00:00A sapataria entrou na vida de Ocival Vanzeler de Souza por necessidade, quando o pai adoeceu.
00:08O que não fazia parte dos seus planos se transformou em uma trajetória de 44 anos,
00:14durante os quais encontrou no concerto de calçados uma maneira de sustentar a família.
00:20Eu comecei a trabalhar, não era a minha visão de trabalho, não era o meu sonho de trabalho.
00:30Meu pai adoeceu, eu tive a necessidade, pô, meu pai adoeceu, então eu vou fazer o seguinte,
00:35cobrar essa ideia aí para poder ajudá-lo.
00:38Quando eu comecei a pegar gosto, eu vi que é um trabalho honroso, aí eu continuei.
00:45Vi que dava para sustentar a família e tudo bem.
00:49Umas dicas eu pedia para ele, então eu tinha ideia, porque meu pai foi fabricante de calçados,
00:55tanto feminino como masculino, e também sapatos para oficiais da aeronáutica.
00:58Ele já tinha um bom terreno, então eu fui aprendendo algumas coisas com ele,
01:10e com a prática a gente vai assimilando coisas melhores.
01:13Eu trabalho há 44 anos, meu pai começou em 1975, ainda era um chalé aqui depois.
01:20Trabalha comigo o sapateiro Augusto, grande costureiro.
01:25Quero dizer a vocês que aqui, por incrível que pareça, é a melhor costura de Belém, então não parar.
01:32Porque já avaliei, visitei alguns locais e vi que as costuras em tênis e sapatos sociais não se comparam com
01:41o que eles fazem aqui.
01:42E aí tenho também o Carlinhos, que é meu primo, e nas segundas-feiras o outro primo, Lauro.
01:50Esse aqui é meu cunhado, meu braço de ferro aqui, braço direito.
01:55Se eu quiser ir até de noite, com certeza vai ter trabalho.
02:01O trabalho é constante.
02:02Acho que as pessoas que estão surgindo hoje estão ali querendo um trabalho.
02:07Se eles quiserem realmente ter uma boa renda, eles podem aprender.
02:12E hoje em dia dou certeza para eles que eles não vão passar necessidade.
02:17Eles vão conseguir, sendo bons profissionais, eles vão conseguir com certeza sustentar suas famílias
02:25e ter alguma coisa para no final de semana, entendeu?
02:30Dá para viver assim, com certeza.
02:32Mas tem sapateiro que não liga para a vida, bebe ou então trabalha.
02:37Depois no final de semana vai gastar tudo e faz, e isso não acontece conosco, né?
02:42Olha, nós temos aqui de todos os níveis, né?
02:48Temos as pessoas mais, quer dizer, mais humildes e com mais.
02:52Recebemos aqui pessoas de um escalão na sociedade muito bom.
02:56Não consigo calcular, mas é bastante.
03:00Bastante.
03:00Tanto é que eu diminui até a carga horária, porque a gente precisa relaxar a cabeça,
03:05porque é muita coisa para fazer.
03:06Eu trabalho, nós trabalhamos, ele trabalha e ele abre aqui cedo, né?
03:11Vem aqui cedo, ele abre aqui umas sete horas.
03:14Aí eu venho para cá mais oito horas e metemos barro até agora, né?
03:20Aí até as quinze horas.
03:22Mas é prazeroso ser sapateiro, é prazeroso.
03:25Agora tem, todos os sapateiros têm que ter um cuidado.
03:28É, não pegar tudo para agradar as pessoas.
03:31Eu vou pegar isso aqui, sendo um trabalho difícil,
03:33um trabalho muito difícil, então não te esmera em querer pensar no freguês,
03:40tentando resolver o problema dele, coisa que às vezes é incerto.
03:45Então faz aquilo que tu podes fazer.
03:47Porque se o sapateiro que surgir aí for querer agradar e tentar fazer algo que não vai dar certo,
03:54então é melhor não passar por esse problema, que muitas vezes eu passei por inexperiência,
03:59tentando agradar alguém.
04:00Não, eu vou fazer pra ti, vou tentar fazer.
04:02Fiz.
04:03E outra coisa, né?
04:04Os perfeccionistas.
04:07Problema.
04:08Perfeccionista é um problema, tanto mulher como homem.
04:11Quando eles são perfeccionistas, todo sapateiro que surgiu agora tem que tomar cuidado,
04:17porque o perfeccionista procura um defeito naquilo que está quase perfeito.
04:22Tá entendendo?
04:23Já aconteceu comigo de eu fazer um trabalho perfeito e ele tentar encontrar alguma imperfeição,
04:30o que aconteceu?
04:31Porque ele encontrou a imperfeição porque ele inventou a perfeição.
04:33Todo perfeccionista, quando não encontra a imperfeição, ele inventa uma.
04:38Então, é tomar cuidado com o temperamento de pessoas, ver com quem está trabalhando,
04:43com quem vai, pra quem vai fazer serviço, porque é meio complicado.
04:46Então, tem que ter um jogo de cintura nesses momentos, tá bom?
04:51Em Belém, uma história semelhante é vivida por Raimundo Borges Santana,
04:56que começou a trabalhar ainda garoto e, aos 77 anos, acumula 56 anos de experiência na profissão.
05:06Ah, eu comecei como garoto, aprendendo em oficina de sapato.
05:12Aí, depois, eu aprendi a profissão, trabalhei ainda como empregado há uns seis anos.
05:20E depois, eu comprei a oficina do mestre que eu trabalhava.
05:26E há 56 anos que é minha oficina.
05:31Eu tenho bastante clientes, ainda tenho muitos clientes, graças a Deus, muito, muito mesmo.
05:37Trabalhei na Rua Boaventura da Silva, entre 14 e Generalício, há 50 anos.
05:43E hoje, nós estamos aqui na Alcino Cacela, com João Balbi, governador de Malché, há seis anos.
05:51Mas ainda temos muitos clientes.
05:53Ainda dá.
05:55Tive quatro filhos e os quatro filhos foram criados com o dinheiro do sapato.
06:02Com a ajuda das mães também, né?
06:04Todo tipo de cliente.
06:07É o cliente um pouco mais humilde, o médio e o alto.
06:12A nossa clientela é bem grande.
06:16Olha, todo tipo de conserto.
06:18E fabricamos também, sobre encomenda.
06:22Já fabriquei muito, mas no momento eu estou fabricando só sobre encomenda.
06:27Entendeu?
06:28E todo tipo de conserto.
06:29Sapato, bolso, cinto, mala.
06:32Tudo isso nós consertamos.
06:34Depende do conserto.
06:37Aí varia muito, né?
06:38Porque tem sapato que é pra colar, tem outro que é pra trocar borrachinha, outro é pra trocar o solado.
06:43Outros são pra fazer o rosto, trocar de rosto, de sapato, trocar salto.
06:49Então tem vários tipos de conserto e aí varia aí o preço.
06:52Vai de 20 a 120, a 150.
06:56Trabalha eu, meu filho e tenho três rapazes que me ajudam.
07:00Aí eu já tenho dois rapazes que trabalham comigo.
07:03Tem um que trabalha de terça a sexta e outro trabalha de terça a sexta só o segundo período, das
07:12duas às cinco.
07:14E tem um que trabalha o dia todo comigo, de segunda a sábado.
07:19E o meu filho que toma conta aqui na frente.
07:22Eu já sou mais a administração do negócio.
07:26Primeiramente, eu acredito que seja a minha pontualidade.
07:30Se marca pra sexta, tem que ser sexta.
07:33Se deixou pago, tem que entregar o produto.
07:37E eu acredito que divido também a qualidade do nosso serviço.
07:42É por isso que nós temos toda a clientela.
07:44O futuro dessa profissão...
07:46Hoje em dia ninguém quer mais aprender essa profissão de sapateiro.
07:49Todo mundo quer ser doutor, né?
07:51E eu sou doutor também na minha profissão, né?
07:54Mas ninguém quer mais aprender sapato, né?
07:56Fazer sapato, consertar sapato.
07:58Todo mundo quer ser doutor, né?
08:01Mas eu acredito que não vai acabar 100%.
08:04Sempre tem que ter, né?
08:06Nessa profissão, sempre tem que ter.
08:07Vai faltar profissional.
08:10É, vai faltar profissional.
08:12Olha, isso aí é...
08:14Isso aí depende muito, né?
08:16Depende muito.
08:18Tem dia que a gente faz 10, 20 pares de concerto.
08:23Outros dias já pode fazer um pouco menos.
08:25Outros já pode fazer um pouco mais.
08:27Depende muito.
08:28Varia muito, né?
08:31Varia muito.
08:32De dia pra dia, de semana pra semana, né?
08:35No dia do sapateiro, celebrado neste domingo,
08:38os dois artesãos mostram como um ofício tradicional
08:42continua presente na cidade e nas histórias de quem vive dele.