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00:08Olá, estamos dando início a mais um ponto de vista. Hoje nossa pauta é literatura. Eu vou conversar com
00:16músico, compositor, produtor cultural, designer gráfico e escritor DJ Dolores, que está concorrendo
00:24ao prêmio Jabuti deste ano na categoria Crônicas. DJ Dolores, muito obrigado por ter aceitado
00:31o nosso convite e seja muito bem-vindo ao Ponto de Vista. Obrigado, Fernando.
00:36Eu queria saber, começar essa entrevista, o resultado dos vencedores do Jabuti de literatura
00:44vai sair já na terça-feira, dia 27. Você concorre com Lugares para Chorar no Recife,
00:51mostro logo aqui o livro Lugares para Chorar no Recife e outros. E esta semana você já
00:56ganhou um prêmio, o prêmio João do Rio, da Biblioteca Nacional, também na categoria Crônicas.
01:03Como foi para você receber a notícia desse prêmio e como é que está sendo a expectativa
01:09para terça-feira, quando vai sair o resultado do Jabuti?
01:13Pois é, na última terça saiu o resultado da Biblioteca Nacional. Foi uma coincidência
01:19interessante, porque eu sou um escritor estreante, mas seja breve, é uma editora super nova.
01:26E essa categoria também é nova, essa categoria Crônicas, em homenagem a João do Rio,
01:33que eu admiro bastante.
01:35Então foi uma...
01:36Mas a categoria Crônicas em homenagem a João do Rio é da Biblioteca Nacional.
01:40Da Biblioteca Nacional, que aconteceu na última terça.
01:42Mas tem a categoria Crônicas do Jabuti também.
01:45E aí foram diferentes competidores, mas eu achei engraçado que o da Biblioteca Nacional
01:52foi justamente uma série de novidades em confluência.
02:00Você está vivendo essa expectativa, você me disse que terça-feira vai estar lá em São Paulo
02:07para o evento que vai anunciar os vencedores do Jabuti.
02:14Você é um escritor, é o primeiro livro seu, e já finalista de grandes prêmios,
02:20o prêmio da Biblioteca Nacional já como vencedor, finalista do Jabuti.
02:25Como é que você está vivendo esse momento literário do DJ Dolores?
02:32Rapaz, eu virei músico um pouco por causa de Cléber Medon, você sabia?
02:37Ah, foi?
02:37Porque eu estava fazendo umas músicas bem experimentais ali na década de 90,
02:41e ele estava fazendo o primeiro filme dele, muito antes do Som Arredor.
02:47É um filme chamado Exaulado.
02:50Aí ele usou aquelas músicas no filme dele e lançou um CD.
02:53Esse CD, por algum acaso, por mais doidão que fossem as músicas,
02:58circulou nas mãos certas, e eu comecei a ser requisitado
03:01para tocar como DJ e para fazer trilha sonora.
03:05E daí eu me vi, de repente, músico profissional.
03:08Meu trabalho era roteirista, diretor de documentário para a TV e tal.
03:13E agora foi o Cadão Volpato, o editor da Seja Breve.
03:17Cadão Volpato também é músico, vocês devem conhecê-lo através do Celline,
03:22jornalista da cultura, do Metrópole.
03:25Ele insistiu muito para fazer esse livro.
03:27Eu não tinha muita fé assim.
03:29Você se tornou músico por acaso e escritor por acaso.
03:34Por acaso também.
03:35Há um ano, a gente lançou na Flip,
03:38e aí o Cadão Volpato e Meia falava,
03:40e agora, você acredita que você é escritor?
03:45Eu soube, inclusive, que você nem sabia que o livro estava concorrendo.
03:49Nem a Biblioteca Nacional, nem ao Jabuti.
03:52Nem ao Jabuti, imagina.
03:53E como foi que você soube?
03:55Quem te avisou que você estava concorrendo?
03:57Um amigo, outro editor, descobre, né?
04:01Aí, de a pouco, você vê seus apps cheios de parabenizações.
04:05Engraçado.
04:05Quem te avisou do Jabuti?
04:07Foi o Cadão?
04:08Foi a própria editora.
04:10A própria editora.
04:12Aí, você está concorrendo ao Jabuti.
04:15Não só concorrendo, mas já era finalista, né?
04:17Já era semifinalista e agora finalista, né?
04:20Na semifinal tem 10 pessoas, na final 5.
04:23Foi uma surpresa para você, assim, quando soube dessa notícia.
04:27Como é que você recebeu essa notícia?
04:31Como eu te disse, cara, é um projeto muito espretensioso.
04:36De uma livraria que está nascendo.
04:38Uma editora.
04:39De uma editora que está nascendo.
04:40De uma livraria, não.
04:40De uma editora que está nascendo.
04:42E de um escritor relutante.
04:47E aí, o pessoal falou, ó, você está concorrendo ao Jabuti.
04:51Você ficou achando que era brincadeira?
04:54Como é que foi?
04:55Não, veio o print, né?
04:56Hoje em dia é tudo printado, né?
04:58Sim, sim.
04:59Você tem pouca imagem para dúvida.
05:01Quando é um amigo seu, manda coisa, né?
05:03Você já é muito conhecido no meio cultural, né?
05:07Sobretudo na cena musical, como DJ, como produtor, como compositor.
05:13Mas desde que no ano passado, você nos brinda com esse livro de crônicas, né?
05:19Você já escrevia?
05:20Como foi que surgiu esse Lugares para Chorar no Recife?
05:26O Lugares para Chorar no Recife era um projeto que eu já estava fazendo no Facebook.
05:31Para mim, era como se fosse um guia, uma espécie de guia do Recife.
05:35Só que um guia, onde o ponto de vista está em um lugar meio pouco usual, né?
05:43Que é alguém procurando um lugar cegado para chorar, tá?
05:48Como foi que...
05:50Por que esse título, Lugares para Chorar no Recife?
05:53Como foi que surgiu essa ideia de destacar alguns lugares que seriam bons para, sei lá, desafogar as mágoas?
06:01Por que seria um guia turístico, né?
06:06O Gilberto Freire não escreveu...
06:10Assombrações do Recife velho...
06:11Não, não, mas tem o...
06:13Ah, o guia, sim.
06:14O guia afetivo, né?
06:15O guia afetivo do Recife, de Olinda também que escreveu, né?
06:20E, para mim, é mais uma coisa que eu dou de volta ao Recife,
06:25porque eu cheguei aqui aos 18 anos e fui tão bem acolhido aqui na cidade.
06:31A maior parte da minha vida eu vivi aqui no Recife.
06:34E é impressionante como...
06:37É uma cidade que ainda me surpreende.
06:39Veja, eu cheguei com 18 anos sozinho, sem família.
06:44Eu frequentei todos os lugares que eu quis aqui na cidade.
06:48Eu conheci tudo na cidade.
06:48Pois é, muita gente pensa que você é pernambucano, né, Dolores?
06:51E, no entanto, você é segipano.
06:53Segipano, é.
06:53De que cidade?
06:55Propriar.
06:55Propriar, é.
06:57E, então, eu conheço muito bem o Recife.
07:01Mas, ainda assim, eu saio, às vezes, e olho e fico encantado
07:06em descobrir mais um pedacinho ou dar um significado para algum lugar da cidade.
07:12Agora, antes do Recife, você passou por Aracaju, né?
07:15Passei por Aracaju.
07:16Saiu de Propriar para Aracaju e chegou ao Recife, você acabou de dizer, aí, com 18 anos.
07:21Esse jovem de 18 anos que chegava ao Recife, chegava ao Recife pensando em quê, em fazer o quê?
07:27O que é que você queria da vida?
07:30Queria a liberdade que os jovens de 18 anos querem, né?
07:36E, de fato, eu tive sorte porque encontrei, assim, os meus primeiros amigos, sei lá, já foram o Renato L,
07:4304, depois chegou o Chico, o Chico Sainz.
07:47Então, os meus primeiros amigos já eram essa galera que se tornaria unida por muitos anos, né?
07:52A música também ligando.
07:54A música ligando.
07:55A música, literatura, quadrinhos, cinema.
07:58Porque a gente se conheceu na década de 80, quando você não tinha ainda um fluxo tão grande de oferta,
08:06como se tem oferta de produtos culturais, né?
08:08Livros, discos, essas coisas.
08:10Então, a gente se apegava ali, se juntava, todo mundo trazia seu disquinho, seu livrinho, e aí a gente já
08:16tinha a nossa biblioteca, já tinha uma discoteca razoável para ouvir entre os amigos.
08:21Aqui no livro, Dolores, além do Recife, né?
08:26O título, Lugares para chorar no Recife, mas além do Recife, você fala de outros lugares também, né?
08:31Qual foi a ideia, assim, como você juntou esses textos para que formasse um livro único?
08:38Tem um fio condutor nessas histórias, que não são histórias, né?
08:42São crônicas do que você narra.
08:45Tem um fio condutor entre elas?
08:46Por exemplo, você fala do Recife, mas fala de outras cidades, outros lugares, até no exterior, né?
08:52Mas tem alguma coisa que liga uma história com a outra ou não?
08:57O lugar para chorar no Recife é sempre um... funciona como as crônicas.
09:04Tem esse título, elas funcionam como um fio condutor.
09:08É porque são algumas crônicas que têm esse título, né?
09:11Não é uma crônica só.
09:13Eu estava olhando aqui no índice, inclusive, lugares para chorar no Recife.
09:17Aí tem a Avenida Caxangá, o Parque 13 de Maio, o Mercado da Boa Vista, né?
09:23Esses aí têm uma ligação entre eles.
09:26É, e entre cada uma dessas crônicas tem outras.
09:30Ninguém fala sobre Moscou, sei lá, sobre cidades...
09:37Eu queria dizer tanto, tanto...
09:39Mas não necessariamente como lugares para chorar.
09:42Não, não necessariamente.
09:44Mas eu acho que leva um ponto de vista daqui do Recife, né?
09:49Porque eu tendo a comparar todas as cidades com o Recife.
09:53Estava te falando que eu cheguei em Macau, no centro antigo da cidade,
09:58e eu olhei e fiquei assim meio fora da realidade, suspenso na realidade,
10:03porque eu olhava para aquela rua e dizia, cara, isso é Recife, cara, isso é a Rua Velha.
10:06É, porque Macau, para quem não sabe, Macau fica na China,
10:10mas foi colonizado por portugueses.
10:13Então tem aquela arquitetura que a gente conhece bem, né?
10:17A arquitetura colonial brasileira, que era a mesma, mais ou menos, de Macau.
10:21E aquelas placas nas ruas, em português,
10:24com o tipo de nome de rua que tem aqui, que teria aqui no Recife.
10:28A Rua da Tristeza.
10:32O menino Hélder, eu não falei ainda, mas o nome de J. Dolores,
10:38o nome de nascimento dele é Hélder Aragão, né?
10:42Isso.
10:42O menino Hélder lia o quê quando ainda estava em própria A?
10:47Rapaz, eu aprendi a ler muito cedo, muito cedo, antes de entrar na escola.
10:52E aí, em própria A, não me lembro de ter biblioteca.
10:55Então, a biblioteca era um dos livros do professor da minha mãe,
10:58professor Gumercindo, que, inclusive, é citado no livro.
11:02Então eu lia, obviamente, aquela Alexandre Dumas, né?
11:10Mas lia muita coisa da mitologia grega também,
11:12porque ele tinha uma bela coleção.
11:14E aí eu lia, mas não entendia, porque eu sabia ler,
11:19mas não sabia interpretar aquelas palavras.
11:21Então demorou muito tempo para que alguns clássicos
11:23eu realmente pudesse aproveitar.
11:25Tipo, a primeira vez que eu li Machado de Assis,
11:27obviamente que eu não entendi nada, né?
11:29Como quase todo mundo.
11:31É, e aí, com os anos, você fala e você aprende uma coisa chamada sutileza.
11:36E quando você aprende o que é sutileza,
11:38você domina a interpretação literária.
11:42Você hoje, já como escritor, como uma pessoa que sempre gostou de ler,
11:47que lugar você diria que a literatura ocupa na tua vida?
11:52A literatura está sendo lentamente assassinada pela internet.
12:01Costumava ocupar um lugar de leitura diária, frequente, muitas horas,
12:07e hoje em dia cada vez menos.
12:09Não é que eu tenha diminuído de ler, mas cada vez menos eu leio em papel.
12:13E eu acho que isso afeta bastante o jeito que a gente...
12:19Não só a nossa rotina de leitura, mas o jeito que também a gente interpreta,
12:23porque a gente é bombardeado por muita informação.
12:26E processar, não combina processar tanta informação com um texto literário,
12:31que requer mais atenção, requer um mergulho mais profundo para você entender
12:37as sutilezas, as pegadinhas, as pistas que o autor deixa.
12:44E então a literatura está desse jeito na minha vida.
12:49Você consegue ainda hoje parar para ler um livro mais extenso,
12:53um livro mais denso?
12:56Você tem dificuldade para isso?
12:58Tem dificuldade para isso.
13:00Coincidentemente, estou relendo alguns livros que eu já li,
13:06e aí estou meio com medo, deixando os mais grossos para frente,
13:09me acovardando, com medo de não conseguir ser capaz de transpor Ulisses e Joyce.
13:17Que tipo de leitor você é, Dolores?
13:20O que você gosta mais de ler?
13:21Gosta mais de ler contos, romances, histórias complicadas,
13:27histórias simples, fantasias, que tipo de leitura você gosta mais?
13:33Eu gosto muito de história, gosto bastante de história.
13:39E gosto de biografia, especialmente quando tem a ver com música,
13:45ou com artistas, porque é um jeito da gente também ler a história,
13:49através daquele indivíduo que, se era um artista ou era alguém que concentrava,
13:58uma opinião com o resto da população,
14:01era alguém que se contrapunha a isso, enfim, o papel do artista é esse.
14:11E também acho que quadrinhos é uma coisa que foi muito importante,
14:16não só na minha formação, como toda a formação do Mung Beat,
14:19que está super presente nas letras, né?
14:22Eu acho que quadrinhos também é uma coisa que é bem importante,
14:27que completa a minha literatura.
14:30Quais escritores você admira ou quais escritores te inspiram hoje?
14:36Bom, como eu estou falando de quadrinhos,
14:38eu vou começar com o Alan Moore, que é um grande roteirista de quadrinhos,
14:42mas acho que o meu escritor favorito há muitos anos,
14:47porque esse ranking vai mudando e tal,
14:51bota ali Machado de Assis e Bugakov,
14:55o russo.
14:56É, o russo, lá frente,
14:59Rubem Fonseca está ali entre os dez,
15:03Monteiro Lubato, me desculpem vocês,
15:07mas fez parte da minha infância,
15:08eu não tenho como não dizer que faz parte da minha formação.
15:13Não, sem dúvida, Monteiro Lubato é muito importante,
15:15foi importante para gerações de brasileiros.
15:19Muito bem, a gente vai fazer um rápido intervalo,
15:22a conversa da gente vai continuar,
15:24sobre literatura e música,
15:26você que está acompanhando, não saia daí,
15:28a gente volta já já.
15:41Ponto de Vista está de volta,
15:43hoje eu recebo aqui DJ Dolores,
15:45e a nossa conversa é sobre literatura,
15:48música,
15:49tudo e que envolve a criação artística
15:52de DJ Dolores.
15:54DJ, eu queria voltar
15:56a nossa conversa,
15:57lembrando que você é músico,
15:59como eu falei,
16:00você também é compositor,
16:01e o trabalho de compor também é uma criação.
16:04O que você está compondo no momento?
16:07No momento eu estou trabalhando
16:10na composição da música,
16:13da trilha,
16:14para um espetáculo que está bem no comecinho,
16:17deve estrear em dezembro,
16:18se chama Infâmia,
16:21o texto é do Marcelino Freire
16:23e do Nilton Moreno,
16:25que estão na estrada há muito tempo,
16:29direção de André Brasileiro e Nilton Moreno.
16:33É um texto bem autorreferencial
16:36ao grupo Angu de Sangue,
16:39e é uma experiência,
16:40não vou dizer que trabalhar com teatro
16:42não seja uma experiência nova,
16:44porque não é,
16:45eu já fiz a máquina de João Falcão,
16:47a primeira versão,
16:48a segunda,
16:50mas é que é bem surpreendente,
16:53porque é uma linguagem muito mais,
16:55é uma metalinguagem teatral,
16:58uma experiência, mais uma vez, desafiadora.
17:01O trabalho de composição,
17:03quando você está falando aí
17:04que está preparando a trilha
17:06de um espetáculo teatral,
17:07então acaba que não é uma música só,
17:11são várias músicas
17:12que fazem parte daquele espetáculo.
17:14Esse trabalho de composição
17:16é um trabalho que requer muita pesquisa,
17:19muito estudo.
17:21Como é a tua preparação
17:23para oferecer essas músicas
17:25de acordo com a história,
17:27que tenha uma ligação com a história
17:28que vocês estão contando?
17:30Eu amo trabalhar com trilha sonora
17:32exatamente porque eu tenho que investigar muito,
17:35estudar bastante para aprender
17:38como funciona aquela música,
17:40como é a gramática,
17:41como é que é a morfologia, sabe?
17:45Então, acho que, para mim,
17:48como músico,
17:48isso é muito enriquecedor,
17:52porque não é uma coisa
17:54que você vai trabalhar
17:55em cima do bom gosto
17:56ou da ideia de vender.
17:58Você tem que entender aquela música,
18:00entender a função dela
18:02dentro de um contexto social, cultural,
18:05e aí usá-la dessa maneira.
18:07Então, fazer trilha sonora
18:09acho que tem sido
18:10a minha grande escola, assim.
18:13Inevitavelmente,
18:14eu vou parar em lugares inesperados
18:16através da pesquisa.
18:18Eu soube que você está trabalhando também
18:19na adaptação, né,
18:21dos lugares para chorar no Recife.
18:24Como é que...
18:25Uma adaptação para a TV, né,
18:27para a televisão.
18:28Isso foi um pedido de alguém?
18:29Você teve a ideia já
18:31de elaborar essa adaptação
18:33para quando houver um pedido
18:35você vai fazer a adaptação
18:38e oferecer?
18:39Qual é a tua ideia?
18:41A ideia é...
18:43Não, a ideia é um desejo.
18:46Eu já trabalhei em outras séries
18:49de ficção para a TV
18:51como roteirista e tal
18:52e aí estou preparando essa.
18:54De repente, se alguém se interessa,
18:56você acha que as histórias...
18:57Você acha que as histórias
18:59encaixariam bem
19:00numa série ou numa...
19:04Numa série de TV?
19:06Histórias de TV?
19:07Com diferentes histórias?
19:09Acho que sim, porque tem um pouco
19:13de uma temática romântica por detrás
19:15e as pessoas se interessam por isso
19:17e considerando, guardando
19:21as devidas proporções.
19:23Eu fico imaginando...
19:27a comédia humana de Balzac,
19:29você já leu a comédia humana?
19:30Algumas coisas.
19:31São vários livros.
19:32Os personagens se cruzam.
19:34Eu fiquei imaginando,
19:35porque não é uma série onde os personagens
19:37de uma história se cruzam com outra,
19:40mas o guarda é devido à proporção.
19:43Porque o universo de Balzac é aquela coisa
19:46extremamente rica, detalhadíssima,
19:48de costumes.
19:51E a atividade de DJ, Dolores?
19:54Você acabou marcando o teu nome artístico, né?
19:57Pouca gente te conhece como Helder Aragão.
20:00Essa atividade de DJ,
20:02como foi que surgiu na sua vida
20:04e que papel ela tem hoje?
20:06Fernando, a atividade de DJ surgiu...
20:09Eu usei esse prefixo
20:14porque na época parecia fazer sentido
20:16que o DJ estava mudando a música,
20:20estava produzindo música eletrônica,
20:22então eu me imaginava mais
20:23como alguém que tocava as músicas que produzia
20:26do que simplesmente um seletor de faixas, né?
20:30Com o tempo, isso mudou bastante.
20:32Eu acho que o DJ hoje já não é uma coisa tão...
20:36valorizada, como já foi no passado.
20:41Mas eu continuo trabalhando, como eu dizia,
20:43é uma atividade bastante interessante
20:45você chegar num lugar
20:46onde você não conhece ninguém
20:48e fazer aquelas pessoas se interessarem
20:50pelas músicas que você vai tocar.
20:53Quando você chega numa festa,
20:55um ambiente assim,
20:56que você, de repente, assume ali o posto de DJ,
21:00o que é que passa na sua cabeça?
21:01Eu vou oferecer o quê para esse pessoal?
21:06Rapaz, o que passa na minha cabeça
21:09é ser vaiado na primeira música.
21:13Que é o maior medo que eu acho que todo DJ tem.
21:16Todo DJ deve ter.
21:18Aí depois que você botou a terceira ali,
21:20você já entendeu qual é o ambiente
21:22e aí já passou do momento do perigo, né?
21:27Dolores, você viveu de perto toda a gestação, digamos,
21:32do movimento mangue aqui no Recife.
21:35O início mesmo, com o Chico Science,
21:40Nação Zumbi, aquela coisa toda.
21:44Já são mais de 30 anos daquela experiência.
21:48O que foi que ficou?
21:49O que é que você lembra com mais carinho daquela época?
21:52E que tipo de avaliação você faz daquele trabalho que vocês faziam
21:57sem talvez nem perceber que estavam começando um movimento
22:01que marcaria tanto a música brasileira?
22:04Quando eu penso em Mangue Beat,
22:06eu penso em um período que é exatamente anterior
22:09ao que o senso comum pensa.
22:13Então eu penso quando as bandas eram independentes
22:16e estava todo mundo trabalhando junto.
22:18Então o que eu tenho mais saudade desse período
22:20é justamente você trabalhar coletivamente
22:23e de um modo horizontal.
22:26Ou seja, todo mundo é igual,
22:28todo mundo dá pitaco
22:31e a gente se juntava para fazer as coisas acontecerem,
22:34inclusive produzir os shows da banda
22:35quando as bandas ainda eram meio amadoras.
22:39Então eu tenho muita saudade desse jeito
22:41de trabalhar em coletivo
22:43e sem chefe, sem líder, não sei o que lá.
22:46Esse negócio de liderança.
22:49Aparece depois que se grava com gravadora,
22:53que você começa a criar os personagens, tudo.
22:56Mas até então o trabalho realmente era muito...
22:59muito puro, assim, nesse sentido de ser coletivo e tal.
23:05Isso é o que eu sinto muita saudade.
23:06E acho que a sua pergunta foi...
23:09Desculpe.
23:10Como é viver, ter vivido aquele momento, né,
23:15e pensar que já faz mais de 30 anos aquilo ali
23:18e que marcou a música, né?
23:20E marcou assim de um jeito que eu acho que transformou
23:22a música popular brasileira.
23:24Sim.
23:24Porque até então você não tinha...
23:26Você tinha ídolos da música,
23:29que eram do rock,
23:31porque o rock era considerado uma coisa séria,
23:32uma música séria, por incrível que pareça.
23:36E os ídolos eram brancos, de olho claro,
23:40com essa aparência gringa, né?
23:43Legião Urbana, Paralama, Citância, não sei o que lá.
23:46Eu acho que Chico Sainz, Nação Zumbi,
23:48rompe com esse padrão racial.
23:50E rompe de uma vez,
23:52de um jeito que não tem volta.
23:54Porque a partir daí você tem Marcelo D2,
23:56você tem Seu Jorge,
23:57você tem a galera de fora do radar do Rio São Paulo,
24:01do norte do país, do nordeste,
24:03aparecendo e tomando lugar na música pop,
24:06da cena rock e pop do Brasil.
24:08Eu acho que essa daí deve ter sido
24:10a maior contribuição do MugBeat, certamente.
24:13Você é designer gráfico, a gente já falou, né?
24:16E você foi o cara que bolou aquela capa
24:19da Lama ao Caos, né?
24:21Um disco emblemático no movimento MugBeat, né?
24:25Como foi que surgiu a ideia
24:27de usar aquele caranguejo na capa?
24:29E qual foi quando você apresentou a Chico,
24:33a Fred 04, Renato Welle?
24:37O que foi que o pessoal achou
24:38na hora que você apresentou aquela capa?
24:41Rapaz, a gravadora Sony queria uma capa colorida
24:45e mostrou uma capa do Asa de Águia.
24:49Era uma pomba, sei lá,
24:51pousada numa guitarra.
24:53Aí a gente olhou assim e falou,
24:54olha, acho que não é isso não, tá?
24:57E a galera da banda,
24:59na época tinha um filme que misturava hip hop
25:04porque o heavy metal e a capa,
25:07a estética era uma coisa bem sombria.
25:09E eu dizia para os meninos,
25:10olha, vocês não são sombrios,
25:12vocês são solares, pô,
25:13vamos fazer outra coisa,
25:14vamos fazer uma capa colorida.
25:17A gente achou que o caranguejo
25:19era uma coisa muito icônica,
25:21parecia ser uma escolha óbvia.
25:24Muito reciprocista também, né?
25:25Sim, sim.
25:29Esteticamente a gente caprichou
25:31em fazer com que aquela
25:32parecesse mais futurista
25:36do que ela era realmente,
25:37porque aquilo dali é xerox cortado,
25:39mas parece ser uma coisa
25:40toda trabalhada em computador,
25:42não é porque aqui ninguém
25:43tem acesso a computador,
25:45mas a gente queria realmente
25:46causar essa impressão
25:47de ser uma coisa high tech.
25:50A banda não gostou porque tinha cor,
25:52a gravadora não gostou
25:54porque estava muito sombrio,
25:56no entanto, ela hoje em dia
25:58é considerada uma das dez capas
26:00mais icônicas da música brasileira, né?
26:03Pois é, que coisa, né?
26:06Tanta divergência de pensamentos, né?
26:09E conseguiu, vocês conseguiram
26:12emplacar um disco
26:13que entrou para a história mesmo, né?
26:15E eu particularmente fiquei muito feliz
26:17quando o disco saiu,
26:18porque eu tinha criado uma marcazinha
26:20que era só uma pata de caranguejo
26:22com um círculo, assim.
26:25E o pessoal começou a reproduzir isso
26:28nos muros da cidade.
26:29Eu entendi aquilo como um diálogo,
26:31eu falei, ó, estou conversando com o Recife,
26:33estou me entendendo com o Recife.
26:36Para terminar, eu queria saber
26:38se você continua convivendo com esse pessoal,
26:41Renato Heller, Fred 04,
26:44Paulo André, né?
26:45Que era o produtor também da banda.
26:49Vocês fizeram outros trabalhos
26:51depois disso?
26:53Continuam se relacionando?
26:54Como é que é a relação?
26:56Sim, sim, né?
26:58Tem alguns amigos que se somem, né?
27:01Somem porque é isso mesmo,
27:03a vida vai levando.
27:04Cada um toma um rumo, às vezes, né?
27:05Mas, basicamente, eu continuo
27:07em contato com todo mundo, sim.
27:09Sempre falo com o Jorge,
27:11falo sempre com o Lúcio e tal,
27:13Renato mora aqui na cidade,
27:15Fred sempre encontro, enfim.
27:16Mas eu acho difícil
27:19a gente fazer
27:21as mesmas coisas
27:23que no passado,
27:24porque já faz tempo
27:25que cada um seguisse o rumo profissional.
27:27Mas, por exemplo,
27:29eu não fiz essa capa
27:31do Nação Zumbi,
27:32sozinho,
27:33ou do Mestre Ambrose.
27:34Eu fiz com o Hilton Lacerda.
27:36Sim.
27:38E a gente trabalha junto
27:39desde a década de 80.
27:41Ano passado, por exemplo,
27:42a gente trabalhou junto
27:43num roteiro
27:43sob encomenda
27:45pra contar a história
27:46de Chico Science
27:47pra uma produtora de São Paulo.
27:49Então,
27:50a gente trabalha junto
27:51há mais de 40 anos.
27:54Continuamos uma dupla, assim.
27:57Volta e meia,
27:58aparece alguma coisa
27:59e a gente se junta
28:00e faz isso daí.
28:01Muito bem.
28:02DJ Dolores,
28:03chegamos ao fim da entrevista.
28:05Sucesso aqui
28:06com o Lugares para Chorar
28:08no Recife
28:09e outros, né?
28:10Que concorre
28:12na próxima terça-feira
28:14disputa
28:15de melhor crônica,
28:17melhor livro
28:18de crônicas
28:19pelo prêmio Jabuti.
28:21Sucesso,
28:22parabéns também
28:23pelo prêmio
28:23da Biblioteca Nacional
28:25e obrigado
28:25pela entrevista.
28:26Obrigado pelo convite.
28:28Me chame outras vezes
28:29que eu vou ir pra cá
28:30pra contar mais história.
28:31Tá certo.
28:32E você que acompanhou
28:33até aqui, obrigado também
28:34pela audiência e companhia.
28:36O Ponto de Vista
28:37volta na semana que vem.