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O ciclo de violência de mulheres idosas, que são agredidas pelos maridos
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00:00E o ex-companheiro dessa mulher, ele foi preso, tá?
00:02Ontem, depois que ela pediu socorro pra polícia militar.
00:06Segundo a vítima, ela pediu que o ex-marido instalasse uma grade na casa dela,
00:12porque um vizinho viu um homem invadindo o quintal e ela ficou com medo.
00:16Só que o homem não gostou do pedido e simplesmente começou a agredi-la
00:22a terra com mechas do cabelo dela, minha gente.
00:26E ela contou ainda que enquanto apanhava, né, que apanhava muito enquanto era casada.
00:31E continuou apanhando mesmo depois de se separar.
00:36Ela já registrou oito, oito boletins de ocorrência contra o ex-marido na delegacia do idoso.
00:45Mas essa foi a primeira vez que chamou a polícia militar por estar cansada de apanhar.
00:53Gente, depois dos 60, é muito mais difícil pra essa mulher sair desse ciclo de violência.
00:59Você já parou pra pensar nisso?
01:00Vamos lá, pensa no recomeço.
01:02Nessa fase, ainda mais dependendo afetivamente e também financeiramente desse homem.
01:08Os filhos já estão fora de casa e muitas vezes nem sabem dessas agressões.
01:14E esse vai ser o nosso assunto de agora, aqui no nosso estúdio.
01:17Vem cá, participa com a gente.
01:18Eu recebo a psicóloga Aline Hessel.
01:21Muito obrigada, Aline, pela sua participação.
01:23Obrigada.
01:24O doutor Lucas Kaiser, que é advogado, vai explicar pra gente como que nós devemos proceder nesse momento.
01:30Se vai procurar a delegacia do idoso ou se vai até a delegacia da mulher.
01:33Já, já ele vai contar.
01:34E hoje a gente também recebe aqui a dona Carmelita.
01:37Tava até com saudade da senhora, dona Carmelita.
01:39Hoje a dona Carmelita, gente, ela é uma mulher livre, feliz, mas não foi essa a realidade que a senhora
01:47viveu ao longo da vida.
01:49Foram 25 anos sofrendo agressões?
01:52Foram 25 anos, acho que só de apanhar, acho que foram 15.
01:58Depois eu fui, sempre eu achei que isso não estava certo, né?
02:02Se eu falar que eu não tive apoio dos meus pais, eu me...
02:05Meu pai veio várias vezes me buscar, me levar de volta.
02:10Eu não quis ir, porque eu pensei, eu volto pra minha terra, chegar lá, sempre tem alguém da família pra
02:16falar uma coisa, falar outra.
02:18Eu falei, não, eu vou ficar aqui, vou resolver meu problema aqui mesmo.
02:21Sofri, sofri muito, criei meus filhos, apanhando.
02:25Papai vinha me buscar, eu falava que não, e ele falava, não, seu João, não vou fazer mais isso com
02:30ela, não, vai ser tudo bem.
02:32Aí ficava dois, três meses bem, parecia que daí começava tudo de novo.
02:36Papai vinha de novo, aí eu nunca quis voltar.
02:39Até que os filhos foram crescendo, aí eu falei, quando meu filho completar 15 anos, eu separo dele.
02:45Mas ele já tinha sofrido arroto, meu irmão dizia, né?
02:49Aí depois eu separei dele, mas foi uma separação que eu voltei.
02:54Voltei quatro vezes, ele ia atrás, onde eu estava ele me achava.
02:59Voltava com as crianças, dois casados e dois de menor, os meninos foram crescendo.
03:05Aí voltava pra ele, ele sempre fazia a mesma coisa, e teve um dia que eu falei, não, não quero
03:09mais isso pra mim, não.
03:10E quando eu completei 45 anos, não, 44, por aí eu separei dele de verdade.
03:18Daí dois anos ele faleceu, ele nunca me deu pensão pros filhos.
03:22A gente foi na justiça, disse que tem, ele falou que ia ajudar.
03:26Nunca ajudou, nunca deu nada.
03:27Eu, como sempre, trabalhei, né, faxineiro, fazendo crochê, lavando roupa pra fora, fiz de tudo pra não...
03:34Nunca abandonei meus filhos, tinha o maior medo de perder meus filhos.
03:38Na separação, aí o juiz perguntou o que que ele fazia.
03:42Ele falou, eu sou pedreiro, então o senhor vai dar pensão aos filhos do senhor.
03:45Não, não posso não, porque eu não tenho carteira assinada, não vou dar, não, o senhor vai dar sim.
03:49Mas ele nunca deu.
03:51E a senhora faz o quê?
03:52Eu falei, meu Deus, quando eu falar que eu sou faxineira, ele não vai deixar eu ficar com os meus
03:56filhos.
03:56Tinha o maior medo, o maior medo eu tinha.
03:59Aí na hora ele perguntou, a senhora da Ana Carmen, a senhora faz o quê?
04:02Eu falei, eu sou faxineira.
04:03Eu falei, trabalho faxineira.
04:05Aí ele falou, então a senhora vai ficar com os filhos da senhora.
04:07Ele falou, não, deixa os meninos comigo, não.
04:08Ela vai ficar, porque o senhor é um alcoólatra, o senhor não pode ficar com os filhos.
04:13Aí eu fiquei com os meus filhos.
04:14Tinha um com nove anos, outro com treze, dois casados, aí eu criei meus filhos.
04:20Que bom que a senhora, de alguma forma, conseguiu abrir os olhos a tempo e sair dessa relação.
04:27Já, já você vai contar pra gente como que foi, como é que você conseguiu sair de vez, tá?
04:32Segura essa resposta aí, mas antes, Aline, a gente sabe que a violência contra a mulher,
04:37ela está presente em várias classes sociais, em várias idades, mas a sensação que a gente tem
04:44é que quando acontece com a terceira idade, ela é mais silenciosa, Aline.
04:50E por quê? Boa tarde.
04:52Boa tarde.
04:53É um grande desafio a gente considerar, principalmente a cultura, a educação,
04:59o ambiente em que muitas mulheres cresceram, escutando uma série de ameaças,
05:04seja ameaças sobre a, talvez, incompetência dela de dar conta da vida profissionalmente,
05:12ou da vida com os filhos, ou cuidar de uma casa, né?
05:16Então, fica, muitas mulheres crescem com essa crença de serem incapazes de constituir
05:22a sua própria vida profissional e pessoal.
05:24Hoje em dia, não que não haja violência, mas nós, mulheres, estamos mais empoderadas,
05:31mais informadas sobre essas questões e por isso que se há mais denúncias, né?
05:37Não é que há menos violência, há mais denúncias.
05:41Mas muitas mulheres mais velhas têm a crença de que a culpa é delas com relação àquela violência,
05:47de que elas não vão conseguir sair daquele ciclo de violência
05:51e, principalmente, a dificuldade de ver esperança ou uma vida melhor sem aquele companheiro.
05:58Principalmente porque ele também reforça essa crença de forma sedutora,
06:03de que ele vai proporcionar tudo de melhor para ela.
06:05Porque o abusador não é o tempo todo violento.
06:09Ele tem um momento da sedução, da conquista daquela mulher,
06:12onde faz ela acreditar de que a vida vai ser diferente, mas não vai ser.
06:17Se trata também de uma geração, resumindo a sua fala, Lini,
06:20que enxerga o marido como uma autoridade na casa e não como um companheiro.
06:26Porque, vamos lá, vamos pensar assim,
06:28hoje, as mulheres jovens que a gente mostra os casos,
06:33elas têm coragem, nem que seja de gritar pedindo socorro para o vizinho.
06:37E a gente está falando agora de uma geração que aguentava isso calada
06:42e naturalizava isso dentro de casa.
06:45Aquilo era comum, se tornava frequente.
06:47E a gente vê que essa geração ainda existe, né?
06:50A dona Camilita está aqui para contar essa história.
06:52Sim, e é uma geração que via o casamento como a única possibilidade de crescer na vida.
06:59Então, nós mulheres, essas mulheres de uma geração mais antiga,
07:04tinha a crença de que o casamento era a salvação.
07:06E o valor da separação, o valor pessoal, era muito diferente do que é hoje.
07:13Hoje, a gente se separa e isso não nos faz menos mulheres ou menos pessoas por conta disso.
07:19Mas, durante muitos anos, as mulheres tinham a crença de que o se separar faziam delas mulheres piores,
07:26desquitadas, não eram aceitas no meio social, não eram aceitas na igreja, não eram aceitas em uma série de lugares.
07:33E isso gerava muita insegurança e medo, além, claro, da questão financeira,
07:39que muitas mulheres têm esse desafio, né?
07:42E aí, eu acho que o doutor aqui vai poder contribuir com a informação sobre...
07:46Será que é isso mesmo, né?
07:48Será que as mulheres que dependem financeiramente do homem
07:52têm como única solução financeira permanecer numa relação abusiva?
07:57Que é o que a gente, inclusive, precisa cobrar mais políticas públicas
08:02voltadas para essa faixa etária, a terceira idade, que vamos lá.
08:07A pessoa, às vezes, não trabalhou, que é a realidade de muitas,
08:12não tem aquela experiência no mercado de trabalho e se vê completamente dependente desse homem.
08:19E aí, se mantém naquele ciclo de violência.
08:22Agora, doutor, explica pra gente, primeiro de tudo,
08:27qual é o primeiro local que essa mulher, essa idosa, deve procurar?
08:32Ela vai direto para a delegacia da mulher?
08:33Vai direto para a delegacia do idoso?
08:35Explica pra gente.
08:36Pois é, boa tarde, Roberta.
08:37Nesse caso, em específico, existem as duas legislações, elas protegem essa vítima.
08:42Nesse caso, tanto o Estatuto do Idoso, de modo que ela poderia procurar a delegacia do idoso,
08:47nesse caso, como a Lei Maria da Penha, como ela estava numa relação de violência doméstica,
08:52então ela também poderia procurar a delegacia da mulher,
08:54as duas teriam a condição, pelo menos inicialmente, de oferecer essa proteção a essa vítima.
09:01Digo isso porque as duas legislações se aplicam ao caso dela,
09:05no caso de uma mulher e idosa, quer dizer, maior de 60 anos de idade.
09:09Inclusive, você se referiu à questão patrimonial, muitas vezes, alguém que não trabalhava,
09:14que durante toda a sua vida, ela se dedicou ao cuidado dos filhos, em muitos dos casos.
09:18O Estatuto do Idoso, ele garante a essa mulher, inclusive, o pensionamento.
09:22Em caso de um divórcio, uma separação, ela pode ter em seu favor uma pensão,
09:28justamente pelo fato de não ter podido trabalhar, digamos assim, durante toda a sua vida,
09:32porque ficou responsável pelo lar, ficou responsável pelo cuidado dos filhos,
09:36ou algo semelhante, algo dessa natureza.
09:40Mas, tanto a delegacia da mulher como a delegacia do idoso poderiam oferecer essa proteção.
09:45Tanto que as medidas protetivas da Lei Maria da Penha podem ser aplicadas também ao Estatuto do Idoso.
09:51Não há nenhum problema nesse sentido.
09:53O fato de ser uma idosa, a pena pode se agravar também?
09:57Sim, sem dúvida nenhuma.
09:59O Estatuto do Idoso, ele traz na sua legislação, na sua redação, crimes que são praticados contra os idosos,
10:08em sua maioria violências do tipo moral, patrimonial, violências psicológicas, sobretudo.
10:13Agora, num caso de violência física, que foi o que ela sofreu durante muitos anos, o próprio Código Penal traz
10:20essa previsão.
10:21E no próprio Código Penal, no artigo 129, que trata do crime de lesão corporal, para nós nos resumirmos à
10:26violência que ela sofreu,
10:27a violência física, ele traz uma previsão tornando a pena mais severa quando esses crimes é praticado numa relação de
10:34violência doméstica.
10:34Então, a pena desse agressor é, sim, mais severa.
10:36Dona Carmelieta, você, no seu caso ali, você tinha o apoio, então, do seu pai.
10:42Ele te incentivava a agir de que maneira? Separar?
10:46Não, ele queria me levar de volta, né?
10:49Com certeza, eu tinha, na época, eu tinha um filho, eu nem estava grávida do segundo.
10:54Ele me perguntou, você está grávida? Se estiver, vamos também.
10:57Eu não quis ir.
10:59Eu não queria voltar para a minha cidade.
11:01Eu falei, não, volto para lá com o filho.
11:03Que eu vi as outras meninas virem para a Vitória, voltar com o filho, e era muito falada.
11:08Lá em São Gabriel, antigamente, nossa, uma mulher separada, uma mulher mãe solteira,
11:14eu falei, não quero ser mãe solteira, não queria, não volto.
11:17É o que a Aline falou, né?
11:18Não queria ser mãe solteira.
11:19A separação, ela era praticamente condenável, né?
11:22Pior do que a própria violência dentro da mulher, não na sociedade, né?
11:26Eu ia ficar falada lá na boca do povo, eu não queria, então, eu sofri por isso.
11:32E como que você decidiu, chegou um momento que você falou que, mesmo que ficasse mal falada?
11:41Eu separei dele uma vez, comprei até um terreno para mim, ele foi atrás, fez eu entregar o terreno,
11:47mas ele mandava em mim, eu fazia tudo o que ele queria.
11:51Depois eu prestei atenção nisso, não está certo.
11:54Aí foi onde eu fui no juiz, separei dele de verdade, nunca mais voltei para ele.
12:00Ele não deixava eu estudar, eu queria estudar.
12:03Não, vai estudar não, que você vai arranjar homem lá na escola, ele disse que ia arranjar homem.
12:07Tinha um ciúme, um ciúme doente.
12:10Depois que eu separei dele, eu estudei.
12:13Eu separei dele, eu era bem mais nova, tive uns 45 anos por aí.
12:17Aí, com 56 anos, eu voltei a estudar.
12:21Aos 56 anos?
12:23Terminei o ensino médio, eu tinha 60, 61 anos quando eu terminei o ensino médio.
12:29E estudei todo dia para a escola.
12:32E com ele eu não podia ir, sair tranquilo, hoje eu vou onde eu quiser, graças a Deus,
12:37só Deus mesmo que me manda.
12:38E seus filhos assistiam tudo isso?
12:41Tudo, tudo.
12:42Meu filho não gosta nem de falar, quando eu começo a falar, não, mas esquece, eles viram tudo.
12:47Pois é, Elina, é muito importante a gente ouvir esse relato da dona Carminita,
12:51porque a partir do momento que a gente cresce no ambiente, com o pai e com a mãe brigando,
12:56ou então os netos, já que a gente está falando, focando especialmente na terceira idade,
13:01os netos, olha as consequências que isso pode trazer para toda a família.
13:07Quantos netos já presenciaram o avô agredindo a avó?
13:13Isso ajuda a naturalizar essa violência, esse machismo que a gente está tentando desconstruir diariamente?
13:22Exatamente, Roberta.
13:23A criança, o jovem, ele tem o exemplo dos pais e dos adultos com quem ele convive,
13:29é a sua principal referência.
13:30Então é muito importante os adultos envolvidos com aquelas crianças
13:34ficarem atentos às próprias ações, o que faz, o que não faz,
13:37porque isso vai servir de modelo para aqueles futuros adultos.
13:40Se uma criança cresce num ambiente onde há violência, onde a mulher sofre violência doméstica,
13:47essas crianças vão crescer com esse hábito, com essa naturalização.
13:53Então o menino vai achar no direito de que pode bater na mulher quando crescer,
13:58e a menina vai achar natural se um homem bater nela por motivo que for.
14:04Então é importante as mulheres terem consciência não só do limite que devem colocar
14:10para a violência que elas sofrem, como também o exemplo que elas estão dando para os próprios filhos.
14:15Não é culpabilizando a mulher, a culpa é do agressor.
14:19Mas a importância dessas mulheres aceitarem ajuda, procurarem denunciar,
14:24e sair o quanto antes dessa relação.
14:26O repórter Rodrigo Schroeder, que acompanhou esse caso hoje de manhã,
14:32ele falou sobre a situação dessa senhora depois da prisão do ex-marido.
14:35E olha, gente, é muito triste para essa mulher recomeçar. Vamos ver.
14:40Com ele preso, foi uma vizinha que esteve lá no local levando café da manhã para ela.
14:46Ela disse que o remédio, ela consegue ligar às vezes,
14:50pega numa farmácia popular e toma a medicação que ela precisa,
14:55mas que arroz e feijão, e essa frase me marcou muito,
14:59não é qualquer pessoa que vai dar para ela.
15:01Então, me marcou muito esse caso e eu espero que, assim como ela,
15:05outras mulheres também tenham coragem, rompam com a violência e denunciem.
15:10Olha a dependência dessa mulher.
15:13A gente está falando ali do básico, do arroz e do feijão.
15:16Doutor Lucas, como fortalecer uma mulher como essa,
15:21que tem um histórico desse, que como você mesmo já disse,
15:25foi dedicada à família, não tem um relacionamento com o mercado de trabalho,
15:30como é que a gente pode fortalecer para que ela saia desse ciclo?
15:35Qual é o papel do Estado?
15:36O Estatuto do Idoso, quando ele traz essa proteção integral ao idoso,
15:42ele coloca não apenas na família, mas também na sociedade e no Estado,
15:46esse dever de prestar a esse idoso ou a essa idosa, no caso,
15:53abrir essas portas, quer dizer, todos os mecanismos necessários
15:56a, por exemplo, recolocação ou colocação dessa mulher no mercado de trabalho,
16:00caso ela nunca tenha se inserido por qualquer motivo que seja.
16:03Então, a própria legislação assegura esse direito e dever,
16:09direito dessa vítima e dever do Estado, da sociedade e da família,
16:13para garantir mecanismos de acesso ao mercado de trabalho, por exemplo.
16:16Vamos finalizar a informação que você já trouxe,
16:19que ela teria direito, então, à pensão.
16:21O que tem que ser comprovado para que ela tenha direito à pensão?
16:24Nesse caso em específico, ela vai, através de alguma assistência,
16:31ela vai registrar, levar ao conhecimento dessa autoridade policial
16:35toda essa violência da qual ela é vítima e, através, então,
16:40do registro dessa ocorrência, dá-se início a uma persecução criminal,
16:44uma investigação para se apurar toda essa violência sofrida
16:48e, através disso, então, é possível pedir ao judiciário
16:52a implementação daquelas previsões trazidas na legislação,
16:56dentre as quais o pensionamento.
16:58Então, esse agressor, sendo ele o arrimo de família, na ocasião,
17:02quer dizer, capaz de prover, ele seria obrigado a esse pensionamento.
17:05Mesmo que tenha um trabalho informal?
17:08Sim, mesmo que esse trabalho seja informal.
17:10Porque muitos têm um trabalho informal, faz um bico ali, faz um bico aqui,
17:14ainda assim ele tem que cumprir com essa obrigação.
17:16Isso, sem dúvida nenhuma.
17:18O judiciário determinaria o pagamento de pensão
17:20a partir das possibilidades daquele prestador, por assim dizer.
17:24Então, uma vez demonstrado que ele, ainda que com bicos,
17:27que um trabalho informal é dali que ele ofere, todo o seu rendimento,
17:31parte daquele rendimento seria direcionado a essa vítima.
17:35E aí, se a mulher não tem condições financeiras para pagar um advogado,
17:39o próximo passo dela é procurar a defensoria pública, doutor?
17:43A defensoria pública, exatamente.
17:44O registro dessa ocorrência, ela pode se dirigir simplesmente à delegacia.
17:50Então, é um impulso necessário para que essas medidas comecem a ser tomadas,
17:55por assim dizer.
17:56Mas é sempre importante ter esse acompanhamento,
17:58esse acompanhamento profissional.
18:00Na impossibilidade de arcar com um advogado particular,
18:04a defensoria, sem dúvida nenhuma, é o melhor caminho.
18:06A gente vai ver agora um depoimento muito forte da Carla Oliveira.
18:09Você deve se recordar do que aconteceu com a mãe dela.
18:12A mãe da Carla, gente, foi vítima de feminicídio aos 68 anos de idade.
18:19Vamos ver.
18:20A minha mãe foi assassinada no dia 10 de agosto do ano passado,
18:26pelo marido dela.
18:29Ele cerrou o pescoço dela com a saco de serra.
18:33Então, eu estou aqui pedindo a vocês,
18:37que é filha, que é mãe,
18:39que preste atenção nos maridos das suas filhas, das suas mães, das suas avó.
18:47Porque a gente convive com a pessoa
18:50e a gente não sabe o que é.
18:52A pessoa, hoje, ele está tratando você bem.
18:56Amanhã, pode acontecer.
18:58Deus me livre e guarde, porque eu penso que não aconteça.
19:01Pode acontecer o que aconteceu com minha mãe.
19:03Eu sinto muita falta dela.
19:06Ele teve a coragem de matar ela com a faca de serra no pescoço.
19:10A dor é muito grande.
19:12O dia passa, mas a dor não passa.
19:16É muito forte, né?
19:18E esse é o ápice da tragédia, do assunto que nós estamos falando aqui hoje.
19:24Dona Carmelita, em algum momento,
19:26a senhora chegou a sentir medo, assim como a Carla relatou agora?
19:31A senhora achou que pudesse morrer naquele dia?
19:34Eu ia morrer.
19:34Ele dormia com a faca de baixo.
19:37Eu não dormia.
19:39Eu fazia faxina o dia todo, aí chegava em casa, né?
19:42Os meninos mais velhos ficavam com os mais novos, né?
19:46Naquele tempo não tinha problema igual hoje, né?
19:48Aí levava os meninos para a escola, ele batia nos mais velhos.
19:53E na hora de dormir, eu não dormia.
19:55Quando eu fechava, ele dormia em cama para lá e eu dormia para cá.
19:58Quando eu fechava, ele querendo dormir, eu tomava aquele susto, assim,
20:01Meu Deus, ele está com a faca debaixo da cama, ele vai me matar.
20:06Aí eu não dormia direito.
20:07No outro dia eu ia sair, ele me batia de manhã.
20:10Quando eu saí para trabalhar, eu ia com o olho roxo,
20:12chegar lá em Jardim da Pana, eu fazia faxina, o olho roxo.
20:15As meninas trabalhavam com as moças, né?
20:17Eu falava, Dona Carmelita, larga desse homem.
20:20A senhora é uma mulher, uma mulher bonita.
20:22Ela falou, a nova, a senhora está nova, não fica com esse homem.
20:26Aí foi indo, foi indo, até que eu separei, depois de muito tempo.
20:29Aí ela contou que a mãe dela sofreu muito com o pai dela e nunca separou do pai dela.
20:35Naquele tempo, né? Não separava.
20:37Aí foi passando, passando o tempo, até que eu falei, não, agora não fica esse homem.
20:41Aí eu tive a decisão de separar de verdade.
20:45Aí foi onde eu criei meus filhos e fui trabalhando, sempre trabalhei, paguei meu INSS.
20:51Não recebi pensão de marido, que eu disquitei dele.
20:55Eu trabalhei, paguei, trabalhei em duas empresas.
20:58Quando eu saí das empresas, eu fui pagar meu INSS particular e fazia faxina.
21:03E fazia minhas faxinas, fazia meus crochês, como até hoje eu sou crocheteira.
21:08E eu agradeço também muito a Deus que meus filhos não têm esse negócio de bater em mulheres.
21:14Tem as mulheres deles, eles tratam muito bem as mulheres deles.
21:18Graças a Deus, graças a Deus, né?
21:20Agora, que bom que a dona Carmelita já tinha ali um caminho.
21:25Ela tinha as casas que ela dava faxina, ela tinha para quem já vendeu crochê.
21:30Vamos pensar na realidade dessa mulher que a gente mostrou hoje, dessa senhora, com todo respeito.
21:36E aí, se ela não consegue comprovar a renda do ex-companheiro dela, ou seja, companheiro ou ex-companheiro,
21:46ela consegue entrar com benefício de prestação continuada?
21:50É, pois é.
21:51Num primeiro momento, quando o Estatuto do Idoso, ele coloca como dever, como uma possibilidade, receber esse pensionamento,
22:00ele não necessariamente confere essa obrigação diretamente ao companheiro, eventualmente.
22:06Ele confere essa obrigação, num primeiro momento, à própria família.
22:08Então, quer dizer, se outras pessoas da família forem capazes, né?
22:12Houver essa demonstração de que trabalham, de que têm condições de arcar com esses valores,
22:17eles podem também ser obrigados, ainda que não sejam os agressores, né, propriamente.
22:22Eles têm o dever de cuidar dessa pessoa idosa.
22:25Então, outras pessoas da família também podem ser obrigados.
22:29Agora, se não houver ninguém da família apto a essa contribuição,
22:35aí sim se pensaria num auxílio a partir do Estado, através do próprio Estado.
22:40Olha só, a gente tem aqui várias participações, vou ler alguns comentários.
22:44A Maria Usa Alves fala, ai, como eu queria que fosse fácil tudo isso, né?
22:48Está aqui falando que, às vezes, está sendo indicado ir para a delegacia,
22:52mas ainda assim, muitas mulheres sofrem, mesmo com tantas evoluções,
22:56que, inclusive, ela faz um pedido que, na delegacia, a mulher deveria ser assistida,
23:00que falta assistência social.
23:01Também tem aqui o comentário da Maria Helena, né?
23:05A mulher separada, ela era mal vista por todos, inclusive pela sociedade.
23:11Passei por isso e falo com autoridade, me casei com 17 anos e fiquei casada 30.
23:16E, quando separei, perdi todos os meus amigos, inclusive a família.
23:22Agora, é interessante, Aline, que hoje, com essa realidade de idosos que sofrem essa violência,
23:31até os papéis se invertem.
23:33São os filhos, hoje, dando os conselhos para a mãe, né?
23:38Que a gente está sempre alertando aqui, a mãe dando conselho para as filhas.
23:42Não, minha filha, sai fora desse relacionamento.
23:44Mas não, hoje, com essa nova geração, são filhas que falam,
23:47mãe, o que você está fazendo ainda com ele?
23:51É importante, como abrir a mente dessa mãe que pertence a uma outra geração?
23:56Esse é um caminho muito importante.
23:59A gente sempre vê nas crianças e na escola a oportunidade de mudança de uma sociedade.
24:04Então, essa foi uma geração que cresceu nas escolas já com uma realidade informativa
24:09de que não era permitido você vivenciar, você estar numa casa ou numa relação na base da violência.
24:16Então, é natural hoje que essas filhas e filhos orientem as mães, peçam que as mães se separem,
24:24que não permitam que vivam nessa realidade de violência.
24:27E eu acho que o principal aí é dar esse suporte, dar esse apoio, oferecer casa, oferecer dinheiro,
24:33oferecer o acolhimento necessário para que essa mulher saiba que ela pode sair daquela relação.
24:39Ela acredita que não vai ter vida melhor além daquela relação.
24:43Então, ela precisa entender e acreditar e confiar nos seus filhos de que, com certeza,
24:48qualquer coisa, qualquer realidade vai ser melhor do que aquela que ela está vivenciando
24:52numa relação abusiva.
24:54E chega uma hora que nem tem mais amor, né, dona Carmelita?
24:57Fala com a gente no microfone.
24:58Com certeza.
24:58Não tinha mais amor.
24:59Não tinha.
25:00Com 13 anos de casada, eu não amava ele mais.
25:03Não amava.
25:05Foi triste para mim a coisa.
25:07Nem de lembrar, nem de lembrar.
25:08Tem até um comentário aqui.
25:10Nem para lembrar uma coisa dessa.
25:10Olha só, de repente a senhora até se identifique, né, para que você fique mais à vontade em
25:17abrir essa sua intimidade aqui para a gente.
25:20Teve uma pessoa que, a Marlene Brais, ela fala que sofreu quase 20 anos, depois tomou coragem,
25:25resolveu não apanhar mais.
25:27Ela até falou assim, que ela batia também.
25:29Ela falou que não deixava barato, não.
25:30E hoje tem quase 3 anos que ele faleceu.
25:35Muitas vezes a gente vê que a mulher espera por esse momento.
25:41Espera que ele faleça.
25:43Porque já não tem mais amor.
25:44Ela está ali sofrendo, mas também não consegue separar.
25:46Era essa a sua realidade?
25:48Não.
25:48Agora, se eu falar para você que eu desejei que ele morresse aí, nunca desejei, mas
25:52que eu também bati nele e eu bati.
25:54Onde eu dei uma cabada, ele vaciou na testa dele, assim, ó, sangue desceu.
26:00Ele foi lá, chamou a polícia.
26:02Aí eu esperei, a polícia chega.
26:04Daqui a pouco a polícia chega.
26:05Era uma legítima defesa?
26:06Claro.
26:07Porque a senhora falou, olha quem entra aqui dentro de casa.
26:09Ele pegou meus crochês, minhas linhas, derrubou mesa, armário, quebrou minhas louças
26:14todas.
26:15O policial foi embora.
26:16Aí ele ficou em casa.
26:18Ele, ó, você achou que a polícia ia me prender?
26:20Aí continua.
26:21Naquele tempo você ia na delegacia e a polícia não fazia nada.
26:24Mandava voltar para casa.
26:26E aí eu fiquei sofrendo por isso.
26:29Tinha uma delegada que ela falou, ah, a senhora vai para casa e reconcilia com seu marido.
26:34Desse jeito, é uma coisa dessa.
26:38Eram outras épocas, né?
26:40Que hoje...
26:41Era outra época.
26:42Hoje a gente, graças a Deus, a gente vem desconstruindo isso.
26:45Isso é verdade.
26:46Agora, doutor Lucas, para a gente finalizar, vamos falar dos canais de denúncia, porque,
26:50por exemplo, vamos pensar, hoje tem vários aplicativos, né?
26:54Que a gente até mostrou aqui no programa, mas a gente está falando de uma faixa etária
26:58que nem sempre tem acesso ao WhatsApp, não tem facilidade com o mundo virtual.
27:03É, os canais mais divulgados, mais fáceis, ainda são os canais telefônicos, né?
27:10Ou o atendimento presencial, telefones como o próprio 190 da Polícia Militar, 181, 182,
27:16ou comparecimento pessoal até a delegacia, acabam sendo esses canais mais facilitados.
27:21Mas nada óbvio é que se faça o registro de outras formas, né?
27:24Hoje você consegue registrar uma ocorrência, por exemplo, de forma online, né?
27:28Você consegue acessar a autoridade policial também, né?
27:31Através de outros mecanismos.
27:32Mas, sem dúvida nenhuma, essas formas mais, são consagradas, né?
27:39Digamos assim, de acessar essa autoridade policial, ainda são as mais frequentes, né?
27:42As mais comuns.
27:43Tá certo.
27:44E mais, escutem também os conselhos das filhas hoje em dia, né?
27:49A gente fala tanto para as filhas ouvirem também os conselhos das mães,
27:52e hoje a gente está pedindo, fazendo esse pedido especial para que a senhora também ouça
27:56o conselho da sua filha, que não aguenta mais ver a senhora sofrendo com as agressões, tá?
28:03Gente, muito obrigada pela participação de vocês, Aline Hessel, doutor Lucas,
28:07e também a senhora dona Carmelita, que hoje está aqui feliz da vida.
28:10Que bom que essa página virou, né?
28:14Volte sempre, viu?
28:15Tá tão linda de cabelo novo, gente.