00:00O Cenoura já cumpriu o pênalti, ele já não queria mais ser bandido.
00:02Ah, total.
00:03Quer dizer, há uma caminhada.
00:05Sim, não parou no tempo.
00:06Há uma caminhada.
00:08Agora, o travo é amargo, sim.
00:11Por um lado.
00:12Por um lado, o travo é amargo.
00:14Quando você pensa no sentimento que a gente tinha, não é?
00:18Naquela época, sobre o que a gente estava contando.
00:21E agora, isso ter alguma semelhança ainda muito grande, dói.
00:27A gente caminha muito devagar a humanidade.
00:30O Cenoura, como não estava na primeira temporada,
00:34o Cenoura vem de uma longa ausência de todo esse universo da cidade de Deus.
00:39Ele cumpriu pena, ele escapou de uma certa maneira do ciclo da violência,
00:45onde ele nasceu e se formou, e está bem com isso.
00:50Mas os vínculos afetivos o levam de volta para esse mini mundo tão exemplo do Brasil,
01:00que é a cidade de Deus.
01:01É, ele passou muito tempo fora, assim como eu.
01:04Sim.
01:04E a maturidade modifica a gente.
01:07Não é verdade que a gente não muda com o tempo.
01:11Você sabe que aqui, entre nós, tem pessoas que eu conheci lá na cidade de Deus,
01:16lá naquela época, que eram muito jovenzinhos, quase crianças.
01:20E a pedra preciosa do coração dessas pessoas
01:25permanece parecida com aquela que eu vi.
01:27Quando eu encontro com elas 20, 20 e poucos anos depois,
01:30eu vejo o mesmo tipo de pedra.
01:34Ali é uma ametista, ali é uma tomalina rosa.
01:40Então, essa pedrinha, acho que permanece a mesma.
01:43Ela é do cenoura e é minha também.
01:47Mas eu, para a cidade de Deus, sempre mais contraceno do que imponho cena.
01:54Eu dependo muito mais de como o ambiente à minha volta está
01:58do que fico determinando como ator o que deve acontecer.
02:02E não foi diferente agora.
02:03Então, eu estou afetado, sim, pelas novas circunstâncias,
02:07pelos novos colegas, pela série que eu não conhecia,
02:12não estamos exatamente no filme, estamos numa série,
02:16com um novo diretor, mas também fazendo um personagem
02:22que nunca dependeu de uma caracterização técnica extrema minha.
02:28Ele sempre foi na contracena, na reação.
02:31Ele foi criado assim, o cenoura.
02:33E assim foi agora também.
02:35O que eu senti claramente é que algo de mais grave estava nele.
02:42Uma consciência muito maior do ciclo da violência dentro do qual ele nasceu
02:47do que ele tinha antes.
02:49Mas isso não impede que ele se misture de novo com tudo que está acontecendo.
02:55Não sei se é isso que você sentiu também.
02:57Mas foi isso que eu senti, que ele entende a coisa de uma maneira mais grave.
03:04A sabedoria dá isso.
03:06Eu senti que o cenoura estava menos sorridente do que ele já foi um dia.
03:10Bom, o Buscapé vem de uma perda muito grande,
03:14aliás, de duas perdas muito grandes.
03:17Ele está num momento psicológico e emocional bem vibrante,
03:21bem sinuoso e eu acredito que esse é o momento de virada na trajetória do personagem.
03:30É, absolutamente.
03:31Ele passou por muita coisa.
03:34E muita coisa que agora o público vê.
03:37Buscapé já vem de feridas de guerra muito anteriores.
03:40Eu acho que por conta disso também, essa separação, né?
03:45Essa isenção de, assim, o Buscapé sempre foi um cara muito, muito, muito só.
03:53Então ele sempre deixou mais a família dele pra lá.
03:56Ele dava muito mais com o trabalho aqui.
03:58Mas é lógico que provavelmente, né?
04:01A gente não vê, mas a mãe dele provavelmente já viu ele ferido e tal.
04:05Mostra as cicatrizes dele nessa próxima temporada.
04:08A gente consegue ver não só a cicatriz que foi formada pelo tiro que ele tomou,
04:15mas as outras também.
04:17Eu acho que sim, o Buscapé, por conta de todo esse trampolim emocional que ele passou, né?
04:26Esse acúmulo de coisas, aí logo vem Barbantinho e a Lígia, né?
04:33Ele chega num momento, assim, da vida que ele começa a enxergar muito mais...
04:41Eu tô tentando lembrar a palavra aqui, que é o que tá me levando muito mais também agora no meu
04:46pessoal,
04:47que é a finitude.
04:50Ele se depara com a finitude de uma forma muito mais absurda, bruta, né?
04:56E ele vê que, olha o que eu tô perdendo aqui, né?
05:00Eu já perdi aqueles dali, e agora? O que eu faço com isso?
05:03Então ele começa a voltar pra raiz dele, né?
05:07Ele começa a enxergar, ele começa a se relacionar com...
05:10Se relacionar com a sua família, né?
05:15Trazer eles mais pra perto, né?
05:16Deixar com que eles entrem também, né?
05:19E ajudem ele nesse processo de luta, nesse processo de luta que ele tem passado, assim.
05:26Então é muito importante a base familiar do Buscapé nesse momento da história que ele tá vivendo.
05:33Já era uma história que veio de um livro, até 70, e ele foi filmado em 2000.
05:37Já eram, né?
05:39A gente já tava falando de um passado muito presente também, naquela época, né?
05:44Infelizmente.
05:46Mas é isso, eu acredito também que é...
05:48A gente foi modificando o olhar mesmo, a lente, né?
05:52Da série toda.
05:53Ah, eu, cara, eu fiquei com muito pena dessas mãezinhas que tem esses filhos, assim...
05:57Que perdem ele pra violência, cara.
06:00Porque eu sou mãe, eu fiquei o tempo inteiro me colocando no lugar delas.
06:03Eu falei, meu Deus, que loucura isso, né?
06:06Que loucura dessa mãe que tem esse filho, que é roubado dela por esse mundo louco, assim.
06:13Acho que foi... Toda vez que eu fazia uma cena, eu ficava com esse sentimento.
06:18E assim, que bom que não é comigo.
06:20Que bom que eu só tô interpretando aqui.
06:22Mas tem gente que tá vivendo isso de verdade, né?
06:25A Leca, eu acredito que ela tá um pouco anestesiada.
06:28Muita coisa aconteceu.
06:30Mas como ficou tudo bem, ela ainda tá com o pai dela e os amigos tão ali.
06:35Eu acho que ela tá naquele momento meio anestesiada, assim.
06:39Meio tipo, ai, gente, eu não quero pensar tanto em nada, não.
06:42Tá todo mundo vivo?
06:43Tá todo mundo aqui?
06:44Então vambora.
06:45Eu acho que, na verdade, nessa segunda temporada, o que eu enxergo da Leca,
06:49é, e eu acho muito interessante, é que a gente vê começar a borbulhar.
06:54Assim, você olha pra Leca e você fala,
06:57Ih, eu acho que tá pensando duas vezes.
07:00Ih, eu acho que...
07:01Não vai responder de qualquer jeito.
07:03Não vai, não vai brigar.
07:05Não vai...
07:05O que que houve?
07:06Começa a borbulhar aí uma maturidade e outra.
07:11É...
07:11Por conta dos acontecimentos, muito por conta de ter esse pai.
07:14Agora ela tem, é fato.
07:16Ela não tá buscando esse pai, é fato.
07:18Eles têm uma relação, é uma relação linda.
07:21A Leca tem uma família linda, assim.
07:24Isso modifica muito ela.
07:26Eu acho que ela tá no caminho pra chegar num outro tipo de maturidade, assim.
07:32Eu não sei se eu já enxergo a Leca mais madura nessa segunda temporada.
07:37Eu acho que é um caminho, que aponta.
07:39Aí você fala, Ih, tá mudando ali, hein.
07:41Tem uma coisa mudando ali.
07:43Eu acho triste, mas ao mesmo tempo eu acredito na espiral, né.
07:50Tipo, há 20 anos atrás se falava disso, mas não se falava com tanta liberdade, não se falava com muita
07:56consciência.
07:58Então eu acho que a gente tá falando sobre as mesmas coisas, mas partindo de um outro lugar.
08:05De alguns novos pressupostos.
08:07De alguns novos olhares e de...
08:09Você vê a Berenice e já tá na política.
08:12É.
08:13Né?
08:13Representando a cidade de Deus num tribunal político, né.
08:18O Senora já cumpriu o pênalti, ele já não queria mais ser bandido.
08:21É, total.
08:21Quer dizer, há uma caminhada.
08:23Sim, não parou no tempo.
08:24Há uma caminhada.
08:25Sim, não parou no tempo.
08:33Tchau, tchau.