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  • há 3 semanas
Médico geriatra e intensivista explica como é feito o tratamento de pacientes com covid-19 que são internados em unidades de tratamento intensivo. Ele também alerta para o risco de os idosos estarem mais suscetíveis

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Transcrição
00:00Aqui comigo no estúdio, um médico que trabalha em UTI e atende pacientes com coronavírus,
00:05é o doutor Leonardo Goltara. Boa tarde, doutor Leonardo.
00:08Boa tarde.
00:08Bem-vindo ao Fala Espírito Santo.
00:10Bem, a gente está mostrando aí uma situação de pacientes que contraem essa doença,
00:15muitos vão parar dentro de UTIs, precisam também ou então ficar em enfermarias,
00:20e aí a gente vê já consequências desse período de internação.
00:24As consequências da internação prolongada em CTI,
00:28principalmente a internação em CTI que dura mais do que 5, 7 dias,
00:33elas são muitas.
00:34Os pacientes podem sofrer atrofia muscular, depressão,
00:38além do risco, nós estamos falando do paciente que se recupera,
00:42além do risco óbvio de vida do paciente que está em CTI,
00:46mas para os pacientes que se recuperam, ainda assim eles têm risco de atrofia muscular,
00:52depressão respiratória, de perda de movimentos, de lesões articulares,
00:57isso tudo, lesões de pele, isso tudo é grave e é preocupante.
01:02Pois é, e como é que o senhor trabalha dentro de um hospital particular?
01:06Como é que está a movimentação nas unidades?
01:09A gente mostrou aqui no começo do Fala Espírito Santo a ocupação dos leitos de UTI,
01:13que o próprio governo do Estado já falou que nós estamos numa fase crítica,
01:18ou seja, muitos leitos públicos, de hospitais públicos do Espírito Santo,
01:24já estão com uma ocupação preocupante.
01:26O Espírito Santo tem comprado leitos em hospitais particulares,
01:31que inclusive no hospital onde o senhor trabalha,
01:33foi realizada essa compra do poder público em unidade privada.
01:37Sim, o governo tem comprado leitos privados,
01:41a taxa de ocupação só aumenta, aumenta, aumenta a cada dia,
01:45e o maior problema não é só a taxa de ocupação,
01:48a gente tem tido os hospitais públicos e privados,
01:52a dificuldade até na compra de insumos,
01:55a questão da falta dos ventiladores,
01:57a questão do...
01:59que ainda não está faltando ventilador,
02:02mas se a população não fizer isolamento social, pode vir a faltar,
02:06dificuldades para a compra de remédios,
02:08vários hospitais estão passando,
02:09dificuldades para a compra de medicamentos,
02:11e não é por falta de dinheiro, não é por falta de investimento,
02:14mas por não ter no mercado para vender.
02:17É a história do colapso do sistema de saúde,
02:19onde você tem o recurso, mas não tem o produto sendo vendido,
02:23não tem o produto sendo disponível para você usar.
02:26Está aí uma grande preocupação, né?
02:28Agora, vamos falar dessa ocupação, por exemplo, na unidade.
02:30A gente tem aqui, olha, uma taxa de ocupação,
02:33e aí a gente se refere, gente, a leitos
02:34que estão sendo disponibilizados exclusivamente
02:37para pacientes com Covid-19.
02:40Subiu essa taxa, a gente está em 72,29% aqui no Estado.
02:45E lá no Hospital Último Trabalho,
02:47o senhor tem uma noção, assim, de, olha,
02:50praticamente todos os leitos para Covid estão sendo ocupados
02:53ou não tem um número ainda suficiente?
02:55Não, a gente tem dezenas de leitos destinados à Covid,
03:01estão em franca ocupação, estamos abrindo leitos novos,
03:05e a nossa taxa de ocupação gira sempre em torno de 80%, 90%,
03:09e em determinados momentos chega a 100, chega a momentos que não tem leito.
03:14Ou seja, se alguém chegar lá com uma necessidade de internação dentro da UTI, não será?
03:19Ocasionalmente vai precisar aguardar a liberação de um leito,
03:23de um paciente que tenha alta, que tenha melhorado,
03:27para poder ser hospitalizado no leito definitivo.
03:32Pois é, essa é a grande preocupação,
03:34e é o que o governo vem falando,
03:35já mostramos aí uma fala de hoje do secretário estadual de saúde,
03:40Nézio Fernandes, falando exatamente sobre essa importância do isolamento.
03:43Se a gente não respeitar o isolamento, a situação pode se complicar ainda mais,
03:48porque muitas pessoas acabam sendo infectadas ao mesmo tempo,
03:52e aí aumenta também a procura nos hospitais, né, doutor Leonardo?
03:56Aí a gente sabe que um dos principais fatores que vão levar às complicações da Covid-19
04:02são justamente o não acesso ao sistema de saúde,
04:08não ter o leito definitivo disponível para você ser hospitalizado,
04:14muito mais do que o remédio A, B ou C,
04:17que cada vez mais a gente vem descobrindo que esses medicamentos
04:20ditos salvadores da pátria não funcionam.
04:23Nessa semana tivemos mais um estudo com 96 mil pacientes,
04:27realizado em nível mundial,
04:29que demonstra que determinados medicamentos não só não funcionam,
04:33como aumentam o risco de morte,
04:37e muito mais do que o acesso a essas medicações ditas milagrosas,
04:42que de milagrosas não tem nada,
04:43a grande diferencial é ter acesso ao sistema de saúde.
04:47É o esgotamento do sistema de saúde,
04:49e esse sim é o grande risco da Covid-19.
04:52Pois é, o senhor falou sobre medicação,
04:53a gente teve essa semana, né,
04:55o Ministério da Saúde colocando como protocolo
04:58a utilização da cloroquina,
05:00como um tratamento para pacientes já com sintomas leves da doença,
05:04para crianças, para gestantes.
05:07Aqui no Estado, a cloroquina já era utilizada em pacientes graves,
05:11isso desde o início,
05:12de acordo com a decisão do médico,
05:14ou seja, o médico que atende esse paciente,
05:16ele vê a necessidade de usar ou não uma medicação.
05:20Cada vez mais tem saído estudos,
05:22e essa discussão sobre a cloroquina e sobre a hidroxicloroquina,
05:26basicamente está ficando restrita ao Brasil,
05:28porque no resto do mundo, o resto do mundo já tem muito claro
05:31que a medicação não é uma ótima medicação,
05:35se você tiver malária, se você tiver atrite reumatóide,
05:39para a Covid-19 não serve,
05:40não é uma medicação que vai servir para 99,9% dos pacientes com Covid.
05:46Pode beneficiar eventualmente um paciente ou outro,
05:50mas ninguém sabe quem é esse paciente que pode ser beneficiado,
05:53e, por outro lado, ele pode maleficiar,
05:56pode trazer malefícios para outros pacientes e também ninguém sabe.
06:00Então, é quase uma roleta russa.
06:02A Regina Guiara, aqui na nossa transmissão, fala o seguinte,
06:05pergunta ao doutor Juliana se estão usando a cloroquina.
06:08No hospital onde o senhor trabalha,
06:11tem sido usado cloroquina em alguns pacientes?
06:13O protocolo do nosso serviço não recomenda cloroquina de rotina.
06:18A gente realmente está individualizando a decisão,
06:22mas, assim, estatisticamente dizendo,
06:25a gente pode garantir que a maioria dos pacientes não está usando cloroquina.
06:29A gente tem relatos também de alguns centros de referência,
06:33por exemplo, o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, da USP,
06:37que é talvez um dos maiores polos formadores de ciência no Brasil,
06:42eles não estão usando cloroquina.
06:44O tratamento é realmente tratamento de suporte.
06:47Pois é, e olha, o Ministério da Saúde, gente,
06:50anunciou esse novo protocolo nessa semana para a utilização da hidroxicloroquina,
06:55mas isso se o paciente aceitar usar essa medicação,
07:01isso também está colocado lá,
07:02é preciso uma conversa com o paciente,
07:04uma decisão desse paciente para autorizar a utilização do remédio,
07:08e aí vai dar conversa com o médico, né, doutor?
07:10Vai dar conversa de cada um, eu posso dizer por mim, tá?
07:13Como médico, eu não tenho recomendado cloroquina para os meus pacientes,
07:16e se eu for paciente, eu não vou tomar cloroquina,
07:18porque não vejo benefício, acho que o risco que ela pode trazer suplanta os benefícios.
07:25O senhor que atua dentro de hospitais em UTIs,
07:28coordena até um trabalho na UTI de um hospital particular,
07:32tem aí compra de leitos em hospitais particulares,
07:36ampliação dos leitos já nos hospitais da rede pública,
07:38e a construção de um hospital de campanha.
07:42Como é que o senhor vê, o senhor e esse setor médico,
07:44vê essa possibilidade de ter um hospital de campanha?
07:47Ele realmente é importante nesse momento,
07:49e vai ser um hospital que, a princípio,
07:51seria construído na região noroeste do estado,
07:53não na Grande Vitória, onde estão concentrados a maioria dos casos.
07:58A questão de necessitar um hospital de campanha ou não,
08:01depende de você ter conhecimento da rede toda,
08:03algo que só as autoridades de saúde, as autoridades sanitárias têm.
08:07A gente não tem uma informação sempre aproximada
08:10dos outros hospitais da rede pública e privada.
08:13O hospital, o governo do estado contratou na rede privada,
08:19literalmente, centenas de leitos na rede privada e filantrópica
08:24para atendimento à Covid.
08:25Eu não estou aqui fazendo nenhuma defesa do governo do estado,
08:28não é nada disso, mas isso é uma realidade.
08:30Foi centenas no plural, foram mais de 150, 200 leitos
08:33contratados na rede privada.
08:35Então, assim, eu não tenho conhecimento de toda a rede privada e pública
08:40se está lotado ou não.
08:44Mas o hospital de campanha não é uma coisa tão simples de ser levantado.
08:48Imagine você ter que levantar estrutura física, oxigênio,
08:51ar-condicionado, ventilação, climatização e suprimentos.
08:55E medicamentos e contratar toda a equipe médica, contratar a equipe de enfermagem.
08:59Então, eu penso que essa decisão de usar o hospital de campanha como último recurso,
09:04ela é pertinente por conta de que o hospital é uma estrutura complexa de ser levantada.
09:11Não é uma tenda que você levanta.
09:13Você tem que levar muita coisa.
09:14Para onde você vai tirar o lixo hospitalar?
09:16Como você vai retirar o lixo hospitalar?
09:17Como é o acesso de ambulância para esse local?
09:20Como é que a gente vai retirar os pacientes que eventualmente morrerem?
09:23Os pacientes que complicarem no hospital de campanha, eles vão ser destinados para onde?
09:26Tem uma logística muito grande necessária para fazer isso.
09:30É uma carta que tem que estar na manga, que tem que estar no baralho,
09:33mas não acho que seja uma coisa assim para ser feita no primeiro momento.
09:37Acaba sendo muito mais para aparecer do que para realmente resolver o problema.
09:44A Ivani Sueli, aqui pelo Facebook, está fazendo exatamente o questionamento que levantamos aqui agora.
09:50Por que construíram o hospital de campanha em Colatina, já que é aqui na Grande Vitória,
09:54que estamos aí no limite da capacidade?
09:57Elizabeth Pereira contando que morreu agora um amigo meu, essa doença infeliz.
10:02Essa que é a questão, gente.
10:04É uma doença que a maioria das pessoas se cura, sim.
10:07A maioria se trata em casa, sim.
10:09Mas pessoas morrem.
10:10E aí, quando a gente vê o nome de quem está morrendo, a gente vê isso chegando mais perto,
10:15é muito mais difícil, né, doutor?
10:17Gente, assim, a maioria se cura.
10:20Fato.
10:22Confirmado e negável científico.
10:24Mas se a gente for ver o índice do Espírito Santo,
10:27eu estava vendo o painel do governo do estado ontem,
10:30sobre o índice de morte do Espírito Santo, a gente tem 4%.
10:344% é muita gente.
10:36Imagina se a população do Espírito Santo inteira pegar isso.
10:39São 4 milhões de habitantes, 4% vai dar com 4 vezes 4, 160 mil pessoas.
10:46Gente, 160 mil pessoas é muita gente.
10:49Então, assim, claro, 96% vai se curar.
10:54Mas, assim, é uma brincadeira quase que de roleta russa.
10:58Você vai pegar uma arma, deixar uma bala, ficar brincando com o tambor da arma e menos você atira.
11:03Eu não quero testar, não quero que a população teste se vai estar dentro dos 4% ou não.
11:08A gente quer que todo mundo fique seguro.
11:10Tá aí, olha, a quantidade de pessoas infectadas e as pessoas também que acabam morrendo, né, doutor Leonardo?
11:16É, muita gente morrendo, muita gente contaminada,
11:21muita gente que vai levar meses para se recuperar,
11:26muita gente com sequelas, assim.
11:28Infelizmente, a gente está passando por uma época muito triste.
11:30Pois é, como é uma doença muito nova, as sequelas, como o senhor falou,
11:35a gente vai descobrindo aos poucos, né?
11:37Pessoas que não tinham problema pulmonar passam a ter.
11:41Pessoas que não tinham problema de coração passam a ter complicações coronarianas, né?
11:46Explica um pouquinho para a gente.
11:49O coronavírus, o Covid, não é uma doença exclusivamente do pulmão.
11:53Ela afeta, ela gera uma sepse, uma inflamação sistêmica generalizada.
12:00O paciente, ele é afetado como um todo.
12:03Então, pulmão, coração, rins, cérebro, tudo isso é afetado.
12:09Como a gente dizia anteriormente, a maioria dos pacientes se recupera e sobrevive.
12:14Mas alguns morrem e outros são sequelados disso aí mesmo
12:19e vão carregar sequelas, às vezes, para o resto da vida.
12:21Pois é, lembrando, gente, que aqui no nosso estado a gente tem no total aí 363 mortes,
12:2817 em 24 horas.
12:31Um total de 8.878 casos confirmados, 383 foram de um dia para o outro.
12:39Ou seja, em 24 horas, quase 400 confirmações.
12:43Mais testes têm sido feitos e mais casos também são descobertos aqui no Espírito Santo.
12:48Agora, vamos falar dos números por todo o país?
12:51O Brasil já tem mais de 300 mil infectados pelo novo coronavírus.
12:57Foram mais de 18 mil confirmações em 24 horas.
13:00E, mais uma vez, o país registrou mais de mil mortes diárias.
13:04É a segunda vez que a gente atinge essa marca aí só nessa semana, viu?
13:09Agora, o Brasil soma mais de 20 mil mortes causadas pelo novo coronavírus.
13:14Em todo o mundo, mais de 5 milhões de pessoas já foram diagnosticadas com a Covid-19.
13:20Estados Unidos, Rússia e Brasil, exatamente nessa ordem, são os países com os maiores números de casos, gente.
13:28O doutor Leonardo Gurtado, ele trabalha em UTI, atende pacientes com coronavírus e pode falar exatamente sobre essa realidade que
13:37a gente tem visto ali.
13:38O Brasil já está entre os três com mais casos, doutor.
13:42Isso é muito preocupante.
13:44O Brasil já está entre os três países com mais casos, mas ele não está nem de perto entre os
13:51três países que mais fazem testes.
13:53A gente faz muito pouco teste, proporcionalmente à nossa população.
13:58Isso quer dizer que é muito, muito provável que o número de casos real seja muito maior.
14:05Provavelmente, a gente, se não for o primeiro, o maior país do mundo com mais casos de coronavírus, a gente
14:11certamente deve ser o segundo.
14:13A gente já está nos números de casos oficiais muito próximos da Rússia e ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
14:20Então, assim, o epicentro da epidemia que já foi na China, que já foi na Europa, que já foi nos
14:26Estados Unidos, hoje, infelizmente, esse troféu é nosso.
14:30Pois é, é muito triste a gente ver esses casos aumentando, sendo confirmados, mas é importante a gente destacar aqui
14:38que também não é para a gente alarmar a sociedade.
14:43A nossa intenção aqui é sempre informar, mostrar a gravidade, mas sempre destacando que sim, a maioria das pessoas se
14:51tratam em casa, a maioria das pessoas se curam.
14:54Essa é uma doença que, para muita gente, é uma gripe.
14:57Sim, para muita gente é uma gripe.
15:01Ainda bem, porque sendo uma simples gripe, uma simples doença virótica, uma virose, como se tanto fala por aí, para
15:12a grande maioria, e ela já está causando esse colapso todo no sistema de saúde,
15:15já imaginou o que seria se essa pandemia tivesse um índice de mortalidade, de complicações ainda maior.
15:21A maioria é sim uma virose. Agora, quem vai ser uma simples virose, quem vai ser uma doença grave, a
15:28gente não tem como prever.
15:29E não tendo como prever, se expor essa virose, é um risco bobo, idiota, literalmente.
15:37A Renata Pereira está aqui na nossa transmissão falando o seguinte, tem um filho com autismo e ele está acima
15:43do peso, ele tem dois anos e nove meses.
15:46Falou ainda que ele ama o Michel Bermudes. Todos nós amamos o Michel, viu, Renata?
15:51E aí, ela gostaria de saber se o filho dela, que tem autismo e está acima do peso, é grupo
15:58de risco, doutor Leonardo?
16:00Sim, é acima do peso, ele ainda tem um sistema imunológico em desenvolvimento nessa idade, não é um sistema imunológico
16:08plenamente desenvolvido.
16:11E o próprio fato do autismo, né, tem talvez um desenvolvimento psicossocial um pouco mais lentificado, vai demorar um pouco
16:21mais a ter algumas noções como objetos à boca, etc.
16:23Então, sim, é grupo de risco, sim.
16:26Então, ficar ainda mais dentro de casa, evitar contato com pessoas de fora, sair só em extrema necessidade, né, doutor
16:34Leonardo?
16:34Manter aquelas recomendações que a gente já vem usando sempre. Usar máscara, muita água com sabão, muito álcool gel, sair
16:42só em caso de necessidade, higienizar tudo que entrar dentro da casa, minimizar a circulação de pessoas.
16:47Essas são as únicas medidas que a gente sabe que efetivamente vão conseguir evitar que esse vírus se espalhe ainda
16:55mais.

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