse lado positivo também precisaria ser valorizado.
20:55É você fazer o bom uso, digamos, do celular.
20:59Com certeza.
21:00A tecnologia é um caminho sem volta.
21:03E é um caminho muito bom.
21:05A gente não deve ficar contra ao novo que chegou.
21:08Mas a gente utilizar esse recurso da melhor maneira
21:12para que a gente possa nos beneficiar.
21:14Por exemplo, na época da pandemia,
21:17foi um recurso muito importante
21:19para a gente poder falar com familiares,
21:22até pacientes que estavam internados em hospitais,
21:25que queriam falar com seus familiares,
21:27que estavam se sentindo sozinhos,
21:29porque o contato social diminuiu drasticamente na pandemia.
21:34Tanto é que depois da pandemia,
21:36com esse isolamento,
21:37o índice de ansiedade e depressão aumentou muito.
21:40Porque a gente foi forçado a se isolar.
21:44Portanto, a tecnologia é maravilhosa.
21:48A gente pode aprender coisas novas,
21:51a gente pode ter acesso a informações muito mais rápido.
21:54A gente tem recursos também do ponto de vista médico,
21:57que a tecnologia nos proporciona.
22:00Eu atendo pacientes, por exemplo,
22:02para outros estados,
22:03e consigo ajudar muitas pessoas
22:05que não conseguem ter acesso a um geriatra.
22:08Para você ter ideia,
22:10existe um geriatra para cada 12 mil idosos no Brasil,
22:14quando recomendado pela Organização Mundial de Saúde,
22:18é um para cada mil idosos.
22:20Não vai ter geriatra para todo mundo.
22:22E o número de idosos cada vez mais aumenta.
22:26Portanto, a tela, o recurso tecnológico,
22:29ela é favorável.
22:31Mas, como todo recurso,
22:33a gente não pode nem usar demais,
22:35nem ficar, se abster e não utilizar de jeito nenhum.
22:39A senhora falou aí de aprender coisas novas, né?
22:41É um uso que pode ser muito bem aproveitado,
22:45se a pessoa souber usar, né?
22:47Você pode aprender um novo idioma,
22:49pode aprender a usar um aplicativo
22:52que possa ser útil na sua vida.
22:55Antes da gente vir para cá,
22:56você me falava, inclusive,
22:58de algum aplicativo que lembre a hora
23:01de você tomar o remédio, por exemplo, né?
23:03Então, é saber fazer o uso correto
23:07da tecnologia e até o uso para aprender, né?
23:10Por exemplo,
23:11hoje a gente vê aplicativos que corrigem a pronúncia
23:14de um idioma que você esteja aprendendo.
23:17Tudo isso pode ser usado.
23:18É, a tecnologia, ela é uma aliada da gente,
23:21inclusive, para pacientes idosos.
23:23A gente vê aplicativos que lembram
23:25para o paciente idoso tomar água,
23:28que a maioria tem uma resistência muito grande
23:30a tomar água.
23:31Se eu for te dizer, acho que 80% dos pacientes
23:33que eu atendo não gostam de tomar água.
23:36Tem também o recurso de lembrar das medicações,
23:38de ter novos recursos para aprendizado,
23:41até mesmo atividades manuais,
23:44que eles podem aprender com esse recurso à distância.
23:47A gente vê recurso para crochê,
23:50para pintura, para novos estímulos.
23:53Até mesmo dança,
23:55você pode colocar lá dentro de uma televisão,
23:58em uma rede social e você aprender a dançar.
24:02Claro que é legal você ir para uma dança de salão,
24:06com contato com outras pessoas,
24:07mas as pessoas que às vezes não têm como,
24:09porque depende do filho,
24:11depende de alguém para poder estar levando.
24:13portanto, utilizar o recurso para você continuar com independência
24:20e você continuar aprendendo, isso é fantástico.
24:23Qual a importância das pessoas não perderem o interesse
24:27por aprender coisas novas?
24:28A importância são duas principais.
24:32O primeiro é o seguinte,
24:33quando a gente vai ver de interesse em aprender coisas novas,
24:36é que o cérebro precisa estar sempre em estímulo constante.
24:39Porque se eu não tenho estímulo,
24:41ele vai entender aquela lei do uso e do desuso.
24:45Se eu estou usando, ele é importante, ele é necessário,
24:49eu vou continuar trabalhando.
24:51Agora, se eu não uso esse cérebro,
24:53a chance de eu diminuir o estímulo
24:56e ter problemas de memória aumenta.
24:59E outro ponto muito importante para a gente continuar tendo estímulo,
25:03é porque a gente precisa ter sentido para poder viver.
25:06Se a gente perde a vontade de aprender,
25:10muitas vezes, às vezes, a gente está perdendo até mesmo
25:12o sentido de estar aqui.
25:14E esse sentido, ele é o que move o ser humano.
25:19O ser humano, quando ele para de aprender,
25:22ele, às vezes, vai dizer, o que é que eu vou fazer agora?
25:24Ficar só na mesma vida?
25:26E muita gente, a partir de uma certa idade,
25:29começa a achar que não tem mais o que aprender,
25:32já aprendeu o que tinha que aprender,
25:34não tem mais idade para aprender.
25:36O que dizer para essas pessoas?
25:39É fato que ela não vai conseguir mais aprender
25:41ou ela ainda pode aprender algumas coisas?
25:44Toda idade você pode aprender uma coisa nova.
25:47E sempre se desafiar nesse sentido é super importante,
25:52porque você vai trazendo novos estímulos para o seu cérebro.
25:56Não tem idade limite para aprender.
25:59Você, eu vou dar um exemplo,
26:01eu tenho uma minha avó, ela tem 99 anos.
26:04E ela tem o hábito de todos os dias ler a Bíblia.
26:08É um hábito dela, que ela já tem de muitos anos.
26:13Portanto, pode ser uma coisa simples,
26:15de você estar lá, de você estar lendo,
26:18uma coisa que não precisa ser 10 páginas, 20 páginas,
26:21para você buscar um aprendizado novo,
26:23o aprendizado intergerações, netos, filhos,
26:28tudo isso faz com que a gente tenha esse sentido
26:32e o cérebro seja estimulado.
26:34Manter o interesse pelas coisas,
26:36eu acho que é fundamental para quem pensa em ter uma vida longeva,
26:41em ficar um idoso, velhinho,
26:44mas participando das coisas da vida.
26:47A gente vê, tem vários estudos com países que têm centenários,
26:52que a gente chama que é Blue Zones.
26:54Eles denominaram Blue Zones dentro desses países,
26:57porque são os países onde a gente viu
26:59umas pessoas com uns hábitos diferentes.
27:02Além de hábito de vida, que a gente fala de se manter ativo,
27:06de ter uma alimentação saudável,
27:08eles chamam no Oriente de Ikigai.
27:12Ikigai é o que dá sentido para a gente viver.
27:15E esse Ikigai, cada um vai ter o seu,
27:19cada um vai ter o seu legado,
27:21o seu propósito de vida.
27:23E ninguém vai trazer a vontade se o outro não tem.
27:28Então é igual a fome com a vontade de comer.
27:30Eu não vou dar a vontade de comer para quem não tem.
27:33Mas isso é super importante.
27:35O que é que te movimenta?
27:37O que é que te traz brilho no olho?
27:39O que é que te faz estar aqui?
27:41Qual é o legado que você quer deixar para a vida,
27:44para as pessoas, para os seus descendentes?
27:46Isso é um caminho que a gente...
27:50É individual.
27:51Cada um tem o seu.
27:53Muito bem.
27:54Doutora Andréa Figueiredo, nosso tempo acabou.
27:57Eu agradeço demais a entrevista.
27:59Foi muito bom, esclarecedor saber que as pessoas
28:03podem tratar melhor a própria memória, né?
28:06Treinar a memória, digamos.
28:09Eu que agradeço, agradeço aí os telespectadores.
28:12Eu espero que vocês fiquem com a mensagem
28:15e o aprendizado para levar para a vida de vocês,
28:18que tenha sido útil.
28:19Muito obrigada.
28:20Foi muito útil, sim.
28:21Obrigado de novo.
28:23E a você que acompanhou até aqui também,
28:25obrigado pela companhia e audiência.
28:27A gente volta na semana que vem.
28:30A gente volta na semana que vem.