- há 3 semanas
Médica intensivista, Eliana Casé, comenta sobre o aumento por demanda de leitos de UTI para tratamento da covid-19, doença causada pelo Novo Coronavírus
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NotíciasTranscrição
00:00Eu recebo uma médica que trabalha em UTI e tem atendido pacientes com coronavírus, é a doutora Eliana Cazé.
00:07Boa tarde, doutora Eliana, bem-vinda ao Fala Escrição.
00:10Boa tarde, é um prazer estar aqui para conversar com vocês.
00:13E falar um pouquinho da situação da saúde que a gente está vivendo agora, né?
00:18Porque vinha sendo dito, olha, vamos manter o isolamento social, vamos tentar segurar essa curva
00:24para não ter muitos casos de uma só vez, para o sistema de saúde dar conta.
00:28E aí, estamos chegando num estado crítico, o próprio governo Capixaba já assumiu realmente que a situação é crítica nos
00:36hospitais.
00:36Mostramos aí uma reportagem da ocupação nos hospitais públicos, na rede pública e na rede privada.
00:42A senhora atua num hospital particular, né?
00:44Sim, sim. E isso vem já demonstrando, né, esses indicadores, já estava tudo previsto isso acontecer, né?
00:52Então, esse enfrentamento, ele foi pré-anunciado, né?
00:56Que aconteceria esse afogadilho, que esse final, que em maio agora a gente está entrando num ritmo muito mais acelerado,
01:05tanto de infecção quanto de mortes, né?
01:08Visto que em praticamente uma semana a gente teve praticamente 100 mortes, né?
01:12E que a região metropolitana, da Grande Vitória, está em crescente, tantos hospitais públicos, tantos hospitais privados,
01:22veio aumentando, a gente veio aumentando.
01:24E eu acho que a gente em nenhum momento pensou que a gente estaria em zona de conforto,
01:30a gente está numa zona de desconforto para todos.
01:32E eu acho que isso poderia ser mitigado, a minha opinião, como especialista,
01:38há praticamente 30 anos trabalhando com doentes graves,
01:43que isso seria um enfrentamento, essa oferta, essa demanda, esse desequilíbrio diante desse problema da saúde,
01:50através da criação do hospital de campanha, como alguns estados o fizeram.
01:56Pois é, a gente até já perguntou à Secretaria Estadual de Saúde uma possibilidade de construir hospitais de campanha aqui.
02:04O governo não descarta, mas sempre vem dizendo que neste momento está com os hospitais leitos em hospitais públicos,
02:12já destinados ao tratamento e também com essa possibilidade de compra em hospitais, né?
02:17Essa expressão que a gente usa, né?
02:19Aproveitar leitos de hospitais particulares e destinar a atendimento do SUS, né?
02:24É atendimento do Sistema Único de Saúde, que é um atendimento público para toda a população.
02:29É isso que o governo tem feito e a gente mostrou até uma resposta do Estado,
02:33de que vai adquirir novos leitos, vai construir novos leitos.
02:36Desde que isso não comprometa nenhum atendimento de nenhum paciente,
02:41independente, eu acho que a gente tem que atender a todos,
02:43independente disso, a gente tem um percentual de pacientes da rede privada
02:47que precisam ser atendidos também.
02:49E que para que isso não insire um gerenciamento de risco de ficar alguém penalizado,
02:56essa é a minha opinião em relação, mitigaria esse problema,
03:01porque abrir um hospital de campanha no último, um afogadilho, no último momento,
03:07não vai ter planejamento, não vai ter equipe treinada e não adianta.
03:12Ter leito de UTI, ter respirador, isso não é o bastante.
03:17Isso do ponto de vista até político, ele atenderia, mas do ponto de vista para salvar a vida
03:22e ter eficiência, isso não resolve o problema.
03:25Pois é, e vamos falar desse problema que a gente está vivendo agora.
03:29Acabamos de mostrar aí uma reportagem falando da situação de três hospitais aqui do Estado.
03:35E já já vou te dar um panorama também de mais unidades hospitalares,
03:38já numa situação muito preocupante, sem leitos.
03:43Como é que está, por exemplo, no hospital que a senhora trabalha,
03:45tem muitos leitos separados, exclusivos para a Covid-19, para o tratamento de pacientes,
03:50eles estão ocupados?
03:51Olha só, na medida que você tem um hospital, a rede privada,
03:54ela já fez aquilo baseado no seu, na sua população que vai atender o hospital.
04:00É óbvio que nós estamos atendendo nossos pacientes.
04:03Não está sobrando vaga, é óbvio que não.
04:05Só que isso é um risco que vai colocar a região da Metropolitana, da Grande Vitória,
04:12nós vamos ter problema.
04:13Principalmente agora, quando você vê esse cenário.
04:15E nós não estamos no pico ainda.
04:17Está por vir.
04:19Daqui a semana que vem, o final de maio, início de junho,
04:24com essa falta de isolamento social que a gente está vendo na rua,
04:28a falta de distanciamento também, a gente fala daqui a uma semana,
04:33daqui a 10 dias, daqui a 15 dias, isso pode estar pior.
04:37O pior está por vir.
04:38Sem colocar terror, não é toque de terror.
04:41A gente tem que vivenciar a realidade.
04:43E esses pacientes, tem um subgrupo deles que realmente se beneficiam de UTI.
04:48Um outro grupo, se, por exemplo, tivesse um local adequado para colocar,
04:53pelo menos, esses pacientes moderados, os pacientes menos graves.
04:59Porque paciente grave...
05:00Vamos explicar, doutora Eliana, porque existem, por exemplo, o coronavírus,
05:03a maioria das pessoas que contraem essa doença se trata em casa, né?
05:08São aqueles sintomas gripais, ela pode ficar em casa, isolada, se recuperando.
05:14A maioria, é o que apontam aí os dados, as estatísticas.
05:17Mas também tem muitas pessoas que precisam de internação.
05:21E aí, quando a gente entra numa internação hospitalar, são duas situações, né?
05:26Uma que fica em leitos de enfermaria e outra que precisa de leitos de UTI.
05:31Sim.
05:32Na verdade, o que mudou do início, da última vez que eu tive até agora, o que mudou?
05:36A gente orientava a população, olha, vocês só devem procurar o hospital
05:40se você sentir pressão no peito, falta de ar.
05:43Agora, a gente não está orientando bem mais assim, não, não.
05:47O paciente que está em casa, tá?
05:50Com febre persistente, febre alta, com uma tosse progressiva, tá?
05:56Esse paciente deve procurar o atendimento médio, porque, às vezes, esse limite de piorar, tá?
06:04Ele vai ser diagnosticado numa assistência à saúde, ok?
06:08Esses pacientes que chegam, 80%, 81% desses pacientes geral, realmente são sintomas lérios ou pouco sintomáticos, né?
06:18Nós temos um percentual que é em torno de 20%, 30% desses pacientes vão internar.
06:23E desses, também, a gente achou que no início fosse menos, mas a gente está observando,
06:29e dados daqui e também de São Paulo, de colegas de terapia intensiva,
06:34que chega a ser 30%, 35% desses pacientes estão internando na unidade de terapia intensiva.
06:40Ou seja, está aumentando.
06:42Dos que internam no hospital.
06:44As pessoas que entram no hospital necessitarem de ir para uma UTI.
06:4830%, 35%.
06:49E desses que vão para a UTI, né?
06:52Que a gente falava assim, ah, é 5% a 10% desses que vão para a UTI, que são
06:56os mais graves.
06:57Esses pacientes, geralmente, que estão indo para a UTI, em torno, e aí você vai ter uma diferença,
07:03se é um hospital público ou privado, é um pouco diferente.
07:06Mas esses pacientes, em média, que estão chegando na UTI, em torno de mais de 50%,
07:12estão precisando de ser entubados e ir para um respirador.
07:16Tem hospitais, por exemplo, de São Paulo, que estão em torno de 80%, 85%.
07:20Então, para esses pacientes, não adianta salvar a vida.
07:24Tem que ser um serviço estruturado, uma equipe treinada, especialista comandando,
07:31para você tentar salvar a vida.
07:33Agora, o hospital de campanha, ele é interessante, seria interessante para você colocar esses pacientes,
07:40para você não ter o colapso, colocar eles de uma forma mais moderada.
07:43Aqueles pacientes que estão usando oxigênio nasal, com 2, 3, 4 litros.
07:48À medida que esse paciente piora e ele é entubado, o melhor lugar para ele ficar não é aquela ala
07:54dedicada fora da UTI,
07:55que eles chamam, não é numa enfermaria.
07:58Não adianta abrir enfermaria e colocar esses pacientes.
08:00Esse paciente precisa ir dentro de uma UTI.
08:04Os dados disponíveis no painel da Secretaria de Saúde fazem referência aos leitos de UTI,
08:09que são exclusivos para o tratamento da Covid-19 em hospitais públicos ou então nos eleitos pagos pelo governo do
08:16Estado.
08:17No setor privado está aí mais um panorama por outras regiões.
08:20No Santos Neves, que é uma referência aqui na região metropolitana,
08:24para o tratamento no Estado todo também, porque a gente sabe.
08:26E daqui a pouco nós vamos falar sobre essa transferência de pacientes da Grande Vitória para o interior do Estado,
08:32que preocupa bastante também essa mudança de pacientes.
08:36e está aí uma preocupação, Jaime Santos Neves com mais de 80% da sua capacidade
08:41e hospitais no interior também que estão se preparando para atender com um número menor,
08:46mas também gera uma atenção, né?
08:48E aí você imagina, e tem aumentado no interior do Estado, né?
08:52Está aumentando a população de pacientes que vão precisar de uma UTI.
08:57Muitas vezes esses pacientes, mesmo sem o Covid, sem essa pandemia,
09:01eles eram transferidos para a Grande Vitória.
09:04E agora talvez a gente vai ter que ter o inverso.
09:07Será que vamos ter que alocar leitos no interior e transferir esses pacientes
09:10para os hospitais, muitas vezes distantes?
09:13E você imagina que esses pacientes, eles estão num momento muito crítico de gravidade.
09:18Então, a transferência, tudo isso infere tempo.
09:22E nesse momento, o tempo é vida nesses pacientes.
09:25Os pacientes mais graves, né?
09:28Esse tipo de atendimento pode ajudar a não recuperar a vida.
09:33Pois é, essa é exatamente a preocupação.
09:36Imagina só, essa transferência de pacientes é exatamente o que vem acontecendo, tá?
09:42Vamos falar sobre isso agora, porque tem alguns pacientes que estão sendo transferidos
09:45para o interior do Estado.
09:47Isso já começou a acontecer.
09:50A Secretaria de Saúde informou que em um contexto de contingência
09:54é necessário dimensionar diariamente a oferta de leitos ao perfil dos pacientes.
10:00Disse ainda que durante a pandemia faz parte da rotina a transferência entre unidades hospitalares.
10:06A César ressaltou que eventualmente pode ocorrer a transferência sem comunicação aos familiares.
10:12Isso para garantir o leito para o paciente com maior risco de morte.
10:16Essa medida está garantida numa portaria do Governo do Estado, publicada dia 30 de abril deste ano.
10:22Imagina, gente, o paciente está aqui, olha, na região metropolitana, vai buscar um atendimento no hospital,
10:28já não tem mais leito, ele é imediatamente levado para um hospital do interior do Estado,
10:32ou seja, vai ficar distante da família, mas é lá que tem leito.
10:36Se a gente já não tiver mais leito disponível aonde o cidadão mora, na região que ele mora, né, doutora?
10:42É, mas essa é uma estratégia, uma contingência, um plano de contingência responsável.
10:47Eu acho que o órgão do governo tem que fazer isso, a Secretaria de Saúde tem que fazer isso.
10:51Tem que viabilizar...
10:52Não pode deixar de atender esse paciente, né?
10:54Não pode deixar de atender esse paciente, né?
10:55Tem que viabilizar planos de ação, plano de contingência para atender essa demanda, né?
11:01Aumentar a oferta para atender essa demanda extremamente aumentada.
11:04É aí que é o problema. Por quê?
11:07É nesse momento, é nesse momento que aí a estrutura, como é pandemia,
11:16nada mais está dentro das boas práticas, né?
11:18Se perde isso.
11:20E isso daí, esse desalinhamento aumenta o risco.
11:23Por que que morre tanto, né?
11:24Assim, por que que morrem tanto, né?
11:26E você atender uma UTI com cinco pacientes entubados, de 20 leitos,
11:31com cinco, seis pacientes entubados, em ventilação mecânica,
11:34com essa síndrome de desconforto grave, é uma coisa.
11:37Você atender 10, 15, 20 no ventilador,
11:40mesmo no serviço treinado, com equipe treinado,
11:43porque é multidisciplinar a equipe, isso é complicado.
11:47Os desfechos, os resultados não são tão bons quanto seria se não houvesse a pandemia.
11:52Isso em qualquer lugar do mundo, né?
11:54Não ter como atender a todas as pessoas.
11:57Essa é a maior preocupação de toda a área médica,
12:02o governo do estado pontuando isso.
12:04E a preocupação de todos nós, porque imagina,
12:05se a gente contrair esse vírus, sendo jovem, não sendo jovem,
12:09com problema ou sem problema de saúde,
12:11isso pode acontecer, a gente pode precisar de uma internação,
12:14pode precisar de uma UTI, isso não tiver.
12:17É uma preocupação muito grande, eu acho que com esse crescente agora,
12:21é uma coisa que já estava anunciada, pré-anunciada de acontecer.
12:26E isso é muito complicado, né?
12:30Porque isso vai aumentar mais,
12:32e abrindo-se restaurantes, salões de beleza, sei lá, né?
12:36Mas você vê muita gente.
12:37Eu vim aqui hoje e tem muito trânsito, muitas pessoas.
12:41Então, essa seria, talvez, nesse momento,
12:44um momento de maior fator de risco,
12:47para daqui a semana que vem,
12:49daqui o período de incubação variava uma semana até dez dias,
12:52para aumentar mais ainda os doentes que vão chegar no hospital.
12:56Tchau, né?
12:56Tchau, né?