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  • há 2 semanas
Na terceira reportagem da série “Cadê Meu Bebê?”, os jornalistas investigam o desaparecimento de crianças na década de 60, um período marcado pela repressão e desmantelamento das instituições no Brasil. O relato destaca a falta de respostas e o descaso das autoridades em relação às famílias afetadas, evidenciado pelo boletim de ocorrência registrado em 2003 […]

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Transcrição
00:00Pare tudo o que você está fazendo, que a gente vai dar continuidade à nossa série especial Cadê Meu Bebê?
00:06Nessa terceira reportagem, nós vamos atrás de explicações, de respostas.
00:11Eu garanto pra você, é de se indignar, gente.
00:13Confira então mais um episódio do trabalho sensacional dos meus colegas jornalistas
00:18Tiago Brunieira, Natália Munhão e Maíra Bandeira.
00:28Informações que reforçam desconfianças graves.
00:31Eu acredito que ela foi levada. Não só ela, não só ela.
00:37Se ele tivesse morrido, podia falar de enterrou, ter uma certidão de óbito, né?
00:43Levar até o cemitério, alguma coisa, né?
00:46Ninguém pode enterrar uma criança com três dias de falecido sem a ordem de pai e mãe.
00:52E dizer que está internando como indigente.
01:06Brasil, década de 60, período mais obscuro da história moderna do país.
01:15Crise econômica, cenário internacional pós-guerra e convulsões sociais resultaram no golpe de Estado de 1964.
01:29Estrutura e serviços públicos em crise.
01:32Da segurança pública à saúde.
01:35Hospitais em frangalhos.
01:37As traças fechando.
01:42Os militares assumem o governo do país e controlam todas as instituições de poder.
01:49Órgãos de investigação, justiça, fiscalização são cooptados.
01:56O povo não é mais ouvido.
01:58Questionamentos ao Estado são limitados.
02:12Entender o momento histórico que o Brasil e o Espírito Santo viviam na segunda metade da década de 60
02:19é crucial para o entendimento da nossa série de reportagens.
02:23Fatos que hoje em dia seriam inimagináveis na época, segundo especialistas e dezenas de pessoas
02:32ouvidas em nossa investigação, eram plenamente possíveis.
02:37Vivíamos em um regime de exceção, onde a palavra de agentes do Estado era inquestionável.
02:44E mecanismos de controle e investigação estavam cegos, silenciados.
02:49Na reportagem de hoje, você vai entender o completo descaso das autoridades com as famílias
02:57e acompanhar as nossas buscas pelas peças-chave deste verdadeiro quebra-cabeças.
03:04O que elas têm a dizer décadas depois.
03:12O primeiro boletim de ocorrência sobre as supostas mortes foi registrado em 2003
03:18na Delegacia de Pessoas Desaparecidas pela família de Angélica Ollunder.
03:23E até hoje, as apurações sequer resultaram na abertura de um inquérito policial.
03:30Não passaram de investigações preliminares.
03:34Questionamos.
03:35Eu não posso hoje dizer que houve uma falha.
03:39Eu acho que a gente pode dizer assim, naquele tempo, as pessoas tiveram o seu procedimento,
03:48até porque tem oitivas que foram feitas.
03:54Lá atrás, eles tinham suas dificuldades.
03:56Nós estamos falando de 20 anos atrás.
03:59Causa estranheza a polícia quando pega um caso desse, já aberto há muitos anos, em que não dá em nada?
04:08Não vou dizer que é normal, mas é como eu falei, por conta do espaço temporal,
04:14você buscar certas informações é muito mais difícil.
04:18Quando alguém fala, ah, eu fui adotada e a minha família não tem o endereço de quem me doou.
04:25Então, você não sabe quem é aquela pessoa, como você vai atrás, né?
04:29Você não tem um registro.
04:37A polícia nunca ouviu o médico legista que assinou os atestados de óbito de Angélica e Vanderli.
04:44Mas nossa equipe conseguiu localizar o homem, que pode ser a peça-chave para esse mistério.
04:53Morador da serra, com uma pacata vida de aposentado, atualmente com 84 anos,
05:00doutor Carlos topa uma conversa para contar parte das três décadas de serviço
05:06prestados ao Instituto Médico Legal.
05:08O trabalho com o defunto deve corresponder apenas, talvez a menos de 10%
05:14do trabalho, de todo o trabalho do médico legista.
05:18Mas como essa parte, digamos assim, impressiona as pessoas,
05:25então a pessoa sempre dá mais ênfase a essa parte de necrópsia, né?
05:31A conversa com o médico que assinou a morte dos bebês de nossa série
05:35acontece para tentar entender quais eram os procedimentos daquela época,
05:41quando uma criança morria no hospital e era encaminhada ao IML.
05:45Dois médicos legistas teriam que assinar o laudo, entendeu?
05:50Se dois médicos legistas teriam que assinar o laudo,
05:53supostamente os dois médicos legistas teriam que estar presentes ao exame.
05:59Só que isso era totalmente impraticável em qualquer lugar do Brasil.
06:04Entendeu?
06:05Então o que fazia é o seguinte, em qualquer lugar, não era aqui no Espírito Santo,
06:10em qualquer lugar, um médico fazia o exame, assinava,
06:14e o outro assinava como quem estivesse referendando.
06:18Questionamos, doutor Carlos, sobre o alto número de mortes de bebês registrados naquela época.
06:25Eu já tinha início, eu falei com você o seguinte,
06:27Esses dados eu não procurava, não era assim do meu interesse, dessas estatísticas.
06:33Mas o senhor não se lembra, por exemplo, de ter examinado tantas crianças?
06:37Não, tantas crianças não, já examinei algumas crianças,
06:40grande parte delas eram mortes por desnutrição.
06:46O médico nos conta que além do IML,
06:50nesta mesma época trabalhou também no Hospital Infantil de Vitória.
06:55Eu, na época, trabalhava no Hospital Infantil também,
06:58via muita criança desnutrida, entendeu?
07:01Crianças que vinham principalmente do interior.
07:04Questionado sobre a crença das famílias de que crianças eram dadas como mortas
07:09no Hospital Infantil de Vitória, mas na verdade seriam levadas com vida,
07:15ele reage com surpresa.
07:17Que história maluca essa?
07:19Eu nunca, nem é a primeira vez que alguém está me falando a respeito disso,
07:23eu nunca soube, pode ter acontecido, mas eu não sei disso,
07:28eu não posso confirmar isso porque eu não sei.
07:30Eu sei disso que eu te falei, de crianças que eram largadas pelos próprios pais,
07:35ou responsáveis e nunca iam buscar,
07:38ou a gente ia, tipo, o hospital tinha que mandar atrás.
07:41Às vezes não encontrava, voltava com a criança para o hospital.
07:51Nossa busca por respostas chega ao próprio Hospital Infantil de Vitória.
07:55Lá procuramos por prontuários ou mais informações de nossos personagens,
08:00além de entender com a gestão atual o que pode ter acontecido naquela época.
08:04Quem nos recebe para uma conversa é o diretor-geral.
08:08Nós recebemos com bastante surpresa, a informação chegou para a gente
08:14através da nossa assessoria de comunicação e, assim, ficamos como um todo perplexos, né,
08:23com a situação, mas nas nossas buscas, nos nossos levantamentos,
08:29até com ex-diretores que ainda fazem parte do quadro da secretaria,
08:34nós não conseguimos encontrar nenhum relato, nenhuma informação de que alguém tivesse conhecimento dos fatos.
08:50Milton Gomes de Amorim nunca foi funcionário do Hospital Infantil de Vitória,
08:55de acordo com os registros oficiais do governo do Estado.
08:58O homem que declarou centenas de óbitos no auge da ditadura militar chegou a ser intimado,
09:06mas nunca foi ouvido.
09:08Em 2003, época que a polícia começou a investigar o caso, a esposa dele foi ouvida.
09:15Em depoimento, ela confirmou que Milton trabalhou no Hospital Infantil de Vitória
09:21e que morava em um cômodo nos fundos dele.
09:24Conta que era motorista de ambulância e ajudante de serviços gerais.
09:29Sobre ser declarante de óbito de crianças mortas que não conhecia,
09:34disse que recebia ordens do médico-chefe e da enfermeira-chefe.
09:39Afirmou ainda que fazia desta forma para que as crianças não fossem enterradas como indigentes,
09:46pois recebia a informação que não tinham família.
09:49Todas as pessoas que a gente conversou, que trabalharam aqui, ex-funcionários, funcionários mais antigos,
09:57nenhuma pessoa lembra ou tem menção desse funcionário, desse senhor Milton.
10:11No cemitério de Maruípe, local em que os bebês da nossa reportagem foram supostamente enterrados,
10:17buscamos por alguma evidência de corpos.
10:20Lá, fomos informados por funcionários que todos os corpos enterrados há muitos anos
10:25são desenterrados e têm os ossos recolhidos.
10:29Ossadas da década de 60 e 70, segundo os trabalhadores, foram lançadas neste fosso,
10:36sem nenhum tipo de identificação.
10:48Por meio de nota, a Prefeitura de Vitória disse que as mortes de indigentes
10:53são conduzidas pela Polícia Civil.
11:02O Ministério Público, também em nota, respondeu que recebeu esses casos em 2022
11:08da Secretaria de Direitos Humanos e as informações foram encaminhadas para a Polícia Civil.
11:52da Secretaria de Direitos Humanos e as mortes de indigentes
12:07Na quarta e última reportagem da série que você verá amanhã, a intrigante história
12:12da mulher no sul do país, que descobriu ter sido adotada no Espírito Santo na época
12:18da ditadura militar e as coincidências com as nossas histórias.
12:22A enfermeira ligou para a minha mãe, dizendo que tinha nascido uma menininha.
12:28E a esperança ainda viva de famílias que esperam, mesmo tanto tempo depois, encontrar a verdade.
12:37Sonhei que alguém falava, achamos sua irmã, só que aí no impulso eu acordei.
12:43E eu creio que esse sonho vai se realizar.

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