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  • há 3 semanas
Crianças sofrem vítimas indefesas do mundo do crime

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Transcrição
00:00A gente vai conversar agora com a Michele.
00:03Os filhos dela estudam perto de onde tudo aconteceu, onde aconteceu o tiroteio.
00:08E ela vai contar pra gente, Michele, boa tarde, obrigada pela sua participação.
00:13Qual foi a reação dos seus filhos no momento, na hora?
00:18Bom, os meus dois pequenos, só um que estuda fora, né, que estuda um pouquinho longe.
00:23A minha filha estuda aí próximo, ela tem 17 anos.
00:26Ela me ligou desesperada, falando bem assim, que foi uma cena de terror.
00:32Que foi uma cena de terror.
00:35Quando começou os tiros todinhos, ela mesma mandou os próprios amigos dela se abaixar dentro da sala de aula.
00:43E depois, todos eles tiveram que correr pro corredor, porque ela foi bem assim,
00:47que a sensação que eles tinham, que os tiros estavam acontecendo lá dentro da escola,
00:51que foi muito barulho, que foi muito tiro.
00:53E como é que ficou o psicológico da sua filha após isso também, Michele?
01:00Ela chegou em casa muito abalada, né, ela chegou em casa desesperada.
01:04Ela não queria ir trabalhar agora para a tarde, porque ela faz estágio,
01:07porque ela estava com muito medo, mas ela não pode faltar.
01:10Mas ela chegou em casa desesperada, eu tive que buscar ela.
01:13Quando eu cheguei lá na escola, os alunos estavam todos desesperados.
01:16Os adolescentes, os jovens, tudo desesperado, um monte de pai lá indo buscar.
01:21E essa não é a primeira vez que acontece, né, Michele?
01:24Não, não. Inclusive, terça-feira passada, meio-dia e 52, o meu filho estava indo para a escola,
01:31teve tiro e ele estava no meio da rua, só se via criança correndo.
01:35Qual a idade desse seu filho que viu tudo isso?
01:3910 anos.
01:4010 anos. Então, quer dizer, a gente está falando aqui de uma adolescente de 17,
01:43que já entende muito bem dessa realidade.
01:46E um filho de 10 anos, uma criança, ele entende quando você fala assim,
01:52Michele, meu filho está tendo uma guerra do tráfico de drogas, ele entende isso?
01:57Sim, ele já entende, ele já fica desesperado.
02:00Ele fez tratamento com a fono, porque pelo psicológico dele ficou tão abalado
02:05que a voz dele não saía direito, ele fez um tratamento.
02:10Mas agora eu vou ter que voltar de novo, porque está prejudicando na fala dele,
02:15por causa desse medo todinho que ele vive por causa dos tiros,
02:18porque está sendo praticamente quase todos os dias está tendo tiro.
02:21O que seus filhos relatam para você no momento, na hora em que está tudo acontecendo?
02:28O que eles demonstram? Qual é a fala deles?
02:31Eles ficam cheios de medo, eles começam a chorar, saem correndo,
02:35eles caçam um lugar para se esconder, porque eles pensam que vai atingir dentro de casa,
02:40que vai pegar neles.
02:42Então, quer dizer que o medo que eles têm na rua é o mesmo medo que eles têm até mesmo
02:46dentro de casa?
02:48Sim, sim.
02:50E como é que fica a sua preocupação de mãe?
02:52Como é que é criar um filho numa comunidade em que isso acontece como você bem disse,
02:59se tem acontecido com frequência?
03:02É complicado, é complicado.
03:03Eles não estão podendo mais ficar na rua brincando,
03:05porque se eles estão na rua, a gente tem que ficar olhando,
03:08mas se a gente ver alguma coisa estranha, a gente tem que botar lá para dentro de casa,
03:11que está complicado.
03:12Fica difícil, né mãe?
03:14Sim, e como fica?
03:15Uma criança de 10 anos, o que ela mais precisa, o que ela merece?
03:18Ela não tem nada que entender de guerra, de tráfico,
03:22não é para pertencer ao universo de uma criança.
03:24O que ela mais precisa é brincar, é ter essa liberdade, ela tem o direito de ser criança.
03:30E olha só, o tráfico de drogas impedindo que o seu filho conheça a infância dele do jeito que merece.
03:40Verdade.
03:41Faz o seguinte, Michelle, continua com a gente, porque a gente vai continuar então agora repercutindo esse assunto.
03:46Assim como a Michelle, imagine uma comunidade conviver com tiros no meio da rua,
03:51na porta da escola, a pessoa ali às vezes indo ao supermercado, saindo com as mãos cheias de sacolas,
04:00imagina, e de repente começa uma troca de tiros, colocando gente inocente em risco.
04:04Essa é a realidade de muitas comunidades aqui na Grande Vitória e é o nosso assunto de agora.
04:12A gente precisa debater esse assunto, vem cá.
04:14Chega comigo aqui, pertinho do nosso estúdio, eu recebo o Marco Aurélio,
04:18ele que é especialista em segurança pública, professor da UVV.
04:21Muito obrigada, Marco Aurélio, pela sua presença mais uma vez.
04:24A gente também recebe aqui a Aline Hessel, que é psicóloga, a gente agradece muito a sua presença.
04:30E também a Melissa, gente.
04:32A Melissa, ela tem um projeto social em Boa Vista e ela vai contar para a gente como que é
04:37essa realidade.
04:39Você escuta, você também mora na região, você escuta.
04:43E isso te assusta também, Melissa, esses barulhos de tiros?
04:47Boa tarde, Roberta.
04:49Obrigada pelo convite para estar aqui.
04:51Eu moro em Boa Vista e hoje pela manhã a gente foi acordado com os tiros e foi 7h40 da
04:59manhã.
05:00As crianças entram na escola às 7h da manhã e aí a gente hoje...
05:04O meu susto ainda foi maior porque os meus meninos estavam na escola.
05:08A princípio a gente não conseguia identificar de onde estavam vindo os tiros.
05:12Mas a gente ficou preocupado se as crianças estavam ouvindo os tiros na escola, porque é bem próxima de casa.
05:20Até então a preocupação era só com o barulho?
05:22É, só se eles estavam ouvindo o barulho, né?
05:25Porque não parecia que estava perto da escola.
05:27E aí, em meio aos tiros, a gente...
05:31O telefone começou a tocar, era a minha enteada que estava na escola.
05:35E aí meu marido falou, olha, a Glenda está ligando.
05:39E aí, quando atendeu, ela falou que...
05:41Pai, está tendo tiro aqui na porta da escola.
05:43E aí a gente entrou em desespero, mas não tinha como sair de casa para ir buscar na escola eles.
05:49E estava a Glenda e o meu filho, as primas, as crianças todas que eu conheço, porque são ali da
05:54região, que são do projeto.
05:56E, assim, foi terrível.
05:58Mas isso vem acontecendo diariamente.
06:01Na segunda-feira, no horário da entrada do projeto, algumas crianças não foram para o projeto, porque estava acontecendo...
06:08Teve dois tiros no horário de 18 horas.
06:12Assim também como ontem teve, à tarde, tiros no bairro.
06:16Então, está assim, diariamente.
06:18Já aconteceu de estar dentro do projeto e a gente ouvir disparos.
06:22Isso abala muito a gente, afeta a gente em todos os sentidos.
06:27Na questão psicológica das crianças, porque, inclusive, o filho da Michelle, ele é do projeto.
06:32E a gente ajudou a família com o tratamento com a fono.
06:37O filho dele não falava, a gente não conseguia entender o que ele estava falando.
06:42E aí, assim, isso...
06:45E aí não é só com uma criança, são várias crianças, porque todas as crianças dali são da região.
06:49Moram ali, estudam ali, moram próximo.
06:53E, assim, acompanham tudo o que vem acontecendo.
06:55A gente desenvolveu um trabalho no projeto que era Minha Vida Não É Uma Droga.
07:00E aí as crianças relatavam no papel o que eles viam diariamente, próximo de casa.
07:08E, nesse papel, saiu que...
07:11Ah, eu já vi tiro, eu já vi o pai de um amigo morto na praça.
07:17Eu vi a mãe de um amigo morrer aqui dentro do bairro.
07:20E foram várias coisas.
07:21Já vi gente vendendo droga.
07:23Então, assim...
07:24Crianças.
07:25Crianças, de 6 a 15 anos.
07:28Aline, criança não era pra estar brincando de bola?
07:31Não era pra estar brincando de boneca?
07:33E aí a gente se pergunta, né, por quê?
07:35O que que acontece que o relato deles é?
07:40Um vizinho que morreu, o tráfico de drogas, o barulho do tiro.
07:44Eles não eram pra estarem vivendo isso, né?
07:46Boa tarde, Roberta.
07:48Infelizmente, não.
07:49Acho que se a gente pudesse ter uma resposta, qual que é o ideal, né?
07:53Qual que é a solução pra esse problema?
07:55Não vivenciar esse problema.
07:58Então, isso acaba sendo uma marca muito significativa pra essas crianças,
08:03antecipando certos amadurecimentos que não precisariam
08:06e trazendo consequências pra toda a vida dela, pro resto da vida dela, com certeza.
08:11E preocupações, né?
08:12Porque criança de 6 anos era pra estar preocupada com isso?
08:14Olha só, o que que essas preocupações podem ir somando na cabeça,
08:19no psicológico dessas crianças?
08:21Olha, Roberta, a gente entende como trauma.
08:23Dentro da psicologia, existe uma definição de trauma.
08:26Não é qualquer coisa que se considera um trauma.
08:28Trauma é quando você vivencia um risco de morte.
08:31Seja você vivenciou aquilo, seja você viu alguém vivenciando,
08:36ou alguém próximo vivenciou isso.
08:38Então, quando há... ou abuso sexual, né?
08:41Também entrou nisso daí.
08:42Isso pode gerar traumas.
08:44E quando a gente fala de crianças estar vivenciando um tiroteio,
08:49qualquer pessoa diante disso se vê num risco de morte.
08:52Então, essas crianças estão vivenciando diariamente traumas
08:56que vão repercutir no futuro delas.
08:59E aí a gente viu na notícia que as crianças se jogaram no chão, né?
09:04Foram pro corredor da sala de aula.
09:07Professor, o que que as crianças devem fazer?
09:10O que que as famílias também dentro de casa devem fazer num momento como esse?
09:13E é muito triste, né?
09:15A gente parar pra pensar que as crianças são educadas hoje
09:17numa tática pra não serem alvos de traficantes.
09:22Então, olha, a situação hoje foi muito séria.
09:27Os tiroteios, eles têm ocorrido com frequência,
09:29mas hoje foi um ponto fora da curva.
09:32E aí o que acontece?
09:34Lógico, se deitar no chão é uma das melhores alternativas.
09:37Mas uma bala de fuzil 7.62, ele atravessa várias paredes.
09:42Ele não atravessa uma parede.
09:44E pelos relatos, pelas informações que eu obtive, né?
09:47Eu também moro próximo, né?
09:49Na hora que eu ouvi, eu identifiquei que me pareciam dois fuzis
09:53e uma ou duas pistolas e me parecia de grosso calibre.
09:58E aí eu tenho alunos, ex-alunos que trabalham na área de segurança.
10:03Entrei em contato e eles falaram, ó, professor, é 7.62 e um 5.56.
10:07São armas muito poterosas que atravessam paredes e paredes, né?
10:14A tragédia não foi maior porque, pelas informações,
10:18o carro não era exatamente dali da região.
10:21Ele passou atirando.
10:23A gente até pode ver nas imagens, né?
10:24Me parece que eles fizeram rajadas assim, de baixo para cima.
10:28Tanto que a gente vê alguns tiros embaixo
10:29e alguns tiros em vidraças, em andares de cima, né?
10:33Lá no campo.
10:35E não foram necessariamente para acertar alguém.
10:38E também não houve confronto dos criminosos da região.
10:43Então, foi meio que um aviso, um alerta do que pode acontecer
10:48dentro dos conflitos que ocorrem entre as facções.
10:53Mas não era nem para ter fuzil circulando dentro de uma área urbana.
10:57É uma pergunta que a gente se faz.
10:59Como que essas armas poderosas vão parar na mão desses traficantes?
11:03Então, nós temos problemas seríssimos no Brasil em termos de fronteira.
11:07Então, as fronteiras do Brasil são enormes e, por isso, é difícil controlar o tráfico de armas.
11:14Esses dias, no condomínio de luxo lá na Barra, tinha 400...
11:17Na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, tinha 450 fuzis.
11:21Então, nós não estamos nem falando de favela nem de morro.
11:24Estamos falando de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca.
11:27450 fuzis.
11:29Então, entra muito fuzil no Brasil, são armas traficadas que entram pelas fronteiras
11:34e que, vez ou outra, também são desviadas, ou do exército, das forças de segurança.
11:39Mas em menor escala.
11:41Os desvios das forças de segurança não me parece que são o grande problema.
11:50Embora ocorra pontualmente e eventualmente, mas o tráfico de armas no Brasil é um problema muito sério.
11:57E aí, você tem um problema que vai se acumulando, porque essa situação não acontece da noite para o dia.
12:03Isso é um acúmulo de situações que vem há décadas.
12:07E a gente está vivenciando algo que é resultado de um acúmulo de situações do passado.
12:12Então, o traficante tem o criminoso, o jovem que está na situação de delito.
12:17Ele tem um fuzil e ele atira para cima da polícia de fuzil.
12:21A polícia não tem como revidar com uma arma de calibre menor.
12:25E aí, é bala perdida, é o que a gente vê lá no Rio de Janeiro.
12:28Porque é isso, uma bala de fuzil atravessa várias paredes.
12:32Então, lá no Rio de Janeiro, a gente tem visto com frequência crianças sendo alvejadas por balas perdidas.
12:38E, bom, no meio do tiroteio, ninguém olha muito bem para onde está atirando, né?
12:42Então, não dá nem para dizer de onde veio a bala, nem sei se isso é uma questão.
12:48A questão é que, seja da polícia ou seja dos outros jovens que estão em confronto, a bala de fuzil
12:57vai acertar.
12:58Pois é, você falou do Rio de Janeiro, na semana passada teve o caso de uma criança que foi vítima
13:02de bala perdida.
13:02E isso não acontece só lá, não.
13:04Então, quantas vezes a gente já recebeu aqui a Francisca, a mãe também do pequeno Tel, que foi vítima de
13:09bala perdida.
13:10A pequena Alice também, são alguns casos.
13:13Graças a Deus, nesse tiroteio que aconteceu hoje em Boa Vista, em Vila Velha, não tivemos vítimas.
13:19Mas, e o medo?
13:21Como é que fica criar os nossos filhos diante dessa realidade, sabendo que a qualquer momento isso pode acontecer?
13:28Deixa eu voltar a falar com a Michelle, que ela participa com a gente.
13:31Michelle, quando isso se torna frequente, o medo, acaba que a preocupação de mãe sempre fica mais evidente naquele período.
13:42Quais são as orientações que você acaba tendo que reforçar com os seus filhos?
13:47Eu procuro não deixar eles na rua, como tem vezes que eu saio fazer faxina, eu deixo ele na casa
13:53da minha mãe,
13:54mas a minha mãe fica com eles trancado, porque a gente não sabe a hora certa que vai ter tiro.
14:01Brincar na rua, você já disse que nem pensar?
14:03Não pode, não pode, nem pode.
14:06O único lugar que eles saem para brincar mesmo é no projeto lá em cima.
14:10É escola, casa, casa, escola? É isso?
14:12Isso, isso.
14:15E você ainda dá alguma orientação?
14:17Caso no trajeto da escola aconteça alguma coisa, o que fazer imediatamente?
14:23Sim, eu mando eles se esconderem ou se jogarem no chão, se tiver algum portão aberto que eles possam entrar.
14:31Você aí de casa, vocês têm noção do que é para uma criança, para um adolescente viver dentro dessa realidade?
14:38Deixa eu aproveitar aqui a presença também da Melissa, que ela lida com várias mães que também sentem esse mesmo
14:45medo, né Melissa?
14:46O que elas relatam para você?
14:50Então, todo mundo está com aquela sensação de medo, né?
14:55Hoje a gente tem um grupo da comunidade e hoje a gente teve vários relatos.
15:00Eu mando meus filhos para a escola?
15:02Eu não mando para a escola?
15:04Ah, mas eu não vou mandar hoje, mas hoje não deve ter mais tiroteio, mas amanhã deve ter.
15:09Ah, vai ter o ano todo.
15:11Então, fica muito assim.
15:12E aí algumas mães até falaram ali, ah, vamos fazer um protesto pedindo mais segurança.
15:18Só que assim, a polícia está na comunidade, mas tem um momento que a polícia sai da comunidade,
15:24porque a polícia não fica ali 24 horas, não tem como a polícia ficar ali 24 horas.
15:28E no momento que a polícia sai, acontece tiroteio.
15:31E a gente agora está com muito, muito medo, porque está acontecendo diariamente, em horário de escola.
15:44A gente não sabe o que fazer.
15:46Pois é, olha só, falamos hoje então, 7h20 da manhã, por volta de 7h20 da manhã.
15:50Vocês também relataram aqui, terça-feira passada.
15:53Ontem teve, ontem teve no final da tarde, 4h e pouco, 5h.
15:58Tem que dizer que vocês falaram aí de meio-dia?
16:00Meio-dia, na entrada dos meninos, meio-dia 40, meio-dia 50.
16:05As pessoas ficam com medo de ir até a comunidade para ajudar no projeto.
16:09Então, assim...
16:10As doações às vezes não chegam?
16:11Não chega, não chega.
16:13Tem mais de mês que a gente está assim, sem receber doação.
16:15Mas as crianças, é um lugar que é seguro, que a gente dá amor, dá carinho, explica o que fazer
16:23para pedir orações, para orar, para falar com Deus, para Deus confortar o coração.
16:28É o momento que as crianças têm de recriação, um lugar fechado, que é o projeto.
16:33Hoje as atividades do projeto foram canceladas.
16:36E aí, Aline, explicar para a criança?
16:39Ela já ouve, ela ouve aqui, ouve ali, ouve na escola.
16:43Ela abriu o jogo para a criança ou não desse mundo tão cruel?
16:47Olha, Roberta, existe o mundo da teoria e existe o mundo real.
16:51Na teoria, a gente apresenta para a criança aquilo que ela está preparada para ouvir de acordo com a idade
16:58dela.
16:58E assim, a gente vai explicando a partir também da curiosidade dela.
17:02Então, só que eu vivo numa realidade que uma criança de 3 e 4 anos não corre o risco de
17:07estar andando na rua e ver um corpo morto.
17:09Então, ela não vai me questionar sobre isso.
17:11Mas numa comunidade, uma criança, infelizmente, vivencia isso com uma certa frequência.
17:17Então, eventualmente, uma criança vai estar andando na rua, vai ver um corpo ou vai vivenciar uma situação como essa
17:23de tiroteio e vai perguntar o que está acontecendo.
17:26Então, a gente precisa trabalhar com a verdade, a gente precisa levar a realidade para essas crianças,
17:33porque elas estão imersas nessa realidade e elas precisam aprender sobre essa realidade.
17:38Mas a gente também precisa ter um cuidado de proteger, de alguma forma, a esperança dessas crianças.
17:44É importante o sentimento de esperança de que as coisas podem melhorar, de que é possível ter um mundo melhor.
17:50É importante a gente cultivar isso nessas crianças.
17:53Então, ao mesmo tempo que a gente precisa levar uma realidade no sentido de, olha, a gente precisa se cuidar.
17:59Não é qualquer hora que a gente pode andar na rua, porque coisas ruins acontecem na rua onde a gente
18:03mora.
18:04Então, a gente precisa se preservar.
18:05Mas, por outro lado, a gente precisa também levar para elas esperanças de que, olha, existem pessoas aqui dentro que
18:12estão lutando para que isso não continue dessa forma.
18:15Existem projetos aqui dentro de pessoas que querem que vocês tenham um futuro melhor.
18:19Então, da mesma forma que a realidade precisa ser mostrada para elas com cuidado, para não minar a esperança e
18:27cultivar essa esperança de que é possível ter um futuro melhor,
18:32apesar de, às vezes, até mesmo a gente duvidar desse futuro.
18:36Triste, né?
18:36E olha só, em nota, a polícia militar informou que, assim que foi acionada, várias viaturas foram enviadas para o
18:43bairro.
18:43O helicóptero do Nota Air deu apoio à operação, mas ninguém foi preso.
18:49Professor Marco Aurélio, como é que fica devolver essa sensação de segurança para uma comunidade, se até agora ninguém foi
18:57preso?
18:57Fica difícil, né?
18:59Então, assim, a polícia respondeu muito rápido, sabe?
19:02Mas é a natureza da ocorrência.
19:05Não me parece que os autores dos tiros fossem pessoas da comunidade, do bairro.
19:10A informação que eu tenho, que condiz até com o próprio registro da perícia, é que um carro veio, passou,
19:17dando várias rajadas e foi embora.
19:20Então, nunca a polícia ia pegar, porque eles passaram e foram imediatamente embora.
19:25E não houve tempo, inclusive, felizmente, não houve tempo dos traficantes da região responderem,
19:32porque senão poderia ter sido muito pior.
19:34E teria sido muito pior ainda se eu tivesse havido confronto com a polícia.
19:38Então, a tragédia podia ter sido ainda pior.
19:41Agora, a gente, às vezes, sobrecarrega a PM, como ela falou.
19:47Não tem como você ter polícia militar ali 24 horas por dia, até porque a cidade é grande e nem
19:52faz sentido.
19:54Nem faz sentido.
19:55Mas num momento crítico como esse, você acredita que ela deveria permanecer no bairro?
20:00Há essa possibilidade de voltar a ter um confronto?
20:03Então, a natureza dessa ocorrência especificamente não demanda.
20:07Não demanda.
20:08Mas por que isso?
20:09São muitas ocorrências muito diferentes.
20:11Então, essa ocorrência especificamente, a PM está tendo o operacional absolutamente correto.
20:18Por que isso?
20:19Não foram pessoas dali.
20:20Elas passaram tirando e foram embora.
20:23Você tem que achar as pessoas que a tiraram.
20:24Então, você tem que mapear por onde aquele carro passou através dos sistemas de inteligência e ir atrás dele.
20:31E não é lá no bairro.
20:33Porque eles sabem mais ou menos o carro que foi, o modelo do carro.
20:36E aí você olha pelas câmeras de segurança, pelos radares inteligentes, pelas câmeras inteligentes,
20:41identifica para onde esse carro foi e vai atrás dele lá.
20:44Então, é isso.
20:45Porque a sensação de segurança, muitas vezes, é ver a polícia lá.
20:48Mas a operação efetiva de segurança, muitas vezes, não está no local da ocorrência.
20:53Está mesmo no desdobramento dela.
20:55Aí que a gente conta com o sistema de inteligência da polícia, para ir exatamente atrás.
21:00E aí tem uma situação, aquela região, o tráfico ali, ele dá muito dinheiro.
21:05Porque ele fica perto de bairros nobres, ele fica perto de instituições de ensino superior,
21:10onde tem jovens de classe média que são o principal mercado consumidor de cocaína.
21:14E a cocaína dá muito dinheiro.
21:16E aí você tem duas situações.
21:18Bom, aqueles jovens têm muito dinheiro.
21:21Então, eles têm muito dinheiro para comprar muitas armas.
21:24Olha aí quem financia.
21:25A segunda situação é, se você tem muitas armas, se você tem muito dinheiro,
21:30você é um ponto atrativo para que outras facções queiram tomar aquele ponto daqueles que detêm aquela facção.
21:37E tem um terceiro elemento, que é o que eles chamam, dentro do mundo do crime,
21:41e a gente ouve muito deles, quando a gente conversa com eles nas pesquisas,
21:46que é a questão da guerra.
21:48Nem tudo tem a ver com dinheiro.
21:49Às vezes, essas guerras têm a ver com uma masculinidade guerreira,
21:54aquela coisa mesmo do confronto, do gosto pela adrenalina, dos confrontos muito masculinos.
22:02Do ego em si.
22:03Do ego guerreiro, do poder, do domínio territorial, do desafeto.
22:10Então, junta tudo isso.
22:11E muito dinheiro, porque é isso também.
22:15Os traficantes têm muito dinheiro, porque tem muita gente comprando.
22:19E ali é um ponto estratégico, porque está próximo de pontos de classe média,
22:24que são grandes consumidores de cocaína.
22:26Muito bem dito, muito bem observado, professor.
22:29A gente vai ver agora o relato da Pauliane Reis.
22:31Ela faz parte de um instituto que fica em uma área de vulnerabilidade,
22:35e ela fala do medo das crianças também, na hora que acontecem os tiroteios.
22:41As crianças que convivem em meio a essa situação de violência,
22:46elas costumam ter um trauma muito grande.
22:49Elas costumam, na visão delas, criar uma autodefesa, que é o quê?
22:54Quando começar o tiroteio, elas tamparem a boca, elas não chorarem,
22:59elas se esconderem, elas têm medo de qualquer tipo de barulho.
23:02No outro dia, elas não querem sair de casa, porque elas não se sentem seguras.
23:05Elas não querem voltar para a escola, porque para elas, a qualquer momento,
23:09elas vão estar no meio de um tiroteio, vão tomar um tiro, vão morrer.
23:14Então, é muito complicado ter crianças, na verdade, qualquer pessoa nessa situação.
23:20Mas, em primordial, as crianças, porque elas gravam, e gravam muito isso.
23:26Isso é uma coisa que elas jamais vão esquecer, e além de esquecer,
23:29elas vão ter trauma pelo resto da vida.
23:31Elas não vão saber o que é a diferença de um fogo por um tiro.
23:35Vão ter medo o tempo todo.
23:38E aí, como é que é conviver com esse medo?
23:40Já parou para pensar?
23:42Essa é a realidade de quem mora numa comunidade, que tem essa guerra,
23:46que encara, que vive mesmo essa realidade do tráfico de drogas.
23:49Aline, como que os pais pensam naquela mãe, no caso aqui da Michelle,
23:55pensam nas mães que a Melissa também falou aqui, que o projeto assiste,
24:00como que elas podem diminuir esses impactos psicológicos?
24:04Tem alguma atividade lúdica para fazer com as crianças?
24:08Olha, Roberta, aí a gente tem que levar em consideração vários fatores psicoeconômicos, sociais.
24:15Se eu pudesse, de mãe para mãe, dar um conselho, seria sai daí.
24:19Saia de um local onde tenha esse tipo de situação.
24:22Mas a realidade financeira, né?
24:23Exatamente.
24:24Esse não é o caminho, muitas vezes, viável.
24:27Até porque também existe uma outra questão.
24:28É importante que a comunidade, que a sociedade, preencha esses lugares.
24:34Porque se a gente também sai, os tráficos, eles preenchem.
24:37Dominam.
24:38Exatamente.
24:39Então, também é importante, por outro lado, isso.
24:41Mas, como eu falei, né?
24:42É bonito, às vezes, falar isso para a família do outro.
24:45Para a minha família, eu não iria desejar.
24:46Então, primeiramente, a orientação que eu poderia dar é, saia daí.
24:50Uma vez não podendo sair, é poder criar pequenas bolhas de proteção.
24:55Então, áreas mesmo de proteção, seja física ou de contato social.
25:00Então, você poder ter a casa, a sua casa protegida da melhor maneira possível, ambientes
25:05protegidos, mapear a sua casa e os riscos que tem em volta para saber aonde é o local
25:11protegido.
25:12Além da sua casa, ter lugares como projetos sociais.
25:16Os projetos sociais são fundamentais nessas comunidades.
25:19A maioria deles, dominado por mães, que precisam estar ali para ajudar e proporcionar ajuda
25:26para essas crianças.
25:27Então, acolhimento, conforto, segurança, palavras de tranquilidade.
25:33Eu sei que a gente se desespera e que, muitas vezes, a gente, sem querer, transmite esse desespero
25:38para as crianças.
25:39Mas é importante que a gente, de alguma forma, transmita para essas crianças segurança, acolhimento,
25:47esperança, amor, de que as coisas podem ser diferentes.
25:51E aí, perceber o ciclo vicioso disso.
25:54Porque esses traficantes estão querendo poder.
25:56E isso é enaltecido, isso é valorizado na comunidade.
26:00Quais outras formas de poder que a gente pode ter e dar esse exemplo para as crianças?
26:04Para, ao invés delas idealizarem ser traficantes um dia, elas terem modelos, exemplos para sonharem
26:12em não ser traficantes, em ser médicos, doutores ou mesmo voluntários ali naquela comunidade
26:18para ajudar outras crianças.
26:19Porque é isso, né?
26:20Ainda tem, ó, a gente chega a se arrepiar.
26:22Ainda tem essa preocupação da mãe que está ali protegendo a vida do filho e aí, ao longo
26:27dos anos, ela também fazer com que esse filho não seja aliciado pelo tráfico de drogas.
26:32Essa é uma realidade muito debatida aqui no programa.
26:36Gente, obrigada pela participação de todos vocês.
26:38Obrigada, professor Marco Aurélio, Aline Hessel, Melissa também, que você consiga transmitir
26:43muito amor para essas crianças, porque é tudo que elas mais precisam nesse momento.
26:47Michelle também, essa super mãe que participou com a gente.
26:50Obrigada, agradeço de coração.
26:52Dá um beijo nas suas crianças, tá mãe?
26:54Um abraço, uma boa tarde.

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