- há 3 semanas
As consequências para crianças que vivem em meio a família na criminalidade
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NotíciasTranscrição
00:00Olha só essa história.
00:02Uma mulher foi presa por tráfico de drogas no bairro Nova América, em Vila Velha.
00:07A guarda municipal chegou até essa mulher depois de uma denúncia anônima
00:12informando que ela estava traficando em casa.
00:15Os guardas, então, foram checar a denúncia e encontraram a suspeita, escuta só isso, gente,
00:21na porta do prédio, fumando maconha.
00:25Os agentes, então, o que eles fizeram? Fizeram o trabalho deles, né?
00:28Fizeram uma busca no apartamento dela.
00:31E aí teve um detalhe que chamou muita atenção.
00:33Parte da droga estava escondida, gente, no quarto dos filhos.
00:37Uma neném, uma neném, gente, de apenas um ano.
00:41E um menininho, uma criancinha de quatro anos.
00:45Essas crianças estavam dormindo no chão, em condições bastante precárias.
00:51Um agente da guarda que participou da ação ficou bastante comovido com essa situação,
00:56com a situação dessas crianças, quem não fica, né?
00:58E olha só o depoimento dele.
01:02A pessoa que deixa duas crianças, um bebê de um ano e um bebê de quatro anos,
01:07dormindo na casa, no segundo andar, e desce para poder fazer uso de maconha,
01:11ela já não está se importando muito mais com os filhos.
01:14A situação comove.
01:15A gente costuma ter um trato mais fino, mais delicado com isso, devido a ser dois bebês.
01:21Mas o trabalho tem que ser feito, infelizmente.
01:24Triste demais, né?
01:26Então a gente vai agora repercutir esse assunto aqui no nosso programa.
01:29Vem cá, senta aí na sua casa, onde você estiver, porque aqui no nosso estúdio,
01:33eu recebo o Alexandre Brito, psicólogo.
01:35Obrigada pela sua participação.
01:37Marcos Paulo, que é conselheiro tutelado, também já participou inúmeras vezes com a gente aqui no programa.
01:43Eu queria que você contasse se casos como esse são mais comuns do que a gente imagina, Marcos Paulo.
01:51Boa tarde, obrigada pela sua participação.
01:53Boa tarde a todos.
01:55Já peguei uns três anos atrás, a gente teve um atendimento parecido.
02:02No BBJ, de Cariacica, onde uma genitora, uma mãe, ela foi presa, né?
02:10Infragante, e naquela ocasião, ela escondeu as drogas na fralda da criança.
02:19Tem uns três para quatro anos atrás, e nós fomos acionados pelo plantão judiciário,
02:27e lá o conselho fez a parte de proteção da criança, tentar achar os familiares,
02:34e encontramos êxito naquele atendimento, e tiramos a criança daquele ambiente que estava ali, né?
02:43Que a polícia tinha nos acionado, o BBJ tinha nos acionado, e deixamos essa criança na ocasião até com a
02:52avó materna.
02:53Mas o caso que aconteceu recentemente, ontem, mas isso aí acontece corriqueiramente.
03:02A gente tem pego casos absurdos acontecendo com nossas crianças, principalmente crianças abaixo de 10 anos,
03:10nesse início de ano, nesses 10 meses de 2022, a gente tem pego casos absurdos acontecendo com nossas crianças.
03:18Não só agressões, como também casos de abuso, e casos semelhantes a esse que aconteceu aí também.
03:25Crianças inocentes, pessoas que ainda estão descobrindo o mundo, que não tem nada a ver com essa história.
03:32E aí eu me coloco no lugar dessas criancinhas, eu fico pensando, tento me imaginar na situação delas,
03:39diante dessa situação, vendo a mãe ainda ser detida.
03:43A mãe é o que? Tudo pra gente? Na verdade, qual é a expressão dessas criancinhas?
03:50Muitos não entendem, né?
03:53A reação que tem é a reação de susto, de ficar apavoradas.
03:59Mas a polícia, a guarda, ela está ali também para fazer o trabalho dela,
04:03e também acionar os outros órgãos de defesa.
04:07O Conselho Tutelar é um órgão de defesa.
04:09Então, ali, naquele exato momento, o guarda municipal, ele, enquanto autoridade competente ali,
04:17naquele exato momento, ele achou a vizinha ali, muito próxima às crianças, e deixou com a vizinha.
04:26Mas, eu creio que se ele não tivesse encontrado essa vizinha ali, ele automaticamente acionava o órgão tutelar,
04:33porque, já que a mãe estava sendo conduzida em fragante para a delegacia,
04:38então, eles teriam que acionar o órgão tutelar para passar essa parte para o órgão tutelar,
04:43fazer a parte de proteção da criança, que é localizar um familiar de família extensa.
04:49Em último caso, quando no Conselho, quando o órgão tutelar é acionado,
04:54em último caso, quando não é, não encontramos nenhum parente,
05:00infelizmente, o que nos resta é colocar no acolhimento institucional,
05:07porque não encontrou nenhum familiar naquele exato momento,
05:10nenhuma pessoa do grau parentesco para deixar,
05:13e aciona a justiça em 24 horas, fazendo a notícia, de fato, do Ministério Público,
05:20acionando a vara da infância,
05:21para depois a equipe técnica da vara e do serviço de acolhimento fazer esse trabalho.
05:27Mas, olhando ali a reportagem, os guardas municipais,
05:32com medida de proteção, deixou com uma vizinha,
05:35que provavelmente essa vizinha deve ter acionado parentes para estar entregando essas crianças.
05:40Que dó, né, Alexandre?
05:41Depois a gente se pergunta por que a gente vê o resultado disso lá na frente,
05:46quais são as consequências diretas e indiretas,
05:49que tanto esse ambiente que essa criança cresce pode acarretar na vida dela,
05:54quanto essas cenas que elas presenciam a mãe sendo detida,
05:58o que está acontecendo com a mãe?
06:00Quais são as consequências que isso pode trazer?
06:03Pois é, Roberta, isso não é sem consequências como você está trazendo,
06:06e são várias as possíveis consequências, né?
06:10Tanto as consequências de um familiar que talvez esteja fazendo uso de substância,
06:15a gente não sabe se estava amamentando, por exemplo,
06:18que também pode haver esse prejuízo quanto à saúde da criança.
06:23Pode expor também à criança alguns riscos, se houver esse tráfego que circunda essa região.
06:29Então, o ambiente acaba também trazendo alguma vulnerabilidade e riscos,
06:33tanto para a saúde e dignidade da criança,
06:36quanto para a questão da saúde mental dela também.
06:38Você também não sabe se ela tem alguma relação com o abandono.
06:45Se tiver, isso também pode gerar marcas na criança,
06:48porque nessa idade, a criança geralmente espelha os seus pais.
06:52Então, se os pais estão passando por uma dificuldade com dependência química,
06:56no caso, um uso de drogas,
06:59se o pai ou a mãe tem um comportamento mais agressivo,
07:02uma raiva, uma tristeza,
07:04seja o que for, a criança se sente da mesma forma.
07:06Então, isso também é um outro risco para o desenvolvimento.
07:10Então, tem riscos, tanto para o desenvolvimento do corpo,
07:13por causa da substância,
07:15a exposição, mesmo que passiva a essas substâncias,
07:18e também a toda a relação do desenvolvimento com os pais,
07:24esse afastamento, essa agressividade ou essa tristeza,
07:27enfim, seja o que for, esse espelhamento que pode haver ali na família.
07:30Agora, a gente vai conhecer, gente, a história do Jonathan.
07:34Escuta só isso.
07:35Aos 18 anos, ele começou a usar drogas.
07:38Na época, ele admite que chegou a fazer o uso, gente, de drogas na frente do filho,
07:42mas hoje mudou completamente de vida.
07:45Não é isso, Jonathan?
07:46Boa tarde.
07:46Obrigada pela sua participação aqui no Fala Espírito Santo.
07:50Olá.
07:51Boa tarde, gente.
07:53Tudo bem?
07:54Tudo jóia.
07:55Tudo presente.
07:58Por um momento, eu vivi dessa forma que você acabou de expor,
08:03que é esquecer de quem estava ao meu redor e começar a fazer coisas ilícitas em frente, né?
08:10Justamente por causa do que eu estava vivendo no momento,
08:14que era influências de pessoas próximas a mim,
08:16que acabou me influenciando.
08:18Eu me deixei se influenciar.
08:21E aí você chegou a esse ponto, né?
08:24Isso, para você, não te impedia.
08:26Mesmo ali na frente do seu filho, que na época ele era um bebê, não é isso?
08:30É porque o momento que eu estava vivendo ali era um momento de ilusão, eu hoje entendo.
08:35Era um prazer, um prazer momentâneo, que no momento ali que você está mais jovem, né?
08:43Você não, às vezes, não observa esses pequenos detalhes que lá na frente
08:48pode fazer muito mal para a sua família que está próximo de você.
08:52Hoje eu tenho essa consciência porque eu passei por uma situação que me fez refletir muito na minha vida.
08:57E graças a fatores maiores, como Jesus entrando na minha vida,
09:02eu consegui abrir, despertar minha consciência e tomar uma atitude enquanto ainda eu tinha tempo.
09:07Ao contrário de um irmão que eu tive que se influenciou também nessa vida
09:12e não tomou nenhuma atitude para mudar o quadro da vida dele lá na frente.
09:17Infelizmente, eu perdi ele.
09:18Mas o que eu mais entendo hoje é que influências influenciam.
09:24Pessoas que têm uma capacidade de influenciar se a outra pessoa que está ao seu redor
09:28não tiver uma mente centrada, aprender desde o início da sua infância o que é certo e o que é
09:33errado.
09:34Bem claro, né?
09:35Que é aquela questão da consciência do que é certo e o que é errado.
09:38Ela pode ser influenciada sim.
09:40E tem um fator que ele acabou de dizer aí, eu acho que é o psicólogo, né?
09:44Ele falou que é o fator espelho.
09:46Tem até um velho ditado que diz, né?
09:48Diz com quem você anda que eu vou dizer quem você é, na verdade.
09:51E isso influencia, influencia muito.
09:55E aí, o que que te fez, né?
09:57Você já citou alguns fatores, mas qual que foi crucial para você mudar de vida, mudar completamente,
10:03principalmente a sua postura, perante a sua família, ao seu filho, né?
10:07Que é o nosso maior tesouro da vida, que são os nossos filhos.
10:10O que que te fez repensar suas atitudes, suas posturas?
10:14Bom, primeiramente, a dor de ser detido.
10:19Eu fiquei detido por um tempo.
10:21Então, a dor de ser detido e a ausência de pessoas que, depois de estar detido,
10:27depois de ser detido, eu senti muito a ausência dessas pessoas e senti muita falta.
10:33Então, o que dali começou a me fazer pensar.
10:35Só que, no ambiente que eu estava, não estava favorecendo muito, porque mesmo eu pensando,
10:42eu estava pensando em fazer coisas erradas ainda, continuar com pensamentos ruins,
10:45porque a influência era muita.
10:46Muitas pessoas falando de coisas que não agregavam em nada na minha vida.
10:50Mas, houve um momento que eu comecei a ouvir pessoas que estavam lá dentro.
10:54Como tem o presbítero legado, que já apareceu aí no seu programa, já falou sobre a história dele.
11:00Ele começou a falar sobre Jesus lá.
11:02E que dali foi um ponto de partida para a minha vida.
11:04Eu comecei, rapaz, tem esperança.
11:06Um rapaz que está da mesma forma que eu e está alegre, está contente,
11:10está falando da vida dele, que Deus mudou a vida dele.
11:12Se Deus pode mudar a vida dele, também pode mudar a mim.
11:14Então, eu teve o ponto de partida, o querer.
11:17E todos nós temos um potencial tão grande dentro de nós.
11:21Se nós entendêssemos isso, a nossa vida, com certeza, ia ser diferente.
11:25Então, em vez de ser influência, ser influenciado,
11:29nós íamos ter uma influência positiva para outras pessoas.
11:32que estão ao nosso redor, inclusive dos nossos filhos
11:35e das pessoas que estão mais próximas de nós, que é a nossa família.
11:38Jonathan, continua com a gente.
11:40Daqui a pouquinho eu volto a falar com você.
11:42Eu quero saber como que você lida hoje com esse assunto,
11:46em relação a esse assunto com o seu filho,
11:48que hoje está com 9 anos.
11:49Daqui a pouquinho eu quero que você me responda.
11:51Mas antes, vamos continuar aqui no estúdio.
11:54Marcos Paulo, nesse caso, houve uma denúncia anônima.
11:57Ou seja, chegou um ponto que as coisas deviam estar bem escancaradas ali.
12:02Qual a importância da sociedade, do nosso papel,
12:05o papel que a gente tem pensando exatamente nessas crianças,
12:09pensando da gente tentar intervir numa situação
12:11que ninguém mais conseguir, talvez ali um amigo tentar ajudar?
12:15O papel da denúncia é muito importante.
12:17Eu sempre falo que nós não temos bola de cristal
12:21para saber onde está acontecendo a violação de direito com a criança.
12:26Então, ali foi uma denúncia que foi gerada,
12:30eles conseguiram êxito.
12:32E não é diferente no Conselho Tutelar,
12:34quando nós recebemos denúncia do 181 e do Disque 100,
12:38que são os canais de denúncia.
12:39E é muito importante estar fazendo essas denúncias,
12:44porque é através dessas denúncias que o órgão,
12:47que é a rede de proteção,
12:49ela vai até o local para saber se está acontecendo
12:52ou não está acontecendo.
12:54Já pegamos fato, peguei fato de uma denúncia do Disque 100,
12:57em outra hora passada, uns dois anos atrás também,
13:01onde falava que a mãe, ela saía todo dia à noite
13:04para usar drogas.
13:07E nós fomos até a residência,
13:09sempre ia de manhã, ia à tarde,
13:11não encontrava nada, estava tudo na normalidade.
13:15Num belo dia, no plantão,
13:17o Conselho funciona 24 horas,
13:19o telefone do plantão do Conselho tocou duas horas da manhã,
13:23que era o delegado ligando,
13:24que tinha um motoboy que tinha encontrado
13:27uma criança de dois anos na rua.
13:29Quer dizer, na denúncia, no Disque 100,
13:31dizia que essa mãe saía à noite
13:34e a gente nunca conseguia pegar.
13:38Num belo dia, a mãe saiu à noite
13:40para ir numa boca para comprar droga,
13:43a criança acordou, saiu, a porta aberta,
13:46foi parar na avenida principal,
13:48lá em uma das venezas principais,
13:50lá em Cariacica,
13:51e foi encontrada pelo motoboy,
13:53que colocou a criança em cima da moto
13:55e levou para a delegacia.
13:57Ao chegarmos na delegacia,
13:59quando eu bati o olho na criança,
14:02eu falei, eu conheço essa criança,
14:03eu já fui na casa dessa criança.
14:05Mas só que quando o órgão,
14:07o Conselho esteve lá por duas, três vezes,
14:09nós não encontrávamos nada.
14:11Mas aí, a mentira tem perna curta, né?
14:16Aí a criança foi encontrada por esse motoboy,
14:19a mãe foi presa por abandono de capaz,
14:25e essa criança foi entregue à avó.
14:28E no final da história,
14:31essa criança foi destituída do poder pátrio,
14:35onde a mãe perdeu a guarda,
14:36e hoje essa criança se encontra sob a guarda da avó materna.
14:43Infelizmente, a gente sabe que para a criança,
14:45para o olhar dela,
14:46isso deve ser algo extremamente dolorido,
14:48mas é o melhor que tem.
14:49São medidas que precisam ser tomadas.
14:52Deixa eu voltar mais uma vez, então,
14:54com o Jonathan, que ele participa com a gente.
14:55Agora sim, eu quero saber, Jonathan,
14:57como que você lida com esse assunto com o seu filho?
15:01Bom, Roberta, com o meu filho,
15:04eu entendo hoje, por um pouco do conhecimento
15:07que eu adquiri com a experiência da vida, né?
15:09Eu entendo que não adianta querer esconder
15:11muita coisa das crianças, não.
15:13Você reparou que, às vezes,
15:15as mães e os pais, que têm filhos e as mulheres, né?
15:19Tentam aprender o máximo,
15:20e quanto mais você tenta aprender alguém,
15:23mais ela tem aquela vontade de ser liberta, entendeu?
15:26Ou ser livre.
15:27Então, eu entendo que eu tentar inibir meu filho
15:31de alguns assuntos que eu vivi,
15:33e lá na frente ele descobrir que eu vivi isso,
15:35pra mim vai ser pior lidar com ele nesse sentido.
15:39Então, hoje, eu sou bem claro pra ele.
15:41Ele sabe que eu já fiz presidiário,
15:42ele sabe que eu já usei drogas,
15:44mas eu sempre, além de expor isso pra ele,
15:46eu falo, filho, olha o que o papai passou lá atrás,
15:50olha o sofrimento que o papai passou.
15:52Então, analise um pouquinho disso,
15:54eu conscientizo ele constantemente, né?
15:56E eu falo pra ele, agora pensa um pouquinho,
15:59não tenta trazer isso pra sua vida, não.
16:01Isso vai ser, infelizmente, um laço pra sua vida,
16:03e lá na frente você pode sofrer muito.
16:05Então, eu tento trazer clareza pra ele.
16:08Isso é verdade mesmo.
16:09Dando a volta por cima, né?
16:11Obrigada pelo seu relato.
16:12Com certeza.
16:12Por contar um pouquinho,
16:13abrir um pouquinho da sua vida,
16:15da sua intimidade com a sua família, né?
16:16Diante de tudo que você passou,
16:18aqui pros nossos telespectadores.
16:20Obrigada, viu?
16:21Obrigada, que isso.
16:22Um abraço.
16:24Obrigada também, Alexandre Brito,
16:26pela sua participação.
16:27Marcos Paulo também,
16:28e a gente levando esse alerta, né?
16:30Da importância também da sociedade
16:32denunciar a gente.
16:33Entre em contato com o Conselho Tutelar,
16:35diz que denuncia também, 181.
16:36O que não dá é pra gente ver e ficar calado.
16:38Lembrando que a criança na legislação
16:40tem prioridade, tá?
16:42Exatamente.
16:42Exatamente.
16:42Obrigado.