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  • há 3 semanas
Produtor musical e jornalista, Edu Henning entrevistou 260 artistas e personalidades culturais durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. Confira no canal do vocalista da icônica banda Big Beatles lives que abordam desde a trajetória musical a questões curiosas de importantes nomes da música brasileira.

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Transcrição
00:12Opa, entrou agora, entrou, entrou agora, é simples assim, ok?
00:18Beleza.
00:20Legal?
00:21Ótimo.
00:23Vamos, daqui a 4 minutos, 5 minutos a gente faz isso de novo, às 6 horas da tarde eu começo,
00:28você faz isso, ok?
00:30Mas a gente não pode já ficar?
00:32Pode, quer começar logo, vambora.
00:34Não, não, quer dizer, já fica, pra não ter que dar, pode dar uma confusão depois,
00:38eu acho que...
00:41Eu só vou pegar o acê aqui, vou botar você no meu acê aqui, pra não...
00:49Pronto, tamo juntos.
00:51Não é?
00:52Então, ó, daqui a 3 minutos, daqui a 3 minutos...
00:56Não, não, vamos começar agora.
00:58Agora, vamos começar a nossa conversa agora, Nelson.
01:01Não, eu fui criado na Inglaterra, e os Beatles tinham a tradição inglesa, e precisa ter a
01:08coisa da...
01:10Você é absolutamente no horário previsto.
01:13Então, vamos conversar fiado, vamos conversar fiado até as 6 horas, pra gente não desligar
01:21essa porcaria, porque depois a gente não consegue conversar mais.
01:24Nunca mais vai ligar esse negócio.
01:26Olha só, avisando quem tá chegando agora, que esse aqui é o Nelson Alves, nós estamos
01:30há mais ou menos uma meia hora tentando essa conexão, vai pra um canto, vai pro outro,
01:36vai pro outro, vai pra um, e a gente conseguiu, por milagre do divino Espírito Santo, porque
01:41a gente...
01:42Eu sou uma anta tecnológica, Nelson é um grande músico, um grande maestro, um grande
01:48arranjador, mas já percebi que ele é pior do que eu aqui no celular, então vamos tocar...
01:53É completamente analógico.
01:56É, é, Luiz.
01:57Você tá bem, Nelson?
01:59Tudo ótimo, graças a Deus.
02:01Como é que você tá cuidando da tua vida aí, hein, cara?
02:04Como é que você tá fazendo nesse período maluco que nós estamos passando, hein, Nelson?
02:08Pois é, eu, assim como todos os músicos, tivemos o ano cancelado, né?
02:14Foi absolutamente tudo cancelado.
02:18Então, eu me mudei pra Ubatuba, que é uma cidade de praia aqui no estado de São Paulo,
02:22um lugar muito legal, que eu tenho uma casinha aqui há muitos anos.
02:28E daí montei um estúdiozinho pra trabalhar aqui e tô praticamente, me isolei aqui na praia.
02:37Aqui não é, eu acho que é um pouco talvez melhor do que ficar numa cidade grande, fechado
02:42num apartamento, alguma coisa assim, né?
02:45E a única atividade que eu tô tendo, eu não sei se você sabe, Edu, eu sou um dos maestros
02:50de uma orquestra jovem aqui, chamado Orquestra Jovem Tom Jobim.
02:56Aí, quando você fala aqui, você tá falando de Ubatuba mesmo, ou aqui em São Paulo, né?
03:03Ela é parte da Emesp, da Escola de Música do Estado de São Paulo, é financiada e mantida
03:09pela Secretaria de Estado da Cultura daqui de São Paulo.
03:13E é uma orquestra demais, são músicos jovens, tem uma...
03:17É muito difícil entrar, precisa ser muito bom pra entrar.
03:21Então, é uma orquestra de um nível excepcional, mas que tem um limite de idade de 25 anos.
03:28Então, a gente trabalha lá pro pessoal.
03:30Hoje tem gente desde 14 até 25.
03:33E são músicos excepcionais e super afim de tocar.
03:37Então, é uma orquestra deliciosa de trabalhar, são lá 60 músicos.
03:43Então, a gente tem feito muita gravação, tem aquela coisa cada um na sua casa, etc.
03:49E isso tem sido um aprendizado muito legal pra todo mundo.
03:54Mas é a minha, praticamente, a minha única atividade do ano, essas coisas junto com essa orquestra.
04:01Agora, de São Paulo a Ubatuba, que eu chamo de Ubatuba, porque eu já tive várias vezes, só cheguei no
04:07dia de chuva.
04:08De São Paulo a Ubatuba, quanto tempo você gasta de São Paulo a Ubatuba?
04:15Bom, são 250 quilômetros.
04:19Digamos, a minha praia, onde eu moro, envolve um barquinho também, você tem que tomar um barco.
04:25É uma certa confusão que não chega a carro aqui.
04:28Aí, às três horas e meia, eu tô aqui.
04:31Mas você consegue uma internet boa aí?
04:33Como é que você montou esse esquema aí de comunicação com o mundo?
04:36Porque você não tá isolado, a gente tá se falando.
04:39É, então, desde setembro, a gente ganhou uma internet ótima aqui de fibra, etc.
04:45Então, tá dando pra morar, pra trabalhar, pra ficar ligado aqui 24 horas por dia.
04:53Legal.
04:53Nelson, eu queria entender um pouquinho a sua...
04:57Primeiro que todo mundo aponta você como um sujeito de muito bom gosto, de muita sensibilidade,
05:03um cara com arranjos muito elaborados, com uma versatilidade musical enorme.
05:10Mas vamos lá no começo, começo da vida.
05:13O pequeno Nelson Luiz Aires de Almeida Freitas nasce...
05:19Em que núcleo familiar?
05:21Qual foi a relação com a música pra você na primeira infância, dentro de casa?
05:25O que é que te trouxe de influência?
05:27O que é que você ouvia?
05:29Tinha música em casa?
05:30O que o pessoal tocava?
05:31Como é que era o clima do moleque Nelson?
05:34Então, a minha mãe tocava piano razoável, assim, né?
05:39Como eu acho que o pessoal da geração, da década de 30, 40, tinha aquela coisa das moças que tinham
05:48que tocar piano.
05:49Minha mãe tocava bastante bem, assim.
05:53Mas, na verdade, a grande influência da minha vida foi o Luiz Gonzaga, que eu via quando começou a televisão
06:00no Brasil, no comecinho da década de 50.
06:03Eu era criança, tinha 5, 6 anos, adorava ver aquela figura maravilhosa, Luiz Gonzaga, na TV, branco e preto ainda,
06:12ao vivo.
06:14E é engraçado porque a minha avó é pernambucana e ela, de certa forma, meio que obrigou meus pais a
06:23comprar uma sanfona pra mim.
06:25Então, com 7 anos, eu comecei a tocar, entrando na minha primeira escola de sanfona, de acordeon, né?
06:33Na verdade, é coisa técnica, assim.
06:36Então, é mais ou menos por aí.
06:38O meu começo foi via...
06:40Quer dizer, você...
06:42Você tinha sua mãe com aquele piano muito familiar, que era muito comum nos anos 50 e 40, deve ser
06:52a formação da sua mãe.
06:53E aí a sua avó pernambucana se identificava com Gonzagao e fez que seus pais se dessem um acordeon
07:01e que você comece a sua vida musical através de um instrumento tão regional e tão característico do norte e
07:10nordeste do Brasil, né?
07:12Na verdade, nessa década de 50, o acordeon era uma espécie de uma moda, como foi o violão na década
07:19de 60.
07:21Se você contar, os músicos começaram a vida tocando acordeon é um negócio ridículo.
07:28Você pensa, por exemplo, no Wagner Tiso, Milton Nascimento, Edu Lobo, o Francis Heime, o João Donato, toda essa geração
07:42que hoje está com mais de 70 anos, praticamente, o Gil.
07:46Todo mundo começou com o acordeon, porque era a moda da época, né?
07:52É engraçado isso.
07:54Marcos Vale é outra.
07:57É interessantíssimo isso.
07:59Aí você fica no acordeon durante que período?
08:02Porque depois você deve ter ido mais facilmente ao piano, né?
08:06O acordeon te leva ao piano com uma certa introdução fácil, relativamente fácil.
08:13Como é que foi essa transição e quanto tempo você ficou nesse processo?
08:17Pois é, a transição é engraçada porque, apesar da minha paixão pelo Luiz Gonzaga,
08:24é engraçado que você, naquela época, a música popular era uma coisa feia.
08:31As escolas de música não ensinavam música popular, porque era mal visto, tinha que ser piano de música clássica.
08:39Então, eu tive sorte, tive uma professora muito legal, logo de cara, mas na escola tinha aquela coisa de você
08:46tocar Chopin no acordeon,
08:48que é um negócio absolutamente pavoroso, e me cortou a onda totalmente.
08:54E, como tinha o piano lá em casa, de vez em quando eu botava a mão para ver como é
08:58que era.
08:58No fim, acabei largando essa história e apareceu, em São Paulo, o primeiro professor de música popular,
09:07que só ensinava música popular, que era um húngaro chamado Paul Urbach.
09:15E ele dava, basicamente, músicas americanas, um negócio meio...
09:20uns estandards americanos, meio jazístico, assim.
09:24E foi onde eu comecei, agora, de repente, me interessar seriamente por música, foi estudando com esse cara.
09:35Daí, quando eu tinha... isso foi, eu tinha uns 12.
09:37Quando eu tinha 15 anos, na escola, tinha um cara mais velho, que já tinha uns anos na frente,
09:50que sabia que eu tocava, era irmão de uma colega de classe.
09:55Ele falou, olha, eu tenho um conjunto, o nosso pianista sofreu um acidente,
09:58você não quer ir lá tentar tocar no conjunto?
10:01E o moleque de 15 anos foi lá e deu certo.
10:07E é um conjunto que existiu até poucos anos atrás, chamado São Paulo Dixland Band.
10:14Você foi famosíssimo em São Paulo, você fez parte, juntava uma galera atrás,
10:21criou uma atmosfera de fãs seguindo o grupo, não teve um caminho assim?
10:27É, porque é um grupo que durou, nasceu 40, 50 anos, mais, e era de jazz tradicional,
10:34daquele jazz da década de 1920, de New Orleans.
10:38Que eu chamo de jazz e vassourinha, o baterista com a vassourinha, jazz e vassourinha.
10:46É um jazz bem tradicional, que negócio é tipo o Charleston, as pessoas conhecem mais como o Charleston.
10:52E o pessoal adorou, no fim, acabei me dando bem.
10:58E o interessante é que, nesse grupo, como todos os grupos de jazz tradicional,
11:03é baseado em instrumentos de sopro.
11:06E o grupo de Dixlandes, tradicionalmente, tem três sopros, trompete, trombone e clarinete.
11:13E, desde que comecei com essa história, sempre fui muito ligado na história de como esses instrumentos funcionam,
11:22como eles se combinam, o que cada um faz, como é a sonoridade.
11:29Então, isso aí, desde cedo, me chamou para o lado que acho que sou mais ativo,
11:36que é o lado de arranjador, de gostar dos instrumentos, da combinação dos instrumentos etc.
11:42Então, eu tive a sorte de, desde a adolescência, começar a mexer nesse mundo.
11:50Quer dizer, você está me dizendo que hoje você é considerado um dos melhores e mais criativos arranjadores do Brasil.
11:58Você está dizendo que isso começa, na sua alma, a partir da curiosidade,
12:03de saber como é que os instrumentos se encaixavam ali na...
12:06Pô, como é que esse cara vai entrar agora, o outro vai entrar...
12:09Isso te provocou essa curiosidade pueril, juvelil, que te leva, depois, no futuro, ser um arranjador?
12:18Exatamente.
12:19É isso aí.
12:20Quer dizer, eu sempre me considerei mais um arranjador do que um pianista,
12:24porque eu não tive a formação técnica que eu deveria ter tido como pianista.
12:33Então, eu sempre toquei piano, adoro, e até que me dou relativamente bem,
12:41mas dentro de uma linguagem minha.
12:45Para mim, falta, por exemplo, a formação que teve o Hamilton Godoy, do Zimbotril,
12:49o Egberto Gismonti, caras que estudaram mesmo o piano como deve ser, o piano clássico.
12:58E eu já fui direto para o popular.
13:00Então, eu sinto como pianista a falta de um pouco mais de preparo.
13:05Mas, obviamente, a manha do músico profissional vai se encaixando
13:12e dá para resolver bem como pianista.
13:17Mas, eu me considero, mais do que nada, um arranjador.
13:21Inclusive, estou falando...
13:22Agora, Nelson, ao seu redor, você cai num grupo de Dixielandre,
13:28o jazz mais tradicional, mas, ao seu redor, começam a surgir nomes
13:32que deveriam ter, naturalmente, te influenciado naquela época.
13:37Eu penso, por exemplo, no Zimbotril, do Luizinho Eça, por exemplo.
13:41Luizinho Eça foi um cara que influenciou gerações de músicos, uma legião.
13:49Esse tipo de trio, que é o que você, ali na frente, usou, abusou,
13:58trabalhou, criou, recriou, isso estava ali na sua influência de moleque?
14:05Totalmente, porque outra sorte que eu tive, além de ter esse contato
14:11logo de cara com os instrumentos de sopa, outra sorte que eu tive
14:14foi ser adolescente na década de 60,
14:20que era a década musicalmente mais rica que teve na história do Brasil,
14:26com todo o movimento da Bossa Nova, etc.
14:30Então, logo depois de ter começado a tocar esse Dixielandre,
14:36eu já comecei a entrar na história da Bossa Nova,
14:39e tinha muitos shows aqui em São Paulo,
14:42de shows de estudantes, estudantes que gostavam de fazer isso.
14:48E toda semana tinha um show em algum lugar, numa escola, alguma coisa.
14:52Então, eu formei o meu primeiro trio,
14:56do qual fazia parte o Zeca Assunção, super baixista,
15:00que tocou com o Angus, que é Guiberto, etc.,
15:02e é meu amigo desde então.
15:05E a gente tocava nesses shows,
15:07junto com outros músicos iniciantes, estudantes,
15:12que estavam tentando achar o seu caminho na música.
15:17Por exemplo, o Taiguara, o Topinho, o Chico Buarque,
15:22era a turma que fazia esse showzinho de escola.
15:26As irmãs do Chico, que cantavam fazer o corinho para eles.
15:32Era super divertido.
15:35Agora, isso tudo você está falando de 1966, 65, 67.
15:42Esse é o universo dessa turma dos estudantes.
15:45Agora, em 69, você toma uma atitude mais profissional.
15:52Em 69, você vai para os Estados Unidos, vai para Boston,
15:56vai para uma faculdade, para uma universidade de música,
15:59que é a mais poderosa e mais respeitada nos Estados Unidos,
16:03ou uma das mais.
16:04Agora, você vai para a Berkley,
16:07mas você vai como o primeiro brasileiro bolsista.
16:12Cara, eu tenho muita curiosidade.
16:14Como é que um moleque, em 1969, consegue uma bolsa de estudo
16:21para o primeiro brasileiro em Berkley,
16:24que hoje todo mundo quer estudar naquele lugar?
16:26E você foi lá em 69, na cara e na coragem.
16:29Explica isso para mim, por favor.
16:32É o seguinte, a gente já falou disso,
16:36que tocar música popular era feio,
16:38que as escolas só ensinavam música erudita.
16:41E você ser músico era uma coisa muito feia.
16:44Porque, na época, você tinha que ser engenheiro, médico...
16:51Caixa Econômica, Banco do Brasil, Exército, Marinha, Aeronáutica,
16:56nesse universo.
16:58E eu fui estudar administração de empresas na Getúlio Vargas,
17:02na época superescola.
17:03Ainda é, claro, né?
17:05Eu fui da primeira turma do prédio novo lá na Getúlio Vargas.
17:09Estudei até o terceiro ano e daí veio a greve de 1968.
17:14É uma supergreve geral de todos os estudantes
17:17contra o regime militar, etc.
17:21E nós perdemos um semestre inteiro da escola.
17:27Então, foi um semestre, mas as férias anteriores e as férias posteriores.
17:33Então, vai ser oito meses sem escola.
17:36E, nesses oito meses, eu caí de boca na música, claro.
17:38Daí, comecei a fazer de tudo, acompanhar cantor.
17:46Trabalhei com vários cantores e fazia muito jingle.
17:50Trabalhava em estúdio, aquelas coisas todas.
17:53E daí, eu não consegui voltar para a Getúlio Vargas
17:56quando acabou a greve.
17:58Eu já estava com a música no sangue, não tinha mais jeito.
18:03E já estava...
18:04Desculpa, já estava ganhando um troquinho também,
18:07trabalhando com o jingle, acompanhando os outros.
18:08Quer dizer, já dava para pagar a conta,
18:10comprar uma camisa, sair com uma namoradinha,
18:13pagar um cinema, um sorvete.
18:14Quer dizer, opa, isso aqui dá grana.
18:17Então, lógico.
18:18E tudo o que vem junto,
18:20que é você conhecer pessoas,
18:23e você está num show, está numa festa,
18:25não sei o que, você é um músico,
18:28você está em situações ilusitadas.
18:31É muito interessante esse tipo de vida.
18:34Bom, daí comecei a ficar fascinado com a história.
18:38E já desde antes,
18:41como eu te falei, com essa mania de arranjo,
18:43eu descobri que a Berklee School of Music,
18:46de Boston,
18:48tinha um curso de correspondência de arranjo.
18:52Então, comecei a fazer esse curso por correspondência.
18:55Na época, eles te mandavam uma carta
18:58que levava 15 dias para ir.
19:00Um mês para ir, um mês para voltar.
19:03É, você fazia os exercícios,
19:05montava, virava para lá,
19:07daí dois, três meses,
19:09chegava o exercício corrigido.
19:11Bom, eram outros tempos.
19:15Mas aí comecei a fazer
19:16e me interessei pela Berklee.
19:18Comecei a ficar caro, comecei a ficar mais...
19:19E por uma outra coincidência,
19:22tinha uma instituição que chamava
19:26Clube dos Amigos do Jazz aqui em São Paulo.
19:29E eles conseguiram,
19:30não é uma bolsa,
19:31eles conseguiram uma passagem,
19:34uma passagem grátis
19:35para quem ganhasse um concurso lá.
19:37Eu ganhei o concurso.
19:39Falei, bom, ganhei o concurso.
19:41Vamos já passar.
19:42Está paga, tem uma graninha.
19:43E me mandei para a Bosta.
19:47Eu fiz a inscrição lá
19:48e realmente eu cheguei lá.
19:52Agora, essa história de primeiro brasileiro
19:54tem um senão.
19:57Quando eu cheguei lá,
19:59fazia dois dias que tinha chegado
20:01um músico do Rio de Janeiro
20:03para estudar lá,
20:04que era o Vitor Assis Brasil.
20:07Era um super saxofonista,
20:09infelizmente já falecido há muito tempo,
20:11ele morreu muito novo.
20:13Mas, então, eu já cheguei lá
20:15com um outro brasileiro
20:17morando lá
20:17e também para ir para a escola.
20:19Éramos dois brasileiros.
20:21Só que, um detalhe,
20:22o Vitor não conseguia acordar de manhã
20:24para ir na escola.
20:25Ele nunca fez nenhum teste,
20:27nunca passou dinheiro,
20:28nunca fez prova.
20:29Ele ia na escola e ficava lá tocando.
20:32Então, por isso que eu falo,
20:33eu sou o primeiro brasileiro que cursou.
20:35Eu ia na aula, fazia teste,
20:37me respondia, não sei o que,
20:38ganhava nota.
20:39O Vitor não estava nem aí.
20:40Aliás, ele não precisava, né?
20:41Porque ele era...
20:42Eu estava pensando nisso agora.
20:45Um vício daquele
20:46é um cara que nasceu iluminado,
20:49né, rapaz?
20:50Impressionante.
20:51Mas essa é...
20:52Desculpa, completa.
20:53Eu ia falar que o Vitor
20:54foi, eu acho que a pessoa
20:55que mais me ensinou música na vida.
20:57Ele nunca me deu uma aula,
20:59mas o fato de estar tocando com ele,
21:01ver as coisas que ele fazia,
21:03o jeito que ele trabalhava,
21:04ele era um excelente compositor
21:06de temas, etc.
21:08Ele me apresentou muita coisa
21:10de música clássica,
21:11porque o irmão dele
21:12é um grande pianista clássico também,
21:14o João Carlos.
21:16Então,
21:17ele me mostrava discos
21:19e intérpretes.
21:23Abriu muito a minha cabeça
21:24esses dois anos
21:26que a gente conviveu
21:27e tocando juntos,
21:28o tempo todo.
21:29Então, foi uma experiência muito boa.
21:32Foram dois anos
21:33de Estados Unidos, então?
21:36Quase três.
21:37Tá, e como é que você se virava lá
21:39para pagar as coisas?
21:40Tudo bem,
21:41você ganhou uma bolsa,
21:42como é que você pagava,
21:44como é que é a estrutura lá?
21:45Tem lugar para dormir
21:46ou você dormia fora da escola?
21:49Como é que é esse processo?
21:50Explica um pouco.
21:52Não, na época até tinha um lugar,
21:55para os músculos,
21:56para os estudantes.
21:58Na época,
21:59não sei como é que é agora,
22:00quem tinha menos de 18 anos
22:01era obrigado a morar
22:03no dormitório da escola.
22:04eu já tinha mais.
22:06Daí, o diretor da escola
22:08que me recebeu falou,
22:09olha, chegou um brasileiro aí,
22:11ele está morando lá
22:11em tal lugar assim,
22:13procura ele.
22:13Eu fui procurar,
22:14era num porão lá de uma rua
22:16perto da escola,
22:17que ele morava,
22:17tinha dois quartos do porão,
22:19ele estava já morando
22:20num outro,
22:22num quarto,
22:23e no outro quarto
22:23tinha um estudante americano
22:28de arquitetura,
22:29de arquitetura,
22:30procurando alguém
22:31para dividir o quarto.
22:33E o cara superlegal,
22:34eu acabei dividindo o quarto
22:35com esse cara,
22:35eu já fiquei morando lá.
22:38Então, trabalho,
22:40eu acredito que na época
22:41era mais fácil,
22:42porque tinha muito
22:43a busca ao vivo.
22:46Qualquer bar,
22:47qualquer lugar
22:47tinha a busca ao vivo.
22:50Curiosamente,
22:50o meu primeiro trabalho
22:52foi acompanhando
22:52o strip-tease,
22:53na zona mesmo do Porto.
22:55Pois é,
22:56barra...
22:57Pois é,
22:58não era uma barra...
22:59No piano?
23:01Você no piano
23:02e as meninas
23:04tirando a roupa?
23:05É,
23:06na verdade,
23:07tocando o órgão.
23:08E era engraçado,
23:09porque tinha,
23:11na verdade,
23:12duas bandas
23:14que se revezavam,
23:17órgão e bateria,
23:18era isso,
23:19cada grupo.
23:20Dois grupos se revezando.
23:22E cada um acompanhava
23:23cinco meninas
23:25e daí você ficava
23:26sem ter o que fazer.
23:27Então, às vezes,
23:28eu levava a lição da escola
23:30para fazer no intervalo.
23:31Então,
23:32acompanhava cinco,
23:33daí,
23:33enquanto o outro grupo
23:34entrava,
23:35eu ia numa mesinha
23:37para fazer a lição.
23:38E, de repente,
23:39parava a mulher pelada
23:40do meu lado
23:40e falava,
23:41ah, o que você está fazendo?
23:42Ah,
23:43não,
23:43é que eu estou fazendo
23:44a lição da escola.
23:45Ah,
23:45que interessante,
23:46aquelas coisas...
23:48É uma situação
23:49que eu criei.
23:51Mas,
23:51profissional,
23:52todo mundo
23:53estava ali
23:53a fim de ganhar o seu.
23:55Era engraçado.
23:57Vai ver que foi aí
23:58que você
24:01alimentou
24:02o seu
24:03poder de concentração.
24:07Vai ver que está aí.
24:09Pode crer.
24:10Mas daí,
24:11trabalha com cantores também,
24:13etc.
24:14e a gente vai subindo.
24:15As pessoas vão te conhecendo,
24:17vão te chamando
24:17para coisinhas,
24:18para trabalhos mais legais.
24:19Acabei fazendo coisas
24:22bem bacanas,
24:23assim,
24:23com grupos legais.
24:25Você volta para o Brasil
24:27e depois você volta
24:28para os Estados Unidos
24:29novamente,
24:29dessa vez,
24:31seguindo
24:31Ayrton Moreira.
24:32Foi um grupo
24:33que você participou também.
24:34Não,
24:34eu estou trocando as bolas.
24:36Não,
24:37é isso mesmo.
24:40o Ayrton
24:40tinha chegado
24:41em uma posição
24:43muito boa
24:44lá na época,
24:45porque ele
24:46tinha acabado
24:46de ter aquele grupo
24:47com o Hermeto.
24:48E o Hermeto
24:50foi idolatrado
24:51na época
24:52lá nos Estados Unidos.
24:53Eu sou testemunha.
24:55Onde o Hermeto
24:56fosse tocar,
24:58ia todo mundo atrás.
25:00O Bairros Davis,
25:01o Hebb e o Hebb.
25:01Todo mundo ia ver o Hermeto.
25:03A coisa
25:04era muito séria.
25:06Quer dizer,
25:08desculpa,
25:09vamos valorizar
25:11essa conversa,
25:12esse ponto.
25:12Você está registrando
25:14para mim aqui,
25:14para nós,
25:15que Hermeto Pascoal,
25:17quando se juntou
25:19com Ayrton Moreira,
25:20criou um frisson
25:20tão grande
25:21nos Estados Unidos
25:22que os grandes nomes
25:23como Miles Davis
25:25e Herb Hancock
25:27saíam de suas casas
25:29para assistir
25:30simplesmente
25:31Hermeto Pascoal.
25:33Que coisa forte isso,
25:35cara.
25:35Isso é muito forte.
25:36Carter,
25:37todo mundo.
25:38Os caras adoravam ele.
25:40Ele era
25:41um gênio.
25:42Ele é um gênio,
25:43né?
25:43Ele é um gênio.
25:46Na época,
25:47acho que ele estava
25:47até um pouco mais
25:50menos performer
25:51e mais na música.
25:53Era um negócio
25:54muito impressionante.
25:55Deixa eu te dar uma...
25:57Já que estamos aqui
25:57falando de música,
25:58deve ter muito músico
25:59vindo.
26:02Tem uma história
26:02interessante.
26:05o Ayrton,
26:06quando o Hermeto chegou,
26:07o Ayrton estava tocando
26:08com o Canobal Adderley
26:11no grupo dele,
26:12como percussionista.
26:13Então,
26:14ele levava congas,
26:15pandeiros,
26:15tudo o que.
26:16Então,
26:16numa música,
26:17ele pegava
26:18e passava música
26:18tocando congas.
26:20Na outra música,
26:20ele passava música
26:21tocando pandeiro,
26:22acompanhando o baterista.
26:24Daí o Hermeto
26:25foi assistir e falou,
26:26Ayrton,
26:27vem cá.
26:27Não é nada disso.
26:29Porque você fica tocando
26:31nas congas,
26:31você só atrapalha
26:32o baterista.
26:33Fica um rolo.
26:35Então,
26:36faz o seguinte,
26:36você fica esperto
26:37com vários instrumentos
26:40e pega um instrumento
26:41de cada vez,
26:42faz um clima,
26:43vai fazendo cores,
26:44não sei o quê,
26:45e isso vai...
26:47Bom,
26:48Ayrton,
26:48que não é bobo,
26:50pegou a ideia do Hermeto
26:51e começou a fazer isso.
26:53e daí todo mundo...
26:56Opa,
26:56olha que legal.
26:57Duas semanas depois,
26:59ele estava no grupo
27:00do Maris Davis.
27:01O Maris Davis
27:02chamou ele
27:02por causa do grupo dele,
27:04por causa desse jeito
27:04de tocar percussão,
27:06que virou o jeito
27:07de todos os percussionistas
27:08no mundo
27:10tocarem percussão popular.
27:12Um monte de instrumentos
27:13e vai criando os clima.
27:14Quem inventou isso foi
27:16Hermeto Pascoal.
27:18Pô,
27:19que legal isso, rapaz.
27:20Que cabeça no cara, né?
27:22Isso me causado
27:23pela Ayrton.
27:24A gente podia ter contado
27:25que ele que inventou,
27:26mas ele foi muito honesto.
27:28Muito honesto,
27:29muito honesto.
27:30Eu queria te falar...
27:32Eu fiz vários shows
27:33com eles,
27:35foi super legal, né?
27:36Astro de Gilberto,
27:37gente,
27:37trabalhou bastante.
27:38Astro de Gilberto
27:39também foi uma outra
27:40posição importante
27:41no seu trabalho
27:42nos Estados Unidos,
27:43porque ela estava
27:45com a bola toda, né?
27:46Claro.
27:48Na época, sim.
27:49Tá.
27:49Eu me lembro
27:50de um disco,
27:51de um momento,
27:52de um disco não,
27:52de um show que eu assisti.
27:54Eu já assisti
27:55alguns shows
27:56que mudaram a minha vida
27:57e é natural,
27:58assim,
27:58você sai impactado
28:00de um show,
28:01de uma peça teatral,
28:02de um musical,
28:04de um filme,
28:05assistir um filme,
28:06um seriado.
28:07bom.
28:08E eu me lembro
28:09de um show
28:11que eu fui ver
28:11você
28:12e César Camargo Mariano
28:14juntos
28:15nos anos 80,
28:17Prisma,
28:18que foi um dos momentos
28:19mais impactantes.
28:20Que coisa linda
28:21vocês dois juntos.
28:23Uma das coisas
28:24mais bonitas
28:25que eu já tive a oportunidade
28:26de assistir
28:26na minha vida, cara.
28:28Que legal,
28:29que bom.
28:30Pra mim,
28:31foi muito importante também, né?
28:33Foi um show que...
28:34foi o primeiro show
28:35com uso extensivo
28:36de teclados eletrônicos,
28:39computadores, etc.,
28:41que não é bem a minha praia,
28:43é bem a praia do César.
28:45Quer saber como é que nasceu isso?
28:49Então, os grandes amigos
28:51que me convidaram uma vez
28:52para ir almoçar
28:53lá na casa deles,
28:55estavam almoçando,
28:57daí depois do almoço,
28:58conversando,
28:59daí comecei a ouvir um som.
29:01Um negócio assim,
29:02uns sons,
29:03que não era disco,
29:05não era rádio.
29:07Falei pro pessoal,
29:07pô, vocês estão ouvindo isso aí?
29:09O que que é?
29:09O que que será?
29:11Daí o meu amigo falou,
29:12não, é que o César Mariano
29:14mora aqui do lado.
29:17Deve ser ele tocando.
29:19Daí eu fui em cima
29:20do muro, assim,
29:23passei pelo muro
29:24e tava lá,
29:25vi o César na garagem
29:27com a porta aberta,
29:27falei, ô César,
29:29pô, que legal,
29:29não sabia que você...
29:30Ele falou, pô, Nelson,
29:32que legal.
29:33pula o muro,
29:33vem cá.
29:34Daí eu pulei o muro.
29:36E daí que ele monta
29:37os teclados, né?
29:38Falei, pô,
29:39esse aqui eu não conhecia,
29:40a gente comecei a tocar o negócio,
29:41daí o César foi no outro,
29:43tocou no avocinho,
29:44e daí ele pulou pra outro,
29:45e eu também.
29:46Quando eu vi,
29:47a gente tinha passado
29:48quatro horas tocando,
29:49sem parar os dois juntos,
29:51e não tocamos
29:52nenhuma música conhecida.
29:53Ficamos tudo,
29:54só
29:56brincando.
29:56criando,
29:57brincando e criando.
29:59Estava se divertindo mesmo.
30:01Daí,
30:02agora,
30:03falou, Nelson,
30:04não estou pensando
30:05em fazer algum show
30:06de teclados,
30:07vamos nessa,
30:08por favor.
30:11Genial.
30:11Olha as coincidências
30:12da vida, né?
30:14A gente nunca espera,
30:16nunca sabe
30:16de onde é que vem
30:17a próxima,
30:18a verdade é essa.
30:19Não,
30:19e maravilhoso,
30:21Nelson,
30:21foi um dos momentos
30:22mais impactantes
30:23da minha vida,
30:23porque tinha uma,
30:25era simples,
30:27cenograficamente simples,
30:29clean, né?
30:30Os dois,
30:30um de frente pro outro,
30:32uma luz respeitosa,
30:34não tinha,
30:34não era uma luz psicodélica,
30:36não tinha mais,
30:37muito bem iluminado,
30:39e vocês dois,
30:40dois monstros,
30:41um que se propuseram
30:42a fazer na vida,
30:43né, cara?
30:44Então,
30:44é impressionante.
30:45Eu queria que você falasse
30:46um pouco sobre
30:47a música instrumental
30:48no Brasil.
30:50Eu quero falar de cinema,
30:51eu quero falar de produção
30:52de teatro,
30:53de jingle,
30:54coisas que você
30:54até prêmio recebeu,
30:56mas vamos falar um pouco
30:57sobre a música instrumental
30:58no Brasil,
30:59que eu acho que a melhor
31:00pessoa pra falar
31:01sobre esse assunto
31:03é você.
31:04Nós temos um mercado
31:05tão frágil
31:07de música instrumental
31:08e uma música tão rica
31:09brasileira,
31:10que tem a bossa nova,
31:12que tem a MPB,
31:14com uma estrutura
31:15tão melodicamente perfeita
31:17e tão pouco propagado
31:21e, ao mesmo tempo,
31:22quando você vai
31:22numa sala São Paulo
31:24que tá tocando
31:24um Nelson Ares da vida,
31:26tá cheio.
31:29Então,
31:30eu acho que
31:30não é um problema brasileiro,
31:32é uma coisa
31:33do mundo inteiro.
31:35A maioria das pessoas
31:39associam música
31:39com letra,
31:41música popular.
31:43você conhece
31:44aquela música
31:45e fala letra.
31:47Então,
31:47quando a música
31:48não tem letra,
31:50a possibilidade
31:51dela transmitir
31:53é menor.
31:55É normal,
31:56a gente não pode
31:57se queixar disso.
31:59Teve uma época
32:03que a música
32:05tocada,
32:06a música instrumental,
32:07que a gente chama,
32:08tava no rádio.
32:10Você mesmo falou
32:11do Luiz Essa,
32:11do Tamba Trio,
32:13tocava no rádio direto
32:15o Tamba Trio,
32:16o Zingo Trio
32:16tocava no rádio,
32:19Baden Powell,
32:20assim,
32:21hoje nem pensar.
32:22Aliás,
32:22nem cantores bons
32:23tocam no rádio,
32:25só tem porcaria
32:27por causa da...
32:29coisas...
32:30Bom,
32:30é o mercado,
32:32é o mercado.
32:33É,
32:33é um outro assunto
32:34que leva
32:36oito horas
32:37para conversar.
32:38Mas,
32:39a verdade
32:40é que
32:40essa tal,
32:41música instrumental
32:42tem uma importância
32:44epital
32:44porque,
32:45sem ela,
32:46não existe
32:46a música cantada.
32:48Ou seja,
32:48sem os músicos,
32:49sem os arranjadores,
32:50sem os musicistas,
32:54a música não acontece.
32:56Tem o pessoal
32:57que tem que acompanhar
32:58e tem que acompanhar bem.
32:59Então,
33:00a formação
33:01de músicos
33:01é super importante
33:03dentro da cultura
33:05de um país.
33:06Eu diria isso.
33:08economicamente,
33:09não estamos falando
33:10da cultura.
33:11Para o país
33:12ter uma coisa econômica
33:16advindo da cultura,
33:19faz parte
33:20você criar
33:20um alto nível
33:22de performance
33:25de qualquer
33:25atividade artística.
33:27Nós temos
33:28uma sorte
33:30imensa
33:33por um lado
33:34porque
33:37aqui em São Paulo,
33:38pelo menos,
33:39apareceu,
33:40há muitos anos atrás,
33:42o projeto
33:43Guri,
33:43que é um projeto
33:45para pegar
33:46crianças
33:47de comunidades
33:51mais carentes
33:52e fazê-las
33:55aprenderem música
33:57como uma forma
33:58de socialização,
33:59de trabalhar em conjunto,
34:00etc.,
34:01que é muito legal.
34:02Desse projeto
34:03Guri
34:04saiu muita gente boa,
34:06saíram muitos músicos ótimos
34:08e de outras coisas
34:09desse jeito
34:10que foram chegando
34:13em outras
34:15orquestras,
34:16por exemplo,
34:18o Itaú Cultural
34:19mantém
34:20uma orquestra dessas,
34:23e, como eu te falei,
34:24eu trabalho
34:25com uma orquestra dessas
34:26lá na Escola de Música
34:28do Estado de São Paulo,
34:30no Conservatório de Itatui.
34:31Então,
34:32essas pessoas
34:33que começam a formar,
34:34eles têm
34:35para onde
34:35dar o próximo passo.
34:38E, dado esse próximo passo,
34:40tem outras orquestras
34:42e eles vão subindo
34:43e vão montando
34:45suas próprias
34:45vidas artísticas.
34:47Então,
34:48é curioso
34:49que,
34:51como eu comentei
34:52agora há pouco,
34:52eu dirijo
34:53uma orquestra
34:53de 60 músicos,
34:55todos abaixo
34:56de 25 anos,
34:57e,
34:59praticamente todos
35:00são grandes músicos.
35:02Os caras podiam
35:03estar tocando
35:04em qualquer orquestra
35:04profissional,
35:07provavelmente,
35:08a maioria deles.
35:09Tem músico lá
35:11que vem tocar
35:12na minha Big Band.
35:14Entendeu?
35:15É o nível
35:16dos meus amigos,
35:17é a mesma forma.
35:19Então,
35:20é muito gratificante
35:22você ver
35:22que você tem
35:23muita gente
35:24fazendo isso.
35:25Lá no Rio de Janeiro,
35:26você tem
35:27o pessoal do Choro,
35:29que fez aquela
35:30escola portátil,
35:31que é uma coisa
35:33fenomenal.
35:34Tem centenas
35:35de alunos
35:36e gente muito boa.
35:37Você tem
35:38o Nelgibar
35:38na Bahia,
35:39que rola
35:40muito bem.
35:41Em Minas Gerais,
35:43você tem
35:43vários polos
35:45pelo Brasil inteiro
35:46dando educação
35:51através da música,
35:52educação
35:53e socialização
35:54através da música.
35:56Muita gente boa
35:57se formando
35:58e nenhum mercado.
36:01Verdade.
36:03Daí é o grande problema.
36:06Então,
36:06o Brasil
36:08gasta
36:09recurso
36:10para esse potencial,
36:12cria
36:12esse momento
36:14todo,
36:15cria
36:16esse movimento
36:17todo,
36:17perdão,
36:19e quando
36:20esse pessoal
36:20está pronto,
36:23fica perdido,
36:24não sabe
36:24para onde ir.
36:25O país,
36:26o que eles ganharam,
36:27eles não têm
36:27mercado para isso.
36:29Porque
36:29existe
36:30uma
36:32ideia
36:33idiota
36:34de que
36:35arte,
36:38música
36:39e arte,
36:40teatro,
36:40literatura,
36:41seja o que,
36:42é arte,
36:43é cultura,
36:44aquela coisa
36:45meio boba,
36:46que não serve
36:46para nada.
36:47E as pessoas
36:48não veem
36:48que
36:50o principal
36:51motor econômico
36:54hoje
36:55é
36:57arte,
36:58cultura,
36:58entretenimento,
36:59cinema,
37:00é isso.
37:02E o Brasil
37:03não se deu conta ainda.
37:05O Brasil ainda está
37:05preocupado com fábrica
37:06de automóvel.
37:08Isso é uma
37:10loucura.
37:11E,
37:11infelizmente,
37:12nós temos
37:13um presidente
37:14que é
37:16declaradamente
37:17contra qualquer
37:18coisa que tenha
37:19menor cheiro
37:20de cultura.
37:21Ele acha que
37:21são todos
37:22inimigos dele.
37:23Obviamente,
37:24ele vai acabar
37:24sendo,
37:25porque ele está
37:26pedindo isso.
37:27É um cara
37:27que trouxe um capitão
37:28para dirigir
37:29a Funarte.
37:30É o seu recado.
37:31Eu falo,
37:32olha,
37:32isso é o que eu acho
37:33de vocês.
37:36Um dos institutos
37:37mais importantes
37:38de cultura,
37:39eu vou
37:39para um capitão
37:40para tomar
37:41conta de vocês.
37:42Isso é um negócio
37:43ridículo.
37:44Nós estamos jogando
37:45fora um potencial
37:47econômico
37:48absurdo.
37:50É uma tristeza.
37:52E você está
37:53certo,
37:53porque a gente
37:55sabe que a cultura
37:57pode ser...
37:58Talvez
37:58algumas pessoas
37:59com seus
38:00poderes
38:01e canetas
38:02tenham medo
38:03porque sabem
38:05que a cultura
38:05é revolucionária.
38:08a cultura
38:08pode mudar
38:09o Brasil
38:10e a cabeça
38:11das pessoas.
38:12E aí eu acho
38:12que surge
38:13o receio
38:15desse movimento
38:16espontâneo
38:17que nós temos
38:17nos artistas.
38:18Não estamos
38:19falando só
38:20de música.
38:20Cinema,
38:21televisão,
38:22literatura,
38:23teatro
38:24e por aí vai.
38:25Eu não sei
38:26se é tão claro.
38:28Eu não sei
38:28se é tão...
38:30Esse pensamento
38:31assim,
38:32olha,
38:32eles são perigosos.
38:33Eu acho
38:34que é uma falta
38:35de parar
38:35para pensar
38:36no óbvio.
38:37Pode ser,
38:38pode ser.
38:38Veja só
38:39uma coisa interessante.
38:41Entre as duas guerras,
38:42entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial,
38:44quando os Estados Unidos
38:47começam a tomar
38:48o mercado,
38:49a hegemonia
38:50do mercado comercial
38:52e vender os produtos,
38:54tudo,
38:54eles têm os produtos,
38:56têm tudo,
38:56têm tudo bem organizadinho.
38:58Mas o que vai na frente?
39:00O American Way of Life.
39:03É verdade.
39:03A cultura americana.
39:04Com o quê?
39:05Com cinema
39:06e com música.
39:07Eles dominaram
39:08cinema e música
39:09no mundo.
39:10Impuseram
39:11a forma
39:11de eles verem
39:12o mundo,
39:13a economia,
39:14os produtos,
39:15como é que se consome,
39:16como é que se deve
39:17se comportar.
39:18Eles dominaram
39:19isso em dez anos
39:21com cinema
39:22e música.
39:23Não foi
39:23com poder econômico.
39:25Perfeito.
39:26Grande leitura
39:27sua, Nelson.
39:28Grande leitura.
39:28Eu queria falar
39:29um pouquinho
39:29sobre um momento
39:31seu
39:32que você
39:33é responsável
39:34e que funcionou
39:34durante muitos anos
39:35e que você ficou
39:36à frente
39:36durante muitos anos
39:37que foi
39:38a Jazz Sinfônica.
39:39Jazz Sinfônica
39:40é uma orquestra
39:42de jazz
39:43que tinha
39:44cerca de
39:44cem músicos.
39:46E quanto tempo
39:48funcionou
39:48e você,
39:51logicamente,
39:52as coisas
39:53vão girando,
39:54tudo tem
39:55começo,
39:56meio e fim.
39:56como é que foi
39:58esse processo?
40:00Quanto tempo
40:00durou a Jazz Sinfônica
40:01na sua mão?
40:03Então,
40:04a Jazz Sinfônica
40:06foi criada
40:09também pelo governo
40:10do estado
40:11de São Paulo
40:13por uma ideia
40:14do Arrico Barnabé.
40:16Ele falou,
40:17olha,
40:18sempre houve
40:19a tradição
40:20das orquestras
40:21de rádios
40:22e de televisão.
40:24A Rádio Nacional
40:25tinha vários orquestras,
40:26todas as televisões,
40:29a TV Record,
40:30na época dos festivais,
40:31tinha a sua orquestra.
40:34Era uma tradição.
40:36A última orquestra
40:37acho que era
40:38da TV Globo,
40:39que manteve até
40:39quase,
40:40acho que,
40:41anos 90,
40:42alguma coisa assim.
40:43Então,
40:44a Rádio falou,
40:44pô,
40:44se devia recriar
40:46alguma coisa
40:47nesse gênero,
40:48nessa tradição
40:48tão brasileira
40:49de uma grande orquestra
40:51fazendo música popular,
40:52não tocando música
40:53de compositores
40:55europeus
40:56mortos.
40:57Vamos fazer uma coisa...
40:59E, obviamente,
41:02num país
41:03que tem
41:03a música popular,
41:06não vou dizer
41:07que é a melhor
41:07do mundo,
41:08mas pelo menos
41:08a mais diversificada
41:10do mundo,
41:10nenhum país
41:11do mundo
41:11tem uma música
41:12popular
41:13tão diversificada
41:14quanto tem o Brasil.
41:16E acho que,
41:16particularmente,
41:17acho que nenhuma
41:17tem uma música popular
41:18melhor do que a nossa também.
41:20Mas isso é
41:21a minha visão.
41:22quer dizer,
41:23eu acho que nós temos,
41:24o Brasil,
41:25particularmente,
41:26tem que ter uma orquestra
41:29que seja isso,
41:30que não é uma orquestra
41:31de sinfônica
41:31tocando o Beethoven.
41:33Tem que ter uma orquestra
41:34que toca
41:34e xinguinha,
41:36e Ernesto Nazaré,
41:39e Lenine,
41:40e lá sei o quem.
41:41Tem que tocar
41:42a nossa música.
41:43E a jazza sinfônica
41:44nasceu assim.
41:45Ela nasceu
41:46nos anos,
41:47no começo do filme,
41:48em 1990,
41:50e eu fiquei com ela
41:51desde 1990
41:53até 2000.
41:54Passei 10 anos
41:56como um dos regentes,
41:58uma certa época
42:00como diretor artístico,
42:02e foi muito bom.
42:04Aprendi a reger
42:04a cursa dos meus amigos,
42:06da orquestra,
42:07que eu sou maestro
42:08favoroso,
42:08nunca tive uma aula,
42:09mas, enfim,
42:11se aprende lá,
42:14estar na frente
42:15da orquestra,
42:15foi muito bom,
42:16e deu uma outra
42:17revisão da coisa.
42:19E a coisa do arranjo,
42:22os maestros
42:23da jazza sinfônica
42:24são convidados lá,
42:24não porque são bons maestros,
42:26mas porque são bons
42:27arranjadores,
42:28que é o grande problema
42:30de uma orquestra
42:30de música popular.
42:32Eu tive o prazer
42:33de dividir lá
42:35a orquestra
42:35com o Ciro Pereira,
42:38o Luiz Arruda Paz,
42:39grandes arranjadores.
42:41Foi uma beleza.
42:43Você agora
42:44recentemente
42:45reeditou
42:46o Nelson Wilde's
42:47Big Band,
42:49que funcionou
42:50há um tempo,
42:51você deu uma parada
42:52e reeditou
42:53a formação,
42:55a ideia.
42:56Fala um pouquinho
42:57sobre isso,
42:57porque acho que agora
42:58você andou fazendo
42:59algumas lives
43:00com ela ou não?
43:01Ou foi antes
43:02da pandemia
43:02que você mexeu
43:03com a Nelson Wilde's
43:05Big Band?
43:06Não, foi bem antes
43:08da pandemia.
43:08Agora não tem como
43:09a gente se juntar.
43:10É, imagino.
43:14na época
43:15que eu estava
43:15morando em Boston,
43:17em 1969,
43:1870,
43:19alguma coisa assim,
43:21eu sempre
43:21que ia para Nova York
43:22tentava ir
43:24ver
43:25a banda
43:26do Ted Jones,
43:27que é um
43:28super arranjador,
43:28super trompetista,
43:30e que eles
43:31bolaram
43:32um negócio interessante.
43:33Nas segundas-feiras,
43:34que é o dia
43:34que nenhum músico
43:35praticamente está trabalhando
43:36e que quase
43:37todos os bares
43:38estão fechados,
43:39eles conseguiam
43:40um lugar lá
43:41para juntar
43:43os músicos
43:44só para se divertirem.
43:46Então,
43:47mas era
43:47a fina flor
43:48da sociedade musical
43:50nova iorquina.
43:51Você pode imaginar
43:52o nível
43:54dos caras, né?
43:56Quem você quiser
43:57passou por lá.
43:59Grandes arranjos,
44:01espetaculares,
44:02divertidos,
44:03era um tríbal muito bom
44:04e eu fui várias vezes
44:07assistir
44:07essa big band.
44:09Daí,
44:09quando eu voltei
44:10para o Brasil
44:11em 72,
44:13alguns músicos
44:15profissionais
44:15me procuraram
44:17para passar
44:18o que eu tinha
44:19aprendido lá.
44:21E quando eu falo
44:22dos músicos profissionais,
44:22era também
44:23o top de linha
44:24de São Paulo, né?
44:25Os melhores caras,
44:27porque até lá
44:29continuava
44:29não havendo
44:30escola
44:30de música popular
44:32no Brasil.
44:33Era feio,
44:34só podia aprender
44:35música clássica, né?
44:37A primeira
44:37escola é de 73,
44:39que é a escola
44:40do Zimbotril.
44:41Bom,
44:42daí eu comecei
44:43a fazer
44:44alguns
44:46encontros
44:47com esse pessoal
44:47para a gente
44:48discutir coisas
44:49e a gente sentiu
44:50necessidade
44:51de um laboratório.
44:53Então,
44:54eu falei,
44:54vamos fazer
44:55o que eles fazem
44:56lá,
44:56de ficar na segunda-feira,
44:57achamos um bar
44:58e botamos uma big band,
45:00cada um escreve
45:00o seu arranjo,
45:01todo mundo
45:01improvisa,
45:02todo mundo
45:02dá.
45:04Então,
45:05eu lembro
45:05que no primeiro dia
45:06tinha
45:07a banda,
45:08acho que nove
45:09pessoas,
45:11namoradas,
45:12esposas.
45:13Familiares mais próximos.
45:15É,
45:15no segundo dia
45:16tinha umas 20 e poucas
45:18e na terceira
45:19vez
45:20estava lotado
45:21e ficou lotado
45:22durante 10 anos.
45:24Toda segunda-feira
45:25a gente mudou
45:26de lugares,
45:28mas a big band
45:30continuou
45:30e tinha vários
45:31músicos jovens
45:32que eu
45:34assistia,
45:35claro.
45:36Bem,
45:37daí o mundo
45:38gira,
45:38a banda
45:39na roda
45:39e a banda
45:40acabou.
45:41E há uns
45:42cinco anos
45:43atrás,
45:45alguns desses músicos
45:46que iam assistir
45:47a big band,
45:48o pessoal mais jovem,
45:51me procuraram,
45:52falaram,
45:52vamos reeditar
45:53aquela big band
45:54lá,
45:55foi tão legal.
45:56Falei,
45:57pessoal,
45:58não tem jeito.
45:59Olha,
46:00o que eu até falei
46:01para eles,
46:02três centímetros
46:03de cada lado
46:04é por causa
46:04de big band.
46:05Dá muito trabalho,
46:08esquece,
46:09que eu falo,
46:09não,
46:10faz assim,
46:10você faz os aranjos
46:11e a gente faz
46:12todo o resto.
46:14Bom,
46:14já ficou mais confortável.
46:16Já ficou legal.
46:18Então é isso,
46:19e daí começamos a tocar
46:20e a big band
46:21está tocando.
46:22Estava tocando
46:23até o começo
46:24da pandemia
46:26e gravamos o disco,
46:27fizemos muito festival,
46:29muito show,
46:30não deu para tocar
46:31uma vez por semana fixo
46:32porque agora
46:33a situação é outra.
46:34Mas fizeram
46:35bastante coisas
46:38muito legais
46:38e tem uma coisa
46:39interessante,
46:41voltando
46:42àquele aspecto,
46:44é muito raro
46:45uma big band
46:45em qualquer lugar
46:47do mundo
46:47tocar duas vezes
46:48com a mesma formação.
46:50É verdade.
46:51Porque tem um músico
46:51que está ocupado
46:52com outra coisa
46:54e manda um substituto,
46:55não sei o quê.
46:57E eu fico muito impressionado
46:58porque quando eu comecei
46:59a tocar,
47:00eu conhecia
47:00todos os músicos
47:01de São Paulo.
47:03Conhecia todo mundo.
47:04E hoje,
47:05de repente,
47:06chega na minha big band,
47:07aparece um cara
47:08que eu nunca vi
47:09na minha vida,
47:10um moleque
47:11de vinte e poucos anos
47:14tocando pra caramba.
47:15Eu vi substituir
47:17o fulaninho.
47:19Na primeira vez,
47:20eu tremia na base.
47:21Falei,
47:21nossa,
47:22essas partituras
47:22são difíceis.
47:24Os caras sentavam ali
47:25e comiam aquilo
47:26com farinha,
47:27faziam uns super sólidos.
47:28Falei,
47:29mas nunca ouvias
47:29falar do cara.
47:31De onde é que ele veio?
47:31De Saturno?
47:32Não é possível.
47:34Mas tem...
47:34E não é um.
47:35É um atrás do outro
47:36que aparece.
47:37O nível
47:39é altíssimo.
47:40Eu vou ligar uma luz
47:42que está começando a ficar escuro aqui.
47:44Legal.
47:44Vai lá que nós estamos
47:45na reta final.
47:46Hoje nós estamos conversando
47:47com Nelson Aires,
47:49248,
47:51248 entrevistas
47:52desde que começou a pandemia
47:53e hoje recebendo
47:55o compositor,
47:56arranjador,
47:57maestro,
47:58criador.
47:59Eu chamo
48:00ativista cultural
48:01Nelson Aires.
48:04e estava acertando
48:05a luz ali.
48:06Isso.
48:07Melhorou,
48:07piorou,
48:08está ótimo.
48:09Talvez esteja ruim
48:10para você.
48:11Está bom,
48:12está bom.
48:13Estamos te vendo bem.
48:14Ninguém apareceu
48:15uma luz atrás
48:16que ia atrapalhar.
48:17Contra a luz
48:17atrapalha.
48:18Nelson,
48:20quantas trilhas
48:21para cinema,
48:25teatro,
48:26televisão
48:27você já assinou
48:28na vida?
48:28Você tem noção
48:29disso?
48:31Ah,
48:32difícil,
48:33né?
48:33Longa-metragem
48:35deve ter sido
48:36talvez uns 12,
48:37assim,
48:38né?
48:39Teatro,
48:40não tanto,
48:41mas eu fiz
48:41algumas,
48:42várias peças
48:42musicais,
48:43etc.
48:44Eu trabalhei muito
48:45fazendo comercial
48:46de televisão
48:47e aí foram
48:49alguns milhares,
48:50várias centenas,
48:51no mínimo.
48:54Muita,
48:54muita coisa.
48:55Muito,
48:56muito emblemático
48:58e muito premiado
48:59nessa área
48:59de trilha
49:00para televisão,
49:02para comerciais.
49:03Fiz bastante coisa
49:04de publicidade,
49:05muito,
49:06que teve
49:06bastante retorno,
49:08assim,
49:08muito legal.
49:10E na época
49:11era um ambiente
49:12muito bom
49:12de trabalhar,
49:14o pessoal
49:15das agências
49:15na época
49:16tinha um nível
49:17cultural
49:18muito alto,
49:19assim,
49:20pagava muito bem,
49:21o que era legal também.
49:23Essa realidade
49:24toda mudou
49:25completamente.
49:26Infelizmente,
49:26já não temos
49:28mais
49:28o que era
49:29na época.
49:31Bom,
49:31nós estamos
49:32na reta final
49:33e eu tenho
49:33que te agradecer
49:34muito,
49:34primeiro,
49:35pela sua boa vontade
49:36comigo,
49:36pelo carinho,
49:37pela amizade
49:38e por essa...
49:39Hoje,
49:40as pessoas
49:40não sabem
49:41dos bastidores,
49:42mas nós ficamos
49:42uma boa meia hora
49:44para acertar
49:45tudo.
49:47E eu quero
49:48te mostrar
49:49uma coisa
49:49que eu tenho
49:50pendurada.
49:51Eu tenho
49:52aqui no meu estúdio
49:53uma série
49:54de coisas
49:56penduradas
49:57e guardadas
49:57que eu
49:58coloco
49:59como
49:59algo importante
50:01na minha...
50:02E uma delas
50:02é essa aqui,
50:03ó.
50:05Ah,
50:05então,
50:05Dois Corridos,
50:06que legal.
50:08Então,
50:09esse aqui
50:10é um dos momentos
50:11mais agradáveis
50:11na minha vida
50:12porque
50:12Dois Corridos
50:13usa uma música,
50:14um filme
50:15de Carlos Rechembar
50:17e que tem
50:18a trilha
50:19assinada
50:19por dois monstros
50:20sagrados,
50:22Nelson Aires,
50:22esse que está
50:23conversando hoje
50:24com a gente
50:24Ivan Lins
50:25e num certo
50:26momento,
50:27por obra
50:28do Divino Espírito Santo,
50:30uma das músicas
50:31que vocês fizeram
50:32acaba caindo
50:34no colo da gente
50:34aqui em Vitória
50:35e a gente grava
50:36no estúdio aqui
50:37e vocês incluem
50:38na trilha sonora
50:40e eu vou ser sincero
50:41vou puxar
50:41a Sarvia
50:42para o meu lado
50:42uma das mais
50:44belas cenas
50:44do filme
50:45a cena da chuva
50:47que é a cena
50:48bonita,
50:49o momento
50:49bonito do filme
50:50e aí entra a gente
50:52cantando
50:52uma música
50:53em inglês
50:54que é
50:56faz parte
50:57da trilha sonora
50:58do filme
50:58Dois Corridos
50:59assinada por você
51:01e por Ivan Lins
51:02isso não existe
51:02não tem preço
51:03eu tenho que te agradecer
51:04por essa oportunidade
51:06raríssima
51:07para qualquer
51:08artista
51:09no mundo
51:09estar junto
51:10de você
51:11junto
51:11do Ivan
51:14nesse momento
51:14tão bonito
51:15Nelson
51:15então deixa eu explicar
51:16para quem está ouvindo
51:17como é que aconteceu
51:18isso
51:20o Carlos Weschembat
51:21tinha essa cena
51:22e ele sonhava
51:23em usar o Blackbird
51:26dos Beatles
51:27nessa cena
51:27só que
51:28é um negócio
51:30na época
51:31acho que ele nem podia
51:32os Beatles
51:32não deixavam usar
51:33as músicas
51:34nem que pagasse
51:35uma fortuna
51:36não sei o que
51:37daí o Carlão
51:38falou
51:39para nós
51:40o Ivan
51:41Ivan
51:42você não consegue
51:43compor uma coisa
51:44mais ou menos
51:45desse jeito
51:47ele falou
51:48acho que eu consigo
51:48daí ele fez a música
51:50e falei
51:51pô mas e a letra
51:52daí
51:54eu fiz a letra em inglês
51:56eu sou o letrista
51:57do Ivan Lins
51:58é uma loucura isso
52:01é raro eu cometer
52:02uma letra
52:03em inglês
52:04mais ainda
52:05mas no fim
52:05ficou simpático
52:06bonito
52:08ótimo
52:08daí a gente falou
52:10pô mas
52:11mas aí
52:12quem que vai cantar
52:13precisa ser
52:14bem Beatles
52:14quem é o melhor
52:16grupo de Beatles
52:17do Brasil
52:18daí o Ivan
52:21falou
52:21olha me falaram
52:22que tem um pessoal
52:23lá em Vitória
52:24que arrasa
52:25não sei o que
52:26então chama
52:27os caras
52:28e deu nisso aí
52:30o Big Beatles
52:31acabou tocando
52:32a nossa versão
52:33do Blackbird
52:36brasileiro
52:36no filme
52:37do canal
52:38e entrou
52:38obviamente
52:40no CD
52:42da trilha sonora
52:43do filme
52:44e do lado
52:45de cá
52:45o memorável
52:46com orquestra
52:48que foi muito legal
52:50do lado de cá
52:51bate o telefone
52:52você topa gravar
52:54gravamos
52:55não tem problema
52:56mas olha
52:57eu preciso que esteja pronto
52:59depois de amanhã
53:01aquelas coisas
53:02vocês
53:02que
53:03criadores
53:04sendo pressionados
53:05pelas criaturas
53:06os criadores
53:07e as criaturas
53:08e as criaturas
53:09querem pra ontem
53:10cedo
53:10e aí vocês
53:12a gente preparou
53:13mandou
53:14vocês receberam
53:16com carinho
53:16a respeito
53:17e depois nós fizemos
53:18um show
53:19na Praia de Cambori
53:20com a Orquestra Sinfônica
53:21você
53:23Ivan Lins
53:24e umas 25 mil pessoas
53:26tocando
53:27e cantando
53:28essa música
53:28entre outras
53:29e foi maravilhoso
53:30Léo
53:31Obrigado
53:31Obrigado
53:32Obrigado pelo carinho
53:33de estar aqui conversando
53:34Obrigado pela paciência
53:36e pela disposição
53:37de acertar
53:38tecnicamente
53:39nossa conversa
53:40Isso foi difícil
53:41Eduardo
53:42Essa aí
53:43eu não te perdoo
53:45Mas deu tudo certo
53:47Estamos aqui conversando
53:48não caiu
53:49não fez barulho
53:50não fez ruído
53:50foi ótimo
53:51o melhor é possível
53:52Falou meu velho
53:53te cuida aí
53:57E vamos nos falando
53:58Beleza
53:59Tchau pessoal
54:00Um beijão
54:01Tchau, tchau
54:30Tchau
55:00Tchau
55:30Tchau
56:00Tchau
56:30Tchau
57:00Tchau
57:30Tchau
58:00Tchau
58:30Tchau

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