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  • há 2 horas
A sapataria entrou na vida de Ocival Wanzeler de Souza por necessidade, quando o pai adoeceu. O que não fazia parte dos seus planos se transformou em uma trajetória de 44 anos, durante os quais encontrou no conserto de calçados uma maneira de sustentar a família. Em Belém, uma história semelhante é vivida por Raimundo Borges Santana, que começou a trabalhar ainda garoto e, aos 77 anos, acumula 56 anos de experiência na profissão. No Dia do Sapateiro, celebrado neste domingo (25), os dois artesãos mostram como um ofício tradicional continua presente na cidade e nas histórias de quem vive dele.

REPORTAGEM: Gabriel da Mota
IMAGENS: Wagner Santana

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Transcrição
00:00A sapataria entrou na vida de Ocival Vanzeler de Souza por necessidade, quando o pai adoeceu.
00:08O que não fazia parte dos seus planos se transformou em uma trajetória de 44 anos,
00:14durante os quais encontrou no concerto de calçados uma maneira de sustentar a família.
00:20Eu comecei a trabalhar, não era a minha visão de trabalho, não era o meu sonho de trabalho.
00:30Meu pai adoeceu, eu tive a necessidade, pô, meu pai adoeceu, então eu vou fazer o seguinte,
00:35cobrar essa ideia aí para poder ajudá-lo.
00:38Quando eu comecei a pegar gosto, eu vi que é um trabalho honroso, aí eu continuei.
00:45Vi que dava para sustentar a família e tudo bem.
00:49Umas dicas eu pedia para ele, então eu tinha ideia, porque meu pai foi fabricante de calçados,
00:55tanto feminino como masculino, e também sapatos para oficiais da aeronáutica.
00:58Ele já tinha um bom terreno, então eu fui aprendendo algumas coisas com ele,
01:10e com a prática a gente vai assimilando coisas melhores.
01:13Eu trabalho há 44 anos, meu pai começou em 1975, ainda era um chalé aqui depois.
01:20Trabalha comigo o sapateiro Augusto, grande costureiro.
01:25Quero dizer a vocês que aqui, por incrível que pareça, é a melhor costura de Belém, então não parar.
01:32Porque já avaliei, visitei alguns locais e vi que as costuras em tênis e sapatos sociais não se comparam com
01:41o que eles fazem aqui.
01:42E aí tenho também o Carlinhos, que é meu primo, e nas segundas-feiras o outro primo, Lauro.
01:50Esse aqui é meu cunhado, meu braço de ferro aqui, braço direito.
01:55Se eu quiser ir até de noite, com certeza vai ter trabalho.
02:01O trabalho é constante.
02:02Acho que as pessoas que estão surgindo hoje estão ali querendo um trabalho.
02:07Se eles quiserem realmente ter uma boa renda, eles podem aprender.
02:12E hoje em dia dou certeza para eles que eles não vão passar necessidade.
02:17Eles vão conseguir, sendo bons profissionais, eles vão conseguir com certeza sustentar suas famílias
02:25e ter alguma coisa para no final de semana, entendeu?
02:30Dá para viver assim, com certeza.
02:32Mas tem sapateiro que não liga para a vida, bebe ou então trabalha.
02:37Depois no final de semana vai gastar tudo e faz, e isso não acontece conosco, né?
02:42Olha, nós temos aqui de todos os níveis, né?
02:48Temos as pessoas mais, quer dizer, mais humildes e com mais.
02:52Recebemos aqui pessoas de um escalão na sociedade muito bom.
02:56Não consigo calcular, mas é bastante.
03:00Bastante.
03:00Tanto é que eu diminui até a carga horária, porque a gente precisa relaxar a cabeça,
03:05porque é muita coisa para fazer.
03:06Eu trabalho, nós trabalhamos, ele trabalha e ele abre aqui cedo, né?
03:11Vem aqui cedo, ele abre aqui umas sete horas.
03:14Aí eu venho para cá mais oito horas e metemos barro até agora, né?
03:20Aí até as quinze horas.
03:22Mas é prazeroso ser sapateiro, é prazeroso.
03:25Agora tem, todos os sapateiros têm que ter um cuidado.
03:28É, não pegar tudo para agradar as pessoas.
03:31Eu vou pegar isso aqui, sendo um trabalho difícil,
03:33um trabalho muito difícil, então não te esmera em querer pensar no freguês,
03:40tentando resolver o problema dele, coisa que às vezes é incerto.
03:45Então faz aquilo que tu podes fazer.
03:47Porque se o sapateiro que surgir aí for querer agradar e tentar fazer algo que não vai dar certo,
03:54então é melhor não passar por esse problema, que muitas vezes eu passei por inexperiência,
03:59tentando agradar alguém.
04:00Não, eu vou fazer pra ti, vou tentar fazer.
04:02Fiz.
04:03E outra coisa, né?
04:04Os perfeccionistas.
04:07Problema.
04:08Perfeccionista é um problema, tanto mulher como homem.
04:11Quando eles são perfeccionistas, todo sapateiro que surgiu agora tem que tomar cuidado,
04:17porque o perfeccionista procura um defeito naquilo que está quase perfeito.
04:22Tá entendendo?
04:23Já aconteceu comigo de eu fazer um trabalho perfeito e ele tentar encontrar alguma imperfeição,
04:30o que aconteceu?
04:31Porque ele encontrou a imperfeição porque ele inventou a perfeição.
04:33Todo perfeccionista, quando não encontra a imperfeição, ele inventa uma.
04:38Então, é tomar cuidado com o temperamento de pessoas, ver com quem está trabalhando,
04:43com quem vai, pra quem vai fazer serviço, porque é meio complicado.
04:46Então, tem que ter um jogo de cintura nesses momentos, tá bom?
04:51Em Belém, uma história semelhante é vivida por Raimundo Borges Santana,
04:56que começou a trabalhar ainda garoto e, aos 77 anos, acumula 56 anos de experiência na profissão.
05:06Ah, eu comecei como garoto, aprendendo em oficina de sapato.
05:12Aí, depois, eu aprendi a profissão, trabalhei ainda como empregado há uns seis anos.
05:20E depois, eu comprei a oficina do mestre que eu trabalhava.
05:26E há 56 anos que é minha oficina.
05:31Eu tenho bastante clientes, ainda tenho muitos clientes, graças a Deus, muito, muito mesmo.
05:37Trabalhei na Rua Boaventura da Silva, entre 14 e Generalício, há 50 anos.
05:43E hoje, nós estamos aqui na Alcino Cacela, com João Balbi, governador de Malché, há seis anos.
05:51Mas ainda temos muitos clientes.
05:53Ainda dá.
05:55Tive quatro filhos e os quatro filhos foram criados com o dinheiro do sapato.
06:02Com a ajuda das mães também, né?
06:04Todo tipo de cliente.
06:07É o cliente um pouco mais humilde, o médio e o alto.
06:12A nossa clientela é bem grande.
06:16Olha, todo tipo de conserto.
06:18E fabricamos também, sobre encomenda.
06:22Já fabriquei muito, mas no momento eu estou fabricando só sobre encomenda.
06:27Entendeu?
06:28E todo tipo de conserto.
06:29Sapato, bolso, cinto, mala.
06:32Tudo isso nós consertamos.
06:34Depende do conserto.
06:37Aí varia muito, né?
06:38Porque tem sapato que é pra colar, tem outro que é pra trocar borrachinha, outro é pra trocar o solado.
06:43Outros são pra fazer o rosto, trocar de rosto, de sapato, trocar salto.
06:49Então tem vários tipos de conserto e aí varia aí o preço.
06:52Vai de 20 a 120, a 150.
06:56Trabalha eu, meu filho e tenho três rapazes que me ajudam.
07:00Aí eu já tenho dois rapazes que trabalham comigo.
07:03Tem um que trabalha de terça a sexta e outro trabalha de terça a sexta só o segundo período, das
07:12duas às cinco.
07:14E tem um que trabalha o dia todo comigo, de segunda a sábado.
07:19E o meu filho que toma conta aqui na frente.
07:22Eu já sou mais a administração do negócio.
07:26Primeiramente, eu acredito que seja a minha pontualidade.
07:30Se marca pra sexta, tem que ser sexta.
07:33Se deixou pago, tem que entregar o produto.
07:37E eu acredito que divido também a qualidade do nosso serviço.
07:42É por isso que nós temos toda a clientela.
07:44O futuro dessa profissão...
07:46Hoje em dia ninguém quer mais aprender essa profissão de sapateiro.
07:49Todo mundo quer ser doutor, né?
07:51E eu sou doutor também na minha profissão, né?
07:54Mas ninguém quer mais aprender sapato, né?
07:56Fazer sapato, consertar sapato.
07:58Todo mundo quer ser doutor, né?
08:01Mas eu acredito que não vai acabar 100%.
08:04Sempre tem que ter, né?
08:06Nessa profissão, sempre tem que ter.
08:07Vai faltar profissional.
08:10É, vai faltar profissional.
08:12Olha, isso aí é...
08:14Isso aí depende muito, né?
08:16Depende muito.
08:18Tem dia que a gente faz 10, 20 pares de concerto.
08:23Outros dias já pode fazer um pouco menos.
08:25Outros já pode fazer um pouco mais.
08:27Depende muito.
08:28Varia muito, né?
08:31Varia muito.
08:32De dia pra dia, de semana pra semana, né?
08:35No dia do sapateiro, celebrado neste domingo,
08:38os dois artesãos mostram como um ofício tradicional
08:42continua presente na cidade e nas histórias de quem vive dele.

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